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EURE (Santiago)

versión impresa ISSN 0250-7161

EURE (Santiago) v.27 n.80 Santiago mayo 2001

http://dx.doi.org/10.4067/S0250-71612001008000008 

Salvador na "Globalização"1

Edgard Porto2
Edmilson Carvalho
3

Abstract

The following paper sets the city of Salvador-Bahía, Brazil´s third most populated city, in context with the effects of globalization. Between the 1950’s and 1970’s, Brazil’s northeastern region experienced fast economic growth due to federal financial and fiscal incentives. This sudden process occurred unevenly at regional and city levels, especially for Salvador that released internal areas to expand and decentralize itself. However, during the 1980’s and 1990’s this process was reversed due to neoliberalism and productive restructuring. These are the elements that define in what terms globalization sets in. Consequently, the economic and social spaces of the metropolitan area contracted, increasing the number of unemployed and under-employed people, and intensifying social segregation and exclusion. On the other hand, some "modern islands" in the city began to gather around small but economically prosperous activities like tourism and linked themselves to other national and international areas instead of local places and flows.

Key Words: Metropolitan Region of Salvador; Urban expansion; Social segregation; Metropolis and Globalization.

Resumen

El texto sitúa la ciudad de Salvador-Bahía, tercera en población de Brasil, en el contexto de los impactos de la globalización. Desde la década de 1950 hasta la de 1970, Salvador se destacó de las demás ciudades del Nordeste de Brasil experimentando un rápido crecimento gracias a los incentivos y subsidios fiscales y financieros del gobierno federal. El crecimiento de la Región y ciudades fue desigual y abrupto, sobre todo Salvador, que abrió espacios internos para expandir y descentralizarse. Todavía, a partir de los años 80 y 90, con la reestruturación productiva y el neoliberalismo, que definen los terminos de la globalización, el proceso se invirtió. El espacio metropolitano se contrajo, económica y socialmente, con un aumento desmesurado de desempleados y sub-empreados, intensificando de esa forma el proceso de segregación y exclusión social. En contraposición, algunas «islas de modernidad» pasaron a conectarse, a partir de sus cada vez más reducidas y cada vez más ricas actividades económicas -el turismo, antes y encima de todo-, a puntos y espacios nacionales y, mayoritariamente, internacionales, mucho más de que a espacios y flujos internos.

Palabras clave: Región Metropolitana de Salvador; Expansión urbana; Segregación y exclusión social; Metrópolis y globalización.

1. Qual Salvador?

De que Salvador se fala? Porque, para começar a compreender a nova cidade-região-cidade ou cidade-região, faz-se necessário recorrer a uma breve análise acerca dos movimentos mais gerais e mais decisivamente determinantes para a definição de seu novo elenco de papéis. É preciso, pois, abordar os grandes movimentos que se articulam nos planos internacional e nacional e de que maneira esta articulação se completa na região nestas últimas décadas e compreender como os ciclos de desenvolvimento inerentes a tais movimentos fizeram, levando-se em conta as profundas mudanças nos métodos e processos de organização do trabalho e da produção, a cidade pulsar, em movimentos interligados de expansão e retração. O arcabouço inicial desta análise tem seu acabamento teoricamente definido nos seguintes termos: o processo de mundialização dos fluxos econômicos de um capitalismo "globalizado", isto é, que completa seu domínio mundial sobre todos os demais modos de produção, tem produzido profundas transformações na estrutura e nos papéis de cidades e regiões.

1.1. Passos iniciais da dissolução

Quando da emergência e das investidas da industrialização incentivada entre os anos 60 e 80, Salvador dividia, com vantagens, com Recife, este papel de articulação de atividades e regiões de dentro do Nordeste e do Nordeste com outras regiões do país (Porto e Carvalho, 1995). O papel de articulação intra e inter-regional exercido por Salvador em todo o estado da Bahia e no Nordeste brasileiro estava apoiado nas atividades industriais localizadas em sua região metropolitana e em toda a estrutura terciária e político-administrativa, localizada no interior da cidade, que servia de apoio ao conjunto da economia incentivada em todo o seu movimento e em todas as suas relações dentro e fora da região. À medida que o ciclo da indústria incentivada pela Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste (SUDENE) foi e vem sendo esvaziado, este papel, exercido por Salvador (e, em segundo plano, por Recife)4 também tem se esvaziado. Esgota-se um ciclo mas, malgrado novas tentativas, não renasce ainda um ciclo novo observável no imediato horizonte empírico.

O papel exercido por Salvador estava respaldado por uma estratégia, traçada e executada pela SUDENE, que, não obstante toda crítica que lhe possa ser feita, era facilmente identificada em sua fisionomia, aliás sobejamente clara- enquanto durou, obviamente. Mas esta estratégia, com a economia que lhe dava suporte, entrou em visível processo de dissipação com a retirada, a retração e a diluição da presença do governo federal (que era feita com exclusividade) no Nordeste brasileiro. Em lugar daquela estratégia, assiste-se hoje a ações e intervenções pautadas em promoção de incentivos e subsídios nos marcos da chamada "guerra fiscal" entre estados e municípios e a ausência de uma política industrial nacional que encaixe nela as especificidades regionais. Busca-se dar impulso ao turismo e à "indústria cultural" em algumas áreas de determinados estados, noutras atrair, com evidentes "mercados políticos" (pesadas promoções e doações de financiamentos, infra-estrutura, renúncias fiscais etc., para baixar os custos dos novos investimentos em unidades produtoras de bens-salários: calçados, bebidas, confecções etc.) e, até, montadoras de automóveis, porém, de todos modos, empreendimentos e unidades na sua maioria dispersos em vários municípios, sem a garantia, outrora existente, de uma compactação industrial que poderia elevar as economias de aglomeração e por em evidência as economias de escala. A rigor, os investimentos até agora realizados ou anunciados não dão qualquer garantia de que se está no limiar de um novo ciclo para a região ou para qualquer de seus estados, na magnitude daqueles realizados nas décadas de 60 e 70 e que, no caso da Bahia, reconfiguraram toda a região de Salvador, com maior ênfase para a sua metrópole.

Tais iniciativas não garantem a emergência de um novo ciclo para o Nordeste e a Bahia e nem definem, por isso mesmo, um novo papel regional claramente identificável para Salvador.

1.2. Pulsação para transformação

Os mesmos caminhos (técnicos e sociais) que, a partir das grandes aglomerações urbanas, industriais e terciárias, irradiam fluxos de descentralização espacial de impulsos e capitais nos momentos de boom, servem também a um processo antitético, nos momentos de recessão, consistente em trazer de volta para as referidas cidades e regiões, dotadas de economias de aglomeração, impulsos e fluxos de capitais e de excedentes gerados nas economias de cidades e regiões "periféricas", que agora vão constituir e fortalecer o processo oposto de re-centralização e re-concentração. Isso equivale a dizer que nos momentos de refluxo, como o que atualmente acontece no Nordeste brasileiro, onde Salvador e sua região metropolitana aparecem como formadoras do principal complexo urbano-industrial-terciário do estado da Bahia e de todo o Nordeste brasileiro, as regiões mais dotadas de economias de aglomeração minimizam os efeitos das crises, às vezes dando até passos adiante de expansão e diferenciação de suas estruturas comerciais e produtivas, às expensas do esvaziamento das cidades e regiões ditas "periféricas". É o que com certa propriedade se pode chamar de "efeito (espacial de) sucção".

Este efeito, pudemos observar em várias cidades e regiões por nós mesmos estudadas no estado da Bahia (Porto e Carvalho, 1993, 1996 e 1999). Isso quer dizer que tais cidades e regiões passam a funcionar como potenciadores da centralização de capitais e de fluxos de capital-dinheiro e da concentração da renda. Não é por outro motivo que -só para dar um exemplo entre muitos outros que poderiam ser aqui evocados- a rede bancária de Salvador, num estado composto de mais de 400 municípios, concentra mais de 86% de todos os depósitos bancários feitos em todo o estado. Se levarmos em consideração o fato óbvio de que parcela desses depósitos vai servir de meios de compra para o consumo por parte de segmentos da população, enquanto que uma outra parcela vai tornar-se capital-dinheiro apto a entrar em função, vale dizer, agora disponível, em um grande centro urbano como Salvador, para revalorização do capital no seu espaço metropolitano, concluiremos que as cidades, sobretudo as metrópoles, ao contrário do que normalmente pensam alguns (urbanistas e arquitetos), não são meras justaposições ou articulações de espaços, desenhos e traçados arquitetônicos em cima de uma sociabilidade abstrata e idealizada, mas peças vivas, dotadas de eficazes meios e papéis, no mecanismo e movimento da reprodução do capital e da específica e inconfundível sociabilidade que a ela corresponde.

As cidades, sobretudo as metrópoles, constituem elos decisivos do processo de reprodução do capital. Este é exatamente o caso de Salvador e é, de resto, para este fim precípuo que servem suas instalações bancárias e financeiras em geral, suas instalações comerciais (Shopping-Centers, supermercados etc.), suas instalações terciárias em geral (universidades, instalações hospitalares e de ensino, complexos de lazer e de desportos etc.), suas concentrações de equipamentos de infra-estrutura e de consumo coletivo (aeroportos, rodoviárias, portos e complexas unidades produtoras de meios de comunicação: TV, jornais, mídia em geral) e tudo o mais - isso sem contar, no caso de Salvador, com o atraente estoque de belezas naturais e construídas nos séculos anteriores. São esses meios que exatamente operam o "efeito sucção", uma forma de reforço da tendência ao monopólio também em termos espaciais. Não obstante o refluxo geral sofrido pelo Nordeste e a Bahia na última década sobretudo, Salvador pôde até, por conta desse efeito, seguir um relativo processo de diferenciação urbana, se bem que, muito naturalmente, dotado de características especificamente suas, de modo restritivo e carregando traços de eloqüente diferenciação social, como será visto adiante.

1.3. Determinações dos fluxos mundializados

A "globalização" não é, para nós, um estágio inteiramente novo e nem, portanto, desvinculado do anterior e longo processo de mundialização das relações, formas e forças da produção capitalista à escala planetária. Se não for vista desta maneira, o termo não passa de uma forma ideológico-tecnocrática que apenas esconde a essência da questão. Ela é, a um só tempo, continuidade e ruptura de toda a evolução que a precedeu. Se se deseja, contudo, insistir no termo, o que se chama atualmente de "globalização" só pode ser entendido como o estágio mais avançado da mundialização da produção e da circulação capitalistas, vale dizer, a conclusão, agora à escala e na total horizontalização mundial, da definitiva supremacia e dominação do modo de produção capitalista sobre todas as demais formas remanescentes de produção.

De outra parte este cerco, que constitui uma unívoca e irreversível totalidade internacional, acontece num momento em que os fluxos econômicos, financeiros e os emitidos pelos meios de comunicação se deslocam a uma velocidade inusitada, alguns deles numa rapidez equivalente à propagação da luz. O que significa dizer que para algumas atividades econômicas, cujo peso específico cresce relativamente no conjunto da economia capitalista global, sobretudo para aquelas que são produzidas e rotadas através da mídia (com destaque para os fluxos e as operações mercantis, que já circulam através da Internet), foram encurtados em grande medida seus tempos de produção e circulação -a rotação de seus capitais portanto (Marx, 1983)5. Isso implica ainda, como desdobramento, que crescentes massas de capitais se deslocam para as operações financeiras e para a mídia, neste último caso com seus novos produtos e a veiculação crescente do "produto cultural". (Deve ser salientado que aqui não está em discussão, para o efeito útil de nossa análise, a qualidade e o efeito do consumo desse produto, o produto "audio-visual" da "telinha", do ponto de vista humano (Jameson, 1997) um problema maior, mas que escapa aos desígnios específicos deste pequeno estudo).6 De fato, com a emergência e a difusão da mídia, por onde rotam referidos produtos na forma de valores, muitas funções e respectivos momentos de produção e movimentos circulatórios, com seus respectivos locus, simplesmente deixaram de existir- havendo, sob tal aspecto, que não é de modo algum irrelevante, não só um "enxugamento" em algumas esferas da divisão social do trabalho como dos espaços que a tais esferas correspondiam. Como esses locus situavam-se e ainda se situam nas cidades antes e acima de tudo, a tais mudanças no perfil da produção e da circulação que advêm da difusão da mídia, correspondem profundas mudanças na estrutura espacial das cidades- coisa que será vista, ainda que de modo sumário, indicativo e inicial, mais na frente, quando tratarmos das transformações espaciais de Salvador.

Um outro aspecto da "globalização", o qual, muito mais do que um mero aspecto, deve ser visto e considerado como um de seus componentes onto-genéticos, é a substituição dos modos e padrões de organização estrutural e funcional do processo do trabalho e da produção iniciado a partir da crise dos anos 70 e potenciado nas duas últimas décadas. Nos referimos à crise e ruptura do modelo fordista de organização do trabalho e da produção e sua substituição por todas as formas atuais, estruturais e organizativas, que dão corpo à chamada "reestruturação produtiva" com os recursos da informática e da micro-eletrônica, da robótica, da "qualidade total", do just-in-time, da "re-engenheria" em geral. A principal característica do modelo fordista era a articulação do trabalho parcelar à linha de montagem no lastro da racionalidade iniciada por Taylor. Tal método, que configurava uma extensão e um avanço a partir do taylorismo e de todo o padrão de produção fabril que substituiu a manufatura e a cooperação simples dos inícios da industrialização capitalista, ampliou a escala de aglutinação do chamado "operário-massa", cuja visualização foi captada com grande astúcia e sensibilidade por Charles Chaplin em seu monumental "Tempos Modernos."

Salvador deu início a sua vultosa expansão metropolitana tardiamente, vale dizer, a partir das décadas de 60 e 70, quando os incentivos e subsídios fiscais e financeiros concedidos pelo governo federal através da SUDENE e do Banco do Nordeste do Brasil (BNB) trouxeram o padrão da produção fordista para o Nordeste brasileiro, dando lugar nesta região, ainda que numa escala muito menor do que a que havia sido implantada no Centro-Sul (São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, principalmente) em décadas anteriores, a concentrações industriais como o Polo Petroquímico de Camaçari, o Centro Industrial de Aratu, o Centro Industrial de Subaé, a Refinaria Landulfo Alves, a Usina Siderúrgica da Bahia, as atividades de exploração de petróleo no Recôncavo baiano, o Porto de Aratu entre muitas outras instalações. Em tudo isso estava incluído um ramo metal-mecânico que foi principiado e, evidentemente, todo um terciário, igualmente empregador de muitos trabalhadores, que teve de ser implantado no interior e nas cercanias de Salvador e de centros urbanos do porte de Feira de Santana, segunda cidade do estado, também dotada de um centro industrial.

Foi a combinação do modelo fordista da indústria incentivada implantada na Macrorregião de Salvador com o terciário daí deduzido implantado dentro da cidade de Salvador -nos dois casos potenciados pelo alto ritmo de atividade alcançado pela construção civil, que atuou na edificação de instalações industriais e equipamentos de infra-estrutura, trazendo também consigo a elevação do nível de emprego nas décadas de 60 e 70- que propiciou a Salvador o pulo de modestos 600 mil habitantes da década de 60 para os quase 2 milhões alcançados em apenas duas décadas depois.7

Todavia, com a "reestruturação produtiva" (o pressuposto estrutural) e o neo-liberalismo (o corolário político do pressuposto estrutural), as fronteiras econômicas do Brasil (e de outros países "emergentes") tiveram de ser mais abertas do que já estavam às mercadorias e aos capitais externos, ambos muito mais competitivos que os nacionais, que atingiram em cheio grande parte da economia brasileira, mormente as de regiões como o Nordeste (onde se encontra a Bahia), situadas a grandes distâncias dos principais centros consumidores do país, dos principais centros do Mercosul e que agora, sem os velhos incentivos, esbarram em poderosas barreiras como os imensos custos de circulação e tempos de rotação do capital devido às precárias e onerosas condições de transportes e infra-estrutura em geral.

1.4. Efeitos sobre Salvador

Se antes, nos tempos do fordismo e do crescimento espacialmente descentralizado -mesmo em termos relativos-, a massa de salários suscitava uma inusitada expansão de bairros, com novas moradias em Salvador, também estes bairros, numa sucessão regularíssima, entram num explícito processo de desgaste físico, social e humano.

Uma outra cara desta mesma e ampla metamorfose a ser destacada é a que diz respeito à escala, às formas e à distribuição sócio-espacial das atividades comerciais e terciárias em geral na cidade de Salvador. Por conta do "enxugamento" atrás aludido, que implicou na retração de todas as demandas locais (por unidades residenciais, mercadorias, serviços de saúde, transportes,8 lazer e educação etc.), as unidades comerciais e produtoras de serviços tendem a uma curiosa forma de distribuição espacial. Com efeito, proliferam os médios e pequenos "supermercados", "mercadinhos" e Shopping-Centers em toda a cidade, enquanto que, no outro extremo, são erguidos os grandes supermercados e Shopping-Centers. Entre os da primeira camada, a maioria tem curta duração de vida, sendo muito comum encontrá-los sempre operando em regime de ociosidade; entre os da segunda camada campeia uma centralização de capitais que os coloca quase em situação de monopólio, sendo que mesmo entre esses últimos se encontram grandes unidades que operam apenas com parte da capacidade instalada. Não há, sem dúvida, em Salvador, espaço de realização, devido à contração social da demanda, para todas as formas de equipamentos fornecedores de serviços, que são constantemente inaugurados na cidade, como uma forma sucedânea de fonte de renda com a qual certas parcelas da população urbana buscam compensar o desemprego. Os maiores equipamentos comerciais -os grandes supermercados e Shopping-Centers- fazem sucumbir os menores, e os dois segmentos juntos, grandes e menores equipamentos deste gênero, fazem sucumbir o comércio tradicional. No primeiro semestre de 1999 cerca de 19 cadeias de lojas foram a concordata ou fecharam suas portas e, segundo levantamentos da Eletros, entidade que reúne os fabricantes de produtos eletro-eletrônicos instalados no Brasil, desde 1995 esse número já alcança 140. Segundo uma pesquisa da Fundação Seade e do Dieese, o comércio eliminou 31 mil postos de trabalhos em junho, apenas na Grande São Paulo. Em Salvador, recentemente fecharam as portas ou estão em processo de venda ou fusão, alguns magazines tradicionais como a Mesbla, com cerca de 500 funcionários em três lojas, a Arapuã e a Lobrás, que não resistem à competição dos "hipermercados e grandes redes com boa saúde financeira e especializadas". 9

Não é por acaso que setores urbanos inteiros, ocupados por grandes concentrações de casas de comércio, estão sendo literalmente degradados, como o comércio da antiga área central -Baixa dos Sapateiros, as avenidas Sete de Setembro, Carlos Gomes, Joana Angélica, as áreas da Calçada e do "Comércio" situadas na "Cidade Baixa", entre muitas outras-, enquanto que novas avenidas, ou conjunto de avenidas, (avenidas Antônio Carlos Magalhães, Paralela, Tancredo Neves, etc.) assumem o topo da concentração espacial do comércio de ponta. Para se ter uma idéia da dimensão deste processo concentrador, basta lembrar, por hora, que só em determinado trecho onde se situam os Shoppings Itaigara e Iguatemi, que reúne cerca de meia dúzia de ruas e avenidas, são coletados cerca de 12% de todo o Imposto de Circulação de Mercadorias e de Serviços (ICMS) comercial arrecadado em todo o estado da Bahia

Um terceiro aspecto geral que também merece destaque é o que diz respeito à destinação e às formas que tomam as áreas de habitação dos diversos segmentos sociais, a grosso modo as camadas proletárias -também as recentemente proletarizadas- e as de médias e alta rendas10. Enquanto as primeiras, mais numerosas e econômica e socialmente cada vez mais degradadas, espicham-se e empurram os limites da cidade forçando a conurbação com cidades próximas (Lauro de Freitas, Simões Filho, etc.) e ocupando habitações construídas sem licença oficial, invasões, encostas e palafitas, ora no sentido da BR-324 (estrada que atravessa a área industrial da região metropolitana e que liga Salvador a Feira de Santana e ao resto do país)11, ora numa área mais central chamada de "Miolo" (conjunto de bairros proletários densamente povoados que se localizam entre os dois principais vetores de crescimento - o que segue a BR-324 e o que se estende em demanda da Orla Norte), as segundas, cada vez mais restritas em número e cada vez mais fortes em termos econômicos em face do processo de concentração da renda, procuram espaços segregados no sentido da Orla marítma norte ou em "ïlhas de excelência" (resorts, hortos florestais, conjuntos fechados nas proximidades de praias de circulação praticamente privatizada), sujeitas a fortes esquemas de segurança, formando verdadeiras "fortalezas de moradia".

2. Salvador: um conjunto de cidades e de regiões

2.1. Cenários e tempos diferentes e articulados

Espacialmente, o conjunto dos fluxos econômicos e sociais, comentados anteriormente, articularam-se com o ambiente natural e construído de Salvador de forma diferenciada em cada ciclo, apropriando-se de espaços distintos e recriando a configuração espacial urbana, numa conjunção de fatores constituídos da incorporação de novas parcelas territoriais e, ao mesmo tempo, da redefinição de usos e de ocupações de áreas já existentes.

É possível identificar três momentos distintos, seqüenciados e articulados, que moldaram praticamente três cidades diferenciadas nas últimas três décadas.

O primeiro momento é caracterizado pela formação do parque industrial no Centro-Sul do país, que, dentro da divisão nacional de funções espaciais, sugeria ao Nordeste brasileiro e suas metrópoles, o papel de mercados de consumo dos seus produtos industrializados e alimentadores dos fluxos de mão-de-obra para sua produção.

O segundo momento, iniciado nas décadas de 60/70, já foi caracterizado como aquele no qual houve um processo de descentralização de capitais no sentido do Nordeste e, em particular, para a Região de Salvador. Naquele momento, essa metrópole deixou de servir como mero entreposto comercial para assumir o papel de locus de capitais com perfil e porte modernos.

O terceiro momento, que é o mais importante para o nosso caso, difere dos dois momentos anteriores em função da escala global que assumiram os fluxos econômicos e o papel estatal na condução das políticas de desenvolvimento econômico. Neste momento, encontra-se uma cidade com o chassi montado, com as nucleações de atividades comerciais e de serviços definidas por subespaços especializados e complementares e uma rede viária e de equipamentos capazes de articular todos os seus subespaços, como também o seu conjunto com outras regiões do Brasil e de outros países. Esta fase se caracteriza por uma associação do processo de descentralização ocorrida na fase anterior, agora com menor ímpeto, com um adensamento dos núcleos de atividades comerciais, de serviços e residenciais, numa espécie de enxugamento espacial composto de processos de transferências internas e da incorporação de novos valores urbanos. Adensam-se as nucleações recentemente descentralizadas e esvaziam-se centros históricos e centros comerciais exuberantes até a primeira fase, constituindo um movimento cuja principalidade é a de uma tendência à qualificação majestosa de fluxos e de infra-estrutura em espaços competitivos, contrapondo-se com a queda das condições de habitabilidade na maioria da cidade. É o que se pode chamar de reconcentração descentralizada; é o que promove a expansão terrritorial para almejar maiores concentrações pontuais; é, numa palavra, o paradoxo criado pelos distintos meios de circulação dos fluxos de mercadorias e de pessoas, que quebram espacialmente alguns laços de proximidade e elegem determinados eixos que concentram fluxos econômicos estruturantes, tanto para interligar espaços, independemente deles estarem na mesma área urbana, quanto para rebaixar custos de produção e de operação.

Em síntese, podemos afirmar que: da cidade de um único centro até o início da década de 70, que funcionava como centro de articulação comercial entre mercadorias produzidas em outras regiões do Brasil e da Bahia, a metrópole baiana alcançou o início dos anos 90 com uma outra configuração física -várias centralidades-, para responder a seu novo papel, agora também como locus de produção industrial de corte e porte moderno.

Essa passagem de uma cidade que mantinha sua estrutura e sua função -com pequenas alterações- por alguns séculos, para uma outra cidade que era inserida tardiamente nos circuitos mais elevados de capitais, notadamente o industrial, e que teve que modernizar todos os componentes da sua estrutura interna, resultando em uma outra cidade, pode ser medida com a ajuda de alguns indicadores. "Em 1975, a área central participava com quase 30% do total das viagens de transporte coletivo dentro do município, enquanto em 1994 essa participação reduziu-se para 18%. Hoje, somente a zona do Cabula e Pernambués, participa com cerca de 12% dessas viagens e a Pituba com mais de 10%." Se analisarmos o percentual de arrecadação de ICMS estadual, a área correspondente a Calçada, Santo Antônio, São Pedro, Nazaré, Campo Grande e Barra, "representava, em 1985, 19,1% ..., enquanto que a zona do Iguatemi-Pituba alcançava apenas 3,9%. Em 1993 (até o mês de novembro) estes valores passaram a ser de 10,1% e 15,1%, respectivamente"12 .

Ainda como síntese podemos, de uma maneira muito geral, identificar uma divisão espacial que difere as duas cidades nos dois tempos analisados. Se tomarmos a alocação do circuito principal de capitais relativos à época, da mesma forma as nucleações de atividades estruturantes, os bairros diferenciados por faixas de rendimentos, os espaços também diferenciados pela oferta de infra-estrutura e as terras disponíveis para a expansão de cada vetor de crescimento, podemos dizer que na metrópole de hoje pode-se identificar uma linha divisória compreendida entre a Orla Atlântica e o interior da região e, não mais, entre a zona Norte e Sul da Orla da Baía de Todos os Santos, como ocorria na cidade de Salvador até meados da década de 70, constituindo-se assim dois grandes subespaços aqui denominados de macrozona da Orla Atlântica e a macrozona Norte-Miolo da metrópole (Mapa 1).

A macrozona da Orla Atlântica é formada pela maior concentração das habitações de renda elevadas, de nucleações de atividades comerciais e de serviços modernos de apoio urbano e regional e onde foram realizados maiores investimentos na infra-estrutura dos espaços, qualificando-os para atender às mínimas condições de habitabilidade e para atender aos fluxos turísticos regionais. É um espaço que continua a ser adensado e a expandir-se na direção do litoral, consolidando e ampliando o processo de conurbação com os municípios de Lauro de Freitas e Camaçari, através da Estrada do Coco, principal eixo de articulação entre a metrópole e o Litoral norte do estado, uma das regiões de maior perspectiva de ampliação dos equipamentos turísticos da Bahia.

A macrozona Norte-Miolo, diferentemente da anterior, concentra a maioria da população de rendimentos inferiores e regiões com baixa qualificação de infra-estrutura, onde estão presentes núcleos de atendimento de serviços voltados para o apoio às atividades industriais e ao comércio atacadista regional e equipamentos estratégicos de apoio ao desenvolvimento industrial e de serviços da região - Porto de Aratú, Distrito Industrial Urbano (DINURB), Estação de Tratamento de Resíduos Sólidos de alcance metropolitano etc. Suas perspectivas de crescimento permanecem com o mesmo perfil e com tendência a consolidar uma conurbação com o município de Simões Filho e com o Centro Industrial de Aratú (CIA), ao longo do eixo de circulação da BR-324, acesso principal à metrópole.

2.2 Espacialidade Desigual dos Fluxos mundializados em Salvador

A taxa de incremento populacional de Salvador, entre 1991 e 1996, é umas das mais baixas da Região Metropolitana, enquanto que os municípios que estão no seu entorno imediato e com forte conurbação com sua área -o que denominamos de Salvador Ampliada- apresentam as maiores taxas de crescimento, notadamento o município de Lauro de Freitas com 7,01%, seguido de Vera Cruz (4,53%), Camaçari (3,49%) e Simões Filho (1,53%). Esses municípios foram os que apresentaram aumentos relativos no conjunto da população regional, no período 1980/1991/1996: Camaçari -3,95/4,55/4,98; Dias D’Ávila- 1,10/1,25/1,40; Lauro de Freitas (com maior destaque) -1,10/2, 77/3,59 e Vera Cruz- 0,78/0,89/1,02 (Tabela 1).


Tabela 1. taxaz de Crescimento dos Municipios da Região Metropolitana de Salvador 1991-1996

Fonte: IBGE. Censo Demográfico de 1991 e Contagen de População de 1996

Por outro lado, dentro do município de Salvador, as tendências de crescimento espacial da população obedecem a um processo mais avançado, ou seja: as áreas da periferia apresentam as maiores taxas de crescimento, enquanto que as áreas centrais apresentam taxas negativas, estão perdendo população, diferentemente do conjunto da cidade que, apesar de apresentar a menor taxa regional, ainda se situa num patamar de crescimento. Isso revela como o processo em Salvador é mais complexo e avançado em relação aos outros municípios, razão porque se trata de uma questão relevante para uma análise específica.

A partir das manchas centrais que representavam grande parte da cidade de um só centro até o início da década de 70, há uma migração constante de sua população para outras áreas da cidade. Por outro lado, as áreas com forte presença da atividade rural nesse mesmo período, que foi palco da descentralização da cidade nas últimas duas décadas, estão obtendo os maiores fluxos de pessoas, com maior ênfase para os bairros mais periféricos que correspondem aos extremos dos dois maiores vetores de expansão municipal para as faixas de renda mais elevadas e as inferiores: Itapuã e BR-324, respectivamente (Mapa 1).


Essa crescente taxa de incremento populacional já apresenta um quadro de alocação onde as zonas com maior concentração se localizam nos bairros descentralizados nas últimas duas décadas, enquanto que as zonas localizadas no antigo centro representam os mais baixos índices de ocupação de pessoas. Se analisarmos as densidades de pessoas por zona, podemos verificar que as maiores taxas ainda se encontram, logicamente, nas imediações das áreas centrais e que as potencialidades de crescimento das zonas periféricas ainda são bastantes significativas.

Mas podemos também observar que o crescimento populacional não atende a uma lógica de continuidade linear da ocupação do centro para a periferia e sim, mesmo respeitando essa direção, as tendências de ocupação ocorrem por saltos, onde algumas zonas periféricas tanto têm uma taxa de crescimento quanto um volume maior de população do que em zonas localizadas nas imediações da antiga área central.

Esse crescimento por saltos, próprio da valoração espacial diferenciada, é obtido pela conjunção do deslocamento das atividades comerciais e de serviços, da ampliação da infra-estrutura física, da disponibilidade de terras, de políticas governamentais de investimentos, pelas possibilidades de emprego, pelas perspectivas embutidas no imaginário da população e pelas condições físico-ambientais e culturais. É um movimento conjunto, articulado e diferenciado para cada espaço urbano e, nestes, para cada segmento de renda da população (Mapa 2).


Podemos constatar que a maioria das construções estão situadas na macrozona da Orla Marítima, o que permite inferir a tendência de consolidação da sua ocupação por faixas de rendas mais elevadas, sendo que, dentro desta macrozona, há uma predominância absoluta para as áreas com maiores concentrações de atividades terciárias e de maior incremento populacional. Duas áreas merecem destaque especial: as zonas no entorno do Iguatemi, primeiro foco de descentralização comercial da cidades nos últimos 20 anos, e a zona de Itapuã, extremidade do vetor de crescimento da Orla de Salvador e que aparece com as mais altas taxas de crescimento populacional. Somente o entorno da zona do Iguatemi concentra cerca de 50% da área construída para residências na cidade, basicamente voltadas para atender às mais altas faixas de renda e 45% para construções destinadas a comércio e serviços de porte regional e, em grande parte, à base de edifícios modernos ou Shoppings Centers. Com uma importância menor, mas com destaque no restante da cidade, a zona de Itapuã detém a grande maioria das construções da orla marítima de Salvador que, por sua vez, detém a maior concentração de construções destinadas ao setor comercial e de serviços na cidade, alcançando quase 40% e uma participação de mais de 10% para o setor residencial. Nesta zona, a maioria das habitações, diferentemente das imediações do Iguatemi, ocorrem em forma de condomínios fechados e protegidos por guaritas de segurança, com todos os equipamentos de apoio, tal como também vem acontecendo ao longo dos municípios que conformam esse vetor de expansão e estão conurbados com Salvador, formando a metrópole. É um vetor de expansão que se dirige para as áreas ambientalmente mais qualificadas da região, que possui, ademais, uma localização privilegiada em relação aos pólos industriais e que é contemplado com ótima acessibilidade ao centro comercial e de serviços do Iguatemi. Do ponto de vista comercial e de serviços, nesta região a maioria das construções ocorre em forma de Shopping Center com porte de atendimento local e de passagem e com uma tendência a concentrar equipamentos de apoio às atividades habitacionais, o que dá à zona uma certa independência em relação a outras áreas da cidade (Mapa 3).


Se tomarmos outro ângulo de análise, ou seja, a arrecadação do ICMS, que mede basicamente o consumo (em que pese em alguns casos também medir a produção), podemos identificar que, segundo a arrecadação de ICMS por atividade econômica entre 1995 e 1998, Salvador vem concentrando fluxos em relação a todo o estado da Bahia, passando de uma representação relativa de 16,99% para 19,82% da arrecadação do ICMS de produtos industrializados; de 53,04% para 53,14% da atividade comercial; e de 67,75% para 71,79% das atividades de serviços. Isso demonstra o processo de reconcentração de fluxos para a metrópole e, se considerarmos a sua distribuição dentro da área urbana, podemos verificar que esse fenômeno também vem ocorrendo na direção das nucleações de atividades terciárias descentralizadas nas duas últimas (Mapa 4).


Se considerarmos o conjunto das zonas do Iguatemi e de Brotas, onde os valores tomados se referem principalmente àqueles concentrados no entorno do denominado subcentro do Iguatemi, podemos verificar que eles representam 53,43% do total do ICMS industrial de todo o estado da Bahia em 1995, passando a representar 63,69% em 1998. Enquanto isso, nas antigas e únicas concentrações terciárias da cidade, além de se ter uma representação pouco significativa, ainda ocorreu uma redução relativa no período, caindo de 0,48% para 0,04% em São Pedro, de 1,98% para 1,07% em Conceição da Praia, de 0,04% para 0,03% em Santo Antônio e de 1,36% para 0,4% na Calçada.

Por seu turno, se considerarmos a arrecadação de ICMS do setor comercial, podemos verificar que a tendência também se apresenta da mesma forma que para o setor industrial, só que de uma maneira mais significativa. Ocorreu uma queda relativa da participação na comercialização de mercadorias em todas as áreas do antigo e único centro de comércio da cidade, e uma tendência cada vez maior de crescimento relativo das concentrações comerciais recentes da Orla-Pituba, incorporando uma parte do Iguatemi e da zona de Pirajá, onde foi instalado o Distrito Industrial Urbano, que concentra uma grande parte do comércio atacadista da cidade. A zona Iguatemi-Orla representava 10,50% da arrecadação do comércio em todo o estado e 19,80% de toda a cidade em 1995, passando para 12,64 e 23,78% em 1998, respectivamente. Enquanto isso, as concentrações comerciais e de serviços da antiga área central -Calçada, Conceição da Praia, Santo Antônio e São Pedro- experimentaram uma queda generalizada nas suas participações, com o seu conjunto caindo de 31,02% para 24,45% em relação ao setor dentro da cidade.

Enquanto a arrecadação da atividade comercial de Salvador apresentou um suave crescimento (de 53,04% em 1995 para 53,14% em 1998), as atividades de serviços tiveram um crescimento equivalente às atividades industriais, passando de 67,75% em 1995 para 71,79% em 1998, ressaltando ainda mais a forte atração de Salvador e sua tendência de reconcentrar fluxos diante de outras cidade baianas e até de outras regiões do Nordeste brasileiro. Dentro da cidade, as atividades de serviços não têm um comportamento diferenciado das outras atividades já comentadas. Tal com nos outras casos, houve uma elevação da participação das áreas de Brotas e do Iguatemi-Orla, diante do total estadual e frente ao conjunto do setor na cidade, contra uma queda sistemática das outras áreas da antiga cidade. Vale ressaltar a tendência de crescimento elevado dos setor serviços na zona da Iguatemi-Orla Marítima -que cresceu de 10,44% para 15,90% em relação ao setor na cidade-, o que se atribui ao fato de que esse subespaço atrai os maiores equipamento do setor de serviços voltados para o atendimento ao turismo, lazer e recreação em toda a sua borda, com crescimento significativo das atividades comerciais e dos fluxos populacionais na zona de Itapuã.

2.3. Consolidação e qualificação do chassi

A intensidade dos fluxos mundializados da economia, que elevou a velocidade da produção, da circulação e da difusão das mercadorias, vem exigindo que tanto as atividades produtivas, quanto o seu espaço de realização, alcancem rapidamente um grau de competitividade maior para a sua reprodução. Patrocinado pelos avanços tecnológicos, notadamente na área da informática, da robótica e dos meios de comunicação, há um processo intenso de migração espacial das unidades de produção e de comercialização, ora criando novos espaços infra-estruturados -que constituem estratégias especiais e pontualizadas, por se tratar de unidades que carecem de novos investimentos, de descentralização espacial para elevar sua capacidade competitiva com vistas à ampliação de seus mercados-, ora refluindo para concentrar-se em espaços com maior oferta de infra-estrutura -também para se tornarem mais competitivas-, só que, neste caso, por meio da redução do seus custos para assegurar as fatias do mercado já conquistadas. Como, em ambos os casos, os empreendimentos de porte maior e de melhor qualificação, sob variados aspectos (como vimos anteriormente), tendem a absorver os fluxos das unidades menores, na verdade, os dois casos carregam dentro de si o mesmo resultado: a concentração espacial, que, por sua vez, leva, no cômputo geral, ao seu enxugamento.

É o nexo desse movimento, que promove uma espacialização da cidade de Salvador que se diferencia das duas fases anteriores da metrópole. Agora, a cidade tende a qualificar a estrutura montada na fase anterior, a fase da descentralização ocorrida entre meados da década de 70 e que completa seu chassi básico no início dos anos 90. Sem dúvida, a cidade sempre foi palco de fluxos internacionalizados de épocas distintas e com perfis e portes diferenciados. Isso teve, de certo modo, uma participação na formação da sua estrutura urbana, em que pese a absoluta preponderância da presença de fluxos nacionais ou nacionalizados no seu espaço. O certo é que, afora as limitações típicas de uma economia guarnecida, em certa medida controlada pelo aparelho estatal, o nexo do movimento da economia capitalista permanece, alteradas as suas escalas, velocidades e alguns procedimentos de reprodução, o que permite que a nova fase dos fluxos globalizados possa encontrar os laços espaciais preparados nas fases anteriores.

É evidente que o processo ainda é recente mas, por outro lado, é muito veloz. Também é certo que as informações não estão sistematizadas de forma a permitir maior transparência analítica aos fatos investigados, o que dificulta o aprofundamento de vários aspectos que estão presentes na nova fase de desenvolvimento da metrópole. Mas, parece correto afirmar que o que hoje ocorre é um movimento acelerado das inclinações espaciais manifestadas nas últimas duas décadas, só que agora com uma tendência dupla: a da agudização do processo de centralização espacial das atividades econômicas e sociais sobre os espaços recentemente descentralizados e, concomitantemente, uma tendência a uma descentralização de algumas atividades de portes diferenciados para fora da metrópole, tal como vem ocorrendo em outras cidades de maior envergadura e estágio mais complexo de desenvolvimento.

Em síntese, constata-se que há uma forte tendência de reforço na ocupação de zonas recentemente descentralizadas da cidade, mormente na zona do Iguatemi e na direção de Itapuã/Lauro de Freitas, e que esse movimento é constituído pela presença de equipamentos de grande porte, de corte moderno e articulados interregionalmente, portanto competitivos frente a equipamentos que não resistem aos fluxos globalizados. Por sua vez, as habitações estão cada vez mais protegidas, verticalizadas ou não, reunidas em ilhas diferenciadas das grandes manchas onde habitam as populações das faixas de renda inferiores e cada vez mais numerosas.

2.4. Inclusão Diferenciada na "Globalização"

As atividades e seus equipamentos de comercialização que estão submetidos a fluxos realizados em tempo real, podem alocar-se dipersamente na cidade na busca de áreas com menor custos de circulação, por exemplo nas áreas residenciais próximas dos maiores centros comerciais e até no antigo e decadente centro comercial da cidade. São atividades que não exigem acessibilidade física para pessoas ou fluxos de mercadorias à base de meios de deslocamento (transporte) de grande porte. É certo também que a área do antigo centro comercial poderá vir a ser objeto de uma substituição de usos pelo crescimento de fluxos turísticos e das suas demandas por novos equipamentos de apoio -hotéis, bares, restaurantes etc.- e que podem encontrar aí boas possibilidades de desenvolvimento, notadamente pela potencialidade para exploração das atividades náuticas da Baía de Todos os Santos. Mas também esses fluxos turísticos tendem a espraiar-se na direção da Orla Norte, como já vem ocorrendo há vários anos, ampliando a metrópole em forma de concentrações de resorts, que se tornam uma continuidade de enclaves, que ademais se constituem numa grande concentração urbana formada pela conjunção de partes desiguais, completas dentro de si mesmas e com maior capacidade de articulação com outras regiões do planeta do que com outras áreas da própria metrópole.

Há muito já passou a época em que as cidades funcionavam, preponderantemente, como pólos urbanos regionais, onde as suas estruturas funcionavam para atender às demandas de uma economia em que os fluxos territoriais mais próximos sobrepujavam os fluxos interregionais e exigiam que o conjunto das suas partes funcionassem de maneira complementar e articulada. Quando ocorria um crescimento gradativo da economia que lhe dava sustentação, crescia gradativa e homogeneamente a cidade e suas parcelas respondiam à altura. É certo que sempre ocorreu a presença de fluxos internacionais na cidade de Salvador, como, em escalas diferenciadas, em várias outras metrópoles do mundo. Porém, hoje, esses fluxos assumiram uma escala que substitui determinadas articulações internas da metrópole por articulação de partes dela com outras partes do mundo, alterando o conceito de estrutura urbana e, logicamente, sua configuração física, em que pese ainda ocorrerem as duas coisas simultânea e associadamente. As cidades, tal como ocorre em Salvador, continuam, de certo modo, e em certa medida, a polarizar fluxos de sua região e, por isso, a permanecerem, também em certa medida, subordinadas a alocação espacial de atividades que exercem esse papel. Porém, essa função foi acrescida de uma outra de maior relevância, a de articular fluxos de várias ordens e com vários outros lugares do mundo. Essa nova função exibe uma nova faceta das suas partes, da sua espacialidade. Suas partes, seus lugares, estão submetidos a demandas diferenciadas de lugares distintos do planeta e, sendo assim, passam a crescer também de forma diferenciada, à medida que se altera o movimento geral e não só o da economia regional. Ou seja, o centro comercial do Iguatemi/Pituba não serve só à cidade de Salvador, mas, de forma articulada, executa serviços para todo o interior do estado, para outros estados e, também, para outros países. Enquanto isso, o antigo Comércio (ou rua do Comércio) não continuou a expandir sua capacidade, tal como acontecia até o início dos anos 70. A zona portuária, agora com maior ênfase em Aratu, é elemento estruturante para a produção dos pólos industriais da macrorregião de Salvador, mas também o é para o escoamento da produção de várias regiões do estado e até de outras regiões do país. O Pelourinho, recuperado, atrai fluxos de pessoas da cidade, do país e de outros países, assumindo um papel que extrapola a sua antiga função de uma simples parcela da área central. Hoje, é um enclave ressaltado e libertado da antiga Área Central, cuja capacidade de "globalizar-se" é muito inferior à de outras áreas da cidade, a não ser que venha a assumir uma função turística, envolta numa totalidade de investimentos feitos para este mesmo fim em todo o velho centro, numa escala muitas vezes maior e mais ampla do que a que possui atualmente.

Isto quer dizer que determinadas partes da cidade estão se distanciando de outras no que se refere ao seu papel no processo de mundialização dos fluxos, o que favorece a uma qualificação diferenciada delas. As partes mais inseridas nos novos fluxos tendem a modernizar-se com maior ímpeto, escala e rapidez do que as outras, a enxugar seu espaço de realização, a relacionar-se com maior ênfase entre si e, no seu conjunto, com outras partes do planeta, e tendem, finalmente, a exigir novos investimentos em infra-estrutura com qualificação interna e capacidade de articulação com as outras parte que constituem uma rede espacial protegida e com uma fluidez adequada à velocidade e à presteza que o movimento mundial exige. As partes que se distanciam desse processo tendem a agudizar seus problemas de infra-estrutura, ser locus de moradia de uma crescente população marginalizada do processo, ter carência de equipamentos de apoio, de segurança e tendem a criar guetos articulados numa escala inicialmente local, mas com irradiações internacionais. É exatamente este traço específico o que caracteriza com mais rigor e precisão a inclusão do processo de "globalização" nas novas metrópoles a exemplo de Salvador. Referimo-nos, só para arrematar, ao efeito consistente nessas metrópoles de inserirem-se no processo atual de globalização à custa de uma inclusão direta e diferenciada de suas áreas internas com fluxos diretamente articulados com centros mundiais de emissão -e vice-versa.

Especificamente na cidade de Salvador, dentro de um prazo visível, porquanto os horizontes de predição geral foram reduzidos pela complexidade e velocidade dos avanços tecnológicos, não deverá haver alterações significativas do chassi espacial formado nas duas últimas décadas. Mas será dentro dela, contudo expandindo-se para outros municípios da Orla Norte, que ocorrerá uma requalificação para tornar algumas das suas partes mais competitivas.

Para concluir, ligações de áreas específicas de uma cidade como Salvador com outras regiões do país e até de outros países pode ter acontecido sempre. Na própria Salvador sempre foi evidente, no passado, uma ligação desse tipo, mediada pela zona portuária, entre as áreas do Comércio e do Pelourinho com áreas situadas na metrópole européia, através de fluxos de circulação de mercadorias e capital-dinheiro gerados nas instâncias do comércio do açúcar, por exemplo. Ocorre que tais vinculações, mesmo sendo, como no caso, dominantes no contexto da vida econômica da cidade, eram ligações sempre específicas e unicentralizadas, ao passo que, no contexto de uma realidade capitalista completamente mundializada como é a de hoje, essas pontes de contato entre áreas das metrópoles modernas e áreas de outras regiões e de outros países se multiplicam e se difundem simultaneamente numa mesma cidade. Isso se deve, evidentemente, à natural diferenciação da plataforma da produção capitalista, combinada com eficazes e rápidos meios postos à disposição do movimento circulatório e disposições urbanas, como foi até aqui demonstrado. Também deve ser ressaltado o fato de que não bastam tais ligações, separadas ou entrecruzadas, entre áreas específicas da cidade de Salvador com outras regiões do país ou com outros países, para definir um papel regional para a cidade do salvador, até porque tais ligações, estabelecidas sempre à base de fluxos comerciais, podem não ter suas origens em processos produtivos que perpassam toda a região. A redefinição de um novo papel regional para Salvador passa pelo assentamento de premissas mais complexas e mais completas, as quais, até aqui, não nos parece visíveis. Esta é -e isso deve ser francamente reconhecido- uma questão nova, difícil de ser colocada, mais ainda difícil de ser resolvida e que, não obstante sua pertinência, acerca da qual estamos absolutamente convencidos, está totalmente aberta à inspeção teórica.


1 Este artigo é uma síntese do trabalho apresentado pelos autores no V Seminário Iberoamericano de Investigadores em Globalização e Metrópole, realizado na cidade de Toluca, México, em setembro de 1999

2 Secretário Executivo do Instituto de Pesquisas Sociais Econômicas e Ambientais - InP. E-mail: edgardpr@svn.com.br e edgardpr@hotmail.com

3 Pesquisador do InP e professor da Universidade Católica de Salvador-Bahia. E-mail:edteca@uol.com.br

4 Neste sentido, a crise sofrida pela cidade do Recife é incomparavelmente maior do que a sofrida por Salvador, até porque a crise econômica sofrida pelo estado de Pernambuco nas duas últimas décadas é muito mais grave do que a crise sofrida pela economia baiana no mesmo intervalo de tempo.

5 "... com capitais de igual composição percentual, com igual taxa de mais-valia e mesma jornada de trabalho, as taxas de lucro de dois capitais estão na razão inversa de seus tempos de rotação (...) O efeito direto do encurtamento do tempo de rotação sobre a produção de mais-valia, portanto também de lucro, consiste na maior eficácia que ele confere à parte variável do capital..." (Marx, 1983).

6 Deve ser salientado, para evitar conclusões apressadas, que, a nosso juízo este deslocamento de capitais para a produção de "produtos audio-visuais" não é e nem pode ser um absoluto, até porque as necessidades capitalistas da produção não se esgotam nelas, e nem, por outro lado, as de consumo, produtivo ou pessoal. De outra parte também deve ser destacado que este não é o único, e nem certamente o principal, motivo do deslocamento de grande massa de capital-dinheiro que, uma vez desmobilizados das operações produtivas, é desviada para os domínios das operações financeiras.

7 O pensamento geográfico, urbanístico e sociológico vulgar, quando fala da "atração que a cidade exerce sobre o campo", procurando, com esta fórmula vazia e abstrata, explicar os movimentos migratórios do campo para a cidade, jamais se detêm a examinar o que exatamente ocorre na cidade para que ela-ou melhor, sua atividade produtiva, com sua organização do trabalho e da produção, e consequentemente, sua capacidade de absorver, direta e indiretamente, portadores de força de trabalho- possa contar com esta quase mistificada e quase sempre mágica "capacidade de atração" (assim como se ela resultasse de uma espécie de "deslumbramento" que os homens do campo experimentassem diante do "brilho" e do "esplendor" das cidades).

8 Em Salvador, uma parcela ponderável e crescente da população urbana que se desloca dos locais de moradia e estudo faz tais deslocamentos diários a pé.

9 Jornal A TARDE, 01/09/99 Salvador, Bahia.

10 Curioso notar que no seio da classe média, sobretudo da alta classe média, opera-se uma certa circulação. Certos segmentos dela, antes ocupados por profissionais liberais e empregados bem remunerados em unidades da "velha" indústria incentivada (do Polo, do CIA, da Petrobras, etc.), são hoje substituídos, pelo menos em parte, por "gente nova": artistas, intelectuais e novéis empresários ligados à mídia e que exploram o mais novo e viçoso ramo industrial de Salvador-o ramo "cultural" ligado à chamada Axé-music, ao carnaval e a manifestações similares. Também esses segmentos de "novos ricos" seguem os passos espaciais da maior burguesia urbana nos seus conjuntos de moradia fechados e altamente segregados.

11 É exatamente nestas cercanias onde se encontram os bairros mais populosos de Salvador, principalmente o seu subúrbio ferroviário, em avançado estado de decadência e representando, com seus 232.553 habitantes (dados de 1996), a área urbana mais populosa de toda a Região Metropolitana de Salvador. Sobre esta vasta e populosa área vejamos o que nos revela uma pesquisa recente: "... verifica-se que o nível de renda do Subúrbio ferroviário (...), é muito baixo, sendo a faixa de até 5 salários mínimos (equivalente a US $ 363,00) correspondente a cerca de 90% dos chefes de família, pelo Censo de 1991 (...) Quanto á ocupação, a maior parte da população encontra-se inserida na economia informal"- Bacia do Cobre-AvaliaçãoSócio-Ambiental e Processo Histórico. PANGEA-Salvador, abril de 1998. Deve ser ressaltado que nesta área habitavam, cerca de duas décadas atrás, muitos trabalhadores da antiga Leste Brasileiro (ferrovia), da Petrobrás, do Polo Petroquímico, do Centro Industrial de Aratu, etc.

12 Carta do Centro de Projetos e Estudos- CPE, n° 25/94, Secretaria do Planejamento Ciência e Tecnologia do Estado da Bahia Os dados foram obtidos na Superintendência de Controle e Ordenamento do Uso do Solo do Município do Salvador (SUCOM), que na prática controla apenas as construções "formais" da cidade. Com isso deixa-se de considerar as construções populares que, em termos quantitativos, representam os maiores valores em termos de área construída em Salvador. Entretanto, as construções 'formais" são as mais importantes do ponto de vista do porte, da qualidade e, portanto, com maiores possibilidades de reestruturação do espaço urbano e metropolitano.

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