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EURE (Santiago)

versión impresa ISSN 0250-7161

EURE (Santiago) v.27 n.81 Santiago set. 2001

http://dx.doi.org/10.4067/S0250-71612001008100007 

Ensayo bibliográfico

Celebration: a busca da cidade
perfeita e a vida real1

Heitor Frúgoli Jr., professor de Antropologia da UNESP/Araraquara e autor de Centralidade em São Paulo: trajetórias, conflitos e negociações na metrópole (São Paulo: Cortez/Edusp/Fapesp, 2000).

Ross, Andrew (1999) The Celebration Chronicles: life, liberty, and the pursuit of property value in Disney’s new town. New York, Ballantine Books, 340 pp.; y Frantz, Douglas & Collins, Catherine (2000) Celebration, U.S.A.: living in Disney’s brave new town. New York, Henry Holt and Company, 2000, 352 pp.

Desde pelo menos os meados do século XIX, época da emergência da sociedade moderna, urbana e industrial, o tema da comunidade constitui uma espécie de contraponto societário à modernização. Já na reflexão sociológica a partir dessa época, vários autores apontavam a comunidade como uma tipologia social marcada por grupos de pequena escala, que estabeleceriam relações solidárias, coesas, pessoais e permanentes, em que se configurariam certas identidades comuns, propícias à prática do associativismo (sobretudo no imaginário norte-americano).

Isso permitia pensar, por oposição, as várias faces do mundo moderno em formação, assinalado por novas formas de organização social em que passavam a predominar as relações formais e de interesse, os acordos contratuais, a lógica do mercado, a competição individual, as multidões pelas ruas das metrópoles. Essa tensão entre comunidade -enquanto uma reconstrução simbólica de um suposto passado perdido- e sociedade moderna tem se mantido recorrente e ganho distintas sínteses, a depender do contexto.

Um desdobramento dessa contraposição entre comunidade e sociedade foi, por parte de alguns defensores nostálgicos da primeira, a construção de representações negativas a respeito da cidade moderna, vista por muitos como espaço do vício, da decadência, do anonimato, das massas ameaçadoras. No plano citadino, isso traduziu-se na procura -sobretudo por parte dos grupos de maior poder aquisitivo- de espaços ao mesmo tempo urbanos, mas a salvo desses "males". No caso dos Estados Unidos, tivemos ao longo do séc. XX a criação dos subúrbios destinados às classes médias, que passaram a fugir das áreas mais centrais, marcadas cada vez mais pela concentração de "problemas urbanos" -concentrações étnicas, violência, deterioração etc-.

Como mostrou Kenneth Jackson em seu estudo sobre os subúrbios -The crabgrass frontier (N.Y., Oxford University Press, 1985)-, uma enorme parcela dessas classes médias brancas foi à busca da casa própria em bairros apenas residenciais, com pequena densidade populacional, em áreas distantes do trabalho -conectadas diariamente graças ao automóvel-, o que resultou em vastos espaços que esgarçaram as fronteiras urbanas, sem vida pública significativa, segregados em termos sócio-econômicos e étnicos.

Esse breve histórico é o pano de fundo para melhor se compreender um recente movimento surgido nos Estados Unidos, o New Urbanism, cuja proposta pretende ser uma crítica à suburbanização, embora em seu imaginário não deixe de estar presente um caráter também "anti-urbano" das experiências pioneiras de "fuga da cidade moderna". Não é à toa que a construção de comunidades -nesse caso, planejadas pelo capital imobiliário- ocupe um lugar central nas propostas do movimento, possível, segundo seus criadores, através de um novo desenho urbano, capaz de conceber uma espécie de "mini-cidade" completa. Segundo Witold Rybczynski, os conceitos centrais do New Urbanism -vários dos quais voltados ao incremento da socialização entre vizinhos-, poderiam ser assim resumidos: um "centro de cidade" utilizável na escala do andar; ruas mais estreitas, que têm o desenho menos voltado aos carros que nos subúrbios convencionais; quintais dos fundos menores e casas mais próximas às ruas que o usual; mistura de tipos de habitação com solidez arquitetônica, em estilos tradicionais (ver "(Some) People like new urbanism". Wharton Real Estate Review. University of Pennsylvania, n. 2, vol. 2, p. 49-53, 1998).

A primeira experiência mais visível desse movimento foi a cidade de Seaside, na Flórida, inaugurada em 1981, que atraiu, segundo Robert Davis -seu fundador e participante ativo do Congress of New Urbanism- muitos compradores à procura de uma combinação de novas casas, urbanismo tradicional e um sentimento de comunidade (ver "Lessons from Seaside", Wharton Review, op. cit., p. 38-43). Como se vê, busca-se atingir o mesmo público-alvo dos subúrbios: potenciais proprietários de classe média e alta.

Sua paisagem tornou-se mundialmente conhecida quando serviu de cenário de uma amável, tranqüila, pequena e "perfeita" cidade para o filme "The Truman Show", onde Truman Burbank, interpretado por Jim Carrey, vivia aparentemente feliz, até descobrir fazer parte de um filme da vida real transmitido pela TV, no qual era o protagonista.

Se nesse caso uma dada realidade urbana inspirou a ficção, outro empreendimento conhecido do New Urbanism, a cidade de Celebration -também na Flórida, projetada para 20 mil habitantes-, nasceu, por sua vez, de dentro da Disney Corporation, uma empresa com enorme poder na mídia, no entretenimento, no turismo, no consumo, na concepção de espaço público destinado à diversão (hoje presente nos inúmeros parques temáticos), enfim na economia e no imaginário sobretudo norte-americanos, mesmo que muitas vezes polêmico e não consensual.

As primeiras informações publicitárias sobre Celebration -em 1994, então ainda em construção- anunciavam todas as casas em estilo tradicional francês -que se tornara popular nos Estados Unidos após a 1ª Guerra Mundial- com quatro variantes de escolha; uma escola pública cuja proposta era tornar os estudantes aprendizes ao longo de toda a vida, aptos a desenvolver um pensamento crítico numa sociedade culturalmente diversificada e em constante mudança (articulada a uma academia que formaria os professores responsáveis por tais inovações, a serem propagadas posteriormente pela região); um sistema de fibras óticas que "providenciaria uma comunicação interativa de alta velocidade entre os moradores" (algo que depois se provou o slogan mais vazio entre todos); uma aliança estratégica envolvendo grandes e poderosas companhias, como a A.T.& T. (telefonia) e a General Electric.

Já chamava a atenção a combinação entre nostalgia arquitetônica, experimentação, tecnologia e forte controle da iniciativa privada. A autoria da Disney e as novidades anunciadas suscitavam já nessa época uma razoável cobertura da imprensa, que satirizava o empreendimento -muitos diziam que Mickey seria o prefeito-, questionava se o controle empresarial não acarretaria um "meio ambiente totalitário", e registrava a grande procura inicial por parte de milhares de compradores (malgrado os altos preços), o que talvez apontasse que muitos estavam à busca de uma "cidade perfeita".

Se naquela época eram muitas as interrogações e críticas, hoje já se pode ter um balanço inicial do projeto, do ponto de vista da experiência de seus próprios

1 Originalmente publicado en el "Caderno del Sábado" del Jornal da Tarde, São Paulo, 25/8/2001, bajo el título "Celebration: en la búsqueda de la ciudad perfecta y la vida real". Su publicación en Eure cuenta con la debida autorización.

 

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