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EURE (Santiago)

Print version ISSN 0250-7161

EURE (Santiago) vol.40 no.120 Santiago May 2014

http://dx.doi.org/10.4067/S0250-71612014000200007 

ARTÍCULOS

 

Quando a geo-história avança sobre os significados de um espaço urbano: as paisagens culturais e as transformações identitárias da fronteira Brasil-Argentina

 

Muriel Pinto.
Universidade Federal do Pampa, São Borja, Brasil.
E-Mail: Muriel Pinto, murielpinto@yahoo.com.br

Rodrigo Maurer.
Universidade Federal do Pampa, Bagé, Brasil.
Rodrigo Maurer, rodrigomaurer@hotmail.com


RESUMO | Em recentes estudos visando a elaboração do Projeto piloto "Itinerário cultural da Região das Missões Jesuítico-Guarani" foram discutidos conceitos e estratégias para as novas categorias de bens culturais que vem sendo proposta pela UNESCO. Entre as mais novas categorias incluem-se as paisagens culturais e itinerários culturais. A área em estudo, a cidade missioneira de São Borja-Brasil, destaca-se na região por possuir uma diversidade de bens culturais que representam momentos históricos relevantes no cenário brasileiro. Recursos culturais que expressam sentidos e significados aos espaços sociais através das paisagens. O principal objetivo do estudo está em analisar a cidade como um espaço territorial de produção, intervenção e trocas culturais, voltado para a análise da construção das identidades e suas influências nas transformações dos territórios urbanos. Para tanto, utilizaram-se as paisagens culturais como instrumento de pesquisa. Como principal resultado pode-se salientar a realização de uma interpretação crítica para os espaços-temporais urbanos.

PALAVRAS-CHAVE | história das cidades, patrimônio, cultura urbana.


ABSTRACT | In recent studies aimed at developing the pilot project "Cultural Itinerary of the Region of the Jesuit-Guarani Missions", concepts and strategies for new categories of cultural property proposed by UNESCO were discussed. Among the newer categories, those of cultural landscapes and cultural routes were included. The area under study - the missionary town of San Borja, Brazil - stands out in the region as having a diversity of cultural goods that represent important historical moments in the Brazilian scene and express their meanings across landscapes. The main objective of the study is to examine the city as a territorial space of production, intervention, and cultural exchanges, focusing on the analysis of the construction of identities and their influence in the transformation of urban territories. For this purpose, we used cultural landscapes as a research tool, leading to a critical interpretation to the urban spatio-temporal scenery..

KEY WORDS | history of cities, heritage, urban culture.


 

Considerações iniciais...

O recorte em estudo, a cidade de São Borja, é um município que faz parte do Estado do Rio Grande do Sul, Brasil. O devido município está localizado às margens do rio Uruguai, fazendo fronteira com a municipalidade argentina de Santo Tomé. Em relação à sua regionalização, São Borja faz parte da mesorregião Sudoeste Rio-Grandense, conhecida como campanha ou pampa gaúcho. Está também inserida na chamada região histórica das Missões Jesuítico Guarani. A fundação de São Borja (1690) foi realizada pela migração de índios guaranis da antiga redução jesuítica de Santo Tome, acrescida de índios do pampa (ver Figura 1).

 

FIGURA 1 | Localização de São Borja na região das Missões Jesuítico Guarani

 
 

FONTE PROJETO ITINERÁRIOS CULTURAIS DO MERCOSUL, ADAPTADO POR MURIEL PINTO

 

A construção territorial da área em estudo, está relacionada a conflitos militares e pelas disputas territoriais entre as Coroas espanhola e portuguesa. As características geográficas fazem de São Borja um ponto de referência tanto histórico como geopolítico. O mesmo teve início no período colonial e se estendeu até o século XIX, ao sofrer com as ofensivas militares da Guerra do Paraguai, e mais recentemente, destaca-se como "corredor" de comércio exterior no Mercosul. O local ainda é cidade natal dos ex-presidentes brasileiros, Getúlio Vargas e João Goulart.

Os eventos históricos transformaram as identidades e materializaram o patrimônio histórico e cultural local, o que contribuiu para a criação de uma quantidade expressiva de bens patrimoniais que estão espacialmente distribuídos na área urbana do município. Sendo assim, a cidade em estudo apresenta características urbanas que misturam representações socioculturais espanholas e portuguesas.

A problemática da pesquisa procurou interrogar como as paisagens culturais geradas pelo patrimônio acabam por constituir as narrativas e ações de pertencimento das identidades urbanas, questionando ainda, se os significados da cidade estão relacionados aos processos geo-históricos1.

O município foi pensado na sua diversidade. As análises, portanto, referem-se aos territórios de vida, que são constituídos por ideias, pelo cotidiano, pelas tradições, costumes, símbolos, através de uma dialética do concreto com o abstrato.

Para tanto, o principal objetivo do estudo está em analisar a cidade como um espaço territorial de produção, intervenção e trocas culturais, voltado para a caracterização das transformações do patrimônio histórico-cultural e da identidade, bem como o seu impacto sobre o território.

A metodologia ocupou-se de métodos de abordagens não experimentais. O estudo foi dividido em quatro etapas: interpretação histórica e geográfica da região; inventário do patrimônio e interpretação; levantamento e análise das representações culturais; e análise das identidades. O tipo de pesquisa preponderante foi a qualitativa, que procurou realizar interpretações de paisagens no espaço local, através da análise de discurso, estudo cartográfico, descrições, comparações e pesquisa contextual/histórica.

No que cerne à etapa da interpretação histórica e geográfica da região, foi utilizada a seguinte metodologia: análise do conteúdo, pesquisa bibliográfica/documental e entrevista oral. O conjunto levou em consideração situações que compreendem o espaço humanizado da região e a desnaturalização das identidades.

Muitas das informações históricas, principalmente as do período colonial, são oriundas de documentações arroladas em arquivos da América Latina, dentre os quais, o Archivo General de la Nación Argentina (AGNA Buenos Aires), Arquivo Histórico do Rio Grande do Sul (AHRGS, Porto Alegre), Centro da Cultura Missioneira (CCM, Santo Ângelo - Rio Grande do Sul), Arquivo Público de São Borja (APSB), entre outros.

A revisão bibliográfica possibilitou refletir os eventos históricos que abarcam tal localidade. Levou-se em consideração a preservação das manifestações culturais que enaltecem características do meio urbano e dos espaços sociais partilhados pelos atuais mediadores culturais. A entrevista oral, contudo, promoveu uma interpretação mais profunda do que concentra atualmente as práticas sociais dos lugares e possíveis difusões culturais da cidade.

A etapa de inventário e interpretação do patrimônio de São Borja foi aplicada conforme à seguinte metodologia: questionários sobre os bens culturais; levantamento fotográfico; elaboração de cartografias; e pesquisa bibliográfica. Este momento foi o ponto alto da pesquisa, pois trouxe à tona questões vinculadas aos elementos culturais, como por exemplo, o patrimônio arquitetônico, as festas, as manifestações artísticas, instituições culturais e o artesanato típico da localidade. Os resultados revelaram um entendimento consistente sobre a construção identitária regional. Muitas das informações do inventário acabaram sendo utilizadas em mapas temáticos.

A terceira etapa buscou codificar dados referentes às representações e às paisagens culturais geradas do patrimônio cultural e dos discursos sócio-regionais. Grande parte das informações é oriunda de conteúdos musicais, projetos públicos, sites, que em um dado momento registraram os contextos culturais e cotidianos de São Borja (tanto eventos remotos quanto os atuais). Algumas informações acabaram servindo de material de apoio em entrevistas com membros da comunidade em geral e em análises fotográficas (com fins de comparação entre os patrimônios materiais e imateriais do passado com situações do presente). Os resultados trouxeram símbolos e elementos socioculturais que se mantiveram materializados no espaço. Uma análise sobre as paisagens culturais provaram as narrativas de construção das identidades missioneiras e seus respectivos processos de alteridades discursivas. Sendo assim, objetivou-se compreender os sentimentos de pertencimento das expressões culturais dos territórios.

A análise das identidades de São Borja foi realizada conforme a interpretação conjunta das demais etapas do estudo. Portanto, a reflexão sobre o patrimônio, representações culturais, a análise histórica, e a pesquisa bibliográfica deram suporte para o pensamento das narrativas identitárias que concentram o espaço da fronteira em questão. Constatou-se ainda, que as relações de poder consolidam-se a partir destas identidades.

A importância da pesquisa justifica-se por apresentar uma temática cada vez mais rara nos estudos urbanos, que são as reflexões geo-históricas. Estas procuraram a articulação entre o passado e o presente, integrando a complexidade e riqueza empírica da história e a compreensão geográfica das transformações socioculturais das sociedades, que constróem paisagens e geram marcadores nos territórios urbanos.

A importância estratégica da fundação da redução de São Francisco de Borja e suas decorrências históricas na região missioneira

As reduções jesuíticas estão entre os principais projetos socioculturais e patrimoniais que o "mundo católico" produziu durante a época moderna. No geral as narrativas visam valorizar a macro estrutura ou a expansão do projeto da Companhia de Jesus2. Contudo, uma moldura mais ampla depende de análises mais reduzidas, principalmente no que diz respeito aos cotidianos e possíveis desdobramentos sócios culturais de matizes diferenciadas, como as que envolveram as reduções indígenas. O desafio por hora compõe parte desse cenário investigativo, uma vez que, busca compreender as particularidades daquela que foi, para o período (séculos XVII e XVIII), uma redução de fronteira e, portanto, catalisadora de rotinas alternadas.

Localizada na margem esquerda do rio Uruguai, a redução de São Borja preencheu um vazio condicional que separava as duas margens. Em várias oportunidades, a sua história confunde-se com a história de alguns grupos de índios pampeanos que costumavam transitar entre o espaço do pampa e os conjuntos reducionais da margem esquerda - Yapeyu, La Cruz e Santo Tomé - hoje território argentino (Jarque, 1687/2008). Os índios guenoas (também conhecidos como índios de Jesus María dos Guenoas), ilustram categoricamente os reflexos étnicos e culturais que concentraram a antiga redução borjista. A inclusão daqueles à redução acrescentou ao povo de São Borja adjetivos de índios inconstantes, saqueadores e indolentes. A passagem seguinte justifica o que acabamos de nos referir:

Este Pueblesíto de Jesus María nada se ha multíplícado, porque muchos dellos ya se han muerto, y los pocos otros se van paseando á ver á sus paríentes, llevando consigo algunos Guaranis de S. Borja consigo como ya amigos suyos, de suerte que el año de 21 estando yo este Pueblo de S. Borja Compañero del Pe Cura Joseph de Astorga ya no huvo de los Guanoas convertidos del Pueblo Jesus Maria pero los indios Guaranis de S. Borja siempre con este título de Guanoàs convertidos, aunque no los huvo mas, han hecho varías pretencíones y suplícas à los Supers en-gañandolos varías vezes y enredandolos. Con esta sutrasa salíeron varías vezes con sus pretencíones y esto es el orígen y causa de tantos dísturbíos. Con este pretexto los Borjistas en varías partes se han espacídos, ocupando varios pedasos de tierras realengas en las vercinas Estancias, en dandoles convenía para robar ganado ageno (grifo do autor)3.

Tão importante quanto à descrição feita pelo religioso é o significado histórico que envolve a observação, pois reflete as diiculdades de convivência entre possíveis "diferentes" (índios reduzidos/guaranis e índios pampeanos/guenoas) num espaço potencialmente diversificado, como foram algumas reduções4. No entanto, o caso de São Borja é uma situação que foge do comum, pois se consiste na chamada identidade étnica, como bem demonstra a pesquisadora Maria Cristina dos Santos (1993):

la identidad étnica, no es una condición puramente subjetiva, sino el resultado de procesos históricos específicos que dotan al grupo de "un pasado común y de una serie de formas de relación y códigos de comunicación que sirven de fundamento, para la persistencia de una identidad étnica específica", bien para la reconstrucción de la identidad (p. 37) (grifo do autor).

A fundação de São Borja, nesse caso, foi levada a cabo com a ambição de solucionar antigos anseios do projeto jesuítico na bacia do Prata, portanto, teve relação direta com a região escolhida. Dadas as proporções, a redução praticou a geopolítica de guarnição de fronteiras tão desejada na época pela coroa espanhola. Para Nogueira (2007, p.19), a partir da instalação "a Região Missioneira constitui-se em um espaço transfronteiriço integrado por territórios que pertencem hoje, à Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai. Sua particularidade é dada pelo conjunto de remanescentes materiais dos "Trinta Povos das Missões" implantados na porção centro-sul da América do Sul".

A deinição de um território especíico para a instalação de um povoado reducional passava por critérios geográficos e estratégicos, Gutierrez (1987, p. 16) traz algumas prioridades dos jesuítas no agrupamento dos índios, aonde iam "ocupando as bacias fluviais e selecionando com cuidado os locais para assentamento, buscando pontos altos de clima benigno, fácil acesso e defesa, abastecidos de água e madeira". Entre as trinta reduções, existiam modelos alternativos de planejamentos para integração do indígena, que conforme as potencialidades de cada local (recursos naturais, terras para cultivos e localização geográfica), somado ao esforço coletivo de cada missão, levou à deinição das características produtivas e grau de desenvolvimento de cada povoado missioneiro.

Por conta disso, Barcelos (2000, p. 125) complementa que desde as primeiras instruções e recomendações, percebe-se a importância destinada a determinadas características que o local futuramente deveria possuir.

A partir de revisões bibliográficas e de materiais cartográficos, realizou-se uma análise a respeito de alguns fatores geográficos que poderiam ter influenciado na instalação estratégica da redução em destaque. Essa análise traz à luz novas possibilidades de investigação e refletem situações dos campos geo-históricos e geopolíticos do período. Para tal, procuramos focar nosso raciocínio em três fatores de utilização do espaço (rede hidrográfica, estratégias territoriais e relações sociais e comerciais).

Conforme nos mostra a Figura 2, entre todos os trinta povos, a redução São Francisco de Borja estava localizada na parte mais baixa da chamada mesopotâmia dos rios Uruguai e Paraná, estando apenas mais acima do leito que as reduções de Yapeyu e La Cruz. Outra análise que pode ser realizada refere-se à localização estratégica da fronteira missioneira São Borja-Brasil/Santo Tomé-Argentina, no âmbito do Rio Uruguai, estando as mesmas num trecho médio do rio que possibilitava a navegação5 (desde Iraí Norte do Estado do Rio Grande do Sul até a República Oriental do Uruguai). Esse fator pode justificar um maior controle por parte da Companhia de Jesus dos trechos navegáveis utilizados pelas reduções localizadas no alto Uruguai (o curso do rio vai no sentido alto/médio/baixo) e do trecho em direção ao estuário do Prata (trecho baixo do devido corpo d'água)6.

 

FIGURA 2 | Mapa sobre a importância geopolítica da fronteira São Borja-Brasil/ Santo Tomé-Argentina

 
 
FONTE ELABORAÇÃO DE MURIEL PINTO

 

Em relação às características territoriais do espaço de formação da redução de São Francisco de Borja, concluímos que através da elaboração de material cartográfico, a fronteira em estudo localizava-se no centro do raio de abrangência da rota de comércio com Potosí7. Essa relação comercial acabou instigando a fundação da Colônia do Sacramento (1680) por parte dos portugueses. A fundação dessa colônia foi um dos principais motivos do remanejamento de cinco reduções da margem ocidental para a oriental do Rio Uruguai, entre elas São Nicolau (1687), São Luis Gonzaga (1687), São Miguel Arcanjo (1687), São Borja (1690) e São Lourenço (1690)8. Segundo consta, "a redução de São Borja foi transladada para a Banda Oriental do Uruguai, devendo se conjugar com a de Santo Tomé, localizada na margem oposta, que inicialmente lhes prestaria apoio" (Neumann, 1996, p. 55). Esta observação fortalece a ideia de que São Borja foi fundada com a finalidade de dar sequência ao projeto político e administrativo que vinha sendo praticado pelos povos ocidentais (Yapeyu, La Cruz e Santo Thomé). E as evidências são ainda maiores quando observamos a movimentação étnica e cultural que envolveu o contingente destes povos, a partir de espaços compartilhados, no caso, as capelas e os passos do rio Uruguai9.

Outros fatores que nos parecem visíveis no que tange à estratégia territorial foi a preocupação com a proteção aos campos de Vacaria do Mar e com a proximidade de outros grupos indígenas que habitavam a campanha Platina, como os guenoas, charruas e minuanos10. Nestes casos, torna-se evidente a importância defensiva do território. Maurer e Colvero (2009) salientam a importância combativa da redução borgista, visto que era considerada uma referência miliciana na margem oriental do rio Uruguai, por conta da sua importância fronteiriça e proximidade com os ditos grupos infiéis. No que diz respeito às relações sociais da redução de São Francisco de Borja, mostrava-se diferenciada quanto às relações administrativas e políticas da época. Novamente Maurer e Colvero (2009, p. 4332) esclarecem que "a redução de São Francisco de Borja foi um espaço de destaque entre os demais povos orientais do Uruguai. Situação registrada pelos próprios padres da Companhia de Jesus, quando estes tinham de desempenhar seu controle administrativo", fatores que também eram visualizados nas vestimentas e contatos orais "possuindo os índios mais bem vestidos e politizados das missões" (Hilaire, 1821).

Essa politização da população nativa descrita pelo francês Saint-Hilaire, deixa transparecer através de uma reflexão antropológica que o surgimento de diversos políticos samborjenses influentes no Brasil durante o século XX pode ter relação com a gênese populacional do século XVIII. Com a decadência do projeto reducional, sobraram no espaço resquícios relacionados ao contexto social e econômico, o que possibilitou a materialização de símbolos culturais.

A região missioneira em geral possui seus bens patrimoniais relacionados ao próprio contexto reducional, cultura gaúcha e culturas europeias. Para Villegas (2008), "o Patrimônio Cultural da região das Missões apresenta-se em primeira instância como o legado deixado pelos Guaranis e os Jesuítas nas reduções. São um sem número de sítios arqueológicos espalhados por toda a região, quatro deles reconhecidos como patrimônio. Partindo de São Miguel Arcanjo, declarado Patrimônio Nacional em 1938 e da Humanidade em 1983, São João Batista, São Lourenço Mártir e São Nicolau declarados Patrimônio Nacional em 1970" (p. 8).

Villegas (2008) ainda esclarece que nas Missões "se encontra um legado arquitetônico construído pelos descendentes de alemães, italianos e poloneses entre outros, constituído em sua maioria por conjuntos de edificações e paisagens que lembram a influência europeia na arquitetura, gerado durante todo o período das imigrações no Rio Grande do Sul" (p. 8).

A região histórica das reduções jesuíticas que pertence ao território brasileiro, até pouco tempo, era tratada pelo governo federal como um patrimônio espanhol. Foi apenas da década de 1920 que se realizou um estudo por parte do governo, onde o arquiteto brasileiro Lúcio Costa levantou informações para decidir o que fazer com os chamados "Sete Povos das Missões". Por circunstâncias específicas - os tratados entre Espanha e Portugal, os sítios ficaram "encalacrados" em território brasileiro. As expressões utilizadas pelo arquiteto para definir a situação geográfica dos antigos povos missioneiros dão conta de que seus remanescentes eram considerados um patrimônio espanhol, e que nada tinham a ver com a cultura brasileira. O arquiteto continuou dizendo que as Missões se constituíam em "um setor autônomo no conjunto dos monumentos coloniais brasileiros, por possuir remanescentes de uma cultura espanhola (Goelzer, 2008,p. 243). Nesse contexto, salienta-se que "o entendimento de que os remanescentes missioneiros eram herança estrangeira, desvinculada da história brasileira, perdurou durante muitas décadas. Moysés Vellinho registrou, em relação às Missões: "só uma coisa nos ficou do passado morto: o papel de depositário de ruínas alheias" (Vellinho, 1970, p. 244).

Cabe comentar que a partir da década de 1930, o governo brasileiro começa dar uma maior atenção para a devida região, com a atuação do Serviço de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (SPHAN). Nesse sentido, as ações de conservação, valorização e estudos se voltavam inteiramente para os sítios arqueológicos. Essa situação vem sendo alterada progressivamente, uma vez que as políticas de fomento atuais procuram contemplar todos os municípios missioneiros e não apenas os parques históricos. Diversos projetos estão se concretizando na região através do Programa de Cooperação Instituto Andaluz de Patrimônio Histórico (IAPH)-Sevilla/ Espanha- Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) -Brasil. Conforme Nogueira e Burkhard (2008), "o acordo prevê estabelecimento de relações de cooperação de caráter científico, tecnológico, formativo e cultural, em relação à documentação, conservação, formação e difusão do patrimônio histórico da Região das Missões" (p. 29).

E nestas condições, é de suma importância atentar-se para o caso de São Borja, pois uma interpretação acurada sobre tal localidade fará emergir situações vinculadas ao período pré-hispânico e isso pode ser decisivo para uma releitura dos sítios históricos missioneiros.

Uma análise da representação da cultura no espaço urbano local

Para a interpretação da representação da cultura citadina, a área urbana de São Borja foi espacializada em duas zonas culturais: zona ribeirinha e zona central. No espaço delimitado para cada território, realizou-se, no primeiro momento, uma interpretação das práticas de ocupação, manipulação e exploração do espaço e suas interações com as caracterizações identitárias e culturais constituídas. Na sequência, realizou-se uma analise do processo cognitivo do espaço e suas categorias de simbolização, relacionados intimamente com a constituição das identidades sociais dos grupos envolvidos. Para tanto, foi produzido um mapa temático, que espacializou as principais tipologias patrimoniais inventariadas e suas respectivas áreas de abrangência, conforme as zonas culturais propostas.

Zona Ribeirinha

Essa região da cidade é uma área periférica influenciada diretamente pelo Rio Uruguai. Seu processo de formação está relacionado ao desenvolvimento do comércio entre brasileiros e argentinos e pela cultura da pesca. Em relação às comunidades inseridas nessa área de abrangência, foram identificados dois contingentes populacionais, os moradores do bairro do Passo e integrantes da colônia de pescadores Z-21. A partir do ano de 1994, com a construção da ponte da Integração São Borja/ Santo Tomé, houve o final do translado de embarcações no antigo porto local, em virtude da mesma ter sido construída em outro espaço. Com a ponte, houve mudanças culturais e econômicas nessa região ribeirinha, visto que o luxo era intenso em todos os dias da semana. Outro fator que gerou novas mudanças sociais e econômicas nesse local foi a reestruturação do Cais do Porto, área constituída por bares típicos e uma paisagem privilegiada do rio.

Com essa readequação do cais do porto, a zona ribeirinha tornou-se o principal atrativo turístico municipal. Entre os principais potenciais destaca-se a culinária típica (base de pescado), infraestrutura satisfatória, além dos bens naturais. Uma paisagem cultural pode ser conceituada como o reflexo das ações do homem nas transformações geográficas, sua visualização geralmente é reproduzida através da materialização da cultura (símbolos), podendo ser representada como uma paisagem-marca (expressa uma civilização) e paisagem-matriz (dá sentido à cultura) (Cosgrove, 1998; Berque, 1998; Wagner & Mikessel, 2003).

A interpretação dos bens patrimoniais e das narrativas emitidas nas musicalidades do espaço ribeirinho possibilitou a identificação de características culturais e discursivas pertencentes a uma identidade ribeirinha. Esta identidade sustenta-se através das relações com a pesca. Para Claval (2001), "os lugares não tem somente uma forma e uma cor, uma racionalidade funcional e econômica. Eles estão carregados de sentido para aqueles que os habitam ou que os frequentam" (p. 55) Em relação à delimitação da área cultural no contexto ribeirinho, definiu-se como centro de difusão cultural o cais do porto, pois o local destaca-se pela diversidade de manifestações culturais. Entre os significados que os elementos simbolizados representam para a comunidade local, observou-se através da música11 e de imagens fotográficas, que o rio Uruguai salienta-se por possuir um número considerável de paisagens culturais.

A música Cantiga de rio e remo, de autoria de Apparício Silva Rillo e Manoel Bicca, expressa bem algumas representações do Rio Uruguai:

Olha o dourado que bateu no espinhel;
Traz a canoa, que no fundo não da pé
Leva a canoa quando eu saio noite a fora
Pescando estrela do Uruguai e do Ibicui;
Ele remanso, é cachoeira, é lua cheia;
Ela é piava, ela dourado é surubi,
Tirou das águas para o solo um lambari;
É o pão na mesa para a fome de quem pesca12.

O devido corpo d'água é exaltado pelos discursos analisados como um elemento espacial transmissor de mística, sentimentos, emoções, marcador de diferença (exaltação de São Borja), de diversão (banhos, esportes náuticos), fonte de alimento, local de realização de festividades musicais (ver Figura 3). A representação do cais do porto, tanto pelo discurso da administração pública13 como pelas narrativas da população14, demonstrou ser um espaço peculiar no território samborjense. A Secretaria de Turismo de São Borja salienta que "o Cais do Porto e o Rio Uruguai oferecem excelentes alternativas de lazer, diversão e esportes, em um ambiente único e característico da cidade" (ver Figura 7). Em relação à gastronomia local, a prefeitura municipal reconhece a peculiaridade da culinária ribeirinha, ou seja, procura publicitar turisticamente o produto típico local: "em São Borja existem ótimos hotéis e restaurantes, com gastronomia típica de alta qualidade (não deixe de provar o peixe frito nos bares da Cais)". Já o discurso local apresentou "vozes" de pertencimento comunitário onde alguns atores se identificaram como sendo "passeanos", denominação popular para quem é morador do bairro do passo15.

 

FIGURA 3 | Composição musical do festival da Barranca do rio Uruguai

 
 
FONTE GRUPO OS ANGUERAS

 

Zona Central

A área cultural da zona central surge espacialmente no ano de 1690, com a instalação da redução de São Francisco de Borja. Com a formação desse núcleo administrativo, surgiu o primeiro aglomerado populacional e urbano local. O século XVIII, nos seus primeiros anos, representou o ápice do desenvolvimento urbano e social da redução borjista, que teve destaque na arquitetura através do suporte técnico do arquiteto italiano Joseph Brasanelli. Para Colvero e Maurer (2009), a participação do irmão Brasanelli foi de grande importância para a redução, pois deixou um legado barroco no local, onde "é de sua autoria, a imagem esculpida do padroeiro da antiga redução: Padre Francisco de Prada e Gandia; além da edificação do antigo templo" (p. 435).

A partir da década 1750, São Borja sofreu os impactos da decadência das reduções jesuíticas guarani, concretizando a decadência do projeto num sentido geral16. O pós-missões marcou a troca da posse territorial das áreas pertencentes à Coroa Espanhola para o domínio português. Esse processo de colonização portuguesa acaba contribuindo para o desenvolvimento das grandes propriedades rurais samborjense através da divisão de terras das sesmarias. O desenvolvimento da pecuária acabou constituindo alguns tipos sociais como o latifundiário, estancieiro, figura do gaúcho. Esses atores constituíram relações de poder na economia, no contexto social e na cultura, o que possibilitou a construção de manifestações culturais no centro da cidade, onde residem até hoje. O tipo arquitetônico eclético dos imóveis centrais é um exemplo prático dessa influência estancieira. Após uma leitura dos bens culturais desse espaço central e da interpretação dos corpos discursivos gerados pelas musicalidades e documentos primários, observa-se que essa zona apresenta uma diversidade de tipologias patrimoniais e um hibridismo entre as identidades. Essa miscigenação identitária vincula-se principalmente com a representação simbólica da cultura missioneira, essencialismo da história dos presidentes, cultura gaúcha, tradições urbanas e memória futebolística.

No que diz respeito ao levantamento das paisagens culturais do centro da cidade, foram selecionados espaços simbolizados que demonstraram possuir "características de linhas ou avenidas de disseminação e penetração cultural" (Wagner & Mikesell, 2003). Foram delimitadas como avenidas culturais: o entorno da praça XV de Novembro, os bairros Maria do Carmo e Cemitério (encontra-se o Jazigo de João Goulart e Leonel Brizola17), uma vez que estes locais destacaram-se por possuírem uma grande quantidade de tipologias patrimoniais e de discursos relacionados a representações culturais da cidade. A área do entorno da praça XV de Novembro18 apresenta paisagens com traços fixos sobre as figuras dos ex-presidentes. A localização estratégica (áreas com luxo intenso de pessoas) e quantidade expressiva dessas manifestações culturais (monumentos19 e instituições culturais) demonstram uma ideia voltada para a exaltação desses líderes políticos, o que expõe ações em prol da construção de uma identidade de projeto, conforme descreve (Castells, 1999): utilização da cultura com viés político.

Nesta direção, observa-se a busca construtiva de uma identidade local, que envolve uma relação entre ideologia política (trabalhista) e cultura. Do ponto de vista discursivo, vem sendo utilizado pelas últimas administrações públicas o slogan "Terra dos Presidentes". Esse ideário voltado para a exaltação desses líderes já era utilizado na década de 70 (ver Figura 4), onde a imagem de Getúlio Vargas localizava-se estrategicamente no centro da praça XV. Hoje se encontra nesse local um Mausoléu com os restos mortais do ex-presidente.

 

FIGURA 4 | Praça XV Novembro na década de 1970 (exaltação da figura de Getúlio Vargas)

 
 

FONTE SENHORA ADILES CALAZANS PINTO

 

Cabe comentar, que também foram inventariados resquícios da cultura missioneira (séculos XVII e XVIII), como o sítio arqueológico da antiga redução borjista20 e elementos culturais pertencentes à igreja católica (pia batismal e estatuarias missioneiras21). A representação das missões22 pela igreja católica é também percebida no nome da Igreja Matriz "São Francisco de Borja" e na frente da mesma, através de imagens da cruz de Lorena (principal símbolo missioneiro). A identidade missioneira possui uma relação de influência na constituição das outras formas identitárias locais, e consequentemente sobre o Patrimônio Histórico-Cultural, como exemplo na construção da identidade gaúcha (utilização da erva-mate; cultura da criação de gado; carne assada; instrumentalidade; utilização de artefatos de defesa e próprio discurso do tipo gaúcho missioneiro). Esse tipo identitário caracteriza-se no local pela exaltação da diferença com outras municipalidades das Missões, visto que exalta o fato de ser um dos "Sete Povos das Missões".

O bairro Maria Carmo foi definido como outra subárea cultural da zona central. Essa região da cidade apresenta paisagens culturais vinculadas a tradições populares, como a da procissão de São João Batista, lenda urbana de Maria do Carmo, a memória futebolística (Internacional de São Borja) e cultura gaúcha nativista (Grupo de Artes "Os Angüeras"). A denominação do bairro vincula-se à principal lenda urbana samborjense. Conforme Rillo (2004), Maria do Carmo era uma mulher de vida "airada", pessoa que levava apoio material e espiritual à gente de São Borja, no século XIX, sendo assassinada por volta de 1890. Outra tradição popular que se celebra nessa área é a procissão de São João Batista. Essa manifestação possui um caráter religioso e popular junino, ocorrendo desde 1879 todos os dias 23 de junho23. O cortejo religioso com a imagem de "São Joãozinho Batista" (como é chamada pelo discurso popular) é realizado num trajeto pela cidade até a fonte missioneira de São João24, onde é banhada num ritual de cantos e rezas.

As identidades "flutuantes" da cidade Histórica de São Borja: a relação material da cultura/ poder

Como se pode observar, desde a última década do século XVII, São Borja possui uma trajetória histórica "marcada" por acontecimentos relevantes no cenário sul-americano. Fatores esses que proporcionaram a construção de identidades25 e a materialização de um grande número de bens culturais no espaço local26. Segundo Woodward (2000), o processo de construção de uma identidade pode ser simbólico (dá sentido tanto as práticas como as relações sociais) como social (busca uma relação de diferença com outras culturas). Esse contexto de formação identitária busca nos antecedentes históricos elementos para a constituição de símbolos e discursos, nos quais acabam dando essência aos elementos culturais. A busca pela diferença é uma forma de impor uma identidade, através de criações sociais e culturais. Conforme os sistemas de significação e representação cultural se multiplicam, surgem novas identidades, isto é, elas são cambiantes (Hall, 2003; Silva, 2000).

Em relação ao local, "constata-se diversos tipos de identidades, como: a missioneira, pampiana, trabalhista, ribeirinha e fronteiriça" (M. Pinto, 2010). Tipos identitários que são representados e reconhecidos no contexto do Patrimônio Histórico-Cultural. Esses bens contribuem para a criação de novas simbologias e discursos, o que está proporcionando a construção de identidades cambiantes. O processo de formação de uma identidade se inicia através de uma forma identitária primária que vem a se tornar móvel (processo de "troca" cultural) ao longo dos tempos (Castells, 1999).

A análise da cultura através das ações de poder é uma das formas modernas pela qual a Geografia Cultural vem movendo-se teoricamente. Segundo Cosgrove (1998), a intervenção do poder na cultura torna-se evidente no processo de reprodução de elementos culturais, ou seja, na construção de identidades, discursos, elementos materializados, símbolos, entre outros. Frequentemente, estamos convivendo com subculturas dentro de uma cultura dominante, "cada uma destas subculturas encontra alguma expressão na paisagem, mesmo se apenas uma paisagem de fantasia" (p. 105). Sendo assim, "as culturas subdominantes podem ser divididas não apenas nos termos já indicados, mas também historicamente, como residuais (que sobraram do passado), emergentes (que antecipam o futuro) e excluídas (que são ativa ou passivamente suprimidas) como as culturas do crime, drogas ou grupos religiosos marginais" (p. 105). Este raciocínio de Cosgrove foi colocado em prática através de um estudo de caso na cidade histórica de São Borja, Brasil.

Neste momento, podem-se identificar quais eram os tipos de cultura existentes e seus respectivos graus de influência no cenário exposto. Neste contexto, também foram analisados como os símbolos culturais foram/são arquitetados e utilizados no espaço. Para tanto, a partir da análise do Patrimônio Histórico-Cultural, da análise das representações culturais e da historiografia regional, foi possível perceber as manifestações culturais gaúchas ou pampianas, como dominantes no espaço. Suas influências sociais são reproduzidas constantemente no local, visto que a região há muitas décadas é influenciada economicamente e socialmente pelos costumes relacionados à lida campeira e à figura do gaúcho.

Esta geografia proporcionou, desde o período das reduções jesuíticas (séculos XVII e XVIII), interesses estratégicos por esse espaço territorial. Conforme Haesbaert (1988) o espaço da campanha no Brasil estruturou politicamente seu território a partir do "estabelecimento da linha fronteiriça (só definida no inicio do séc. XIX); a construção do espaço latifundiário (a partir da doação de sesmarias), forma de apropriação dominante" (p. 78). As características do relevo e da vegetação regional foram fundamentais para a criação de rebanhos de gado nas chamadas vacarias Del Mar (ver Figura 5). Com a consolidação do processo político administrativo do território, houve o surgimento de um tipo social proprietário das terras rurais e encarregado pela criação do gado, chamado de gaúcho. Portanto, esta atividade pecuarista foi responsável pela construção da figura do gaúcho primeiramente na Argentina e Uruguai, e posteriormente no Brasil, o que elevou através de relações de poder a proliferação dos costumes, saberes e tradições culturais relacionadas ao tipo social em questão.

 

FIGURA 5 | Localização de São Borja na região de influencia do bioma pampa

 
 

FONTE REVISTA ECOSISTEMAS, ADAPTADO POR MURIEL PINTO

 

Segundo Oliven (1990) "dois aspectos são comuns àqueles que, a partir de perspectivas diversas, cultuam as tradições gaúchas: a presença do campo, mais especificamente da região da Campanha, localizada no sudoeste do Rio Grande do Sul, na fronteira com Argentina e Uruguai; e a figura do gaúcho, homem livre e errante, que vagueia soberano em seu cavalo, tendo como interlocutor privilegiado a natureza das vastas planícies dessa área pastoril" (p. 1). Em relação à reprodução ou construção dos recursos culturais gaúchos, cabe comentar que essa identidade já faz parte do senso comum local, uma vez que suas representações são constantes na lida campeira, nos CTG's (Centros culturais tradicionalistas Gaúchos), no cotidiano (indumentária; musicalidade; dança; gastronomia e festividades). Essa construção identitária apresenta o gaúcho como uma figura mítica relacionada ao bioma pampa, às estâncias (grandes propriedades rurais), à lida campeira, ao cavalo, churrasco (carne assada), mate (bebida típica) e à pecuária (criação de gado) (ver Figura 6). A relação de poder que existe nessa identidade está relacionada às influências sociais e culturais que os grandes proprietários rurais (estancieiros) exercem através de seu poder econômico e territorial no local.

 

FIGURA 6 | Desfile da semana Farroupilha em São Borja

 
 
FONTE FLASHSB. WWW.FLASHSB.COM.BR

 

As demais identidades que estão presentes no local, como a ribeirinha, foram agrupadas no estudo ao grupo das culturas alternativas. Os recursos patrimoniais que representam a cultura trabalhista e missioneira, por suas características históricas, foram inseridos no subgrupo das culturas residuais, denominadas por Cosgrove (1998) como "aquelas que sobram do passado". Ao mesmo tempo seus elementos identificam-se com o subgrupo da cultura emergente, "caracterizada por antecipar o futuro". Já a cultura ribeirinha foi denominada como excluída pelo baixo índice de políticas culturais executadas até o momento (ver Quadro 1).

 

QUADRO 1 | Tipos identitários de São Borja

 
 

FONTE ELABORAÇÃO DE MURIEL PINTO

 

Através da análise das tipologias patrimoniais representadas pela identidade trabalhista, pelo discurso público-comunitário e pelas políticas público-privadas de exaltação dos líderes políticos, foi possível constatar que os símbolos culturais que exaltam as figuras dos ex-presidentes brasileiros Getúlio Vargas e João Goulart, podem ser interpretados através de três formas de utilização: uso político, uso turístico e uso cultural-educacional (ver Figura 7).

 

FIGURA 7 | Monumentos em homenagem aos ex-presidentes Getúlio Vargas e João Goulart
 
 
FONTE MURIEL PINTO

 

A partir destas três formas interpretativas da utilização da cultura, observa-se que o poder público e o mercado dividem forças no que se refere à construção desses símbolos. Em relação à utilização dos recursos culturais por um viés político, verifica-se que as siglas partidárias trabalhistas (PDT e PTB) procuram relembrar o passado dos ex-presidentes como instrumentos de mobilização eleitoral, legitimação da ideologia trabalhista e de mitificação desses líderes. Nesse caso, as referências são remanejadas de forma estratégica visando estabelecer uma identificação das massas, o que Allan Bloom (1989) chama de "culturas criadas".

No que diz respeito à cultura missioneira, dois períodos foram importantes para a materialização dessa identidade. O primeiro foi o ano de 1982, data comemorativa aos 300 anos de fundação da redução de São Francisco de Borja, embora a mesma nunca tenha sido comprovada por fontes primárias. Em 2006, com a entrada de São Borja no projeto turístico Rota Missões, surge o segundo momento. Essas duas iniciativas criaram e materializaram elementos relacionados às Missões Jesuíticas Guarani. Neste caso, levantaram-se quatro formas de poder que intervém na devida cultura: Igreja Católica (posse de estátuas), mercado (rotas turísticas; criação de produtos missioneiros); município (posse do museu missioneiro e planejador de políticas culturais e turísticas), e sociedade civil (colecionadores de bens materiais e elaboração de artesanato típico) (ver Figura 8).

 

FIGURA 8 | Símbolos missioneiros expostos na igreja Matriz São Francisco de Borja

 
 
FONTE MURIEL PINTO

 

Em relação aos usos turísticos e culturais dos símbolos trabalhistas, missioneiros, gaúchos e ribeirinhos, nota-se que desde 2005, o município vem planejando estrategicamente seus recursos culturais e patrimoniais de forma a potencializá-los para o turismo. Entre as iniciativas cita-se: reestruturação de museus; projetos de restauro (casa de Getúlio Vargas e Jango); eventos culturais; ações de educação patrimonial; localização de sítio Histórico (2007) e institucionalização da cultura e a própria publicidade da cultura.

Considerações finais

O grande desaio dessa construção interdisciplinar foi integrar conceitos de identidade, cultura, patrimônio sem os vícios rotineiros que cada área do conhecimento carrega. Neste sentido, procuramos articular a abordagem de maneira que possibilitasse uma interpretação crítica e abrangente sobre as paisagens culturais do atual município de São Borja. O resultado provou como a cultura é representada no espaço e como as formas de poder influenciam para a construção de elementos essencializados. Este raciocínio permitiu realizar uma interpretação inicial das paisagens culturais de São Borja, que poderá servir como material para futuras pesquisas na área, inclusive no planejamento e execução do Projeto Itinerário Cultural das Missões Jesuíticas Guarani, proposto pela UNESCO, governo brasileiro e argentino.

Foi possível registrar elementos culturais que simbolizam um número maior de momentos históricos, como: período reducional; Guerra do Paraguai; período republicano (materialização dos presidentes da república); relações de fronteira e cultura pampiana. No caso in foco, seu Patrimônio Histórico apresenta tipologias e recursos culturais diferenciados em relação à parte noroeste da região das Missões. Não só por sua trajetória histórica de reconhecida representatividade no âmbito nacional, mas também pela sua identificação regional tanto com a Campanha Gaúcha, identidade missioneira e identidade fronteiriça, além da pequena imigração, fatores estes que contribuirão para uma maior diversificação das características tipológicas dos recursos de interesse patrimonial.

Sobressaíram-se também discursos de pertencimento ao local, onde sujeitos da comunidade exaltaram a diferença do lugar perante outras localidades missioneiras e do próprio Estado do Rio Grande do Sul, Brasil. Partindo da análise dos "usos" da cultura e de patrimônios materiais tangíveis, demonstrou-se que a identidade trabalhista é a única a utilizar os bens patrimoniais como instrumento político. Já em relação à utilização turística dos bens culturais, os elementos estão sendo construídos de forma a planejar atrativos turísticos "marcados" pela alteridade, estereotipia e naturalização. Uma análise sobre as paisagens constatou que a cultura missioneira está representada em todo o território local, elementos estes que "misturam-se" com outros tipos identitários, o que permite verificar "trocas" ou "miscigenações" dos símbolos e discursos missioneiros entre as identidades gaúcha, trabalhista e fronteiriça. Na zona ribeirinha notou-se através da análise discursiva, uma relação de pertencimento maior por parte da população comparada com a zona central, visto que essa área cultural apresentou um pequeno numero de elementos culturais relacionados a outras identidades, ou seja, uma pequena hibridização identitária.

Por fim, diante dos resultados alcançados, a grande contribuição do estudo foi a exposição de uma visão integradora sobre determinadas situações e objetos que estão relacionados a uma evolução consciente e contemporânea de um município de fronteira. Eis o motivo pelo qual resolvemos estabelecer esse diálogo geo-histórico.

Notas

1 A geo-história já teve uma importância significativa para o campo historiográfico quando a mesma era utilizada como base de investigação por alguns teóricos da escola dos Annales. Contudo, no estudo em destaque, tais reflexões não serão aprofundadas, uma vez que utilizar-se-á a expressão geo-história visando unicamente garantir as experiências que unificam não só as duas áreas de conhecimento, mas também as experiências individuais e acumulativas dos próprios pesquisadores. Portanto, o termo geo-história faz alusão ao arcabouço teórico e metodológico que concentra o objeto trabalhado.

2 Por macroestrutura subentende-se a materialização das reduções principalmente no que diz respeito à parte arquitetônica das mesmas.

3 Correspondência de Segismundo Asperger para o Governador de Buenos Aires, Francisco de Paula Bucareli y Úrsua. S. S. Apostolles, 10 de outubro de 1769. AGNA, Sala ix: 18.05.01.

4 Vários estudiosos procuram, atualmente, compreender a problemática da diversidade étnica nas reduções. Estes são os casos de: Braco (2004); Santos e Baptista (2007); Levinton (2009).

5 Em comparação com as outras reduções instaladas no setor oriental do Uruguai (áreas com maiores elevações), a redução de São Francisco de Borja localizava-se numa área de planície que se aproximava ao nível do mar, fator que poderia facilitar o deslocamento terrestre e fluvial.

6 A rede hidrográica que comporta a região apresenta uma grande diversidade de rios e arroios, com destaque para o rio Camaquã, estando próxima também da área de abrangência do rio Ibicuí. As pesquisadoras Heloisa Reichel e leda Gutfriend (1995) comentam que o rio Uruguai e seus afluentes foram utilizados pelos jesuítas e espanhóis para penetrarem nas terras do interior e aí estabelecerem suas reduções e seus povoados.

7 Região mineira (hoje atual Bolívia).

8 As respectivas datas de fundação foram retiradas de Furlong (1962).

9 No raio que compreendeu as reduções de São Borja a Yapeyu existiram pelo menos 20 capelas e quatro passos de rios. Esses dados demonstram um interesse por parte dos jesuítas, bem como dos indígenas, em manter uma integração e comunicação entre as reduções. Para saber mais sobre as capelas e passos e suas possíveis utilidades ver Snihur (2007) e Maurer (2011).

10 A fronteira missioneira estava situada em extensas áreas de pampas desabitadas, o que facilitava a penetração territorial por parte de outros grupos indígenas e dos próprios portugueses. Para saber mais sobre essa situação ver Garcia (2009) e Pereira (2012).

11 Interpretação realizada através da análise discursiva de composições musicais do grupo artístico "Os Angüeras".

12 Letra denominada cantiga de rio e remo. Autoria de "Os Angüeras".

13 Os discursos emitidos pela prefeitura de São Borja foram analisados através do site da instituição. Ver: www.saoborja.rs.gov.br

14 As mensagens expostas pela população foram analisadas através de entrevista oral.

15 Entrevista com senhora Adiles Calazans Pinto.

16 Atribuí-se a decadência do projeto reducional na região disposta à assinatura do Tratado de Madri (1750). Na prática significou a (re)definição de fronteiras entre as coroas ibéricas na América Meridional. A oficialização do tratado foi repudiada por algumas lideranças indígenas, o que a historiografia costumou chamar de Guerra Guaranítica (1754-1756). Tanto o episódio do tratado quanto o da rebelião indígena são temas recorrentes em vários trabalhos, nesse caso salientamos: Quarleri (2009), Neumann (2010).

17 Personalidade política destacada no cenário brasileiro.

18 O cemitério Jardim da Paz também apresentou símbolos ligados à identidade trabalhista como os túmulos de João Goulart e do líder pedetista Leonel Brizola. Todos os anos na data de morte de Getúlio Vargas são realizadas celebrações no cemitério.

19 Cita-se o: Mausoléu Getúlio Vargas (Praça XV), estátuas (presidentes) em frente à prefeitura e espalhadas pela praça. A construção modernista da Prefeitura (leva o nome de Palácio João Goulart). Ainda verificam-se dois imóveis com arquitetura eclética que pertenceram aos dois presidentes (foram utilizadas como sedes de museus que representam a história dos devidos líderes).

20 Dos integrantes dos Sete Povos das Missões, São Borja é o único que não possui estudos arqueológicos no seu sítio missioneiro. Conforme a planta urbana municipal, o sítio arqueológico da Redução de São Francisco de Borja localiza-se no entorno da Praça XV de novembro, exatamente onde foi a sede de instalação do povoado missioneiro.

21 Entre elas constam no acervo duas estatuarias de São Francisco de Borja, considerado padroeiro do município.

22 Ainda inventariaram-se bens culturais missioneiros no acesso da cidade (Estátua de São Francisco de Borja), cruz de Lorena, monumento do Tricentenário da fundação da Redução, Museus Missioneiro e um retábulo missioneiro na Igreja do bairro do passo.

23 Em uma documentação curiosa de 1883, a Câmara Municipal da Villa de São Francisco Borja solicita ao Presidente da Província de São Pedro do Rio Grande do Sul (atualmente Estado do Rio Grande do Sul), um "repasse" financeiro para arcar com os gastos da procissão. O argumento é a que procissão atraia "curiosos" de várias "paragens" do Prata e portanto era "merecedora" de tal empenho. AHRGS, Fundo Fazenda.

24 Nas primeiras décadas, o santo era banhado numa lagoa que se localizava próximo ao centro da cidade. Região essa que hoje comporta uma Praça, que leva o nome popular de "Praça da Lagoa".

25 Nacionalmente, o local é conhecido por "Terra dos Presidentes", "Primeiro dos Sete Povos das Missões" e "berço do trabalhismo". Em outras épocas já foi lembrada como a "Capital da Produção" e "Capital do Linho". Por conta das referências históricas e das identidades aclaradas, São Borja recebeu o reconhecimento de "Cidade Histórica" (Decreto Estadual de 11/10/1994).

26 Conforme o estudo "Levantamento do Patrimônio Cultural e Natural da Região das Missões" realizado pelo IPHAN; IAPH (Instituto Andaluz de Patrimônio Histórico - Sevilha, Espanha) e uri (Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões) o município de São Borja foi considerado um dos três municípios polos da Região das Missões no que se refere à quantidade de recursos de interesse patrimonial.

 

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Recibido el 10 de abril de 2012, aprobado el 28 de diciembre de 2012