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Revista chilena de pediatría

versión impresa ISSN 0370-4106

Rev. chil. pediatr. v.74 n.4 Santiago jul. 2003

http://dx.doi.org/10.4067/S0370-41062003000400016 

CONO SUR


Rev Chil Pediatr 74 (4); 434-438, 2003


Esta sección contiene los artículos originales de las Revistas de Pediatría de las Sociedades de Pediatría del Cono Sur seleccionados en el VII Encuentro de Editores Montevideo, Uruguay 2002 para ser publicados por los países integrantes durante el año 2003.


Efeitos da asfixia perinatal sobre os
hormônios tireoidianos


Denise N. Pereira1, Renato S. Procianoy2


Effect of Perinatal Asphyxia on Thyroid Hormones

A asfixia perinatal provoca múltiplas alterações no organismo, em decorrência da falha no sistema de trocas gasosas. Há hipóxia, hipercapnia e queda do pH sangüíneo, ocorrendo redistribuição do fluxo sangüíneo de órgãos menos nobres para órgãos vitais como cérebro, coração e adrenais1.
A asfixia também desencadeia um rápido aumento na secreção de vários hormônios, entre eles catecolaminas2, glicocorticóides2-4, ACTH4, b-endorfinas4, hormônio antidiurético5-8, aldosterona1,2,9,10, renina11 e peptídeo atrial natriurético9,12, bem como uma diminuição na insulina1.
Há poucos estudos que avaliam o efeito da asfixia perinatal sobre os hormônios tireóideos13-16, sendo os resultados conflitantes. Sua ação na síntese de enzimas mitocondriais e de elementos estruturais, além de participar da termogênese, do transporte de água e eletrólitos e do crescimento e desenvolvimento do sistema nervoso central e esqueleto, demonstra sua importância vital. Níveis baixos de hormônios tireóideos em doenças de origem não-tireóidea estão associados a um mau prognóstico17. Esse estudo foi realizado com o objetivo de comparar as concentrações plasmáticas de T4, T3, T4 livre (FT4), T3 reverso (rT3) e TSH entre recém-nascidos a termo, asfixiados ou não, no sangue de cordão umbilical e no do recém-nascido com 18 a 24 horas de vida.

POPULAÇÃO E MÉTODOS

O grupo de estudo foi constituído por recém-nascidos a termo, com escores de Apgar no 1º e 5º minutos < 7 e pH na veia umbilical < 7,2, nascidos seqüencialmente até o total de 17 recém-nascidos asfixiados. O primeiro recém-nascido a termo, normal, com escore de Apgar maior ou igual a 8 no 1º e 5º minutos de vida e pH na veia umbilical maior ou igual a 7,2, nascido após o recém-nascido asfixiado e que fosse semelhante com relação ao peso de nascimento, idade gestacional, tipo de parto, cor e sexo, foi incluído no estudo como controle.
Os recém-nascidos foram excluídos do estudo se tivessem qualquer tipo de malformação ou doença congênita, ou se suas mães tivessem qualquer doença ou fossem tratadas com anti-hipertensivos, diuréticos, corticosteróides ou antitireoidianos. A idade gestacional foi avaliada pela idade gestacional obstétrica e confirmada pelo exame físico18 Quando a diferença entre a idade gestacional obstétrica e a avaliação clínica fosse maior que 2 semanas, a avaliação clínica era considerada. Os recém-nascidos foram classificados como pequeno para a idade gestacional, grande para idade gestacional ou apropriado para a idade gestacional, com base na curva de crescimento intra-uterino19.
Imediatamente após o nascimento, o cordão umbilical era clampeado em dois pontos diferentes, e uma amostra de sangue era coletada para se obter a gasometria venosa e para a determinação de T4, T3, FT4, rT3 e TSH. Dezoito a 24 horas após o nascimento, a exemplo do trabalho de Borges et al.13, uma amostra sangüínea era coletada para verificação da gasometria arterial e dosagem dos hormônios tireóideos de cada recém-nascido, de ambos os grupos.
Todos os recém-nascidos asfixiados foram admitidos em unidade de tratamento intensivo, tinham controle de diurese nas 24 horas e recebiam hidratação parenteral. Nenhum dos asfixiados foi alimentado durante o período de estudo. Os controles foram neonatos normais, cuidados em alojamento alojamento conjunto e alimentados por livre demanda.
O T4, T3, FT4 e TSH foram medidos por radioimunoensaio usando um kit Coat a Count. O rT3 foi dosado pelo kit reverse T3, também através do método de radioimunoensaio.
Os valores de FT4 e T3 foram expressos em ng/dl, os de TSH, em mU/ml, os de T4 total, em mg/dl e os de rT3, em ng/ml.
O tamanho da amostra foi calculado considerando uma significância de 0,05 e um poder estatístico de 90% para detectar uma diferença de 1,33 no nível de FT4 entre os dois grupos, baseado nos dados de Borges et al13. O tamanho calculado da amostra foi de 14 recém-nascidos em cada grupo. As variáveis contínuas foram descritas através de médias, medianas e desvios padrões e as categóricas, através de proporções dos dados obtidos com a amostra. Na análise, foram utilizados os testes c2 ou Exato de Fisher para variáveis categóricas. Para avaliar as variáveis contínuas foram empregados os testes t-Student ou o teste Wilcoxon para amostras pareadas.
Esse estudo foi aprovado pelo comitê de Ética do Hospital de Clínicas de Porto Alegre. Foi obtido termo de consentimento verbal e escrito dos responsáveis pelos recém-nascidos que participaram do estudo.

RESULTADOS

Não houve diferenças entre os grupos com relação à idade gestacional (39,2 ± 0,9; 39,3±1,2 semanas: asfixiados e não asfixiados, respectivamente), peso de nascimento (3 178,5 ± 653,4; 3 238,5 ± 362,7 gramas: asfixiados e não asfixiados, respectivamente), sexo (12/5: F/M em cada grupo), relação AIG/GIG (15/2 em cada grupo), tipo de parto (14/3: vaginal/cesariana em cada grupo) e cor (14/3: branca/não branca em cada grupo). O grupo dos asfixiados teve significativamente mais baixos escores de Apgar no 1º e 5º minutos de vida. No sangue de cordão, o pH e excesso de base foram significativamente mais baixos e a pCO2 significativamente mais alta. A pO2 foi menor nesse grupo, mas esta diferença não foi estatisticamente significativa (tabela 1). As médias de T4, T3, FT4 e TSH foram semelhantes em ambos os grupos. A média de rT3 foi significativamente mais alta no grupo dos asfixiados (tabela 2).


Tabla 1. Escore de Apgar e índices bioquímicos no sangre do cordão umbilical


Tabla 2. Níveis plasmáticos dos hormonios tireoideos no sangre do cordão umbilical

No sangue coletado do recém-nascido com 18-24 horas, não foi verificada diferença entre as médias de pH, pCO2 e excesso de base. Entretanto, a pO2 foi significativamente maior no grupo dos asfixiados (Tabela 3). Houve uma diferença significativa entre as médias de T4, T3, FT4 e TSH entre os dois grupos, sendo mais baixa no grupo que sofreu asfixia. A média do rT3 foi semelhante nos dois grupos (Tabela 4).


Tabla 3. pH e gases sanguíneos no sangre do recém-nascido com 18-24 horas de vida


Tabla 4. Níveis plasmáticos dos hormonios tireoideos no recém-nascido com 18-24 horas de vida,asfixiado e não asfixiado

DISCUSSÃO

Diversos agentes interferem na função da tireóide, agindo em várias etapas do seu metabolismo. O efeito da hipóxia sobre os hormônios tireóideos tem sido reconhecido há muito tempo. Em animais, a
A diferença no comportamento do FT4 e do TSH encontrado no nosso estudo e no de Borges e colaboradores13 poderia ser o reflexo das múltiplas alterações que ocorrem nessa síndrome23-25.
Conclui-se que há diferenças nas concentrações plasmáticas de T4, T3, TSH e FT4 dos recém-nascidos asfixiados, sendo essas menores neste grupo. Alterações na produção hormonal e na metabolização periférica do T4 devem responder por essas diferenças, já que encontramos níveis baixos de T3 ao lado de níveis normais de T3 reverso.
O padrão das alterações encontrado nessas primeiras 24 horas é o de um hipotireoidismo central, onde os níveis baixos de hormônios tireoidianos são secundários à baixa concentração de TSH. A duração e a extensão dessas mudanças no metabolismo do recém-nascido asfixiado não puderam ser definidas, mesmo porque levariam a um entrave ético, já que implicariam na realização de diversas coletas durante vários dias, tanto em recém-nascidos asfixiados como em não asfixiados.
A importância dos hormônios tireóideos no desenvolvimento normal do cérebro e da função intelectual e sua relação com o prognóstico dos pacientes requer estudos de acompanhamento que correlacionem alterações hormonais com a ocorrência de seqüelas neurológicas. Outra possibilidade é a de estudos que avaliem o papel da reposição de T4 e/ou T3 nos doentes com níveis hormonais subnormais.


REFERÊNCIAS

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1. Médica neonatologista do HCPA. Professora adjunta de Pediatria da Faculdade de Medicina da ULBRA.
Serviço de Pediatria do Hospital de Clínicas de Porto Alegre.
2. Professor titular de Pediatria da Faculdade de Medicina da UFRGS. Chefe da unidade de neonatologia do
HCPA. Serviço de Pediatria do Hospital de Clínicas de Porto Alegre
J Pediatr (Rio J) 2001; 77 (3): 175-178

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