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Parasitología al día

versão impressa ISSN 0716-0720

Parasitol. día v.24 n.3-4 Santiago jul. 2000

http://dx.doi.org/10.4067/S0716-07202000000300010 

 

Stomoxys calcitrans (L.): Preferência por regiões do
corpo de eqüinos para alimentação

AVELINO J. BITTENCOURT, * e GONZALO E. MOYA BORJA**

Stomoxys calcitrans (L.): FEEDING SITES PREFERRED ON EQUINE BODY

To study which anatomic parts of horses are preferred by the stable fly Stomoxys calcitrans, for feeding, three males and two females were exposed to natural infestations in Espirito Santo do Pinhal County, São Paulo State, Brazil. The number of stable flies were weekly registered in six anatomic areas (head, neck, thorax, thoracic and pelvic members and abdomen) from May 1993 to April 1995. Significant differences were observed among infested areas and stable flies prefer the thoracic members for feeding. Within the thoracic members the shin region was more preferred.
Key words: Stomoxys calcitrans, equine, body parts, feeding.

INTRODUÇÃO

A mosca Stomoxys calcitrans é um díptero de baixa especificidade quanto aos seus hospedeiros, já que suga o sangue de diversas espécies, se destacando os eqüinos, bovinos, caprinos, ovinos, suínos, cães, gatos e frangos. Além das picadas doloridas e do hematofagis-mo1, esta mosca pode transmitir vários agentes patogênicos. Destacando-se o vírus da Anemia Infecciosa Eqüina, a Habronemose cutânea e o Mal de Cadeiras, também conhecido como Surra.2-4

Os prejuízos causados pela ação desta mosca, totalizaram 398,7 milhões de dólares nos Estados Unidos em 1977.5 A mosca S. calci-trans, pode exibir preferência por picar partes do corpo de eqüinos.6 A observação dos locais de preferência para se alimentar no corpo destes animais, pode auxiliar efetivamente ao controle, proteção e tratamento de lesões cutâneas que porventura ocorram em determinadas partes do corpo de eqüinos. Sendo assim, este trabalho visou estabelecer os locais de preferência de S. calcitrans para sugar o sangue em eqüinos, bem como a relação entre a quantidade de moscas presentes no membro torácico, com a quantidade de moscas presentes no corpo.

MATERIAL E METODOS

Foram escolhidos aleatoriamente no rebanho da Faculdade de Medicina Veterinária "Prof. Antônio Secundino de São José", em Espírito Santo de Pinhal - SP, cinco eqüinos mestiços sem raça definida, sendo 3 fêmeas e 2 machos. Os animais eram trazidos dos piquetes em que ficavam, ao curral de manejo do Setor de Grandes Animais do Hospital Veterinário da referida Faculdade, semanalmente, todas as manhãs as oito horas, durante 24 meses, para contagem do numero de moscas no corpo. Para tal se dispunha de uma ficha de identificação dos animais com o perfil de um eqüino, que apresentava divisão zootécnica das diferentes áreas do corpo. Após realizar a contenção física dos animais, se iniciava a contagem das moscas, que era feita de acordo com o local do corpo em que se encontravam pousadas. A contagem era feita de um lado do corpo dos animais, inclusive na face interna dos membros e o numero de moscas encontrado era multiplicado por dois para que se obtivesse o numero total de moscas no corpo dos animais, adaptando-se a metodologia descrita por outros autores.7, 8 Foram também analisados os dados referentes ao número de moscas presentes nos membros torácicos, levando-se em conta a quantidade de moscas no braço, codilho, antebraço, joelho, canela, boleto e quartela.

Para analisar os dados obtidos foram calculados a média, desvio padrão e variância., e aplicado aos dados obtidos a Análise de Variân-cia e o Teste de Tukey.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Com relação a região do corpo dos animais preferida pela mosca dos estábulos para se alimentar, verificou-se que os membros torácicos apresentaram valores médios mais elevados (13,9/S = 6,5), seguido pelos membros pélvicos (3,3/S = 1,13); o tórax apareceu em terceiro lugar com a média de 1,4 (S = 0,84) moscas, o pescoço em quarto lugar, o abdome se colocou em quinto lugar e o local em que apresentou um menor número de moscas foi a cabeça (Figura 1). Ao aplicar o teste de Tukey, verificou-se diferença significativa (p < 0,05) ao comparar a média de moscas obtida no membro torácico com todas as outras áreas.


Figura 1. Eqüino batendo o membro torácico de encontro ao solo e batendo a cauda no corpo para espantar moscas que o picavam. Espírito Santo do Pinhal - São Paulo - Brasil.

A análise de variância dos dados supra citados, revelou que os valores de F eram significativos (F = 114,73 , p < 0,001), caracterizando que o número de moscas por região do corpo foram distintos. Desta forma, foi verificado neste estudo, bem como em outros trabalhos com bovinos,9 que existia preferência por parte das moscas em picar os membros torácicos, mesmo sendo os hospedeiros de espécies distintas. Quando se comparam os percentuais de moscas nos membros torácicos de eqüinos, em relação ao numero total de moscas presentes no corpo, verificou-se que 67% das moscas presentes no corpo dos eqüinos situavam-se nos membros torácicos. Quando se comparam estes resultados com outras espécies, pode ser constatada tal preferência, tanto que em bovinos, verificou-se que 45% das moscas do corpo se concentravam nestes membros6. Sendo assim, pode-se verificar que esta mosca exibia preferência por picar os membros torácicos de ambas espécies. Estes resultados vão de encontro ao que é citado na literatura, tanto que alguns autores, que trabalham com os efeitos de S. calcitrans em bovinos, avaliam as infestações pelo número de moscas observadas no membro torácico.10

A partir destas constatações, verificou-se que o membro torácico apresentava uma relação de 2,3 moscas, para cada mosca presente no restante do corpo dos animais. Sendo assim, em futuros trabalhos pode-se avaliar as infestações, contando-se apenas as moscas presentes nos membros torácicos, inclusive a face interna, que se terá uma amostra representativa da quantidade total de moscas no corpo dos animais, podendo também ser estimado o total de moscas presentes no corpo.

Dentre os fatores que facilitam a mosca dos estábulos a sugar o sangue do membro torácico, se destaca a presença de uma ampla rede de vasos sangüíneos superficiais nos membros, sendo também a pele mais fina, quando comparada a outros locais do corpo,11 favorecendo desta forma com que as moscas encontrem mais facilmente um ponto para sugar sangue. Possivelmente, outro motivo pelo qual o membro torácico seria mais picado, poderia ser devido a maior dificuldade de movê-lo, já que 60 a 65% do peso corporal é sustentado pelos membros torácicos, dificultando uma movimentação mais constante dos referidos membros. Por outro lado, como os membros pélvicos não suportam a mesma parcela de peso que os membros torácicos, e que são responsáveis principalmente pela propulsão durante a locomoção, torna-se mais fácil bater ao solo para espantar as moscas que porventura nele pousem, além da ação da cauda espantando as moscas. Estas constatações podem explicar a diferença existente entre o numero de moscas nestes membros e nos membros torácicos.

Quando se considera somente o membro torácico, verificou-se que a área preferida pelas moscas para picar foi a canela, que apresentou o maior valor médio (5,54 - S = 9,42), seguida pelo boleto no qual se verificou a média de 3,5 moscas (S = 4,06), quartela, onde se obteve o valor médio de 3,3 moscas (S = 3,35), antebraço com 2,5 moscas (S = 2,73), joelho com 2,3 moscas (S = 1,94), braço com 2,2 moscas (S = 2,67) e codilho com 2 moscas em média (S = 3,07). Ao realizar a análise de variância verificou-se que o valor de F = 8,39 (p < 0,5) foi significativo, demonstrando que os valores médios obtidos nas áreas do membro torácico foram distintos entre si. Com a finalidade de comparar as médias observadas nas diferentes partes do membro torácico, foi aplicado o teste de Tukey, onde verificou-se que o número médio de moscas presentes na canela diferiu significativamente dos demais (p < 0,5).

Estes resultados podem ser explicados pelas observações realizadas a campo, onde se verificou-se que o reflexo cutâneo, bater dos membros ao solo e a ação da cauda (Figura 1)

que ajudam a espantar as moscas que pousam na pele, não são efetivos em áreas abaixo do joelho, como nas áreas mais próximas como na espádua, costado, braço, codilho e antebraço, facilitando desta forma com que as moscas venham a picar os locais abaixo do joelho, sem que sejam efetivamente espantadas (Figura 2). Tendo em vista a preferência de S. calcitrans para picar os membros dos animais, estes locais devem ser protegidos nas épocas de maior incidência. Para tal, podem ser utilizados inseticidas com ação repelente, com longo período residual e baixa toxicidade. Nas propriedades com animais de alto valor zootécnico, além das medidas citadas, podem ser passadas camadas finas de vaselina nos membros, bem como no caso de animais estabulados, podem ser utilizadas baias teladas para impedir ou minimizar a entrada de moscas. O manejo da matéria orgânica é de fundamental importância no arcabouço das medidas para o controle de S. calcitrans, já que esta mosca tem capacidade de se desenvolver em diversos tipos de matéria orgânica.


Figura 2. Canela e boleto do membro torácico de eqüino apresentando Stomoxys calcitrans se alimenando. Espírito Santo do Pinhal - São Paulo - Brasil.

RESUMO

Fazendo parte de um trabalho de sazonalidade, desenvolvido com eqüinos no município de Espírito Santo do Pinhal - SP - Brasil, avaliou-se a quantidade de moscas presentes no corpo de eqüinos, bem como a sua distribuição nas diferentes regiões zootécnicas. Verificou-se que as moscas picavam e sugavam o sangue principalmente nos membros torácicos, onde se obtiveram os percentuais mais elevados (13,9/S = 6,5), quando comparados às demais áreas do corpo. Quando se consideravam os membros torácicos, as moscas picavam principalmente nas regiões abaixo dos joelhos, se concentrando principalmente na canela. Isto pode ser devido a dificuldade em mover os membros torácicos, que suportam a maior parte do peso corporal dos animais, e devido ao fato de que o reflexo cutâneo, não atinge de modo eficaz as áreas abaixo dos joelhos.

* Deptº de Medicina e Cirurgia Veterinária, Instituto de Veterinária - UFRRJ - Rodovia BR 465, Km 7 - Seropédica - 23890-000 - Rio de Janeiro - Brasil - bittenc@ufrrj.br
** Deptº de Parasitologia Animal, Instituto de Veterinária - UFRRJ.
 

REFERÊNCIAS

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