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Parasitología al día

versión impresa ISSN 0716-0720

Parasitol. día v.24 n.3-4 Santiago jul. 2000

http://dx.doi.org/10.4067/S0716-07202000000300011 

Pavanelliella pavanellii Kritsky e Boeger, 1998
(Monogenea: Dactylogyridae) parasito das cavidades
nasais de
Pimelodus maculatus Lac., 1803, "mandi", das
bacias do Rio São Francisco e do Rio Paraná, Brasil

MARILIA DE C. BRASIL-SATO* e GILBERTO C. PAVANELLI**

Pavanelliella pavanellii
KRITSKY & BOEGER, 1998 (MONOGENEA:
DACTYLOGYRIDAE) PARASITE OF THE NASAL CAVITIES OF
Pimelodus maculatus LAC., 1803, FROM THE BASINS OF THE SAO FRAN-
CISCO AND PARANÁ RIVERS, BRAZIL

Specimens of monogeneans parasites found in the nasal cavities of Pimelodus maculatus from the São Francisco and Paraná rivers were identified as Pavanelliella pavanellii. Prevalence, mean intensity and mean abundance this species are presented. An ecological analysis of the results related to the drought periods and full of the river Paraná evidences that P. pavanellii is more abundant in the rainy station, whose temperature is higher. Pavanelliella pavanellii from P. maculatus is for the first time registered to São Francisco river, southeast Brazil.
Key words: Monogenea; Pavanelliella pavanellii; freshwater fish; Pimelodus maculatus; São Francisco river; Paraná river; Brazil.

INTRODUÇÃO

Pavanelliella pavanellii, monotípica foi descrita das cavidades nasais de Pseudoplatys-toma coruscans (Agassiz) do rio Baia, Mato Grosso do Sul e do rio Paraná, Paraná, e registrada também de Callophysus macropterus (Lichtenstein) do rio Solimões, próximo de Manaus, Amazonas.1 Pimelodus maculatus Lacépède, 1803, representa novo hospedeiro para P. pavanellii e o rio São Francisco, novalocalidade, ampliando a distribuição geográfica conhecida desta espécie no Brasil.

MATERIAL E MÉTODOS

Espécimes de P. maculatus conhecidos popularmente como mandi ou mandi-amarelo,2 foram coletados com tarrafa, espinhél e anzol por pescadores da CODEVASF (Companhia de Desenvolvimento do Vale do São Francisco) no rio São Francisco, região de Três Marias, MG, nos meses de julho de 1995 e 1996 (seca) e janeiro de 1996 e 1997 (cheia). No rio Paraná, espécimes de P. maculatus foram coletados na região de Porto Rico, PR, por pescadores do NUPELIA (Núcelo de pesquisa em Limnologia, Ictiologia e Aqüicultura) onde foram examinados no período compreendido entre junho e setembro de 1995/96 (seca) e entre outubro e março de 1996/97 (cheia). Os hospedeiros foram identificados,2 medidos e as cavidades nasais foram examinadas para coleta dos parasitos, os quais, foram processados3 e em seguida determinados ao nível específico.1 Para avaliação das possíveis diferenças entre o número de hospedeiros coletados por sexo e avaliação do comprimento padrão em relação ao sexo dos hospedeiros por período de coleta nos rios São Francisco e Paraná, foram aplicados os teste estatísticos Qui-quadrado (c2) utilizando tabela de contigência 2 x 2 com correção de Yates e o teste t de student (t), respectivamente. Para análise da amostra de monogenóideos do rio Paraná cuja prevalência foi superior a 10%,4 foram utilizados os testes estatísticos t de student (t), G Log-likelihood (G), U de Mann-Whitney com aproximação normal (Z), correlação de Pearson (r) e de Spearman (rs).5 O nível de significância considerado para os referidos testes foi p < 0,05. A distribuição dos monogenói-deos na população hospedeira amostrada foi calculada pelo Índice de Dispersão (ID) e pelo Índice de Green (IG).6 O grau de dispersão foi testado pelo Qui-quadrado (c2) e estatística d utilizando o modelo de distribuição binomial negativo.6 Foi utilizada terminologia ecológica aplicadas à parasitologia.7

RESULTADOS

Dos 258 espécimes de P. maculatus coletados, 143 foram provenientes do rio São Francisco e 115 do rio Paraná. Não houve diferença significativa no número de hospedeiro machos e fêmeas examinados por período de coleta no rio São Francisco (c2 = 1,288, p = 0,25), nem no rio Paraná (c2 = 0,036; p = 0,84). O comprimento padrão de P. maculatus do rio São Francisco variou de 11 a 27 cm nos machos e de 12 a 32 cm nas fêmeas. No rio Paraná, o comprimento padrão de P. maculatus variou de 9,5 a 29,5 cm nos machos e de 9 a 35 cm nas fêmeas. O comprimento padrão foi significativamente mais elevado nas fêmeas do que nos machos no período de cheia do rio São Francisco (t = -3,23, p = 0,002) e do rio Para-ná (t = -5,09, p < 0,001).

Os monogenóideos coletados (240 espécimes) das cavidades nasais de P. maculatus, alocados em Dactylogyridae Bychowsky, 1933, Ancyrocephalinae Bychowsky, 1937, foram identificados como P. pavanellii. Dos espécimes, 51 foram coletados de P. maculatus do rio São Francisco e 189 de P. maculatus do rio Paraná.

Essa espécie ocorreu em P. maculatus na seca e na cheia dos dois sistemas hídricos. No Rio São Francisco, 27 espécimes foram coletados na seca e 24 na cheia. No Rio Paraná, 75 espécimes foram coletados na seca e 114 na cheia. Considerando o período integral de coleta, a prevalência de P. pavanellii foi de 7,7% no rio São Francisco e foi de 29,6% no rio Paraná. A intensidade média foi 4,6 no rio São Francisco e 5,5 no rio Paraná. A abundância média foi de 0,7 no rio São Francisco e 1,6 no rio Paraná. Os valores de prevalência, intensidade média e abundância média nos períodos de seca e cheia estão apresentados na Tabela 1.

 

Tabela 1. Prevalência, intensidade média e abundância média de Pavanelliella pavanellii
das cavidades nasais de Pimelodus maculatus dos rios São Francisco e Paraná, Brasil



Locais de coleta
Rio São Francisco
Rio Paraná
Períodos de coleta
Seca
Cheia
Integral
Seca
Cheia
Integral

Prevalência
7,3
8,2
7,7
16,90
46,00
29,6 0
Intensidade médica
4,5
4,8
4,6
6,8
4,9
5,5
Abundância médica
0,9
0,6
0,7
1,1
2,3
1,6


No rio Paraná não houve diferença significativa na prevalência de P. pavanellii em relação ao sexo do hospedeiro nosperíodos de coleta (G = 0,731, 0,25 > p > 2,50 seca; G = 3,658, 0,05 > p > 0,10 cheia). A prevalência de P. pavanellii apresentou valores similares nas diferentes classes de comprimento padrão de P. maculatus nos períodos de coleta (r = 0,079, p = 0,866 seca; r = -0,121, p = 0,796 cheia). A intensidade média variou pouco em relação ao sexo de P. maculatus não caracterizando influência do sexo sobre as infrapopulações parasitárias de P. maculatus (t = 1,608, p = 0,142 seca; t = 0,66, p = 0,515 cheia). P. pavanellii apresentou abundância média mais elevada em hospedeiros fêmeas do que machos na seca (Z = -0,344, p = 0,731) e foi significativamente mais abundante em P. maculatus machos do que fêmeas na cheia (Z = 2,056; p = 0,03). A abundância média não variou significativamente com o tamanho dos hospedeiros durante os períodos de coleta (rs = 0,096 p = 0,446 seca; rs = -0,137 p = 0,342 cheia). A prevalência e a abundância média em relação ao sexo e o comprimento padrão do hospedeiro e a intensidade média em relação ao sexo de P. maculatus para todos os períodos de coleta estão apresentados na Tabela 2. P. pavanellii apresentou distribuição binomial negativa (ID > 1,0; IG > 0; d > 1,96), com baixo nível de agregação no rio São Francisco. No rio Paraná, cuja prevalência foi superior a 10%, os resultados obtidos foram similares (ID = 14, c2 = 1656, p > 0,05; d = 42; IG = 0,07).

Tabela 2. Prevalência, intensidade e abundância média* de Pavanelliella pavanellii em relação ao sexo e o comprimento padrão (CP) de Pimelodus maculatus coletados no rio Paraná, Brasil
 
 

Parâmetros
Período de seca
Período de cheia
Período Integral
Analisados
Testes1
Testes
Testes
Prevâlencia x sexo
G = 0,731
> 0,250
G = 3,658
> 0,05000
G = 1,416
> 0,10 00
Prevâlencia x CP
r = 0,0790
0,866
r = -0,121
0,796
r = 0,379
0,402 
Intensidade* x sexo
t = 1,6080
0,142
t = 0,660 0
0,515
t = 1,521
0,138 
Abundância* x sexo
Zc = -0,344
0,731
Zc 2,0560 0
00,03**
Zc 1,054 
0,291 
Abundância *x CP
rs = 0,096 
0,446
rs = -0,137
0,342
rs = 0,066
0,481 
 
1Testes estatísticos: G log-likelihood (G), correlação de pearson (r), t-student (t), U Mann Whitney com aproximação normal (Z) e correlação de Spearman (rs). **indica resultado estatístico significativo.


DISCUSSÃO

P. pavanellü foi alocada em Dactylogyridae1 segundo recente classificação filogenética7 na qual Ancyrocephalidae8 foi rebaixada ao nível de subfamília como proposta originalmente.

Considerando a ocorrência de P. pavanellii em P. maculatus no presente estudo e em outros hospedeiros pimelodídeos1, essa espécie pode ser considerada especialista até que novos estudos indiquem a potencialidade dessa espécie parasitar peixes de famílias diferentes.

P. pavanellii foi favorecida na cheia do rio Paraná, possivelmente pela elevação da temperatura10 (variação em torno de 11º C entre períodos de seca e cheia 11ºC)11 registrada para essa época entre outros fatores como alteração do comportamento reprodutivo coincidente com o período de cheia para P. Maculatus.12-13. A infestação por P. pavanellii não revelou preferência para tamanho e nem sexo do hospedeiro. No entanto, houve discreta diminuição na prevalência e na abundância média correspondente ao aumento do hospedeiro na cheia, elevação da prevalência e da intensidade média de infestação nos machos nos dois períodos de coleta e elevação significativa da abundância nos hospedeiros machos na cheia em relação à seca. As alterações nos níveis pluviométricos provocadas pelo regime de chuvas somada às diferenças de temperatura registradas no rio Paraná,10-11 provavelmente contribuíram para o aumento da freqüência de colonização desses ectoparasitos em relação ao sexo dos hospedeiros, o que aparentemente não ocorreu no rio São Francisco a despeito dos dados quantitativos do parasitismo por P. pava-nelliella terem sido mais baixos. Espécimes de P. pavanellii sempre foram encontrados imersos no muco da narina de P. maculatus e apresenta-ram limitação quantitativa das infrapopulações parasitárias demonstrando otimização de nichos nas cavidades nasais sem efeitos prejudiciais ao hospedeiro.14-15 A carga parasitária suportável em relação à disponibili-dade de espaço e/ou nicho restrito dos parasitos talvez indiquem aspectos sobre a especificidade que representantes de Dactylogyridae têm apresentado aos hospedeiros, co-evoluindo com eles.16

RESUMO

Espécimes de monogenóideos parasitos das cavidades nasais de Pimelodus maculatus dos rios São Francisco e Paraná foram encontrados e identificados como Pavanelliella pavanellii. Prevalência, intensidade média e abundância média de P. pavanellii em P. maculatus são apresentadas para os dois sistemas hídricos. Resultados da análise ecológica relacionados à períodos de seca e cheia do rio Paraná evidenciaram elevação da abundância média de P. pavanelli no período de cheia, no qual a temperatura é mais alta. Pavanelliella pavanellii é o primeiro registro de monogenóideos das cavidades nasais de P. maculatus e é pela primei-ra vez encontrada no rio São Francisco, Brasil.


Agradecimentos. Ao Dr Yoshimi Sato pelas facilidades oferecidas para a coleta dos hospedeiros e realização das necropsias no Laboratório de Ictiologia da Estação de Hidrobiologia e Piscicultura da CODEVASF, Três Marias, MG.

* Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, Caixa Postal 74539, Seropédica, RJ, Brasil, 23851-970. E-mail:mcbsato@ufrrj.br.
** Universidade Estadual de Maringá, Av. Colombo, 5790, NUPELIA/PEA, Maringá, PR, Brasil, 87020-900. E-mail: gcpavanelli@ppg.uem.br.

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