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Literatura y lingüística

versión impresa ISSN 0716-5811

Lit. lingüíst.  n.16 Santiago  2005

http://dx.doi.org/10.4067/S0716-58112005000100022 

 

Literatura y Lingüítica N° 16, págs: 321-335

Especial

Especial:poeta Affonso Romano de Sant'Anna


Presentación

Affonso Romano de Sant' Anna, es el poeta más importante de los últimos cincuenta años en el Brasil contemporáneo. Nacido en Juiz De Fora, en 1937. Su poesía muestra un decidido interés por la realidad mundana, los problemas de nuestro tiempo y el destino de la humanidad. La sencillez de su palabra es la otra dimensión de su capacidad de interpelar, con sutil ironía y agudeza lógica, la imaginación del lector y la reconstrucción de nuevos espacios de esperanza. Además de poeta, es un consolidado investigador y profesor de Literatura y Ciencias Sociales; ha difundido su poesía y su ciencia en Francia, Estados Unidos, Alemania y en América Latina. Fue presidente de la Biblioteca Nacional de Río de Janeiro, desde la cual ideó nuevos sistemas para poner el libro, sin mediaciones burocráticas, al servicio de la mayoría de los lectores. Como Director de la revista Poesia Sempre, ha establecido diálogos entre la lírica hispánica y la lusoamericana en nuestra región. Affonso fue jurado del premio Reina Sofía que galardonó al poeta chileno Gonzalo Rojas. También ha desarrollado labores de periodista en el Jornal do Brasil y en O Globo. El crítico Wilson Martins, autor de los siete volúmenes de Historia de la inteligencia brasileira, lo considera el suceso natural de Carlos Drummond de Andrade. Entre sus obras principales, podemos nombrar:

- O Desemprego do Poeta, (ensayo), 1962
- Canto de palvra, 1965
- Carlos Drummond de Andrade. Análise da obra, 1970
- Análise estrutural de Romances Brasileiros, 1973
- Poesia sobre poesia, 1975
- Por um novo conceito de literatura brasileira, 1977
- A grande fala do índio Guaraní, 1978
- Música popular e moderna poesía brasileira, 1978
- Que país é este?, 1980
- Emeric Marcier, (ensayo), 1983
- O canibalismo amoroso, (ensayo), 1984
- Política e paixáo,(ensayo y poesía), 1984
- A catedral de Colónia e outros poemas, 1985
- Paródia, paráfrasis, (ensayo), 1985
- Como se fa literatura, (ensayo), 1985
- A mulher madura, (crónicas), 1986
- A poesia possível, 1987
- O lado esquerdo do meu peito, 1992
- Epitáfio para o século XX, (antología), 1994
- El hombre bomba, (antología), Editorial Chile Poesía, 2005.

 

Brasil - Chile, ontem e hoje
(Conferência apresentada em Santiago do Chile
11-12 julho-2005, seminario Brasil-Chile,
patrocinado pela CEPAL e Embaixada do Brasil)

Affonso Romano de Sant'Anna

 

  "Por que hemos sido tan creativos en las artes e tan esteriles en la política y en la economía? Por que nuestros artistas e escritores han tenido tanta imaginacion y nuestros políticos ninguna?"
  ( Carlos Fuentes )

  " Pero nosotros los de entonces
ya no somos los mismos "
 
( Neruda )

Entendo que este seminário Brasil-Chile se propõe a ser uma reflexão sobre o trauma dos anos 60 e 70 e seus desdobramentos na vida política, econômica e cultural de nossos países. Costumo fazer uma observação tipo humor negro, afirmando que os militares daquelas décadas fizeram mais pela aproximação dos intelectuais do Cone Sul, do que os políticos democratas que gerenciaram o Mercosul desde sua origem. Por causa dos regimes autoritários instaurados na região naquela época, intelectuais e políticos conheceram uma diáspora que os forçou a conhecer melhor os vizinhos. Se intelectuais, jornalistas e cientistas políticos e sociais brasileiros, num certo momento invadiram o Chile e o Peru, nos governos de Allende e Alvarado, o Brasil, por sua vez, recebeu, por exemplo, uma horda de psicanalistas argentinos, muitos dos quais permaneceram em nosso país.

No caso brasileiro houve algo de mais particular, porque faz parte da cultura brasileira um certo insulamento em relação aos países vizinhos, o que faz que viciosamente os intelectuais brasileiros vivam de frente para a Europa e para os Estados Unidos e de costas para a América Latina. Eram poucas as exceções até os anos 60, quando os brasileiros começaram a finalmente descobrir a América, quer dizer -a America Latina*.

Faço um corte nessas considerações e introduzo aqui a narrativa de algo que ocorreu naquela histórica década de 60.

Conta Carlos Fuentes, que no verão de 1967 encontrou-se com Vargas Llosa num pub de Londres. Começaram a conversar sobre um livro que os havia impressionado, Patriotic Gore, onde Edmundo Wilson fazia o retrato de diversos personagens da Guerra Civil Americana. Imaginaram, então, que se poderia fazer algo semelhante a respeito da América Latina, só que, no caso, deveria ser um livro onde se retrataria uma série de ditadores latino-americanos.

Pensaram num livro escrito a várias mãos chamado Os pais das pátrias. Queriam descrever, por exemplo, o general mexicano Santa Anna, o perneta que gostava de rinhas de galo e que perdeu para os Estados Unidos grande parte do país; o ditador venezuelano Juan Vicente Gomes, que para testar seu poder, teve a ousadia de anunciar a própria morte, para poder, vivo, punir aqueles que a celebrassem. Também iria figurar nesse livro Maximiliano Hernandez Martinez que combateu uma epidemia de escarlatina en El Salvador, mandando envolver as lâmpadas dos postes com papel vermelho. Outro ditador seria o boliviano Enrique Penaranda, sobre quem a mãe arrependida disse: "Se eu soubesse que meu filho iria ser presidente , eu o teria ensinado a ler e a escrever". Outro ainda seria o paraguaio José Gaspar Rodrigues Francia, que nomeou-se a si mesmo Ditador Perpétuo , reinando entre 1816 e 1840 proibindo que o Paraguai comerciasse com qualquer país ou que qualquer pessoa recebesse cartas do estrangeiro.

A idéia era comentar o presente através do passado e para tanto iriam convidar uma dúzia de escritores latino-americanos. Cada um escolheria seu "tipo inesquecível", o seu ditador " preferido", e escreveria sobre ele uma novela de umas cinquenta páginas. Assim foram convocados Augusto Roa Bastos (Paraguai), Julio Cortazar (Argentina), Miguel Otero Silva (Venezuela), Garcia Marquez (Colômbia), Alejo Carpentier (Cuba), Juan Bosh (República Dominicana), José Donoso (Chile) e ainda do Chile -Jorge Edwards, não se sabe se por falta de romancista boliviano à mão ou por excesso de ditadores na Bolívia.

Olhando à distância este projeto seria legítimo indagar se não haveria nessas escolhas uma vocação para o surrealismo, para o fantástico, não apenas na realidade, mas na própria imaginação dos ficcionistas. Isto, aliás, justifica uma leitura carnavalizadora de nossa história como tantos têm feito na ensaística, a exemplo de Octavio Ianni em Carnavalização e tirania, quando considera uma série de obras que analisam parodisticamente nossa realidade política, econômica e cultural.

Seja como for, o Brasil não aparecia naquele projeto de Fuentes e Vargas Llosa. Evidentemente não é por falta de ditador ou de escritor. O fato é que a idéia parecia sedutora e logo um editor francês, Gallimard, se interessou. Contudo, passado algum tempo, o projeto fracassou. Fracassou em parte, porque pelo menos três romancistas cumpriram a promessa, e até melhor, se entusiasmaram e transformaram as simples novelas em romances: Garcia Marquez -O Outono do Patriarca, Roa Bastos -Eu, o Supremo e Alejo Carpentier- Razões de Estado.

Tomei conhecimento desse projeto dos anos 60, nos anos 80 quando o panorama político na América Latina já não era mais aquele das utopias revolucionárias de nossa juventude. Aí assistia-se a uma discussão entre Vargas Llosa e Garcia Marquez a respeito do mesmo tema. Agora, no entanto, em posições conflitantes. Vargas Llosa acusava Marquez de ser amigo de Fidel e pactuar com a ditadura comunista. Na mesma direção de Llosa ia Octavio Paz. O continente cultural começou a tomar partido. O correspondente na América Latina para o The New York Times, Alan Riding, em 1983, escreveu um longo ensaio "A revolução e os intelectuais na América Latina". Até o alemão Gunter Grass se viu envolvido na polêmica. Passados vinte anos da década de 60, a questão já não era tão simples como naquele pub londrino. Já não se tratava como ponderava Fuentes de saber se o romancista pode competir com a história e construir personagens mais fascinantes que esses desvairados ditadores latino-americanos.

Retomo aquele verso de Neruda, no seu mais conhecido "Poema 20" e o coloco agora em forma de indagação, inquirindo se nós, os daquela época ainda somos os mesmos. Ou, o que teria mudado em cerca de 40 anos. Afinal, é quase meio século. A história andou? Aliás, existe ainda história, como se tornou moda discutir há 15 anos atrás? Ou, então, de que história estamos falando?

Nos anos 60 acreditava-se na história. Numa certa história. História como um trem com destino certo que ia recolhendo os escolhidos e expulsando os reacionários e conservadores. Um conceito judaico-cristão-marxista de história: o presente apenas como uma espécie de inferno ou purgatório, mas sempre como véspera da redenção e do paraíso. Neste "intermezzo" a classe operária foi pateticamente ao "paraíso" mas regressou desiludida porque o endereço era equivocado. E entre os intelectuais,alguns não passaram sequer do purgatório enquanto outros conheceram o inferno mesmo.

De um ponto de vista convencionalizado pelas teorias de nossa época, passamos da modernidade para a pós-modernidade, da utopia para a anti-utopia. Do discurso unívoco e em forma de flecha que se encontra em Cristo, Hegel e Marx -que parte do gênesis e vai ao apocalipse ou à redenção, pratica-se hoje o discurso da dispersão, da fragmentação, do descentramento. Isto faz com que muitos fiquem girando em torno do próprio umbigo ou do vazio porque lhes parece que os fatos não têm mais centro de gravidade. Ou seja, a ideologia da pós-modernidade quer nos convencer da gratuidade e do aleatório de tudo. E para nos consolar traçam em torno do caos a linha imaginária da globalização, como se ela fosse capaz de configurar e exaurir nossa perplexidade. Deste modo a pós-modernidade pode mesmo ser descrita naquela imagem de Susan Garblik segundo a qual, na pós-modernidade, é como se as pessoas estivessem a bordo do Titânic, mas se contentam de apenas trocar as cadeiras de lugar no convés ao invés de evitarem o choque com o iceberg.

Nessas alturas é necessário proceder a uma série de revisões e questionamentos. E o que penso a respeito pode ser sinteticamente adiantado nessa frase: é urgente procedermos a uma revisão critica da modernidade (que teve o seu esplendor na primeira década do século XX) e da pós-modernidade( que disseminou-se a partir dos anos 60 e teve seu apogeu nos anos 80), para alcançarmos algum avanço epistemológico no conhecimento de nossa realidade sócio-artistica-econômica.

A única maneira de entrarmos de vez no século XXI é passarmos a limpo o século XX com todos os seus acertos e equívocos. Sei que a história não se regula por séculos e décadas, mas é necessário estabelecer alguns cortes ou revisões epistemológicas, para através de um certo distanciamento teórico percebermos a "diferença" e a "identidade" entre o "antes" e o "agora", entre 1960 e 2005.

Neste sentido, é necessário reconhecer que viemos de uma geração de utópicos que teve nos anos 60 do século passado seu momento de martírio, glória e decepção. Estávamos convencidos de que a história da América Latina estava dividida hegelianamente em três estágios que interagiam dialeticamente.

Segundo essa leitura colegial que eu mesmo pratiquei na minha juventude, a primeira fase teriam sido os três primeiros séculos de colonização sob o domínio espanhol e português. Aqui éramos simples "tabula rasa" da exploração européia. Encarados como "objetos " pelos " sujeitos" exploradores, éramos a "matéria prima" bruta e passiva a partir da qual os colonizadores produziam seu poder e lucro.

A segunda fase teria sido o período que cronologicamente coincide com o século XIX, quando nossos países conheceram a independência política e acionados pela ideologia liberal e romântica deram espaço aos individualismos dos grandes heróis, fossem generais, fossem políticos ou intelectuais revolucionários. É o período que chamávamos de afirmação nacionalista, quando o colonizado viu o despertar a consciência histórica de nossos povos.

À primeira fase de domínio do colonizador e à segunda fase do surgimento da consciência nacional, ainda de acordo com aquela leitura marxista juvenil, teria sobrevindo, para nós, dos anos 60, a fase verdadeiramente revolucionária. E Cuba era o estimulante exemplo. Num dos momentos mais maniqueistas da história, quando se dividia o mundo entre Ocidente e Oriente, entre capitalismo e comunismo, entre reacionários e revolucionários, a utopia de esquerda sonhava( e eu diria, delirava) com uma sociedade igualitária, onde os exploradores seriam punidos ou contidos e os trabalhadores gratificados pela produtividade e idealismo.

Como era fácil engendrar a história naquele tempo!

Todos se lembram daquela frase de John Lenon gerada também nos anos 60- " o sonho acabou". Diria que é uma frase que teria sua maior eficácia quando aplicada ao contexto, por exemplo, latino-americano. Porque, se no caso dos Beatles a frase se referia à decepção narcísica num universo consumista, capitalista e de drogas, no contexto latino-americano a situação era ampla: social e politicamente mais patética. Pois o que entrava em colapso era todo um conceito de história e o que se configurava era a aporia de toda uma geração que acreditou na utopia.

Ah, as utopias! Num poema derivado desse impasse eu já dizia:

Utopias
são facas
de dois
gumes:

num dia
dão flores,
noutro
são estrume.

Na travessia
do deserto
as utopias
são miragens.

Mas como
se alimentar
de paisagens?

As utopias
mobilizam
e a longo prazo
paralizam.

Utopias
são ambiguas
podem aliviar
no presente
as fadigas,
mas no futuro
levam a um muro
sem saída.

Mais que
dilema
bigume
estrela
e negrume
trampolim
e tapume
ou fênix
implume
nenhuma
imagem
as utopias
resume.

As utopias
são facas
de três gumes.

Em dois livros de poemas, em A grande fala do índio guarani (1978) Que país é este? (1980), metaforizando, pois, algo que os ensaios não conseguiam exprimir , tentei também retratar a perplexidade minha e de toda uma geração que teve que roer o próprio osso e recomeçar do zero a partir do duro aprendizado dos anos 60 e 70.

Eu estava no International Writing Program em 1968-69, na Universidade de Iowa, e ali havia alguns escritores chilenos. Como brasileiro, estava mal saindo da tomada do poder pelos militares em 1964, quando sobreveio o AI-5 de 1968, e a ditadura se implantou abertamente no Brasil como resposta clara às primeiras investidas de grupos revolucionários e guerrilheiros. Um escritor chileno -meu amigo- ali estava em plena euforia com o advento, essa é um a boa palavra - "advento"- de Salvador Allende aqui no Chile. Eu como brasileiro, evidente, curtindo o purgatório e o inferno da nova realidade ditadorial no Brasil. Lembro-me de haver registrato num poeminha mordaz esse diálogo entre um chileno e brasileiro na ocasião:

Chile 1968

Me dizia o poeta chileno na neve americana:
-nosso exército é democrático
-o povo politizado
-Allende é senador
e em quatro anos
será nosso presidente.

Eu, descrente
00000000000000000vaticinei
algo que o feriu
com a dureza de um golpe vil:
-quer saber o que vai se passar no Chile?
Leia a história do Brasil.

As relações entre o Brasil e Chile existem num universo não dualista ou paralelo, ou seja, não é um simples diálogo entre dois amigos alienados de um contexto. As relações entre nossos países há quarenta anos ,em 1960, hoje, ou há 500 anos têm sido sempre mediadas por um forte terceiro elemento, uma força de gravidade colocada for a de nossos solos.

Ontem esse imã, ou como se diz em astronomia esse " grande atrator" era naturalmente a Europa, de onde vieram os exploradores do continente. Hoje esse grande atrator quase planetário são os Estados Unidos. Por isto esta tensão entre as tentativas, de um lado, de estabelecer o Mercosul com seu caráter mais local e quase nativista e, por outro, a implantação da Alca com sua aspiração globalizante.

Estou me lembrando da Conferência dos Chefes de Estado Latino-Americanos, que se realizou duplamente na cidade do México e em Acapulco em 1987. Além das conferências dos presidentes dos respectivos países, estávamos lá também um grupo de intelectuais capitaneados por Octávio Paz discutindo as sempre mesmas e interminaveis questões em torno de nossa identidade. Lembro-me, então, de Leopoldo Zea, o pensador mexicano, reafirmando algo que já havia posto em outros escritos seus, dizendo que a América, na verdade, não foi "descoberta", senão "recoberta".

Era uma afirmação arguta, desnorteadora, uma espécie de reformulação epistemológica sobre nossas origens. Assim dito, nossa história teria que ser revista. Não teria se iniciado, como julgavam os europeus, quando eles aqui chegaram, considerando-se, portanto, todo o passado como aquela "tábula rasa", como se os indígenas não tivessem qualquer espécie de história. Nessa perpectiva quase geológica de Zea, a América teria recebido diversas camadas civilizatórias, com tudo que implicam de devastação, ocultamento, soma e progresso. Camadas históricas perpetradas por portugueses, espanhóis, franceses, holandeses, ingleses, alemães e, recentemente, americanos. Dessa perspectiva geohistórica, fazer história então era descobrir essas camadas, procurar nelas e/ ou antes delas a nossa identidade.

É um pensamento instigante, mas que, por outro lado, deixa entrever a ingênua idéia de que haveria um "princípio", uma "origem", uma "arché" como diria Derridá, uma América pura e original que pudesse ser idealmente resgatada.

Claro que essa teoria do "recobrimento" ao invés da do "descobrimento" tem a vantagem de reavaliar a cultura indígena anterior a 1500 e entender que as culturas ágrafas e chamadas primitivas, também são cultura, que cultura não começa quando chega o invasor com seu alfabeto, suas armas e religião. Como já dizia Levi-Strauss, as culturas ágrafas também têm seus sábios.

Lembro de um cacique da tribo guarani que conheci, cujo nome em sua língua significava "Deus pequeno". Foi dos maiores oradores que já ouvi e confessava ter aprendido a ler lendo a "Seleções Reader Digest". Pois discursando para o papa João Paulo II, na Amazônia, em 1980, impressionou o Sumo Pontifice de tal maneira, que este queria saber qual foi a formação do índio. Nesse seu discurso,sem ter lido Leopoldo Zea, entre outras coisas ele dizia: "Dizem que o Brasil foi descoberto, o Brasil não foi descoberto, não, santo padre, o Brasil foi invadido e tomado dos indígenas do Brasil. Esta é a verdadeira história do nosso povo, santo padre".

Neste sentido é sempre didático retomar aquele incidente que alguns ensaistas ( como Tzvetan Todorov, A conquista da América) mencionam e interpretam, o primeiro diálogo entre o colonizador e o indígena americano.

Diz-se que quando Colombo aportou na América Central, seus homens desceram à terra e tentaram estabelecer contato com os locais. Então, vestidos de arrogância européia perguntaram normalmente em sua lingua, em espanhol, àqueles índios: - "Que pais é este?".

Os índios responderam: -"Mac' ubath than". Os marinheiros de Colombo entenderam. "Yucatan". Acharam que tinham chegado num lugar chamado Yucatan, e de fato acabaram pondo o nome de Yucatan naquelas terras. No entanto, o que os indígenas estavam dizendo era outra coisa. "Mac' ubatdh than" que significa: "não entendemos o que vocês estão dizendo".

Isto significa que o primeiro diálogo aqui travado entre um europeu e um indio foi um equívoco, um não-diálogo. Um falava uma coisa, o outro respondia outra. E desse deslizamento de significados discursivos foi se fazendo a história. Por isto, é que estudar História é rever os discursos, as chamadas " formações discursivas" de que falava Foucault, ou os discursos linguísticos mesmo, como diz a Linguística e a Teoria da Literatura.

Verdade seja dita que depois de Colombo a expedição de Cortez trouxe já alguns intérpretes e quando Cabral chegou ao Brasil trouxe alguns homens que falavam até seis línguas e deixou pelas praias vários condenados para que aprendessem o idioma indígena e servissem de intérpretes para os futuros desembarques dos colonizadores.

Curioso como 500 anos depois, no Brasil de hoje, ainda se pode ter a sensação do que teriam sentido os índios quando aqui chegaram os europeus. Há poucos anos, no Brasil, quando começou a tentativa de colonização do território dos ianomanis, na Amazônia, tomamos conhecimento do que falou um desses chefes indígenas: "Quando os avistei (os homens brancos), chorei de medo. Pensei que eram espíritos canibais e que iam nos devorar.Eu os achava muito feios,esbranquiçados e peludos. Eles eram diferentes que me aterrorizavam. Além disto, não compren dia nenhuma de suas palavras emaranhadas".

Estamos em 1500 ou em 2005?
Estamos em 1960 ou em 2005?

Numa entrevista dada ao Magazin Dominical em Bogotá, em 1982 Carlos Fuentes faz uma ponderação intrigante: "Por qué hemos sido tan creativos en las artes y tan esteriles en la política y en la economía? Por qué nuestros artistas y escritores han tenido tanta imaginación y nuestros políticos ninguna? ". E mais adiante ainda acrescentava: "En el día que a sociedad civil sepa trasladar a la economía y a la política los mismos valores que ha sabido allegar a la cultura latinoamericana creo que vamos a ser un continente extraordinario".

Num passado recente Vargas Llosa -um daqueles que estavam fazendo a revisão crítica dos "pais da pátria" decidiu lançar-se candidato `a presidência do Peru. Estava imbuído da idéia missionária de que se deve juntar palavra e ação, estava convencido de que, como falou várias vezes, neste continente, o simples fato de ser alfabetizado é uma responsabilidade, e ser escritor, então, uma responsabilidade ainda maior. Decidiu, por isto, partir para essa aventura de alto risco.

Lembro-me de ter ouvido de Octávio Paz que , sendo amigo de Vargas Llosa, torcia para que ele perdesse as eleições, porque o seu lugar era a literatura e ele ia acabar se frustrando no pantanoso mundo da política.

Com efeito, tendo perdido as eleições, Vargas Llosa escreveu o livro, El pez en el agua, relatando suas experiências de intelectual-candidato. E numa entrevista dada à revista Somos (22.3.1993), entre outras coisas disse: "Porque lo que me resultó más chocante fue descubrir cómo las ideas no tienen el menor papel en la actividad política, cómo tampoco los valores, ni la imaginación. Todo está librado a la maniobra, a la intriga, al juego más cínico y que tiene una enorme eficacia y decisiva en la acción política. Creo que eso es importante tenerlo en cuenta, saber que la política es también eso y quien quiera hacer política, guiado por valores, debe saber jugar ese otro juego".

Certa vez , em 24.5 1994 li no "El pais", um artigo de Jorge Edwards que começava assim: "Nosotros estamos comprometidos con la relatividad" -me dice un joven universitario- "con el 'depende'. Cuando nos preguntan si estamos a favor de un asunto determinado, de una ley, de una política, contestamos, depende de esto, depende de esto otro. No conocemos las grandes pasiones ideológicas, las ilusiones, las utopías de las generaciones anteriores. Sentimos que estas generaciones se equivocaran y que a nosotros nos ha tocado pagar las consecuencias".

No resto do artigo o romancista chileno mostrava realmente que ele vinha de outra geração, mas que para ele as coisas não "dependem" dentro desse relativismo fácil e cômodo.

A mim, essas palavras me fazem pensar na situação dos intelectuais hoje em face do que se chama genericamente de pós-modernidade.

O que o nosso teatro, a nossa música, o nosso cinema, a nossa poesia, o nosso romance, a nossa dança, a nossa arquitetura, enfim, o que a nossa cultura tem feito neste contexto? Possivelmente encontraremos aí polarizados dois tipos de artistas e intelectuais. Se bem que todo artista tende a ser sintoma de sua época, há alguns artistas que são puramente sintomáticos, não apenas revelam a enfermidade, a doença de seu tempo, mas ajudam a espalhar essa doença e enfermidade, porque não sabem ler o conjunto de sinais que semiologicamente a sociedade emite.

Por outro lado, existem artistas que são mais autênticos que simplesmente sintomáticos. Eles captam os sinais de seu tempo, e transformam a tempestade e os raios em energia, gerada na sua usina criativa, enquanto os demais apenas se deixam abater, se pulverizar como dizia Heidegger no não-sentido da polis de seu tempo. Enquanto os artistas puramente sintomáticos se entregam ao caos, o artista autêntico diante da negatividade do caos e do ordem do cosmos, cria o caosmos.

Neste sentido, o desafio comum que vejo para os intelectuais e artistas chilenos e brasileiros é nitidamente este: proceder à revisão urgente não apenas da década de 60, mas da modernidade e da pós-modernidade, não com os pés no retorno ao século XIX, mas com os pés no século XXI. Uma revisão impiedosa, que sendo uma auto-critica, seja um enfrentamento com os ídolos de ontem, porque a maior homenagem que se pode fazer a um contestador de ontem é contestá-lo hoje.

Com efeito, se olharmos a história da arte e do pensamento do século XX teremos, de certa forma, uma lúgubre imagem. Aí se falou exaustivamente da "morte da arte", da "morte da poesia", da "morte do romance", da " morte do homem", da "morte do sujeito", da "morte da história", da " morte de Deus". Enfim, essa sequência de mortes nos convence que o século XX é um cemitério, um vasto cemitério.

Façamos a autópsia desse século. Procuremos a " causa mortis" de tantas idéias e ideologias. A ordem é recomeçar. Já dizia Nietzsche o suicida e coveiro de tantas idéias, que só pode haver ressureição onde houver morte. Não se trata, portanto, de regressar, mas de recriar algo novo que com o novo século se inicia. Mas para que isto se faça é preciso fazer o "Epitáfio do Século XX":

1. Aquí yace un siglo
donde hubo dos o tres guerras
mundiales y millares
de otras pequeñas
e igualmente bestiales.

2. Aquí yace un siglo
en que se creyó
que ser de izquierda
o de derecha
eran cuestiones centrales.

3. Aquí yace un siglo
que casi se esfumó en la nube atómica.
Se salvó por suerte
y por los pacifistas
con su homeopática
actitud
- nux vómica.

4. Aquí yace un siglo
que un muro dividió.
Un siglo de concreto
armado, canceroso,
drogado, apestado,
que al fin sobrevivió
a las bacterias que parió.

5. Aquí yace un siglo
que se abismó
con las estrellas
en las telas
y que el suicidio
de supernuevas
contempló.
Un siglo filmado
que el viento se llevó.

6. Aquí yace un siglo
semiótico y despótico,
que se creyó dialéctico
y fue sidoso y patético.
Un siglo que decretó
la muerte de Dios, la muerte de la História,
la muerte del hombre, en que se pisó la luna
y se murió de hambre.

7. Aquí yace un siglo
que oponiendo clase a clase
casi se desclasificó.
Siglo lleno de anatemas,
antenas, siberias y gestapos
e ideológicas safenas;
siglo tecnicolor
que todo transplantó
y el blanco con el negro
a la fuerza juntó.

8. Aquí yace un siglo
que se echó en el diván.
Siglo narciso & esquizo
que no pudo computar
sus neologismos.
Siglo vanguardista,
marxista, gerrillero,
terrorista, freudiano,
proustiano, joyceano,
borges-kafkiano.
Siglo de hippies y utopías
que en un chip entrarían.

9. Aquí yace un siglo
que se llamó moderno
y mirando soberbio
el pasado y el futuro
se creyó eterno;
siglo que de sí
hizo tal alarde
y, sin embargo,
0000- se va ya muy tarde.

10. Fué duro atravesarlo,
Muchas veces morí, otras
quise volver al XVIII,
o al XVI, saltar al XXI, salir de aquí
¿ a qué lugar?
0000- Ninguno.

11. Piedad, oh vosotros,
que en otros tiempos nos juzgáis
desde la amena galaxia
en que irónicos estáis.
Piedad de nosotros,
-modernos medievales-
piedad de nosotros, como Villon
y Brecht, que por mi voz
de nuevo imploran. Piedad

de los que en este siglo vivieron
per omnia secula seculorum.

 

* De minha parte, me permito relatar um esforço de aproximação entre o Brasil e a América vizinha seja como secretário geral da Associação de Bibliotecas Nacionais Iberoamericanas, como secretário geral do Centro Regional para o Fomento do Livro e da Leitura na América Latina e no Caribe, quanto como presidente da Fundação Biblioteca Nacional, quando além de editar publicações brasileiras em espanhol, de promover a presença da literatura e do livro brasileiro nas feiras do continente, trouxemos ao Brasil escritores latino-americanos, lançamos a revista "Poesia Sempre", que não só mantinha uma seção com poetas latino-americanos vivos e seus poemas em espanhol mesmo, sem tradução, mas promoviamos o lançamento dessa revista em diversas capitais latinoamericanas integrando os poetas vivos do continente.

 

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