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Parasitología latinoamericana

versão On-line ISSN 0717-7712

Parasitol. latinoam. v.57 n.1-2 Santiago jan. 2002

http://dx.doi.org/10.4067/S0717-77122002000100006 

Parasitol Latinoam 57: 21 - 24, 2002
FLAP

Distribuição e frequência de larvas de Dermatobia
hominis
(Linnaeus Jr., 1781) (Diptera: Cuterebridae)
em peles de bovinos

ARGEMIRO SANAVRIA*, CELSO GUIMARAES BARBOSA**, E. S. BEZERRA***,
M. C. MORAIS,**** e P. C. GIUPPONI****

DISTRIBUTION AND FREQUENCY OF THE LARVAE OF THE Dermatobia hominis
(LINNAEUS Jr., 1781) (DIPTERA: CUTEREBRIDAE) IN CATTLE SKIN

The Dermatobia hominis larvae (Linnaeus Jr., 1781) (Diptera: Cuterebridae) causes a subcutaneous nodular miyasis and brings about irreversible perforation on skin, which damages the leather and therefore lowers its price for commercialization. The main purpose of the present work is to establish the larva distribution in cattle corporal area and also to define the infestation according to sex, age and color of skin. This survey was elaborated covering 8124 cattle slaughted in a slaughterhouse in Nilópolis city, Rio de Janeiro state, Brazil, with the intention of to identify larvae localization and distribution. The leather surface was divided into four regions: I (left anterior quadrant), II (right anterior quadrant), III (left posterior quadrant), IV (right posterior quadrant); the skin color was also registered. 84,8% leather skin examined were totally free from parasite. The incidence of parasited on region I was significantly larger: 33.4% (3029), on region II 30.9% (2796), on region III 20% (1813), on region IV 15.7% (1423). As to sex frequency the females presented more parasites 16.7% (342) than the males 14.7% (894). The adults were more vulnerable (15.4%) than the younger ones (12.1%). The parasite appeared more in black skins (18.1%), black and red (15.2%), black and white (15.3%), red (15.2%), spotted (13.2%), gray (11.8%).
Key words: Dermatobia hominis, Cattle, Leather, Skin.

INTRODUÇÃO

A larva da Dermatobia hominis causa uma miíase nodular subcutânea, que em bovinos representa prejuízos para a pecuária, e na comercialização do couro. Provoca perfurações em suas peles de caráter irreversível, o que compromete a qualidade do couro1.

O controle de bernes possibilita a obtenção de peles de melhor qualidade e, em conseqüência, maior valorização na comercialização; por isso tem demonstrado um maior rendimento em metro quadrado de pele, nos bovinos tratados com bernicidas no intervalo de 8 em 8 semanas2.

Através de um inquérito epidemiológico, abrangendo 82% dos bovinos existentes no Brasil, constatou-se que o berne está presente em 20 Unidades Federativas, correspondendo a 2.374 municípios (76,4%). Apenas em algumas regiões do Norte e Nordeste não se registrou a ocorrência de D. hominis. Nesta avaliação, foi constatada que o berne, juntamente com carrapatos e bicheiras, causam anualmente uma queda na produção de carne de 727 mil toneladas, 1,6 bilhões de litros de leite e danificam cerca de 70% do couro, o que obriga a importação de peles destinadas a fabricação de artefatos de couro3.

Relatos têm sido feitos com relação a qualidade brasileira do couro: 15% são de primeira qualidade, 40% de segunda, 30% de terceira e 15% refugo4.

As peles dos bovinos infestados pela larva deste díptero tornam-se inúteis para o uso na indústria de couro. Não se tem os valores exatos dos prejuízos causados pelo berne, mas sabe-se que são de grande proporção. Para se ter um exemplo, peles com 10 a 20 perfurações em sua região nobre, perdem de 30 a 40% de seu valor comercial5.

O presente trabalho teve como objetivo verificar a localização e distribuição das larvas na superfície corporal da pele dos bovinos, determinando a freqüência das infestações com relação ao sexo, idade e cor da pelagem.

MATERIAL E MÉTODOS

O estudo foi realizado no frigorífico de Nilópolis, Estado do Rio de Janeiro, no período de um ano, com visitas semanais ao estabelecimento. O número total de animais inspecionados foi de 8.124. Para mapeamento das peles utilizou-se uma ficha com a identificação da pelagem e localização dos nódulos. A pele foi dividida segundo a técnica6, onde foi traçado um eixo principal dividindo em dois antímeros, direito e esquerdo; depois um plano de metameria dividindo em metâmero cranial e caudal, obtendo desta maneira quadrantes, (Figura 1). Registrou-se também o sexo, idade e cor da pelagem dos animais.

Figura 1. Divisão topográfica da pele dos bovinos.

Para a comparação dos percentuais da presença de nódulos da D. hominis nas diferentes categorias, utilizou-se o teste de qui-quadrado (x2)7.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

A freqüência de nódulos de D. hominis em relação ao sexo dos animais foi significativamente maior (P < 0,05) nas fêmeas (16,7%) que nos machos (14,7%) Tabela 1. Resultados de outras pesquisas não constataram diferenças entre os sexos, afirmando que este não é um fator que impede nem favorece a parasitose6.

Com relação à idade, pode ser observado na Tabela 2, que a presença do berne foi significativamente maior (P < 0,05) nos animais adultos (15,4%), que nos jovens (12,1%).

Quanto à freqüência de ocorrência do parasito e a pelagem, observa-se na Tabela 3, que o aparecimento das larvas de D. hominis foi significativamente (P < 0,01) diferente para as pelagens dos animais, sendo mais freqüente nos animais de pelagens escuras. Resultados estes que foram compatíveis com os obtidos em outro estudo, que atribuíu a esse fato da pelagem interferir na parasitose, pois animais com pelagens escuras tendem absorver mais calor e emitem determinadas ondas longitudinais que estimulam e atraem os insetos veiculadores6.

O aparecimento de nódulos de berne relacionado com a região corpórea foi significativamente maior no quadrante anterior esquerdo, com 33,4% como visto na Tabela 4. Esse resultado concorda com os obtidos por vários autores na Argentina8 e Costa Rica9. Em outras pesquisas em São Paulo10 foi encontrada uma freqüência de 55,5% a 71,4% de parasitismo na região da paleta, em (1985)11 em Minas Gerais verificou-se 49,8% na mesma região, na Costa Rica em6 observou-se que 60,1% de bovinos encontraram-se infestados no lado esquerdo, e apenas 10,4% no lado direito. A freqüência da parasitose na Costa Rica, em bovinos indicaram que o quarto posterior esquerdo (21,5%) é o mais parasitado, em seguida o quarto anterior direito (18,1%), depois o quarto anterior esquerdo (9,32%), e finalmente o de menor freqüência foi o quarto posterior direito (0,8%)9.

Um estudo feito em Minas Gerais11 em que dividiram em cinco regiões o corpo dos bovinos, foi constatado que a região com maior freqüência foi a paleta (49,8%), em seguida a região dorsal e lateral (29,1%), cabeça e pescoço (10,4%), região posterior (6,1%) e membros (4,5%). Entretanto, em outra pesquisa realizada em Mato Grosso12, os autores não encontraram diferenças significativas no grau de infestação das diferentes partes do corpo, nos meses de maiores infestações (julho, agosto, setembro e outubro). Porém, nos meses de menor infestação verificaram-se diferenças significativas (P < 0,05), sendo as regiões da paleta e tronco as mais infestadas.

Um estudo sobre a distribuição de bernes nas regiões do corpo dos bovinos encontrada em Minas Gerais, evidenciou diferenças significativas entre as regiões, sendo a maior infestação encontrada no costado (40,1%), em seguida na paleta (19,1%) e a menor na garupa (8,6%). Não foi encontrada diferença significativa entre infestações do lado direito e esquerdo13.

Em um estudo realizado em São Carlos no Estado de São Paulo14 foi observado maior incidência de nódulos de D. hominis no lado esquerdo dos animais, justificando-se este fato pela preferência dos bovinos pelo decúbito látero-esternal direito, expondo por mais tempo o lado esquerdo. Em outro estudo na mesma região15 constatou-se que o local de maior incidência parasitária foram: membro torácico, barbela e escápula, atribuída ao efeito da "vassoura" caudal como responsável pelo baixo índice de parasitismo na região posterior.

RESUMO

A larva da Dermatobia hominis (Linnaeus Jr., 1781) (Diptera: Cuterebridae) causa uma miíase nodular subcutânea que provoca perfurações irreversíveis na pele; fato esse que compromete a qualidade do couro, causando prejuízos em sua comercialização. O presente trabalho objetivou verificar a localização e a distribuição das larvas na superfície corporal dos bovinos, determinando a freqüência das infestações com relação ao sexo, idade e cor da pelagem. Foi realizado um levantamento em 8.124 peles de bovinos abatidos em frigorífico do município de Nilópolis, Estado do Rio de Janeiro, Brasil, para identificação da localização e distribuição das larvas. O couro teve a superfície dividida em quatro regiões: I (quadrante anterior esquerdo), II (quadrante anterior direito), III (quadrante posterior esquerdo), IV (quadrante posterior direito). Registrou-se também a cor da pelagem e idade dos animais. Do total de couros examinados 84,8% (6.888) estavam isentos de berne. A incidência de parasitas na região I foi significativamente maior 33,4% (3.029), na região II 30,9% (2.796), na região III 20% (1.813), na região IV 15,7% (1.423). Com relação à freqüência de ocorrência por sexo, a presença do berne foi significativamente maior nas fêmeas 16,7% (342), do que nos machos 14,7% (894). Em relação à idade dos bovinos, nos animais adultos foram observados (15,4%) dos nódulos, e nos jovens (12,1%). A incidência do berne por cor de pelagem foram mais freqüentes na pelagem preta (18,1%), preta e vermelha (15,4%), preta e branca (15,3%), vermelha (15,2%), malhada (13,2%) e cinza (11,8%).

REFERÊNCIAS

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*Departamento de Epidemiologia e Saude Pùblica, Instituto de Veterinaria, Universidad Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), BR 465, KM 47, 23890-000, Cx.P. 74556, Seropèdica, RJ, Brasil. E-mail: sanavria@ufrrj.br

** Departamento de Matemàtica, UFRRJ...
*** Departamento de Producao Animal, UFRRJ.
**** Mestrandos do Curso de Pòs Graduacao em Medicina Veterinària, UFRRJ.

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