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Parasitología latinoamericana

versión On-line ISSN 0717-7712

Parasitol. latinoam. v.60 n.3-4 Santiago dic. 2005

http://dx.doi.org/10.4067/S0717-77122005000200008 

 

Parasitol Latinoam 60: 150 - 153, 2005 FLAP

ARTÍCULO ORIGINAL

Infecção por Kudoa Meglitsch, 1947 (Myxozoa: Multivalvulida) em musculatura esquelética de espada Trichiurus lepturus L. (Teleostei: Trichiuridae)

Kudoa MEGLITSCH, 1947 (MYXOZOA: MULTIVALVULIDA) INFECTION IN SOMATIC MUSCLES OF CUTLESS FISH Trichiurus lepturus (TELEOSTEI: TRICHIURIDAE)

 

CAROLINE DEL GIUDICE DE ANDRADA*, ROGERIO TORTELLY** PATRÍCIA PEREIRA NOGUEIRA*, CLAUDIA LEAL ANDRADE* e FRANCISCO CARLOS DE LIMA***

* Médicas veterinárias.
** Serviço de Anatomia Patológica Veterinária. Prof. Jefferson Andrade dos Santos - Depto de Patologia - Fac. Veterinária/UFF.
*** Depto Tecnol. de Alimentos - Fac. Veterinária/UFF - Rua Vital Brazil Filho, 64/Niterói-RJ.


The presence of Kudoa sp in somatic muscle of cutless fish (Trichiurus lepturus) captured at Itaipu beach, Niterói, Rio de Janeiro, is been reported. It was used as samples 47 specimes, measured and necropsied at the Laboratório de Inspeção e Tecnologia de Pescado da Faculdade de Veterinária daUniversidade Federal Fluminense. The tissues were processed for paraffin inclusion and stained by hematoxilina-eosin. From the total samples, nine of them (19,15%) showed plasmodic type cists in muscular fibers without inflammatory reaction. It was four valves, the principal feature of the genus. The number of cysts varied from one to 15, with a average of 5,1. The length and width average of cysts were 82,57 and 28,27, respectively. The length average of positive fishes was 116cm. The smaller animal (68,0) showed more cysts. It was not observed myoliquefaction even several hours after captured.

Key words: Kudoa, Trichiurus lepturus, Brazil.


RESUMO

A presente pesquisa reporta a presença de lesões causadas por Kudoa sp. nas fibras musculares somáticas de espada (Trichiurus lepturus L.), capturado na praia de Itaipu, Niterói, Rio de Janeiro. Utilizou-se, como amostragem, 47 exemplares, que foram medidos e necropsiados no Laboratório de Inspeção e Tecnologia de Pescado da Faculdade de Veterinária da Universidade Federal Fluminense. As amostras de tecidos foram processadas para a técnica de inclusão em parafina e coloração pela técnica de hematoxilina-eosina. Do total de espécimes amostrados, 9 (19,15%) apresentavam, nas fibras musculares somáticas, cistos parasitários, do tipo plasmódio, com ausência de reação inflamatória. Os parasitos possuiam quatro válvulas, apresentando morfologia característica do gênero Kudoa. A variação no número de cistos foi de um a quinze, com média de 5,2. As médias dos comprimentos e das larguras dos cistos foram de 79,74 mm e 31,22 mm, respectivamente. O menor animal (68,0cm) apresentou o maior número de cistos. Não foi observada miolique-fação em T. lepturus.


 

INTRODUÇÃO

O gênero Kudoa compreende os parasitos mixosporídeos que apresentam quatro válvulas, sendo conhecidas, até a presente data, 46 espécies, todas parasitas de peixes.

É um gênero cosmopolita, encontrado em peixes teleósteos marinhos1-4 e estuarinos5, e mesmo em peixes cartilaginosos6. Algumas espécies de Kudoa são de especial importância devido ao impacto na qualidade dos produtos pesqueiros, representado pelo aparecimento de mioliquefação pós-mortem7-10, tornando-os inaceitáveis para o consumo humano. Esta lise muscular é resultado da ação de proteases11, produzidas e utilizadas pelos parasitos para amolecer o músculo do hospedeiro, facilitando, assim, o seu desenvolvimento12.

Embora a maioria das espécies de Kudoa tenha como sítio de infecção a fibra muscular esquelética, como é o caso de K. scianae em Stellifer minor1, K. shkae em Arius felis e K. leiostomi em Leiostomus xanthurus13, K. miniauricula em Sebastes paucispinis14, K. paniformis em Merluccius productus15-17, K. ramsayi em Patagonotothen ramsayi18, outros tecidos podem ser afetados, como a musculatura lisa gástrica e intestinal, fígado, baço e tecido peripancreático de Morone americana5, serosa do intestino e cecos pilóricos de peixes do gênero Sillago19 e, em musculatura cardíaca de de Salmo salar20.

A grande maioria das espécies de Kudoa possui hospedeiros específicos, no entanto, K. thyrsites parece ser a que apresenta menor especificidade, sendo registrada por, pelo menos, 23 espécies de várias famílias12.

A presente pesquisa reporta a presença de lesões microscópicas causadas por Kudoa sp. em fibras musculares somáticas de espada (Trichiurus lepturus L.), do litoral do Rio de Janeiro.

MATERIAL E MÉTODOS

Foram analisados 47 espécimes de peixe espada (T.lepturus) capturados na praia de Itaipu, Niterói, RJ. Os animais foram acondicionados em gelo e transportados para o Laboratório de Tecnologia e Inspeção de Pescado da Faculdade de Veterinária da Universidade Federal Fluminense, onde foram medidos, tendo os comprimentos variado de 68,0 a 142,0 cm, com a média de 116,0 cm, e necropsiados. No Serviço de Anatomia Patológica Veterinária Professor Jefferson Andrade dos Santos, os tecidos musculares esqueléticos foram processados para a técnica de inclusão em parafina e coloração pela hematoxilina-eosina. De cada exemplar foi retirado um fragmento da porção muscular da região lateral mediana, com 1,0x 0,50 cm. Na análise microscópica, os cistos encontrados em cinco diferentes campos foram contados e medidos, utilizando-se aumento de 200X.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Nove (19,2%) espécimes de T. lepturus apresentavam cistos parasitários nas fibras musculares somáticas (Figura 1A), do tipo plasmódio, com ausência de reação inflamatória. Os parasitos presentes nestes cistos possuiam quatro válvulas (Figura 1B), com morfologia característica do gênero Kudoa.



Figura 1A. Trichiurus lepturus. Corte histológico de musculatura mostrando plasmódio de Kudoa no centro de uma fibra muscular. Aumento: 100X. Figura 1B. Plasmódio repleto de parasitos, sendo visível as quatro válvulas (setas), características do gênero. Aumento: 400X.

A maioria dos relatos aponta alterações de natureza inflamatória, freqüentemente associadas à parasitose, com ampla variação da resposta tecidual. Em S. paucispinis foram registradas necrose e atrofia da musculatura esquelética21 e encapsulamento fibrótico14; em M. productus foram verificadas a produção de infiltrado fagocitário, granulomas, formação capsular, pigmentação no interior de cistos degenerados, além de necrose de coagulação17; em Coryphaena hippurus foi constatada uma pronunciada resposta fibroblástica, com macrófagos epitelióides encapsulando os esporos do sarcolema, necrose de coagulação, degeneração hialina das miofibrilas, ruptura e hipocromasia das fibras colágenas; em M.americana foi observado infiltrado inflamatório mononuclear entre os feixes de fibras musculares esqueléticas5; em Salmo salar a reação do hospedeiro apresentava-se como uma inflamação crônica multifocal das fibras musculares.

Resultados semelhantes aos do presente trabalho foram observados em Salmo trutta7 e em Hemiscyllium ocellatum6 que verificaram pouca ou nenhuma reação inflamatória associada à parasitose.

Nas infecções por Kudoa reportadas em M. productus15,16, em S.paucispinis14, em Pomatos-chistus minutus9 e Cynoglossus senegalensis12, os cistos alcançavam tamanhos que permitiam a observação macroscópica. Em T. lepturus, as lesões eram sempre microscópicas.

A mioliquefação pós-mortem da musculatura esquelética7-9 não foi observada em nenhum exemplar de T. lepturus.

A prevalência foi de 19%. O número de cistos variou de um a quinze, com uma média de 5,1 cistos por peixe. As dimensões dos cistos foram de 40 a 168 mm de comprimento, com média de 82,5 mm, e de 16 a 54 mm de largura, com média de 28 mm. O animal de menor tamanho apresentou o maior número de cistos15.

REFERÊNCIAS

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