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Ciencia y enfermería

versión On-line ISSN 0717-9553

Cienc. enferm. v.10 n.2 Concepción dic. 2004

http://dx.doi.org/10.4067/S0717-95532004000200006 

 

CIENCIA Y ENFERMERIA X(2):43-52,2004

INVESTIGACIÓN

TRABALHO VERSUS VIDA EM FAMÍLIA. CONFLITO E CULPA NO COTIDIANO DAS TRABALHADORAS DE ENFERMAGEM*

WORK VERSUS FAMILY LIFE. INNER STRUGGLE AND GUILT IN DAILY LIFE OF NURSES

TRABAJO VERSUS VIDA FAMILIAR. CONFLICTO Y CULPA EN EL COTIDIANO DE LAS TRABAJADORAS DE ENFERMERÍA

 

THELMA SPINDOLA* e  ROSÂNGELA DA SILVA SANTOS**

* Extraído da Tese de Doutorado: " Trabalho feminino: muitos papéis... uma só mulher! Ambivalências do cotidiano" defendida em dezembro de 2002 na Escola de Enfermagem Anna Nery da Universidade Federal do Rio de Janeiro - Brasil.

** Doutora em Enfermagem pela EEAN-UFRJ. Professora Adjunto da Faculdade de Enfermagem da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Enfermeira do HUGG da Universidade do Rio de Janeiro - Brasil. E-mail: spindola@ centroin.com.br

** Doutora em Enfermagem pela EEAN-UFRJ. Professora Titular do Departamento de Enfermagem Materno-Infantil. Coordenadora dos Cursos de Pós-Graduação e Pesquisa da Escola de Enfermagem Anna Nery – UFRJ - Brasil. Contato: Thelma Spindola. Rua Caiapó nº 59 aptº 803. Engenho Novo. Rio de Janeiro – Brasil. CEP- 20710-180. E-mail: spindola@ centroin.com.br


RESUMO

Trata-se de um estudo qualitativo com emprego do método de história de vida que teve como objeto o cotidiano da mulher-mãe-trabalhadora de enfermagem, e como objetivos descrever o cotidiano da mulher-mãe-trabalhadora de enfermagem e analisar a percepção da mulher-mãe-trabalhadora de enfermagem em relação ao seu cotidiano tomando como base sua história de vida. Foram entrevistadas 25 profissionais de enfermagem de um hospital geral público do município do Rio de Janeiro às quais apresentou-se a questão: fale-me de sua vida, de seu cotidiano, como mulher, mãe e trabalhadora de enfermagem. A análise dos relatos revelou que as trabalhadoras sentem-se culpadas pela ausência de casa e pelo não acompanhamento do crescimento dos filhos e a rotina familiar. A atividade laboral interfere diretamente na sua vida, em função da sobrecarga de trabalho causada por longas jornadas, que as obrigam a permanecer afastadas do convívio familiar. No seu dia a dia convivem com ambivalência e conflito ao terem que decidir como conciliar seus diversos papéis, culminando por negligenciar o auto cuidado e a própria sexualidade, esquecendo-se até mesmo de ser mulher, tudo em prol das muitas atividades que realizam.

Palavras chave: Trabalho feminino; enfermagem; história de vida.


RESUMEN

Se trata de un estudio cualitativo con empleo del método de historia de vida, que tuvo como objeto el cotidiano de la mujer-madre-trabajadora de enfermería y como objetivo describir y analizar su percepción con relación a su historia de vida. Fueron entrevistadas 25 profesionales de enfermería de un Hospital General Público del municipio de Río de Janeiro y se presentó la siguiente orientación: hábleme de su vida, de su cotidiano, como mujer, madre y trabajadora de enfermería. El análisis de los relatos reveló que las trabajadoras se sienten culpables por la ausencia en el hogar y por no acompañar el crecimiento de los hijos y la rutina familiar. La actividad laboral interfiere directamente en su vida, en función del exceso de trabajo causado por largas jornadas que las obligan a permanecer lejos de la convivencia familiar. Día a día conviven con ambivalencia y conflicto cuando tienen que decidir cómo conciliar los diversos papeles, culminando por descuidar el autocuidado y la propia sexualidad, olvidándose hasta de ser mujer, todo en función de muchas actividades que realizan.

Palabras claves: Trabajo femenino, enfermería, historia de vida.


ABSTRACT

A quality survey of the quotidian life of the woman-mother-nurse including the description of her own appraisal of that life. The method employed was that of life stories.

25 female nurses of a Rio de Janeiro City public hospital were interviewed about their life stories. The following proposal was made them: Let yourself talk freely about your life as a woman, a mother and a nurse. The analysis of the statements showed that they feel guilty for being out of home and not following family routine and the growing up of children.

Keeping the job interferes directly in their lives as they must serve the long hours of work and be away from home. They have to face division and struggle daily in the compromise of their activities. Such ambivalence can get them to neglect self-care and their own sexuality and even to forget their woman essence.

Keywords: Female work, nursing, life story.


Introdução

Na qualidade de mãe e profissional de saúde, há muito tempo tenho interesse em realizar este estudo, tendo como objeto o cotidiano da mulher-mãe-trabalhadora de enfermagem, que em seu dia-a-dia convive com as ambivalências dos múltiplos papéis que desempenha. A conciliação destes papéis é difícil, lembra Glat (1994), não só emocional como também fisicamente. A relação entre a maternidade e a vida laboral na enfermagem é, portanto, o tema deste estudo. Para compreender melhor esta trama de suas vidas, delimitei as seguintes questões norteadoras: Como ela concilia as atividades das vidas pública e privada? Como percebe a reação familiar em relação à sua vida pública? Como o tipo de trabalho desenvolvido interfere na sua vida privada?

Em geral, a maternidade, é considerada um evento importante na vida da mulher, que se transforma, não só fisicamente, como também em seu interior, percebendo o mundo com outro olhar. Para Glat (1994, p. 18) "[...] Maternidade é a glória. É a grande realização e grande alegria da mulher. Filhos são uma bênção e felizes das mulheres que podem realizar este sonho [...]".

As mulheres desde épocas remotas têm função primordial para a sobrevivência da espécie, mas só recentemente a maternidade e a responsabilidade da mãe pelo concepto passaram a ser valorizadas pela sociedade. Badinter (1985), em seus estudos sobre o amor materno, afirma que este sentimento existe desde a origem dos tempos, mas não necessariamente em todas as mulheres. Sendo um sentimento humano, como tal, é incerto, frágil e imperfeito, podendo ou não estar presente na natureza feminina.

Já foi dito que a maternidade desejada é considerada um evento especial na vida da mulher. Todavia, este momento mágico assume outras conotações se esta mulher-mãe é também uma profissional, ou seja, se desempenha atividades remuneradas fora do espaço doméstico. Neste caso, os diversos papéis por ela assumidos entram em conflito, prevalecendo ora um ora outro, obrigando-a a conciliá-los. A partir daí, surgem momentos de dúvidas, questionamentos e muitas solicitações.

No entender de Glat (1994), a separação da mãe e seu bebê em função do retorno ao trabalho é, sem dúvida, um momento crucial para toda mulher, que precisa encontrar uma forma de conciliar seus papéis de mãe e profissional. Esta conciliação é difícil, reforça a autora, não só emocional como também fisicamente.

No meu cotidiano como mulher, mãe e trabalhadora vivenciei estas sensações e, apesar de ser uma profissional de saúde, desenvolvendo atividades voltadas para a manutenção / preservação da saúde da população em geral percebi que, enquanto mulheres que somos, não dispomos de mecanismos, exceto os legalmente reconhecidos1, que garantam a administração de nossas vidas pública e privada com a tranqüilidade necessária à manutenção do nosso equilíbrio mental.

Deste modo, ficamos ansiosas, sentindo-nos duplamente culpadas porque nem damos a devida atenção (ou a que julgamos ser a mais adequada) à nossa casa e aos nossos filhos, e nem conseguimos dedicar uma parcela de tempo maior para o desenvolvimento profissional. Esta é uma situação crucial para as mulheres que têm filhos e estão inseridas na vida pública, com atividades profissionais.

No entender de Badinter (1985), a sensação de culpa das mulheres é um sentimento associado ao papel de boa mãe e às responsabilidades maternas com o filho (op. cit., p. 201,grifo da autora). Os séculos se passaram, os avanços tecnológicos surgiram, mas a concepção da boa mãe, dedicada, que pensa no seu filho, atualmente mescla-se, também, com a da mulher independente que cuida, nutre e educa, mas que trabalha no mundo público desenvolvendo atividades fora da esfera do lar.

Neste contexto insere-se a Enfermagem, profissão exercida predominantemente por mulheres que, apesar de integrar a área da Saúde, não lhes assegura incentivos para que realizem o aleitamento materno, que acaba se tornando um processo inviável pelo fato de trabalharem em regime de plantão e em locais distantes de suas residências. Nakano (2002), em seus estudos ressalta que a trabalhadora no gozo deste direito é discriminada e sente-se cobrada pelas próprias colegas por onerar o serviço com a carga de trabalho que transfere para elas sobrecarregando-as em função de sua ausência temporária.

É fato que a enfermagem, ainda nos dias atuais, permanece como atividade essencialmente feminina. Para Fonseca (1996) este aspecto é relevante quando se analisam os determinantes e a organização dessa prática social. Assim, é bem elevado o número de mulheres que vivem esta realidade em seu cotidiano, ou seja, serem mães e profissionais de saúde, englobando toda complexidade que a situação comporta. Em 1999, para compreender a temática Mulher-Mãe-Profissional, realizei um estudo com abordagem qualitativa, seguindo a trajetória fenomenológica (Spindola, 2000), cujos resultados contribuíram para aproximar-me do objeto de estudo: o cotidiano da mulher-mãe-trabalhadora de enfermagem.

A partir dessa problemática, tracei como objetivos do presente estudo: Discutir a interferência da profissão na vida desta mulher; Analisar a percepção da mulher-mãe-trabalhadora de enfermagem em relação ao seu cotidiano tomando como base sua história de vida.

A configuração dos tempos atuais é distinta da época em que a mulher não exercia atividades fora do lar, lembra Giffin (1993); agora ela necessita fazê-lo para reforçar a renda familiar e, em muitas situações, chefiar a família. Assim sendo,

[...] o custo maior dos filhos representa uma pressão para a entrada da mulher na força de trabalho, e ambos representam uma pressão para a limitação do número de filhos. A participação na força de trabalho gera uma nova DESIGUALDADE que é a dupla jornada, no público e no lar. [...] (p. 08, grifo da autora).

Apesar desta realidade não ser ímpar, pois é vivenciada por diversas mulheres em seu cotidiano, a temática é pouco explorada na área da Saúde, mesmo levando em conta especificidades tão particulares como horários distintos e tipo de trabalho executado, que as tornam profissionais diferenciadas das demais áreas, pois lidam com seres humanos, sendo responsáveis pela recuperação e manutenção de suas vidas. Associado a especificidade do trabalho, se for do sexo feminino e mãe, mais complexa será a situação.

Além do mais, a mulher em nossa sociedade, apesar dos avanços tecnológicos já alcançados, ainda tem arraigadas em seu inconsciente as obrigações domésticas, conseguindo partilhar muito pouco de suas atividades com o companheiro. Ao exercer a enfermagem, trabalhando diretamente com o ser humano, num contexto histórico de dedicação, seriedade e responsabilidade no qual a profissão é vista como um sacerdócio, a mulher sente mais diretamente o peso que sua ausência acarreta no ambiente de trabalho.

METODOLOGÍA

Trata-se de estudo desenvolvido com emprego da abordagem qualitativa. Segundo Deslandes et al. (1994), a pesquisa qualitativa preocupa-se com uma realidade que não pode ser quantificada, respondendo a questões muito particulares, trabalhando com um universo de significados, crenças e valores, que correspondem a um espaço mais profundo das relações, dos fenômenos que não podem ser reduzidos à operacionalização de variáveis.

Dentre as diversas modalidades de estudo com abordagem qualitativa, para nortear esta investigação optei pelo método da história de vida, que trabalha com a estória ou o relato de vida, ou seja a história contada por quem a vivenciou (BERTAUX, 1980). Para Glat (1989, p. 29), no relato de vida, o que interessa ao pesquisador "[...] é o ponto de vista do sujeito. O objetivo desse tipo de estudo é justamente apreender e compreender a vida conforme ela é relatada e interpretada pelo próprio ator [...]".

Cenário e sujeitos do estudo

O estudo foi realizado em um Hospital Público Federal do Município do Rio de Janeiro, Instituição selecionada onde a pesquisadora desenvolve atividades profissionais, o que facilitou a aproximação aos sujeitos do estudo. Foi solicitada autorização à Superintendência de Enfermagem (que a encaminhou à Direção do Hospital) para aproximar-me das trabalhadoras de enfermagem e apresentar a proposta do estudo, verificando seu interesse em participar e solicitando sua colaboração. Neste sentido, foram respeitadas as diretrizes e normas regulamentadoras de pesquisas envolvendo seres humanos, estabelecidas pela Resolução 196/96 do Conselho Nacional de Saúde (BRASIL, 1996).

Foram entrevistadas 25 trabalhadoras de enfermagem lotadas no serviço diurno, em função da maior concentração de mulheres/mães no referido horário. O local de trabalho não constituiu foco de interesse da pesquisadora. Quanto ao perfil das entrevistadas: 08 eram enfermeiras, 15 auxiliares e 02 técnicas de enfermagem . Em relação à idade: 02 tinham entre 20 e 29 anos; 12 estavam na faixa etária de 30 a 39 anos; 10 tinham entre 40 e 49 anos e apenas 01 tinha idade superior a 50 anos. Quanto à presença de um companheiro: 16 tinham e 09 não tinham. Em relação ao número de filhos: 10 tinham dois filhos, 10 tinham um, 03 tinham três filhos e apenas 01 possuía quatro filhos. A distribuição em relação ao número de empregos indica que 18 tinham um, 5 tinham dois e 02 tinham três empregos. O tempo de atividade profissional concentrou-as da seguinte maneira: de 03 a 07 anos de atividade – 04 mulheres; de 08 a 12 anos – 06; de 13 a 17 anos – 05; de 18 a 22 anos de atividade – 08, e acima de 23 anos de atividade profissional - 02. O horário de trabalho é diurno, as enfermeiras são diaristas manhã e as técnicas e auxiliares plantonistas (12 X 60). Quanto ao local atuavam em setores como: Clínica médica, C. cirúrgica, Pediatria, Maternidade, CTI adulto e pediátrico, Ambulatório cirurgico e clínico e Centro Cirúrgico.

As entrevistas

De posse da autorização da Direção do Hospital (Comissão de Ética) e com o formulário do Conselho Nacional de Saúde que dispõe sobre as pesquisas com seres humanos, aproximei-me das profissionais de enfermagem e, após expor-lhes minha proposta de trabalho, deixava-as à vontade para decidirem quanto à participação no estudo. Em caso positivo, entregava-lhes o Termo de Consentimento para ser assinado e apresentava-lhes a questão: Fale-me de sua vida, de seu cotidiano como mulher, mãe e trabalhadora de enfermagem.

Em conformidade com o método história de vida, deixava que falassem livremente sobre o tema sem determinar o curso da entrevista, encerrando-a quando não tinham mais nada a acrescentar. Utilizei o recurso de gravação em fita magnética, mediante prévia aquiescência das depoentes, visando a garantia do anonimato e a fidedignidade daquilo que havia sido dito durante as entrevistas.

Esta modalidade de entrevista, segundo Santos (1995), deve ser de duração prolongada para permitir a interação constante entre pesquisador e informante e, também, para que "[...] o interlocutor seja tomado pelo desejo de relatar e que ele próprio passe a conduzir a conversa [...]" acrescenta Bertaux (1980, p. 209). Foram realizadas 25 (vinte e cinco) entrevistas, com duração média de 40 minutos, julgadas suficientes após a constatação de que os relatos tornavam-se repetitivos, significando terem atingido o ponto de saturação, ou seja, não acrescentavam fatos novos ao que fora dito anteriormente (BERTAUX, op. cit.).

A análise dos relatos iniciou-se logo após as primeiras entrevistas. Para proceder a análise das entrevistas, de início realizei uma leitura de todo o material para sentir o que havia de semelhante, ou não, em suas falas e procurei organizá-lo. Com canetas coloridas identifiquei o sentido de cada parágrafo; depois marcava-os anotando ao lado o que entendia daquela fala. Ao final deste primeiro procedimento estava com 70 "destaques" assinalados. Ao ler e reler, buscava uma aproximação entre os destaques e consegui sintetizá-los. Neste processo foram realizadas sete listas, buscando em cada uma aproximar-me de uma categorização que traduzisse o pensamento das mulheres sem omitir suas opiniões. Na 7ª lista cheguei a três grandes categorias com subcategorias. Uma dessas categorias foi Trabalho x vida em família-conflito e culpa com sub-categorias: 1-Culpa pela ausência de casa; 2-Afastamento do dia-a-dia com os filhos; 3-Ser mãe e trabalhadora – dilemas do cotidiano.

ANÁLISE DOS RELATOS

O sentimento de culpa pela ausência de casa emergiu na fala das mulheres, evidenciando o conflito que vivem em seu cotidiano como trabalhadoras, mães e esposas. Muitas referem a dificuldade em conciliar o trabalho remunerado com a maternidade, dizendo que o ideal seria deixar primeiro os filhos crescerem um pouco mais para depois assumirem este tipo de função, quando então, poderiam ter um horário de trabalho que lhes permitisse o desempenho dos seus papéis de mulher, mãe e trabalhadora.

1. Culpa pela ausência de casa

A mulher trabalhadora, em geral, fica dividida entre a necessidade de trabalhar e de dar atenção à família. Em seus relatos, as profissionais de enfermagem verbalizam este conflito, presente na vida cotidiana conforme seus depoimentos revelam:

[...] a grande maioria das vezes as coisas são resolvidas por telefone quando dá, e [...] isso acarreta um sentimento de culpa muito grande. [...] Eu era mãe 24 horas [...] a minha filha que terminou o namoro de quatro anos [...] e ela ligou para mim [...] e disse: mãe eu estou precisando de você, porque eu estou sofrendo muito e eu sofri de longe sem poder dar colo. [...] Porque eu estou sempre vivendo no momento errado [...] (Marina2, 47 anos, Aux. Enfermagem).

[...] meus filhos me cobram demais, [...] falando que eu não ligo para eles[...] porque[...] às vezes só chego 60 horas depois.[...] Eu tenho que pagar uma empregada [...] para ficar com minha filhinha de oito anos, é [...] tudo pelo telefone. [...] Ela fica todo dia para mim assim: hoje você volta? [...] Então posso fazer o meu dever com você? [...] Eu me sinto [...] culpada [...] minha carga horária é muito grande fora de casa [...] eu recompenso dando um bom ensino, bom estudo.[...] (Larissa, 34 anos, Enfermeira).

Os relatos acima deixam transparecer que a mãe trabalhadora fica dividida entre o trabalho remunerado, suas exigências e horários a cumprir e a atenção aos filhos, situações nem sempre passíveis de conciliação. Em alguns casos, como no de Larissa, as mulheres permanecem longo tempo fora de casa – até 60 horas – devido à atividade profissional, o que acarreta um sensível prejuízo no convívio familiar. Mas, para minimizar o problema, e como a própria depoente assinala, procura estabelecer um elo com os filhos através do contato por telefone. Esta vivência deixa-a angustiada e, para compensar, procura oferecer-lhes o que acredita ser o melhor para eles – um bom estudo, uma qualidade de vida melhor, aulas de inglês, esportes, tudo para tentar ocupar o tempo ocioso deles e suprir a sua ausência. Ou seja, para amenizar a sensação de culpa que sentem pelo afastamento dos filhos decorrente do exercício da atividade profissional, costumam compensar a ausência oferecendo-lhes àquilo que desejam (roupas, lazer, objetos pessoais) ou o que acreditam ser o melhor para eles (ensino, esportes e outras atividades).

A presença dos filhos é um dos fatores preponderantes que levam a mulher a refletir sobre a possibilidade de se afastar da atividade profissional, temporária ou definitivamente. A responsabilidade pela guarda, o cuidado e a educação das crianças, na maioria das famílias, é exclusiva da mulher. Se a remuneração não compensar os gastos com a sua saída de casa, ela acaba abandonando o trabalho remunerado (SCHIRMER,1997). Na área de enfermagem, as trabalhadoras buscam alternativas para este problema – mudam seu horário de trabalho – passam a trabalhar no serviço noturno até que os filhos estejam mais crescidos e possam ficar em casa sozinhos; ou, então, procuram trabalhar em esquema de plantão diurno (12 horas), tendo a possibilidade de estar com a família nos outros horários.

Outro aspecto ressaltado nos relatos é a questão da culpa. As mães trabalhadoras, em geral, sentem-se culpadas pela ausência do convívio com os filhos em função da atividade profissional. Nas falas de Larissa e Marina este sentimento é exteriorizado, revelando o conflito da ambivalência vivenciado por estas mulheres: necessitam trabalhar para complementar a renda familiar ou mesmo sustentar suas famílias, entretanto, sentem-se culpadas por não participarem do cotidiano dos filhos. Este quadro confirma que a mulher não se desvinculou das atividades do mundo privado, embora atue no mundo público. Sendo assim, o sentimento de culpa das mulheres também reflete a cultura da nossa sociedade, que determina padrões de comportamento e valores para as pessoas, sobretudo para as do sexo feminino. Pensamento que é reforçado por Bueno (1998, p. 45) ao afirmar que a culpa experimentada pelas mulheres é um sentimento "[...] que encontra forte relação na cultura e no processo de educação e socialização do indivíduo [...]".

A culpa materna foi descrita por Badinter (1985), assinalando que a responsabilidade da família e da mãe para com seus filhos foi difundida no século XIX. Transformou-se em culpa materna no século seguinte, quando por algum impedimento ela não desempenhava o papel de boa mãe, ou seja, não permanecia em tempo integral ao lado do filho, cuidando de sua saúde, educação e futuro (op. cit., grifo nosso).

2. O afastamento do dia-a-dia com os filhos

A dificuldade em conciliar a atividade remunerada com a vida privada foi verbalizado pelas entrevistadas, que exteriorizaram a angústia da mãe trabalhadora em não participar do cotidiano de seus filhos. A propósito, tem-se o relato a seguir:

[...] quero dar atenção à ele, [...] ir buscar no colégio,[...] levar na explicadora, [...] vou delegando mais assim [...] para outras pessoas. [...] Então [...] ele me cobra mais [...] mãe, mãe, quando eu estou em casa, é só isso que eu escuto. [...] Não é nem para eu ficar perto dele, mas só pelo fato de estar ali. [...] Eu acho que o hospital [...] tira muito [...] da vida com os filhos [..]. (Sonia, 28 anos, Aux. Enfermagem).

A especificidade da profissão, com horários em turnos e longas jornadas de trabalho, está presente no relato da profissional demonstrando que a mulher percebe como isso interfere no seu relacionamento em família e, especificamente, com os filhos, afastando-a de seu convívio. Então, as atividades rotineiras como levar à escola que, para a criança, é fundamental a presença pela presença da mãe (ou do pai) passam a ser delegadas aos avós, tias ou empregadas o que, de certo modo, acaba distanciando mãe e filho. Estar junto aos filhos, mesmo que em curtos momentos, é valorizado pelas mães pela consciência que têm do significado que estes gestos têm para eles. E a maneira que encontram para participar de sua rotina é deixar de lado, provisoriamente, a realização de outros interesses

O conflito permeia a relação mãe-filho, obrigando a mulher a viver a ambigüidade3  da situação de ser trabalhadora e mãe, sofrendo quando não consegue conciliar os dois mundos e atender tantas solicitações e exigências diferenciadas. Às vezes, verbalizam com clareza seu sofrimento:

[...] quando tem a cobrança deles, a que a gente já tem e deixa guardada [...] fica muito grande, mais doída, sofrida, por mais que a gente [...] tente não pensar naquilo. [...] Essa primeira fase, o primeiro dentinho, [...] isso tudo eu vivi.[..] Estou com filha fazendo pré-vestibular e eu estou de plantão. [...] Isso está sendo um sofrimento sem tamanho.[...] Sei que vai ser duro esse meu plantão[...] 24 horas. [...] (Marina, 47 anos, Aux. Enfermagem).

Ser mãe trabalhadora é uma situação revestida da crença de que é preciso estar presente e participar. A preocupação com os filhos é uma constante em seu cotidiano. Assim, embora valorize o trabalho remunerado, como uma forma de manter sua independência e sobreviver, sofre quando não consegue conciliar as atividades dos mundos público e privado. Na realidade, a inserção da mulher no mercado de trabalho,

em nossa sociedade, não a desvinculou das funções do mundo privado e, deste modo, as cobranças familiares e as exigências pessoais e profissionais terão importância capital neste processo, assim como a sua capacidade de negociação para superar os impasses. Neste sentido Sarti (1997) acrescenta que ocorreram modificações significativas na estrutura familiar com a entrada da mulher no mercado de trabalho, inclusive em relação à divisão de tarefas domésticas e educação dos filhos. Entretanto, como ressalta Badinter (1986), as mães atuais fazem prodígios para conciliar imperativos contrários. [...] A creche, a escola e a televisão substituem as mães de outrora. [...] No final das contas, ser mãe toma um terço do tempo... A qualidade conta mais do que a quantidade, e conta-se com o pai para substituir alternadamente a mãe. (p. 260, grifo nosso).

3. Ser mãe e trabalhadora – dilemas do cotidiano

Ser mãe e trabalhadora pode também significar dor e sacrifício que, muitas vezes, levam às lágrimas. Vários aspectos são considerados pelas profissionais de enfermagem dentre eles: o horário ideal de trabalho; a maior independência dos filhos; a organização e qualidade do tempo que lhes é dispensado.

[...] Eu acho que o ideal seria [...] que o tempo dela fosse menor para que ela pudesse dividir o tempo profissional e o de casa, tempo de mãe mesmo. [...] todos vão para a escola, então a mãe vai trabalhar. Quando eles voltassem pudessem estar [...] junto para partilhar. Em outras profissões [...] isso é viável mas na enfermagem isso não é. [...] eu trabalho 24 horas, final de semana eu trabalho quase todos [...] (Marina, 47 anos, Aux. Enfermagem).

No caso de Marina, a morte repentina do marido obrigou-a a buscar o sustento de sua família com o trabalho remunerado. Como conviveu com os filhos, em casa, enquanto pequenos, acompanhando passo a passo o seu crescimento, percebe a grande diferença para o momento atual, em que necessita permanecer um maior tempo ausente devido à atividade laboral.

Sugere, então, que deveria haver um horário ideal de trabalho que permitisse às mulheres o desempenho de todos os seus papéis.

A organização do tempo da mulher trabalhadora também foi referida pelas entrevistadas como uma das estratégias que empregam na arte de conciliar os dois mundos. Assim acrescentam:

[...] estou estudando, eu estou conseguindo conciliar até mais uma terceira atividade porque além de ser dona de casa, mãe e trabalhar, eu ainda voltei a estudar. [...] O que eu ofereço pra elas agora não é tempo, é qualidade de atenção, qualidade de companheirismo. [...] Quando você está presente tem que ser intenso [...] procuro desenvolver atividades com elas, [...] ver televisão, passear, [...] ficar conversando para trocar intimidades [...] (Beth, 36 anos, Aux. Enfermagem).

Para Beth que, no início de sua vida profissional, precisou optar e abandonou, temporariamente, a atividade laboral, a divisão do tempo na organização das diversas tarefas da mulher trabalhadora é o segredo para o seu sucesso. Suas filhas estão maiores, as solicitações são outras e consegue adequar melhor a sua disponibilidade de horário.

Ser mãe significa ser responsável por outrem e assegurar a sua criação e formação. Muitos fatores terão influência direta neste processo, cujas palavras-chave serão emoção, amor e doação. A propósito, tem-se o depoimento de Eugênia:

[...] Ser mãe, não é você dar roupa e dar comida [...] a gente responde é ao longo da vida, do crescimento da criança. Você vai saber se foi mãe realmente é quando você vê que tipo de pessoa você formou. [...] apesar de toda dificuldade, eu não abro mão do meu trabalho e, também, [...] de ser mãe. [...] Apesar do sacrifício e das dificuldades que têm [...] uma coisa completa a outra. (Eugênia, 39 anos, Aux. Enfermagem).

Para ela que, nos plantões de final de semana, vê-se obrigada a ter a filha de 11 anos junto a si, no ambiente laboral pela dificuldade com a sua guarda, ser mãe é sinônimo de responsabilidade, além do compromisso com a formação de uma criança para garantir seu sustento, ensinamentos básicos e modelagem de caráter, um esforço cujos resultados só virão à tona no futuro. A responsabilidade dita exclusiva da mãe é quase uma inverdade, ainda que os pais tenham um papel influenciador preponderante na criação dos filhos, servindo-lhes de modelo e, destarte, contribuindo de forma indelével para o seu desenvolvimento como pessoa. Zagury (2000) abordando a responsabilidade dos pais na criação dos filhos afirma que as mães trabalhadoras sentem-se realmente culpadas quando algo não vai bem acreditando que nada de errado ocorreria se estivessem mais presentes.

Abordando a situação da mulher trabalhadora, Beauvoir (1980, p. 466) afirma que "[...] é por causa da tensão moral, [...] por causa de todas as tarefas que assumem, das contradições em meios às quais se debatem, que as mulheres estão sem cessar estafadas, no limite das suas forças.[...]"

Assim, se a mulher não buscar soluções para os problemas diários, procurando conciliá-los da melhor forma possível, acabará anulando-se como pessoa, esquecendo-se até mesmo do Ser Mulher, continuando apenas a ser mãe, esposa e, sobretudo... trabalhadora! Esta situação é descrita por Larissa em seu relato:

[...] A mulher na verdade fica meio anulada, [...] muito cansada, [...] não tem muita vontade de nada [...] por sobrecarga de serviço. [...] Quando eu estou em casa os filhos também querem tudo.[...] (Larissa, 34 anos, Enfermeira).

 

Considerações Finais

Tudo começou a partir de minha história de vida como mulher, mãe e trabalhadora de enfermagem vivenciando as dificuldades do dia-a-dia inerentes ao desempenho profissional numa Instituição pública de assistência à saúde. A partir dos relatos das trabalhadoras de enfermagem foi-se construindo o cotidiano e as vivências de cada uma, sendo retratada a percepção que tinham acerca de suas vidas como mulheres e profissionais.

As mães trabalhadoras exteriorizam a sensação de culpa pela ausência de casa e afastamento involuntário dos filhos, por causa do trabalho que interfere diretamente no relacionamento afetivo com eles. Foram descritas situações em que a atividade profissional provocou um distanciamento emocional entre as mulheres e seus filhos e/ou companheiros, em função da carga horária excessiva e da incompatibilidade de horários, fato que as obrigou à decisão de reduzir a jornada de trabalho para que pudessem restabelecer o convívio e a estabilidade familiar. Em relação a carga laboral do pessoal de enfermagem Valenzuela (2000), acrescenta que o trabalho de enfermagem hospitalar caracteriza-se por ser contínuo, com atividades durante as 24 horas do dia, incluindo os feriados e as festas comemorativas, ocupando uma extensa carga horária semanal.

O trabalho remunerado é valorizado pelas mulheres pela independência financeira e autoconfiança que proporciona. Todavia, o ônus da atividade profissional repercute na sua vida pessoal provocando modificações, culminando por deixá-las frustradas. Beauvoir (1980, p. 308-9) afirma que é muito difícil para as mulheres assumirem concomitantemente "[...] sua condição de indivíduo autônomo e seu destino feminino. [...] ela será plenamente um ser humano quando se quebrar a escravidão infinita da mulher, quando ela viver por ela e para ela [...]".

As situações retratadas neste estudo, embora circunscritas ao grupo de mulheres pesquisadas, são comuns entre as mulheres trabalhadoras, independente da área de atuação. Assim, a conciliação dos mundos público e privado dependerá, também, de seu arranjo familiar. É bem possível que estas situações se repitam com outras mulheres que atuam na enfermagem, ou, até mesmo, em outros níveis de atuação da área de saúde uma vez que foram relatadas questões inerentes ao regime e condições de trabalho da profissão, e da própria atividade laboral feminina.

Percebe-se, ao final deste estudo, que ser mulher, mãe e trabalhadora de enfermagem pode ser sinônimo de sacrifício, como mencionou uma das trabalhadoras, pela dificuldade em exercer, de forma plena e tranqüila, seus variados papéis, chegando a anular-se como mulher. Mas, para não ser sinônimo de sacrifício cada mulher deve rearranjar a própria vida de forma a estabelecer a linha divisória que a fará feliz ou infeliz, pessoal e/ou profissionalmente. Contudo, deve-se ressaltar que dificuldades sempre existirão, porque fazem parte da vida de todas nós, devendo ser superadas à medida que surgirem, num exercício de disciplina constante visando o alcance do bem viver.

Referências Bibliográficas

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Recepcionado: 03.11.2003 Aceptado: 21.10.2004

1 Constituição Federal de 1988, Artigo 7º, inciso XVIII / Artigo 392 da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) – dispõe sobre a Licença Gestante (alterado pela Lei 10.421 de 15 de abril de 2002); Artigo 389 da CLT dispõe no inciso IV, § 1º sobre a creche nas empresas (Portaria 3296 / 86 MT - sistema de reembolso-creche; Decreto nº 977/93 dispõe sobre a assistência pré-escolar aos dependentes de servidores públicos federais); Artigo 396 da CLT dispõe sobre a licença amamentação; Artigos 394 a 400 da CLT – proteção à gestante e filho.

2 Foi atribuído um pseudônimo às entrevistadas para preservar sua identidade.

3 Parker (1997), em seus estudos discute a ambigüidade materna e o conflito vivenciado pelas mães.

 

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