SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.22 número1CARACTERIZACIÓN SOCIODEMOGRÁFICA Y OBSTÉTRICA DE LAS PUÉRPERAS INTERNADAS EN EL ALOJAMIENTO CONJUNTO EN BRASILIDENTIDAD E INSTITUCIONALIDAD DE LAS ENFERMERAS CHILENAS EN LA MITAD DEL SIGLO XX índice de autoresíndice de materiabúsqueda de artículos
Home Pagelista alfabética de revistas  

Servicios Personalizados

Revista

Articulo

Indicadores

Links relacionados

  • En proceso de indezaciónCitado por Google
  • No hay articulos similaresSimilares en SciELO
  • En proceso de indezaciónSimilares en Google

Compartir


Ciencia y enfermería

versión On-line ISSN 0717-9553

Cienc. enferm. vol.22 no.1 Concepción abr. 2016

http://dx.doi.org/10.4067/S0717-95532016000100011 

 

INVESTIGACIONES

 

SENTIMENTOS, SENSAÇÕES E EMOÇÕES DOS PAIS QUE VIVENCIARAM O NASCIMENTO DE SEUS FILHOS

FEELINGS, SENSATIONS AND EMOTIONS OF FATHERS WHO EXPERIENCED THE BIRTH OF THEIR CHILDREN

SENTIMIENTOS, SENSACIONES Y EMOCIONES DE LOS PADRES QUE EXPERIMENTARON EL NACIMIENTO DE SUS HIJOS

 

Rosângela da Silva Santos*
Tharine Louise Goncalves Caires**

* Enfermeira. Doutora em Enfermagem. Professora Adjunta da Faculdade de Enfermagem da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. E-mail: rosangelaufrj@gmail.com
** Enfermeira. Doutoranda em Enfermagem da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Bolsista CNPQ. E-mail: tharinecaires@yahoo.com.br


RESUMO

Objetivo: Descrever e analisar a vivência dos pais durante o processo de parturição de suas companheiras. Método: Pesquisa qualitativa. Foram entrevistados 24 homens-pais, aleatoriamente, dentre os presentes no momento das consultas/atividades de puericultura de seus filhos em quatro Centros Municipais de Saúde (CMS) do Rio de Janeiro. A técnica da entrevista semi-estruturada permitiu investigar condições sociodemográficas e aspectos relativos a essa vivência. Os dados coletados foram submetidos à Análise Temática. Resultados: Os pais foram incapazes de traduzir em palavras os sentimentos, sensações e emoções que tiveram durante o processo parturitivo. Conclusão: Considera-se urgente uma reavaliação dos profissionais de saúde sobre a presença e preparação do pai durante todo o processo de nascimento.

Palavras chave: Parto humanizado, enfermagem obstétrica, relação pai-filho.


ABSTRACT

Objective: To describe and analyze the fathers' experience during their partners' process of parturition. Method: Qualitative research. 24 fathers were interviewed at random from among those present at the moment of consultation / childcare activities in four Municipal Health Centers (CMS) of Rio de Janeiro. The technique of semi-structured interviews allowed to investigate about the sociodemographic conditions and issues related to this experience. The collected data were subjected to thematic analysis. Results: Parents were unable to put into words the feelings, sensations and emotions they had during the birth process. Conclusion: a re-evaluation of health professionals is urgent regarding the presence of the father and preparation of the whole birth process.

Keywords: Humanized birth, obstetric nursing, father-child relationship.


RESUMEN

Objetivo: Describir y analizar la experiencia de los padres durante el proceso de parto de sus compañeras. Material y método: Investigación cualitativa. 24 padres fueron entrevistados al azar de entre los presentes en el momento de la consulta/actividades de cuidado de sus hijos en cuatro Centros Municipales de Salud (CMS) de Río de Janeiro. La técnica de entrevista semiestructurada permitió investigar las condiciones sociodemográficas y las cuestiones relacionadas con esta experiencia. Los datos obtenidos fueron sometidos a análisis temático. Resultados: Los padres fueron incapaces de poner en palabras los sentimientos, sensaciones y emociones que tuvieron durante el proceso del parto. Conclusión: Se considera urgente una reevaluación de los profesionales de la salud acerca de la presencia del padre y de la preparación de todo el proceso del parto.

Palabras clave: Humanizar el parto, enfermería obstétrica, relación padre-hijo.


 

INTRODUÇÃO

A partir do século XX, o parto deixou de ser um evento único e familiar para ser medica-lizado, realizado em um ambiente indiferente e desprovido de sentimentos. Isso porque algumas instituições, assim como alguns profissionais de saúde, ainda não estão preocupados com uma assistência humanizada no trabalho de parto1.

No final da década de 80, o movimento pelo parto humanizado começou a propor mudanças para este modelo hospitalar, tão pautado na medicalização e na intervenção (1).

Sendo assim, a OMS (Organização Mundial de Saúde) no intuito de minimizar as práticas inapropriadas e desnecessárias ao parto, publicou, em 1996, o Manual Assistência ao Parto Normal: um guia prático, como referência para a implantação do parto humanizado nos serviços de saúde. Esse manual indica as práticas obstétricas vigentes e recomendadas, com base em evidências científicas, e classifica-as em quatro categorias: práticas claramente úteis e que carecem ser incentivadas; práticas prejudiciais ou ineficazes e que precisam ser eliminadas; práticas com evidência insuficiente para apoiar uma recomendação e que necessitam ser usadas com precaução; e práticas frequentemente utilizadas de forma inapropriada, provocando mais danos que benefício (2).

Com a implantação, em 2000, no Brasil, do Programa de Humanização do Parto e Nascimento (PHPN), pelo Ministério da Saúde, é que se voltou a incentivar a participação do acompanhante da mulher durante o parto. Este programa tem como foco principal a mulher e o resgate de sua dignidade durante o processo de parturição, buscando consolidar a transformação da atenção prestada durante a gestação, parto e puerpério. Além disso, prioriza o parto vaginal (como um acontecimento natural), a não medicalização do parto e redução de intervenções cirúrgicas desnecessárias (3). Nesta perspectiva, o pai é uma das opções que a mãe tem, haja vista que a ligação emocional entre ele e o filho é determinante na sua transição para a paternidade e para o desenvolvimento do bebé (4). E as mudanças ao longo das últimas décadas, mostram que os homens estão, ainda que vagarosamente, se tornando mais companheiros, participativos e integrados à vida familiar (5).

Desse modo, muitos estudos passaram a pesquisar como a presença de um acompanhante de escolha da mulher, como o pai do bebé, poderia contribuir positivamente para a evolução do trabalho de parto. A intenção era de que profissionais e serviços de saúde se convencessem dos benefícios que esse acompanhante poderia trazer a ela no momento do parto, já que só as orientações do Ministério da Saúde não geraram resultados significativos (6-9).

A aceitação da presença do pai, durante todo o trabalho de parto, deveria ocorrer naturalmente, e até mesmo ser incentivada por todos os profissionais, em especial pelos enfermeiros e também pela instituição de saúde, por promover o envolvimento afetivo desse pai com seu bebé, proporcionando bem estar físico e emocional à mulher e favorecendo uma boa evolução no período pré-parto e do parto. Ou seja, o pai transmite segurança à mulher, o que pode diminuir as complicações na gestação, parto e puerpério2. Contudo, o que se tem observado na prática profissional da enfermeira nos Serviços de Saúde Reprodutiva, é a ausência, praticamente em sua totalidade, de homens nas questões relacionadas ao planejamento familiar, consultas pre-natais, parto e puerpério (9). Diante do exposto, o presente trabalho teve como objetivo descrever e analisar os sentimentos, sensações e emoções vivenciados pelo pai no trabalho de parto, parto e pós-parto de sua companheira, no nascimento de seu filho.

A palavra sentimento, na língua portuguesa, possui 18 variações; entre elas, destaca-se: "ter como sensação; perceber o que se passa em si; ter determinada opinião ou maneira de pensar sobre algo ou alguém" (10). Já a palavra sensação é restrita a três denominações, das quais merece atenção: "Impressão produzida pelos objetos exteriores num órgão dos sentidos, transmitida ao cérebro pelos nervos, onde se converte em ideia, julgamento ou percepção" (10).

Já Emoção é o "estado sentimental momentâneo em que o indivíduo tem seu organismo excitado" (10). Há diversos tipos de emoção: medo, alegria, tristeza, piedade, felicidade, remorso, admiração, amor, ódio, culpa, vergonha, etc. As emoções verificam-se como: experiências emocionais (quando o indivíduo sente a emoção), comportamento emocional (quando é levado pelo sentimento a fazer algo), além de se notarem também alterações fisiológicas que correspondem ou são provocadas diretamente pela própria emoção, tais como, ficar "corado" de vergonha ou ficar "branco" de susto. Evidentemente, a intensidade das emoções varia muito, e se a tensão resultante da emoção for muito alta, haverá o impulso para uma ação correspondente. Sendo assim, os sentimentos, sensações e emoções são aspectos próprios e, portanto, dependem da experiência pessoal de cada um.

MÉTODO

Trata-se de um estudo do tipo descritivo, qualitativo (11), que buscou descrever a vivência do pai acerca do processo de parturi-ção, enfocando seus sentimentos, sensações e emoções. A pesquisa foi realizada no período de janeiro a abril de 2012 em quatro Centros Municipais de Saúde (CMS), um de cada Região do município do Rio de Janeiro: zonas Norte, Sul, Leste e Oeste. Os CMS foram escolhidos aleatoriamente. A escolha de um CMS por Região teve como finalidade buscar diferentes sujeitos (homens-pais). Considerou-se que seria possível encontrar distintos modos de vivenciar o nascimento do filho, já que cada pai estaria inserido em um meio social diferente.

Após a aprovação do Comité de Ética da Secretaria Municipal de Saúde e Defesa Civil do Rio de Janeiro, sob Parecer 457A/2011, em respeito aos preceitos éticos estabelecidos na Resolução 196/96 do CNS (12) sobre pesquisa envolvendo seres humanos, e depois que os pais leram e assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), foi possível dar início às entrevistas.

Foram entrevistados 24 homens-pais (07 da zona norte, 07 zona oeste, 05 zona sul, 05 zona leste -região central) escolhidos aleatoriamente dentre os que estavam presentes no momento das consultas/atividades de puericultura de seus filhos, realizadas nos CMS, cenários do estudo, e que vivenciaram o processo de parturição de suas companheiras. A inclusão desses pais obedeceu aos seguintes critérios: participar de atividades/consultas de puericultura realizadas no CMS, ter mais de 18 anos de idade, ter presenciado o nascimento do filho e apresentar condições favoráveis à compreensão da pesquisa. A idade dos filhos não foi levada em consideração no momento da entrevista, nem houve distinção, para fins de análise dos dados, quanto ao tipo de parto que o pai vivenciou: se foi vaginal ou se resultou de intervenção cirúrgica (cesáreo).

Utilizou-se o critério de saturação dos dados para a interrupção das entrevistas. O ponto de saturação acontece quando o pesquisador percebe que as entrevistas não trazem mais novidade de valor agregado ao conhecimento sociológico do objeto de estudo e não acrescenta informação nova a análise. É baseado no fato de que o acréscimo de novas observações não contribui para um aumento significativo de informações (13), e a inclusão de novos participantes, na avaliação do pesquisador, leva à redundância ou à repetição das informações.

Para coleta de dados, foi utilizada a técnica da entrevista semiestruturada baseada em roteiro elaborado previamente, a partir do qual o pesquisador pode abordar livremente o tema proposto. Inicialmente foi feito uma caracterização dos sujeitos contendo dados sócio-demográficos (idade, estado civil, grau de escolaridade, renda familiar e ocupação). Depois foi pedido ao pai que falasse a respeito de sua vivência no nascimento de seu filho, abordando o interesse em participar/ presenciar o parto, as orientações recebidas sobre como se comportar no momento do nascimento, se ele considera sua participação positiva e o que ele sentiu quando vivenciou o nascimento. Esta é a técnica mais utilizada pelos profissionais que tratam de problemas humanos, sendo adequada para a obtenção de informações acerca do que as pessoas sabem, crêem, esperam, sentem ou desejam, pretendem fazer, fazem ou fizeram (13).

Para analisar os dados coletados, foi utilizada a análise temática, que contempla os núcleos de sentido presentes em uma comunicação, e cuja presença ou frequência signifiquem alguma coisa para o objetivo do estudo. Consiste da pré-análise, em que as informações são lidas no conjunto, de forma a esgotar todo o material, conhecer o conteúdo e correlacioná-lo à teoria (11). O primeiro passo desta análise foi localizar nas falas os temas que poderiam contribuir para compreensão do contexto do estudo. Para isso, as entrevistas foram submetidas à leitura flutuante e exaustiva (contemplando todos os aspectos levantados pelo roteiro), atentan-do-se para a representatividade (contendo as representações do universo pretendido), homogeneidade e pertinência, analisando de maneira adequada com os objetivos propostos no estudo.

Assim, foi possível identificar as unidades de registros contidas nas falas. As unidades de registro podem ser uma palavra, uma frase, um tema, um personagem ou um acontecimento. Em seguida, fez-se referência aos índices e indicadores, ou seja, verificou-se a ocorrência de repetição de expressões ou frases de mesmo sentido. A partir desse momento, processou-se a codificação, obedecendo a frequência com que cada palavra apareceu em realce. Essa sequência de procedimentos possibilitou captar os significados que determinados temas possuem dentro de certos contextos vividos pelos pais no nascimento de seus filhos.

O anonimato dos entrevistados foi respeitado. Não houve exposição da identidade dos pais durante o processo de análise dos discursos. Para isso, utilizou-se a letra E seguida de números ordinais entre parênteses, ao final de cada fala, para designar os pais entrevistados. Os números correspondem à ordem das entrevistas. Ex.: (El): primeiro entrevistado; (E2): segundo entrevistado, e assim, sucessivamente.

RESULTADOS

Com os dados dos sujeitos, concluiu-se que a média de idade foi de 32 anos. Metade dos entrevistados tinha ensino superior completo, e a média da renda familiar ficou em torno de R$ 3.700,00. Houve uma grande diversidade de profissões e, em razão disso, esse dado não pôde ser analisado no conjunto. A idade média atual dos filhos cujos pais vivenciaram o nascimento foi de seis meses.

A média da renda familiar dos pais deste estudo está equiparada ao rendimento médio dos domicílios considerados adequados no Brasil, que é de R$ 3.537,95 (14). Entretanto, só foi possível encontrar este valor devido aos salários informados, de R$10.000 reais, que destoam de outros salários, tais como R$ 720,00.

Foi possível constatar também que a localização do CMS está diretamente relacionada à renda familiar e ao grau de instrução do pai, ou seja, os homens-pais da zona Sul são os que possuem maior poder aquisitivo e nível de escolaridade. Em contrapartida, os sujeitos entrevistados da zona Oeste, são os que possuem menor renda e menor nível de instrução.

Observou-se também que as diferentes classes sociais utilizam os serviços de saúde pública do município do Rio de Janeiro. Contudo, aqueles pais que se encontravam no CMS da zona Sul, consequentemente com a maior renda familiar, procuravam estes CMS na companhia de seus filhos, exclusivamente por ocasião das campanhas de imunização. Apesar dessa distinção, no que tange aos sentimentos, sensações e emoções dos pais, o grau de instrução e renda familiar não foram pontos significativos para que houvesse diferença em suas falas. Ou seja, pobre ou rico, os pais atribuíram praticamente o mesmo significado à sua vivência no parto.

Com relação ao objetivo proposto para o estudo, observou-se que os pais foram incapazes de traduzir objetivamente, em palavras, quais os sentimentos, sensações e emoções que tiveram durante o processo de par-turição: "não tenho palavras para falar" (E1); "Ah, é difícil de explicar, não e? Não dá pra explicar em palavras, não e?, mas é emocionante" (E11); "Foi uma experiência inesquecível (...)" (E19). Tampouco, foi possível constatar em qual período (pré-parto, parto e pós-parto), algum sentimento, sensação ou emoção se destacou. A ideia que se tem, considerando as falas dos entrevistados, é que o parto foi o período de maior expressão desses sentimentos, sensações e emoções. Outro ponto relevante é que não houve distinção entre esses termos e que, portanto, os entrevistados atribuíram o mesmo significado a eles.

Para os pais, os sentimentos, sensações e emoções que tiveram no momento do parto, foram descritos como momento bom; momento único, inesquecível e mágico; momento emocionante momento de mistura de sentimentos contraditórios, como se constata nas seguintes falas: "Foi uma alegria muito grande, não é? primeiro filho, assim, não tenho palavras para falar" (E1); "Uma experiência única, de conhecimento, participação, foi um descobrimento muito grande, foi muito importante pra mim... Eu senti felicidade, nervosismo, tensão, alívio... Alívio, em saber que ele nasceu bem, que ele estava com saúde... foi só alegria e alívio muito grande" (E2); "Fiquei apreensivo... queria que ele nascesse logo! Fiquei emocionado... Emoção! Eu senti uma emoção muito grande... como estou até hoje..." (E6); "Ah, é difícil de explicar, não e? Não dá pra explicar em palavras, não e?, mas é emocionante" (E11); "Foi uma experiência inesquecível (...) eu fiquei feliz, alegre, triste, apreensivo" (E19).

Todavia, apesar de a maioria informar ter vivenciado algum tipo de sentimento, sensação ou emoção no processo de parturição, alguns pais relataram que nada sentiram com o nascimento de seu filho. Pelo contrário, foi um momento indiferente, que serviu apenas para satisfazer sua curiosidade de saber como era o parto: "eu achei um pouco estranho" (E8); "Eu não sei o que senti... eu fui no dia marcado... na verdade, eu não queria assistir" (E14); "[...] matei minha curiosidade" (E15); "Foi uma experiência indiferente" (E21).

DISCUSSÃO E CONCLUSÃO

Segundo dados do Censo Demográfico de 2010, no Brasil, o percentual de uniões consensuais subiu de 28,6% para 36,4% entre 2000 e 2010, sendo mais frequente nos grupos com rendimentos menores, representando 48,9% na classe com rendimento de até 1/2 salário mínimo (14). Tal dado pôde ser observado nesta pesquisa, pois quase a totalidade dos entrevistados que se colocaram na condição de solteiros está nas regiões das zonas Oeste e/ou Leste, e coabitam com a mãe de seu filho estabelecendo, portanto, uma união consensual.

Acredita-se que o parto representou para esses pais, muito mais do que um momento bom, único, inesquecível, mágico emocionante. O que realmente se percebeu foi a dificuldade desses homens em conseguir relatar ou descrever com exatidão as emoções, os sentimentos e as sensações que tiveram naquele momento, o que justifica que este momento também tenha sido representado como confuso e contraditório.

Essa dificuldade sentida pelos pais em identificar os próprios sentimentos, baseia-se no fato de que a participação do pai no parto ainda é algo incomum, e que por isso, "explosões de sentimentos" misturados, contraditórios ou não, são comuns (15). Esses sentimentos ambivalentes acontecem principalmente no primeiro trimestre de gravidez, mesmo existindo uma tendência atual para que os pais se identifiquem como um casal grávido, com papéis separados para cada um (3).

Um estudo semelhante3 aponta para o fato de que sentimentos como alegria e raiva, irritabilidade e explosões de lágrimas, são experimentados por pais e mães, alternadamente, sem que haja nenhuma provocação, e nada mais são do que a demonstração da ansiedade que eles sentem em relação ao parto, também interpretada como consequência de uma ausência na preparação para participar e compartilhar o momento do nascimento do filho com a mãe, seja por fatores socioeconómicos, história de vida ou contexto social (8). Há estudos que apontam além dessas reações, mas que os pais podem desenvolver depressão pós-parto e sofrimento psíquicos, principalmente se presenciarem nascimento de gémeos (16)

Em outro estudo (17) verificou-se que são comuns as manifestações comportamentais dos pais indicando as dificuldades que sentem na expressão dos seus sentimentos, o que coincide com o que a sociedade espera do comportamento do género masculino: o apoio e transmissão de segurança aos familiares e, principalmente, à sua companheira. Por isso muitos pais escondem seus verdadeiros sentimentos (insegurança, nervosismo, irritação e frustração) atrás de uma fachada confiante e calma para que sua parceira se sinta segura e apoiada durante o parto (18).

Espera-se que o envolvimento do pai na gestação, durante as consultas pré-natais, acompanhando a realização de exames e participando de cursos de preparação para o parto, poderia ajudá-lo na compreensão de seus sentimentos e preocupações (19). Afinal, há uma vinculação mútua entre o pai e o bebé, ainda durante a gravidez, embora alguns homens tenham sentimentos ambivalentes em relação aos seus filhos, que precisam ser trabalhados e compreendidos por esse homem4. Principalmente no que concerne ao reajuste familiar, seus sentimentos sensações e emoções surgidas durante o processo gravídico-puerperal, podem fazer com que ele atribua para si, tarefas que até então eram desempenhadas quase que exclusivamente por sua companheira. Isso porque, durante muitas décadas, o homem foi considerado o possuidor de força e superioridade, sendo responsável por manter as relações ligadas à organização da produção, enquanto as mulheres eram responsáveis pela realização de tarefas domésticas e cuidados com os filhos (20).

A concepção do novo papel de pai é ampliada para aquele homem que apoia e realiza tarefas (concepção de pai-marido ativo), consciente das transformações advindas da gravidez. Além disso, a presença desse pai durante todo processo gravídico-puerperal, contribui de forma favorável na gravidez e na relação com o bebé futuro, diminuindo os riscos para a criança (20). E após o nascimento, os primeiros meses de vida do filho representam o período adequado para ele ter conhecimento do "ser pai" e para o estabelecimento da função paterna (21).

Poucos são os estudos que apontam para o desinteresse ou sentimentos indiferentes dos pais no processo gravídico-puerperal. Os que existem foram feitos com pais adolescentes. Para esses, a gestação geralmente representava a interrupção do seu processo de formação e incerteza de apoio familiar e social. Ou seja: a paternidade precoce impõe novas demandas familiares, educacionais e laborais, além daquelas próprias da adolescência. Neste estudo, 18% dos adolescentes disseram que os sentimentos experimentados não foram de felicidade, mas de surpresa e de chateação (22).

A gravidez e o nascimento de um filho podem representar um momento de conflito para muitos homens, pois são dois eventos que, juntos, envolvem complexas transformações, intensificando emoções e acontecimentos para os quais muitos não estão preparados (22). Ou ainda, são homens enciumados com a atenção que mãe e filho recebem, pois os familiares e amigos, muitas vezes, demonstram muita preocupação com a evolução da gravidez, com a saúde e os sentimentos da grávida e do bebê. Dessa forma, compreende-se que estes dois eventos, em que o segundo é a consequência do primeiro, o pai sinta-se despreparado e até mesmo desmotivado (2).

Assim sendo, a prática de oferecer ao pai a oportunidade de cortar o cordão umbilical do seu filho na hora do nascimento, é frequentemente efetuada por profissionais, com o intuito de promover o envolvimento emocional do pai com o bebê; está em consonância com as práticas de humanização do parto; e representa a figura paterna contemporânea, construída tendo em vista a capacidade dos homens de perceberem e reconhecerem suas necessidades afetivas, assim estimulando o cuidado da família (20).

Até o término desta pesquisa, no entanto, não houve registros nas bases de dados da Literatura Latino-Americana do Caribe em Ciencias da Saúde (LILACS), Index Medicus Eletrônico da National Library of Medicine (MEDLINE ) e a Scientific Electronic Library Online (SciELO) sobre estudos que comprovassem se esta prática realmente promove o envolvimento emocional do pai, ou se ao menos era capaz de despertar nele algum sentimento, sensação ou emoção. O que se sabe é que os pais que cortaram o cordão umbilical de seus filhos (participantes de um estudo que analisava o impacto dessa experiência) referiram uma melhoria significativa no envolvimento emocional com seus filhos (23). Desse modo, considera-se que o ato de cortar o cordão umbilical pode repassar a este pai não apenas a ideia de um simples gesto de participação ou ajuda para trazer seu filho ao mundo, mas de demonstração de que agora ele é um novo homem, é um pai com deveres e direitos compartilhados, corresponsável, em todos os sentidos, com a mãe (19).

Nas últimas décadas, os aspectos relacionados ao comportamento do homem no ciclo gravídico-puerperal vêm despertando interesse. Quando analisamos os sentimentos, as sensações e emoções vivenciadas pelo pai no parto de seu filho, deparamo-nos com pais felizes e satisfeitos, por terem tido a oportunidade de viver este momento, que para muitos será único. Não pelo fato de ter um único filho, mas por cada parto, cada nascimento representar um momento único, uma vivência única, portanto, incomparável. Para outros, transformou-se em mistura de sentimentos que nunca antes foram vividos, mas despertados de maneira inesperada, e muitas vezes até contraditórios.

Apesar de a maioria dos homens apresentarem algum sentimento positivo, como alegria e emoção, não se pode generalizar este comportamento, pois houve pais que ainda se encontram distantes do processo de nascimento. Quando se aproximam, muitas vezes por imposição da parceira, relatam que continuam indiferentes a esse processo.

Neste ponto, chamamos a atenção dos profissionais de saúde, em especial dos enfermeiros obstetras, para a necessidade de se desenvolver ações que contemplem conhecimentos e assistência ao homem desde a gestação, passando pelo nascimento e puerpério, o que é essencial para a formação do vínculo pai-filho. Este homem clama por atenção e demonstra interesse em uma participação mais ativa no processo parturitivo.

NOTAS

1 Vezo GMS, Coronel LM, Rosário MSO. Assistência Humanizada de Enfermagem no Trabalho de Parto [Trabalho de Conclusão de Curso]. [Mindelo, Cabo Verde]: Universidade do Mindelo; 2013. 89f.

2 Vezo etal. cit. n. 1.

3 Fortes ASR, Santos NSF. A percepção das parturientes relativamente ao acompanhante durante o trabalho de parto e parto. [Trabalho de Conclusão de Curso de Licenciatura em Enfermagem]. [Mindelo, Cabo Verde]: Universidade do Mindelo. 2013.29f.

4 Vezo etal. cit. n. 1.

 

REFERÊNCIAS

1. Prata JA, Progianti JM, Pereira ALE O contexto brasileiro de inserção das enfermeiras na assistência ao parto humanizado. Rev. enferm. UERJ, Rio de Janeiro, 2012; 20(1): 105-10.         [ Links ]

2. World Health Organization (WHO). Safe Motherhood. Care in Normal Birth: a practical guide [Internet]. Geneva (SW): WHO, Department of Reproductive Health and Research; 1996 [citado em 07 nov 2012]. 54 p. Disponível em: http://apps.who.int/iris/bitstream/10665/63167/1/WHO_FRH_ MSM_96.24.pdf        [ Links ]

3. Ministério da Saúde (Br). Programa de humanização no pré-natal e nascimento. Brasília: Secretaria de Políticas de Saúde; 2000.         [ Links ]

4. Nogueira JRDD, Ferreira M. O envolvimento do pai na gravidez/parto e a ligação emocional com o bebê. Rev Enf Ref. 2012; 3(8): 57-66.         [ Links ]

5. Dessen MA, Oliveira MR. Envolvimento Paterno Durante o Nascimento dos Filhos: Pai "Real" e "Ideal" na Perspectiva Materna. Psicologia: Reflexão e Crítica, 2013; 26(1): 184-192.         [ Links ]

6. Carvalho JBL, Brito RS, Araújo ACPF, Souza NL. Sentimentos vivenciados pelo pai diante do nascimento do filho. Rev. Rene. 2009; 10(3): 125-131.         [ Links ]

7. Oliveira SC, Ferreira JG, Silva PMP, Ferreira JM, Seabra RDA, Fernando VCN. Participação do homem/pai no acompanhamento da assistência pré-natal. Cogitare Enferm. 2009; 14(1): 73-78.         [ Links ]

8. Perdomini FRI. A participação do pai como acompanhante da mulher no processo de nascimento. [Dissertação Mestrado em Enfermagem]. [Porto Alegre]: Universidade Federal do Rio Grande do Sul; 2010. 87f.         [ Links ]

9. Oliva TA, Nascimento ER, Santo ERE. Percepções e experiências de homens relativas ao pré-natal e parto de suas parceiras. Rev. enferm UERJ. 2010; 18(3): 435-40.         [ Links ]

10. Ferreira ABH. Novo dicionário Aurélio da língua portuguesa. 4a ed. Curitiba: Postivo; 2009.         [ Links ]

11. Minayo MCS. O desafio do conhecimento: pesquisa qualitativa em saúde. 11a ed. São Paulo: Hucitec/Abrasco; 2008.         [ Links ]

12. Ministério da Saúde (Br). Conselho Nacional de Saúde. Diretrizes e normas regulamentadoras da pesquisa envolvendo seres humanos: Resolução N° 196/96. Brasília: Ministério da Saúde; 1996.         [ Links ]

13. Gil AC. Como elaborar projetos de pesquisa. 4a ed. São Paulo: Atlas; 2008.         [ Links ]

14. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Censo 2010 [Internet]. Brasilia: Censo 2010; [citado em 07 nov 2012]. Disponível em: http://censo2010.ibge.gov.br/noticiascenso?view=noticia&id=1&idnoticia=2240&t=censo-2010-unioes-consensuais-ja-representam-mais-13-casamentos-sao-mais-frequentes        [ Links ]

15. Alexandre AMC, Martins M. A vivência do pai em relação ao trabalho de parto e parto. Cogitare Enferm. 2009; 14(2): 324-31.         [ Links ]

16. Wenze SJ, Battle CL, Tezanos KM. Raising multiples: mental health of mothers and fathers in early parenthood. Arch Womens Ment Health. 2015; 18(2): 163-76.         [ Links ]

17. Cardoso VLC. A figura paterna no nascimento de um filho prematuro: envolvimento paterno, necessidades sentidas, nível de stress parental, estratégias de coping e sentimentos associados face a todo o processo que envolve a prematuridade. [Dissertação Maestrado Integrado em Psicologia]. [Porto, Portugal]: Universidade do Porto; 2013.90f.         [ Links ]

18. Premberg Â, Taft C, Hellstrõm AL, Berg M. Father for the first time-development and validation of a questionnaire to assess fathers' experiences of first childbirth (FTFQ). BMC Pregnancy Childbirth. 2012; 12(35): 1-9.         [ Links ]

19. Camacho KG, Vargens OMC, Progianti JM, Spíndola T. Vivenciando repercussões e transformações de uma gestação: perspectivas de gestantes. Cienc. enferm. 2010;XVI(2): 115-125.         [ Links ]

20. Bordignon SS, Cruz VD, Harter J, Mein-cke SMK, Carraro TE, Collet N. Paternal participation e family reaction towards the teenage pregnancy. J Nurs UFPE on line [Internet].2013 [citado 07 nov 2014]; 7(6): 4459-4465. Disponível em: http://www.revista.ufpe.br/revistaenfermagem/index.php/revista/article/view/3352        [ Links ]

21. Carneiro LMR, Silva KL, Pinto ACS, et al. Benefícios da presença paterna nos cuidados com o lactente. Rev. enferm UERJ. 2013; 21(esp.1): 637-41.         [ Links ]

22. Loreto MDS, Benini CSA, Teixeira KMD, Schmidt A. Ser pai na adolescência: algumas constatações. Oikos: Revista Brasileira de Economia Doméstica. 2013; 24(1): 266-285.         [ Links ]

23. Brandão SMPA. Envolvimento emocional do pai com o bebé: impacto da experiência de parto. [Dissertação Mestrado em Enfermagem]. [Porto, Portugal]: Universidade do Porto; 2009.106 f.         [ Links ]

 


Fecha recepción: 08/10/14 Fecha aceptación: 05/03/06

Creative Commons License Todo el contenido de esta revista, excepto dónde está identificado, está bajo una Licencia Creative Commons