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Revista de geografía Norte Grande

versión On-line ISSN 0718-3402

Rev. geogr. Norte Gd.  n.38 Santiago dic. 2007

http://dx.doi.org/10.4067/S0718-34022007000200001 

 

Revista de Geografía Norte Grande, 38: 5-20 (2007)

ARTÍCULOS

 

Una leitura geográfica da fome com Josué de Castro1

 

José Jakson Amancio Alves2

2 Universidade Estadual da Paraíba, Centro de Humanidades - Regiao Nordeste do Brasil (Brasil). E-mail: jaksonamancio@hotmail.com


RESUMO

O primeiro passo no estudo do fenómeno da fome na obra de Josué de Castro foi o de precisar o conceito de fome através do método geográfico. Tornar pública a existencia da fome através da denuncia de suas causas e conseqüén-cias foi seu grande objetivo a partir de suas obras; a primeira publicada em 1947, "A Geografía da Fome", e a segunda publicada em 1951, "Geopolítica da Fome". Em ambos os livros, Josué inicia sua apresentacáo do fenómeno da fome através de um tratamento geográfico da questáo. Depois em "Geopolítica da Fome" Josué de Castro trata da face da fome no mundo por continentes. A importancia destas obras se revela a todo o momento, pois o fenómeno da fome continua a existir e a se revelar cada fez mais forte sobre a superficie da terra.

Palavras-chave: Fome, método, Geografía, Josué de Castro, Geopolítica.


ABSTRACT

The first step in this study about the phenomenon of hunger in the work of Josué of Castro was defining the concept hunger through the geographical method. To turn public the existence of hunger through the accusation of its causes and consequences was one of his great objectives of his work. A first publication dates from 1 947 - the Geography of the Hunger - and a second one published in 1951 - Geopolitics of the Hunger -. In both books, Josué begins his presentation of the phenomenon of hunger through a geographical treatment of the subject. Then in "Geopolitics of Hunger" Castro treats hunger at the continental level. The relevance of these works is revealed at all moments, since the phenomenon of hunger continues, revealing that it continues to exist on the surface of the world.

Key words: Hunger, method, Geography, Josué de Castro, Geopolitics.


 

Josué Apolonio de Castro nasceu no Recife, em OS de setembro de 1908. Filho único de Manoel Apolonio de Castro e de Jose-pha Carneiro de Castro. Passou a interessar-se pelos estudos gracas á influéncia do educador e pedagogo Pedro Augusto Carneiro Leao, o qual, segundo Josué, foi a figura humana que mais influencia teve em sua vida.     

Josué de Castro nao via fronteiras sociais nem culturáis que nao pudessem ser ultra-passadas na conquista da valorizacao e reconhecimento de seu trabalho. Os seus vários artigos e crónicas publicadas na época de estudante já revelavam a multiplicidade de interesses; ciencias, literatura, pintura e cinema foram alguns dos temas abordados naquele período. Aos 24 anos torna-se livre-docente em Fisiología da Faculdade de Medicina do Recife com a tese "O problema fisiológico da alimentacao no Brasil". Esta tese já indica o caminho e a importancia que o autor atribuí ao campo da alimentacao, o que caracterizará toda sua obra.

Em 1935 se muda para o Rio de Janeiro onde assume a cátedra de Antropología da antiga Universidade do Distrito Federal e em 1940 se torna professor catedrático de Geografía Humana na Faculdade Nacional de Filosofía da Universidade do Brasil. Neste período destaca-se a publicacáo de "A Alimentacao Brasileira á Luz da Geografía Humana" de 1937, sendo a primeira publicacáo na qual Josué de Castro se posiciona abertamente a servico do "método geográfico". Tratando diretamente da Geografía brasileira é imprescindível apontar para sua institucional ¡zagao a partir da década de 30. Sao Paulo e Rio de Janeiro se tornam referencia para a Geografía Nacional e tém urna característica em comum: ambas sao fortemente ligadas á escola francesa de Geografía que chega ao país através das "mis-sóes francesas". A relacáo com os professo-res franceses como Pierre Deffontaines, por exemplo, certamente motivou o modo como Josué de Castro passa a arrostar a ciencia geográfica e seu método de pesquisa.

Com relacáo á conjuncáo política, tendo em vista o cenário Nacional, pode-se dizer que Josué de Castro viveu tres fases da historia Nacional: De 30 a 45 vive sob o governo de Vargas; de 45 a 64 vive a curta experiencia democrática, e de 64 até 73 presencia a tomada de poder por parte dos militares. Já com relacáo ao contexto político Internacional, Josué de Castro testemunha os horrores da Segunda Guerra Mundial e vive forte-mente a bipolarizacáo do mundo em torno de EUA e Ex-URSS durante a Guerra Fria.

Esse estudo trata de um resgate do método utilizado por Josué de Castro no estudo da fome em suas diversas dimensóes. Essa descoberta foi de grande importancia para a geografía, como também, a continuidade de seu estudo e dominio na a aplicacáo do método que se traduziu em tantas obras, esque-cidas ou desconhecidas por tantas academias nos dias atuais, principalmente no Brasil, em que o valor geográfico das obras

desse grande mestre da geografía brasileira e mundial vem á tona nesse artigo, pelo fato do grande passo dado na atualidade pelo governo brasileiro para combater a fome.

Um outro aspecto em especial diz respeto em conhecer pessoas e pensamentos, refletir sobre atos e acóes, pensar o futuro sao procedimentos para nutrir as esperanzas, porque aproxima os pesquisadores de hoje e o de ontem.

O uso do método geográfico

Os primeiros estudos de Josué de Castro: "O Problema Fisiológico da Alimentacao no Brasil" de 1932, "O Problema da Alimentacao no Brasil" de 1933, "Condicóes de Vida das Classes Operárias do Recife" e "Alimentacao e Raga" ambos de 1935"; apresentam certamente urna inclinacáo maior para as áreas da Nutricáo e da Antropología, o que muda a partir de 1937 com a publicacáo de "A Alimentacao Brasileira á Luz da Geografía Humana".

Neste importante livro Josué de Castro afirma que para o estudo da alimentacao, devido a sua complexidade, é necessário abordar diversos aspectos da realidade e que "o único método eficaz para essa análise é o método geográfico" (Castro, 2006). Neste sentido Josué de Castro entende o método geográfico como um método de síntese de diversos con-hecimentos, sejam eles naturais ou humanos, que ocorrem sobre a superficie da Terra.

A base da definicáo do método aplicado por Josué de Castro está nos quatro "principios geográficos" que podem ser notados em toda sua obra. O primeiro principio seria o da localizacáo, extensáo e delimitacáo que determina que o geógrafo deve sempre localizar e delimitar a ocorréncia dos fenómenos que ocorrem sobre a superficie da Terra. O segundo principio seria o da coorde-nacáo ou correlacáo onde o entendimento de cada fenómeno nunca se dá de modo ¡solado, mas sempre levando em conside-racáo outros fenómenos ocorridos em outras partes do globo terrestre. O terceiro principio seria o da conexidade que aponta para a conexáo dada pelo meio aos fenómenos impondo urna unidade terrestre. E o quarto e último principio geográfico seria o da causalidacle que estabelece que os geógrafos ao examinar qualquer fenómeno devem atentar para suas causas e efeitos. A opcao pelo método geográfico possibilitou a Castro uma análise mais ampia sobre as necessidades fundamentáis das populacóes.

A partir deste momento Josué de Castro trilha um longo caminho marcado por continuidades e descontinuidades. Antonio Alfredo Teles de Carvalho aponta para uma clara distincao na definicao do método na obra de Josué de Castro. Segundo ele, haveria uma primeira etapa mais descritiva que se estende até meados da década de 40 e uma segunda etapa crítica a partir de J 946, data da publicacao de "Geografía da Fome". Podemos aqui denominar esta primeira etapa como uma fase explicativa, onde Josué de Castro langa as bases para suas publicacóes que tratarao diretamente do fenómeno da fome ("Geografía da Fome" e "Geopolítica da Fome") adotando uma fase mais crítica.

É necessário ressaltar que a escolha da temática da fome, como cerne de sua obra, tem tanto um significado científico de cunho político, que se manifestará durante toda sua obra, como um elemento potente na reali-zacáo da crítica ou denuncia das relacóes so-ciais existentes. Podemos dizer que este momento mais crítico atinge o ápice no ano de 1957 quando Josué de Castro publica "O Li-vro Negro da Fome" e adota claramente uma ¡nterpretacáo do fenómeno atravessada pelo conceito de subdesenvolvimento.

Segundo Goncalves e Fernandes (2000) a fome é a questáo central dos estudos e da luta de Josué de Castro. Por meio desse eixo principal, o autor dimensiona suas análises em diversos outros temas como, por exem-plo, a reforma agraria, a questáo ecológica, o subdesenvolvimento e as desigualdades sociais. Afirma, explícitamente, que a fome é o problema ecológico número um na medida que todo ser vivo deve se alimentar para se manter vivo.

Descoberta do conceito da fome

Ao longo de sua obra Josué de Castro desenvolveu diversos temas de relevancia para a Geografía e para a sociedade como um todo. Mas, certamente, a temática da fome foi a que mais tomou sua atencáo e que acabou por torná-lo internacionalmente reconhecido. Josué revela no prefacio do li-vro "Homens e Caranguejos" "a descoberta da fome" nos mangues e alagados de Recife.

Sao duzentos mil individuos, duzentos mil cidadáos feitos de carne de caranguejos. O que o organismo rejeita volta como detrito para a lama do mangue para virar caran-guejo outra vez. Nesta aparente placidez do charco desenrola-se, trágico e silencioso, o ciclo do caranguejo. O ciclo da fome devorando os homens e os caranguejos, todos atolados na lama (Castro, 2003).

Sua vida e sua obra sao marcadas por es-sas experiencias, que mesmo tendo se formado em Medicina é na Geografía que ele se realiza e tornar-se reconhecido nos estudos e na luta que trava contra a fome. Prova disso é seu estudo de 1935 "Condicóes de Vida das Classes Operarías do Recife" onde, após poucos anos de ter completado sua for-macáo como médico, dirige um estudo vol-tado para a Geografía Humana, dando énfa-se as condicóes de vida, moradia e alimentacáo das classes mais pobres do Recife. Porém a opcáo pelo fenómeno da fome nao é dada somente pelo contexto. É importante notar que esta preferencia é também intencional e tem uma perspectiva política. Castro visava através déla agitar tanto o meio académico como o meio político Nacional e Internacional, que por anos virou as costas para este grave problema que afetava e ainda hoje mantém refém grande parte da populacáo brasileira e mundial, deveras intitulada como pobreza.

Em 1932, por intermedio do Departamento de Saúde Pública do Estado de Per-nambuco, orientou a realizacáo da primeira pesquisa científica sobre as condicóes de vida do brasileiro no Recife, intitulada As condicóes de vida das classes operarías no Nordeste, entrevistando 850 familias em tres comunidades de grande concentracáo de trabalhadores. Com uma abordagem inédita, o estudo virou pelo avesso a discurssáo da questáo alimentar no Brasil, repercutindo em todo o País e provocando a realizacáo de pesquisas semelhantes em outros Estados.

Esse estudo teve papel de destaque no pro-cesso que culminaría na criacao do salario mínimo, em 1940. Foi inicialmente publicado pela Diretoria de Estatística e Publicida-de do Ministerio do Trabalho, sob o titulo As Condicóes de Vida das Classes Operarías, tratando do problema da subsistencia alimentar em seus aspectos económicos e so-ciais.

Com essa pesquisa, Josué de Castro pro-curou demonstrar, através de dados estatísti-cos, que "o fator primario da alta mortalida-de da populacao brasileira é o estado de pobreza que condiciona a fome coletiva", documento assim, segundo ele, "uma fase da evolucao económica e social do Nordeste". Abrindo caminho para esse género de pesquisa, concentrando-se na Geografía e na Antropología, influenciando no surgi-mento de investigates semelhantes em outras áreas do País.

Os estudos sobre alimentacao e nutricao, do geógrafo Josué de Castro tornou-se uma referencia em todo o mundo como especialista nos problemas da fome e do subdesen-volvimento em geral. Josué de Castro levan-tava comprovacoes radicáis de uma serie de idéias, nao só pela seriedade e audacia com que enfrentou o grande tabu, a fome, mas pela denuncia que fez da situacao em que vivia a maioria da populacao do país, usando metodología eminentemente geográfica, analisou as suas características físico-natu-rais e sociais. "Denunciei a fome como flagelo fabricado pelos homens, contra outros homens", afirmava Josué de Castro, apon-tando a dimensáo social do problema.

As solucóes para eliminar essa tragedia devem partir, portanto, de uma abordagem mais ampia, seguindo os ensinamentos do mestre Josué, que tratava a fome como "a expressáo biológica dos males sociológicos". A fome passou a ser o objetivo de seus estudos. Passou a estudá-la científicamente, tal como ela se manifesta em nosso país, publicando sua conhecida obra Geografía da Fome (1946), na qual apresenta o problema da subnutricáo e da carencia alimentar em toda a sua realidade. Até entáo a fome era tratada apenas em sua variante biológica, como a necessidade de comer. Josué trouxe para a analise do tema aspectos económi-

cos, políticos, sociais e geográficos. O livro fez o primeiro mapa da fome do Brasil, divi-dindo o País em cinco regióes, sendo que duas eram de fome (Norte e Nordeste) e as demais de subnutricáo. O livro foi traduzido em 25 idiomas e tornou Josué de Castro conhecido no mundo. Pos em alvoroco o ambiente intelectual e político brasileiro, pois o livro aflorou algo que todos tentavam ocultar, a fome.

Na época, o ufanismo permeava o senti-mento Nacional. O livro de Josué ia á con-tramáo dessa tendencia. Por isso foi acusado de estar passando para o mundo a imagem de um Brasil "país de famintos". Como pensador conseqüente nao se limitou a dar o diagnóstico da fome do mundo, passou tam-bém a orientar como se poderia desenvolver a luta pela sua erradicacáo, a questáo alimentar passava a ter forte prioridade ñas preocupacóes governamentais e já se co-mecava a entender que os grandes problemas nao dependiam apenas de aspectos étnicos ou climáticos, mas do sistema social gerado pela colonizacáo e sugería a necessidade de se desenvolver uma política de co-rrecáo dos seus impactos negativos. Com absoluto dominio do método geográfico, Josué foi o primeiro a dizer: "Existe fome no Brasil".

Josué de Castro terá sido o homem da ciencia e o homem da visáo política, no seu tempo, de maior significacáo e de maior re-percussáo. O autor célebre, o cientista célebre e o homem de visáo política aqui está o fruto de seus estudos, da sua investigacáo, da sua extraordinaria capacidade de refletir, deveres e compromissos com a humanidade, no seu talento de escrever e no seu talento de dizer. Josué de Castro marca de forma extraordinaria o seu tempo, o meu tempo e o tempo de Milton. Nao sei de ninguém que tenha sido como ele: uma expressáo da ciencia brasileira em que determinados instantes foi uma especie assim de confron-tacáo com pensamentos, os mais consolidados, os mais realcados das reflexóes internacionais (Pires, 1996).

Foi através da leitura deste livro [Geografía da Fome] que me tornei um militante das causas da populacao [...] Muitos, também através da leitura de Josué de Castro tornaram-se colegas de luta, companheiros de grande atividade profissional. "Para se dar uma dimensao maior, tenho a impressao e nao apenas aqui no Brasil, mas no mundo inteiro, esse livro foi traduzido em 26 idiomas e de que "fez a cabeca" de muita gente, revelando uma realidade, que até entao, nunca havia sido mostrada de forma tao dramática" (Batista, 1996).

Quero dizer, pois, que a sua palavra nao caiu em vao e se o lábaro que nos mostrou de certo modo, neste país que fala em sub-nutricáo, nao fala mais de fome, esse lábaro de certa forma, por muito tempo nao foi erguido, ou foi erguido de maneira equívoca para que justamente, logo tivesse os frutos desejados ainda é tempo de retomar o ca-minho que ele nos mostrou e de ganhar a batalha. Imagino, pois, que a I ¡gao de Josué de Castro é uma I ¡gao permanente e que deve ser recebida com a emocáo que ela merece (Santos, 1996).

Josué de Castro foi um homem que viveu um amor intenso por esse país. E a forma de mostrar esse amor foi denunciar através da sua ¡mensa capacidade, da sua enorme compreensáo social, a fome que sempre gra-fou nesse país e que as elites descompromis-sadas com o que há de mais importante no Brasil, sempre ignoraram e fizeram questáo de ignorar e que agora o destino está ai, exatamente mostrando e repetindo, seguin-do os passos de seu mestre e mostrando exatamente que a fome está ai. No momento em que o país tem a 8a ou 9a economía mundial, já teria condicoes de dar a essas pessoas uma vida melhor, escola, cultura e, sobretudo o que comer e nada se faz de concreto. Um país rico, um país que tem as potencialidades do Brasil e que hoje continua da mesma forma como Josué denunciou e mostrou, analisou, pesquisou, continua ainda com essa enorme gama, com esse enorme número de excluidos sociais (Celso, 1996).

"... a palavra proletariado, como indicador de prole, de muitos filhos, para indicar as carnadas mais pobres é a indicacáo exata da tese de Josué, que nacoes mais populosas do mundo nao sao pobres porque sao populosas ou porque tem fome, sao populosas porque tem fome e porque sao pobres. A coragem de pensar isso diante do mundo, a coragem de levantar essa tese, era alguma coisa de extraordinario, que teria colocado qualquer pessoa tímida com certo receio. Eu me lembro de muitos falsos cientistas, des-ses que só sabem ler o já escrito, só sabem pensar o já pensado, a perplexidade deles, e a raiva e o odio de Josué, a perguntar, mas onde, em que autor, onde, onde ele se ba-seia para dizer isso? [...] Josué foi este homem, este pensador que nos tivemos que nasceu entre nos, que cresceu que amadure-ceu aqui e que nao foi um homem, um intelectual, mais um dos que léem o que os outros escreveram. Foi o mais lido dos inte-lectuais brasileiros. Nenhum de nos conse-guiu publicar mais livros, em tantas edicoes, com tantas tiragens como Josué" (Ribeiro, 1983).

Josué fala de uma humanidade entregue aos instintos primitivos porque se de um lado se justificava, perfeitamente, a falta de sonó daqueles que nao tinham alimento, de outro lado, nao se podia compreender a ati-tude impassível daqueles que tendo sobra demais no seu bem estar, nao desejavam atender e ajudar a atenuar a situacáo de miseria daqueles que se achavam dentro dos _ de famintos. E no mundo, hoje, sobram cada vez mais as verbas para armamentos e cada vez minguam mais as verbas para a assistén-cia social. Enquanto homens do Nordeste se véem obrigados a consumir a sua dieta de lagartos e cobras, outros realizam banquetes requintados (Lima Sobrinho, 1983).

O Prof. Josué de Castro bem poderia ter dado ao seu livro de alcance mundial "Geopolítica da Fome", o título de "Fome e Política" por que, nesta obra, surgem perspectivas políticas de primeira grandeza. Mas, como salienta o próprio Autor, sempre foi considerado pouco conveniente, entre os povos bem alimentados, discutir-se a fome dos menos afortunados-fome que nunca foi assunto muito popular em materia de política. E, no entanto, a fome tem sido através dos tempos, a mais perigosa das forcas políticas. Foi a fome que precipitou a Revolucáo Francesa. Uma multidáo de mulheres dos corticos de Paris marchou até a sede do Parlamento, bradando por pao. Os políticos fu-giram. As mulheres, com suas hostes reforjadas pelos homens, rumaram para a Bastilha. A queda da Bastilha foi o golpe de morte contra o sistema feudal na Franca, iniciando urna nova era. Na atual crise mundial, livro como a "Geopolítica da Fome" é de vital importancia. Se os políticos de todas as nacoes do mundo pudessem esquecer por um momento os seus conflitos políticos e lessem "Geopolítica da Fome", sem idéias preconcebidas, adquiririam certamente urna visao mais sadia dos problemas universais e teriam, assim, maior possibilidade de salvar nossa civilizacao de perecer numa terceira guerra mundial (Boyd Orr, 2007).

O livro de Josué de Castro, em que sao estudadas, em seu quadro geográfico, as insuficiencias de alimentacao dos grupos humanos vem, de certo modo, ao encontró de varias ordens de preocupacoes. Primeiro, urna angustia despertada em todas as almas pela lembranca de miserias recentes e pela consciéncia que temos, agora, de sua persistencia em varias regioes. Depois, o senti-mento de urna contradicao entre duas series de fatos, o crescimento demográfico atual da especie humana e a possibilidade de ace-leracáo deste crescimento pela generalizado dos cuidados higiénicos, dum lado, e de outro lado, o balanco dos recursos alimentares. A velha fórmula de Malthus já nao é aceitável, mas a inquietacáo que a inspira ainda perdura. Enfim, os progressos da fisiología da alimentacao orientaram para esses problemas todos aqueles que, a um título ou outro, se tém interessado pela ecología humana. Seja permitido dizer que este é o meu caso. O movimento natural do pensamento do ecologista o conduz para o estudo das condicoes de nutricáo dos grupos humanos no seu quadro geográfico, independente-mente de toda preocupacáo de atualidade (Sorre, 2007).

Diante de certos livros é que a gente vé como é fácil e sem importancia o oficio de literato. Sim, sao realmente os cientistas que nos botam complexo de inferioridade. Porque afinal de contas fazer literatura nao é mais do que coisa gratuita e á toa, anotar ¡mpressóes, traduzir um estado de alma, ou relatar algum sucesso havido, sempre deformado. Em suma: tudo improvisacáo, falsifi-cacáo, fingimento. Mas escrever um livro que informe, ensine, descubra verdades en-cobertas ou controvertidas, isso sim, representa, na realidade, um mundo de honesti-dade, esforco, labuta, rigor além do talento natural que exige em grandes doses. E é, pois o sentimento da minha inidoneidade que me afeta ao tentar um comentario em torno do livro do ilustre professor Josué de Castro: A "Geografía da Fome" (Queiroz, 2007).

"A Geografía da Fome" é, sem dúvida, um dos mais valiosos livros publicados na última década. Os fatos e teorías nele conti-dos sao de ¡mediata, radical e fundamental importancia para a humanidade. Seu tema é a pior enfermidade do mundo, mais comum e mais mortífera do que as guerras e pestes em conjunto (Holloway, 2007).

O prof. Josué de Castro enfrentou justamente esse assunto tabu (Fome), difícil, ne-gaceado, escondido nos relatórios e coberto com os retalhos de sinónimos bonitos como mentiras. É um sentimento primario que hu-milha a nossa cultura de raciocinio. Nao hu-milha a concepcáo instintiva de civilizacao, mas os elementos formadores, minando-lhes o interior com denuncia de urna desanimadora e diaria verdade natural (Cascudo, 2007).

Na verdade, Josué de Castro reunia em urna só pessoa as qualidades da inteligencia, da agilidade mental, da argucia na ob-servacáo, e da coragem em denunciar as injusticias e os dramas sociais, apontando suas causas e alternativas para dominá-los e por fim as suas conseqüéncias. Sendo médico de formacáo profissional, especializou-se em fisiología e dedicou-se a problemas de nutricáo. A partir de observacóes individuáis de seus clientes, passou a procurar urna di-mensáo social para o problema da alimentacao escrevendo um livro sobre a "Alimentacao Brasileira á Luz da Geografía Humana" (Andrade, 1981).

A sociedade de opulencia, em que nos encontramos por direito ou como satélite, institucionalizou a fome. Neste momento queria render minha homenagem e lembranca á memoria de Josué de Castro um brasileiro universal. Josué de Castro, que foi Presidente do Conselho da FAO e o primeiro também a prever os problemas que hoje enfrentamos. Josué de Castro sintetizou sua análise sociológica e cultural em seu livro intitulado "Geografía da Fome", que depois de um quarto de século continua atual, par-tindo de um modelo crítico da sociedade imperialista. Nesta hora decisiva para a FAO, momento em que é indispensável investir no homem assegurando seu pleno desenvolvimiento, o México se inclina respetosamente diante de Josué de Castro, homem que, do Nordeste do Brasil, ergueu, movido por sua angustia de médico e sociólogo do Terceiro Mundo, sua experiencia em teoria e sua teoria em conhecimentos antropológicos e objetivos do mundo, onde o problema do futuro ameaca, pelas realidades ¡mediatas, o que há de mais premente, a saber, a alimen-tacao e a agricultura. Pela memoria e pelo coracao, nos nos rejubilamos por este brasi-leiro extraordinario que conosco lutou para fazer reinar a justica e a solidariedade inter-nacionais, Josué de Castro nao é mais um de nos. Poderíamos dizer como os Romanos "Ele viveu" e dizer como ele "somente solucionando os problemas atuais poderemos tentar resolver os do futuro. A vida do homem está em marcha para uma nova sociedade. Ou nos a construiremos com as nos-sas maos e nossa inteligencia, ou assistiremos, inevitavelmente, á sua des-truicao violenta do sistema que impede sua realizacao pelo egoísmo e particularismo (Alvarez, 1974).

A noticia da morte súbita de Josué de Castro, ocorrida em Paris, deixa consternada esta Universidade que tinha nela um de seus mais talentosos mestres. Era desta extirpe de homens raros, a quem jamáis seria possível ignorar, ou ficar indiferente, tal a forca de sua personalidade e o vigor de sua atuacao, sempre combativa, as vezes contundente e incómoda. Dotado de grande inteligencia e ¡maginacao fértil, servia-se da palavra fácil, escrita ou falada, para defender suas idéias, que convergiam, afinal, para o grande sonho de construir um mundo melhor, onde a miseria e a fome nao sacrificassem milhóes de pessoas. Em Josué de Castro realizou-se a difícil harmonía do sonhador com o homem de acáo. Dou testemunho de quem o conhe-ceu de perto, privando de sua amizade por cerca de trinta anos. Apreciei-lhe o inconformismo, o ideal, o ánimo combativo, os devaneios e as realizacóes. Ele usou a pró-pria angustia para dar um sentido humano e social á sua obra, que há de ressurgir na ad-miracáo postuma (Fraga Filho, 1973).

Frederic Joliot Curie, grande sabio e grande homem, falecido recentemente, cos-tumava dizer, ao falar da América Latina, ter lido nos últimos anos poucos livros táo importantes quanto a "Geopolítica da Fome" e sua voz era veemente ao fazer o elogio da obra e do autor. De Josué de Castro e de sua obra de escritor e cientista, sobretudo da Geografía e da Geopolítica da Fome ouvi falar, tanto em Paris, como em Moscou, tanto em Viena e Berlim, quanto em Pequim e Ulan Bator, cidade encravada ñas Montan-has da Mongolia. Por toda parte onde se le e onde o trabalho da inteligencia é respeitado e amado. Possuímos um pequeño grupo de homens de ressonáncia universal: o político Oswaldo Aranha, o arquiteto Osear Nieme-yer, os pintores Portinari e Di Cavalcanti, o compositor Vil la-Lobos, uns poucos. O nome mais conhecido de todos, no sentido da extensáo desse conhecimento pelas fron-teiras do mundo, é, no campo científico e social, o de Josué de Castro. As traducóes dos seus livros, o eco despertado por sua obra sobre os problemas da fome, no mundo moderno, fizeram dele um dos grandes no-mes, dos mais célebres e dos mais respetados da cultura contemporánea. Seus admiradores chamam-se Pearl Buck, Ann Seguers, Vercors e Joliot-Curie, Kuo-Ko-Jo e Lisenko, para citar apenas meia dúzia entre centenas de milhares (Amado, 1996).

É este o mais encorajador, o mais esperanzoso e o mais generoso livro que eu já li em toda a minha vida. Livro escrito por um famoso cientista, um técnico que sabe o que está dizendo, um conhecedor dos problemas práticos, um homem do mundo no melhor sentido da palavra, porque conhece o mundo e suas populacóes e apresenta-nos numa obra magistralmente escrita o conhecimento fundamental para felicidade e paz dos homens. É por esta razáo que eu afirmo que este livro - A Geopolítica da Fome, do eminente cientista Josué de Castro - é o mais importante livro que já foi publicado nestes confusos, perigosos e ridículos tempos atuais. Ridículos porque, embora a paz seja prática e possível, individuos há, em varias partes do mundo, tocando seus tambores para manufaturar uma guerra (Buck, 2007).

Quantos professores, jovens e militantes do Brasil conhecem ou ouviram falar de nossos queridos Josué de Castro, Paulo Freiré, Darcy Ribeiro, Joao do Vale, Patativa do Assaré, Cámara Cascudo, Caio Prado Junior, Nelson Wernek Sodré e tantos outros. Esses pensadores foram "esquecidos" pela classe dominante, para que as geracoes atuais nao pudessem se apropriar de seu pensamento, de seu exemplo, de suas reflexóes. E nos proibiram de conhecé-los porque sabem que seu pensamento e acao sao revolucionarios. Revolucionarios nao numa retórica agitadora de gritar loas á mudanca. Revolucionarios no verdadeiro sentido de Marx e de Caio Prado Júnior: de revolucionar as estruturas económicas e sociais, para que o povo pos-sa se apropriar coletiva e socialmente dos bens da natureza e das formas de produzir os bens, utilizando-os em favor da melhoria de vida material e cultural de todos e nao apenas de urna minoría, como sempre acon-teceu nestes 500 anos. Nossa obrigacao, como militantes estudiosos e dedicados que devemos ser, se quisermos honrar a memoria de Josué de Castro, é estudar suas obras, compreendé-las, utilizá-las para transformar nossa realidade. Recuperar seu pensamento e acao para que todos os estudantes e militantes o conhecam (Stédille, 2007).

Josué percebia a necessidade de reformas, sabia manter sempre a modestia entre o presumível e o ilusorio, entre a fato e a utopia, de fato foi um homem além do seu tempo. Viu a fome de tal forma que só hoje é que o mundo enxerga. Pois deu a fome urna forma política e científica a luz da geografía. No Brasil existe a característica de se ocultar seus grandes problemas, como sobre a Amazonia, Agroenergia, Transposicao do Rio Sao Francisco, etc. Porém, naquela época tínhamos um Josué, que anunciava, con-tradizia e denunciava o mal contexto vivido e com coragem expóem ao mundo que a fome existe no Brasil e em outras partes, e é um problema político e do estado, que essa é urna questao em si mesmo que tem de ser enfrentada. Passados tantos anos da deseo-berta da fome como um problema político, no Brasil ela sempre se encontra tao atual como nunca, e as tentativas de acabar sao muitas, através de diversas entidades nao governamentais, Ongs, etc., porém todas as receitas caminho sobre urna única cartilha, as orientacóes do mestre Josué de Castro, que, como exemplo, urna resposta de Furta-do para acabar com o problema da fome com base na leitura geográfica de Castro, ele afirma:

Visto apenas do ángulo da fome, o problema da pobreza pode ter no Brasil solucáo relativamente fácil. Mas no Brasil nao há es-cassez de alimentos. Somos um país exportador de alimentos, temos um potencial agrícola enorme. Basta, num primeiro momento, assegurar o acesso a urna cesta básica de alimentos (Furtado, 2002).

No polémico tema da fome, deve se falar obrigatoriamente em pobreza foi isso que Josué descobriu nos mangues do Recife. Nao se combate fome sem combater pobreza.

Segundo Ricardo Abramovay a palavra fome tem dois significados bem distintos: Um deles é o de apetite, vontade de comer, um fenómeno instintivo que nos leva a buscar alimentos e, conseqüentemente, preservar a nossa vida; O outro, de subalimen-tacáo ou desnutricáo, tem a ver com a impossibilidade de se alimentar ou com o fato de se alimentar de forma errada.

Para Carlos Augusto Monteiro, do Departamento de Nutricáo da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de Sao Paulo, é preciso que se defina com clareza a dimen-sáo que cada um desses "tres flagelos" -a pobreza, a desnutricáo e a fome-alcancam em nosso país. -Pode-se dizer que pobreza corresponde á condicáo de nao satisfacáo de necessidades humanas elementares como comida, abrigo, vestuario, educacáo e assis-téncia á saúde.

As definicóes operacionais de pobreza levam em conta a renda das familias e a chamada linha de pobreza corresponde ao mínimo de renda que as pessoas devem ter para satisfazerem suas necessidades básicas. Quando a linha da pobreza se baseia apenas no custo da alimentacáo, estamos diante de urna condicáo de pobreza extrema ou indigencia. As deficiencias nutricionais, por sua vez, sao doencas que decorrem da in-gestáo insuficiente de energía e de nutrientes ou aínda do mau aproveitamento biológico dos alimentos ingeridos, e pode serperfeitamente diagnosticada por meio de exames laboratoriais.

Fome como fenómeno na obra de Josué de Castro

O primeiro passo no estudo do fenómeno da fome na obra de Josué de Castro deve ser o de precisar o conceito de fome que o autor desenvolve. Este conceito foi claramente exposto em seu livro "A Geografía da Fome" no terceiro item do prefacio intitulado: "Nosso conceito de fome: as fomes individuáis e coletivas. As fomes totais e par-ciais. As fomes específicas e as fomes ocultas". Neste ponto Josué de Castro afirma que irá tratar específicamente da fome cole-tiva seja ela endémica (permanente) ou epidémica (transitoria), seja ela total (inanicao) ou parcial ou oculta.

Ele confere uma atencao especial para a fome parcial ou oculta, por esta, segundo ele, ser mais freqüente e atingir uma maior parte da populacao. É de extrema importancia notar que Josué de Castro nao irá restringir o conceito de fome, ao contrario, utilizará este conceito, mesmo quando outros autores utilizariam conceitos como o de subnutricáo ou desnutricáo. Esta opcáo em "abrir" o conceito tem razoes científicas, pois como ele mesmo aponta, a fome parcial além de ser mais freqüente também seria mais grave. Ao mesmo tempo tem razoes políticas, pois assim a fome nao poderá ser tratada como um fenómeno restrito as "re-gióes longínquas" como o Oriente e a Europa do pós-guerra. Tornar pública a existencia da fome através da denuncia de suas causas e conseqüéncias foi o grande objetivo de duas das maiores obras de Josué de Castro, a primeira publicada em 1947, "A Geografía da Fome", e a segunda publicada em 1951, "Geopolítica da Fome". A d¡fe-renga teórico-metodológica é praticamente nula entre ambas, sendo a escala de análise a principal modificacáo de uma para a outra.

Josué de Castro aponta no prefacio de "A Geografía da Fome" duas razoes que o leva-ram a pensar em escrever esta obra em diferentes volumes. A primeira se refere á exten-sáo do fenómeno da fome que abrange todos os continentes e a segunda se refere á possibilidade de lancar volumes separadamente sem prejudicar o conteúdo da obra como um todo. Em ambos os livros Josué iniciam sua apresentacáo do fenómeno da fome através de um tratamento mais teórico da questáo. Este tratamento tem como objetivo dar base para que o leitor possa entender o conteúdo que vira a seguir, ou seja, dar instrumento para que o leitor entenda o conteúdo dos estudos das regióes afetadas pelo drama da fome. Em "Geopolítica da Fome", utilizando-se de zoneamento apre-sentado pelo próprio autor em "A Alimen-tacáo Brasileira á Luz da Geografía Humana" Josué de Castro divide o Brasil em cinco grandes áreas sendo tres délas consideradas áreas de fome. Área Amazónica, Área da Mata do Nordeste ou Área do Nordeste Acu-careiro e Área do Sertáo do Nordeste sao as áreas de fome no Brasil, enquanto as áreas do Centro-Sul e Extremo Sul, apesar de nao apresentarem um padráo dietético satisfató-rio, mas nao sao consideradas áreas de fome. Já em "Geopolítica da Fome" Josué de Castro trata do fenómeno da fome no mundo dividindo sua análise nos seguintes continentes: América, Asia, África e Europa.

De certo modo podemos apresentar duas linhas principáis apontadas por Josué de Castro em "Geopolítica da Fome". A primeira trata-se, de como já foi mencionado, da superacáo do tabu da fome, onde Josué de Castro tenta demonstrar como a humanida-de sempre sofreu com o drama da fome, nao importando a época ou a regiáo do globo. Neste sentido o autor realiza em todos os capítulos uma retrospectiva histórica do fenómeno da fome para cada regiáo. A segunda linha principal, que já pode ser notada em "Geografía da Fome" é a denuncia dos estragos cometidos pelo processo de co-lonizacáo ao redor do mundo.

Josué de Castro indica insistentemente para o fato de que todas as regióes que pas-saram pelo processo de colonizacáo (euro-peu principalmente) sofreram e ainda sofrem com o flagelo da fome. É imprescindível destacar ainda o debate que Josué de Castro trava com a teoria de Malthus principalmente após 1 948, ano da publicacao do livro "O caminho da sobrevivencia" de Willian Vogt, livro este que teve grande repercussáo entre os adeptos do malthusianismo. É verdade que desde o inicio de sua obra Josué de Castro trata o fenómeno da fome como um fenómeno social e nao natural que pode ser superado através da acao do próprio Ho-mem. Porém, a partir de 1 948, Josué de Castro se coloca em franco debate com as idéias malthusianas negando suas teses e apontando dois erros graves na tese malthusianas: que afirma que a populacao cresce em progressao geométrica e a producao de alimentos em progressao aritmética.

Primeiramente Josué de Castro afirma que nao se pode ver o crescimento da populacao como urna variável independente, sendo este crescimento sujeito a fatores políticos e económico variando de acordó com a conjuntura social.

Depois Josué de Castro aponta para os avancos técnicos que foram realizados desde os tempos de Malthus que provaram que o crescimento da producao de alimentos pode acompanhar o crescimento da populacao, ou muito mais.

Contudo, a principal e talvez mais polémica tese de Josué de Castro, trata da relacao entre a fome e o fenómeno da "superpopulacao". Trabalhando com o principio de causalidade Josué de Castro afirma que o fenómeno da "superpopulacao" nao causa fome, mas sim que a fome é a causa do fenómeno da "superpopulacao". Para Josué de Castro populacóes com deficiencias alimentares se tornariam mais férteis, tendo mais filhos o que causaría um aumento in-desejado da populacao. Além disso, segundo Josué de Castro, com um alto índice de mortalidade infantil e a necessidade de bracos para trabalhar para o sustento da familia o número de filhos por casal também aumentaría significativamente.

É através desta relacao de causa e efeito -fome e "superpopulacao"- que Josué de Castro combate o discurso malthusiano e ainda afirma que a melhor maneira de se controlar o crescimento da populacao é pro-movendo urna melhoria significativa do pa-drao alimentar das pessoas. Porém é possí-vel perceber que assim como Malthus, Josué de Castro trabalhou somente com urna relacao de causa e efeito (causalidade). Tratase de urna lacuna deixada em sua obra e um convite aos pesquisadores na atualidade em complementar, pois este tratamento nao chega a superar a lógica do pensamento malthusiano.

Segurança alimentar no combate a fome

Resta a fome, certamente o problema mais difícil de definir e mensurar. "Se des-cartarmos a fome aguda, ou momentánea, que corresponde ao apetite, temos que pensar na fome crónica, permanente, que ocorre quando a alimentacao habitual nao propicia ao individuo energía (calorías) suficiente para a manutencao do seu organismo e para o exercício de suas atividades cotidianas", explica o professor, lembrando que as dificuldades técnicas de se medir, de forma confiável, a ingestao alimentar habitual dos individuos e suas correspondentes necessidades energéticas tornam difícil a mensuracao direta da extensao da fome ou da deficiencia energética crónica em urna populacao, que acaba sendo determinada de forma indireta a partir da avaliacao do percentual de pessoas que apresentam insuficiente relacao peso/altura.

É possível, portanto, que urna pessoa seja pobre, mas nao passe fome e que, em situacóes especiáis, de guerra ou catástrofes naturais, por exemplo, haja fome sem que haja pobreza. Além disso, se podemos afirmar que a fome sempre acarreta deficiencias nutricionais, nao podemos dizer que todas as deficiencias sao devidas a falta de comida. Muitas vezes a desnutricao ocorre por conta da baixa qualidade dos alimentos ingeridos, da falta de higiene no preparo dos alimentos, de doencas diarréicas e parásitas intestinais ou até mesmo por questóes so-ciais e culturáis ou por disturbios alimentares de ordem psicológica, como a anorexia ou a bulimia. Isso significa que, apesar de serem igualmente graves e indesejáveis, a fome, a desnutricao e a pobreza nao sao a mesma coisa e, dessa forma, requerem também solucóes com escala, investimentos e conteúdos distintos.

Na opiniáo de D. Mauro Morelli, bispo de Duque de Caxias (RJ), se houvesse decisao política e boa gestao seria possível acabar com a fome no Brasil em cinco anos, mas nao com a miseria: "Eu acho que temos condicoes e competencia para produzir e distribuir alimentos e isso acabaría com o problema da fome. Quanto á miseria, eu pensó que seriam necessários uns 50 anos para se eliminar as suas marcas".

Diante dessa perspectiva o Programa "Fome Zero" do Governo Lula é um importante passo para acabar com a fome: "En-quanto houver um irmao brasileiro ou uma irma brasileira passando fome, teremos motivos de sobra para nos cobrirmos de ver-gonha. Por isso, defini entre as prioridades de meu governo um programa de seguranca alimentar que leva o nome de "Fome Zero". Como disse em meu primeiro pronuncia-mentó após a eleicao, se, ao final do meu mandato, todos os brasileiros tiverem a possibilidade de tomar café da manha, al-mocar e jantar terei cumprido a missao da minha vida. É por isso que hoje conclamo: Vamos acabar com a fome em nosso País. Transformemos o fim da fome em uma grande causa Nacional, como foram no passado á criacao da Petrobrás e a memo-rável luta pela redemocratizacáo do País" (Silva, 2003).

No programa estao englobados os efeitos da fome, nocoes de seguranca alimentar e nutricional, enfatiza os aspectos do acesso e da disponibilidade em termos de suficiencia, continuidade e precos estáveis e com-patíveis dos alimentos com o poder aquisiti-vo da populacao ressalta a importancia da qualidade e valoriza os hábitos alimentares adequados, colocando a seguranca alimentar e nutricional, como uma prerrogativa básica para a condicáo de cidadania.

Esse foi o primeiro e grande momento após tantos anos de se ter descoberto a fome no país como uma questáo política, hoje denominada de Seguranca Alimentar, que um governante, busca combate-la pelo lado da distribu ¡gao de alimentos. Porém, o termo "fome" tem um apelo muito forte e serve para chamar atencáo sobre um grave problema, é que dentro do conceito de seguranca alimentar, qualquer política que vise resolver o problema da fome nao pode descuidar do aspecto nutricional.

Para consolidar esse marco histórico de combate a fome no país, foi que em 16 de setembro de 2006, entra para a historia das conquistas sociais no Brasil, o ato de pro-mulgacáo da Lei Orgánica de Seguranca Alimentar e Nutricional (LOSAN), carregando em si uma teia de significados ao elevar o acesso á alimentacáo á condicáo de política de Estado permanente, que tanto defendía o mestre Josué de Castro.

O conceito de Seguranca Alimentar e Nutricional tem sido difundido no mundo desde o inicio do século XX, e significa "garantía, a todos, de condicoes de acesso a alimentos básicos de qualidade, em quantidade suficiente, de modo permanente e sem comprometer o acesso a outras necessidades essen-ciais, com base em práticas alimentares saudáveis, contribuindo, assim, para uma existencia digna, em um contexto de desenvolvimiento integral da pessoa humana".

Algumas coincidencias cercaram o evento ampliando ainda mais sua importancia: a lei fora aprovada no Senado no dia 5 de setembro, dia do aniversario de Josué de Castro, médico e geógrafo, pioneiro na defesa das políticas de seguranca alimentar no Brasil que, se estivesse vivo, completaría 98 anos. E sua principal obra, "A Geografía da Fome", completaría neste ano de 2007, 62 anos, com um rigor científico e político que a mantém como referencia de todos que mi-litam na área.

Seguramente ao defender a fome como um problema institucional, neste momento Josué rompe com muitos limites de sua época e ele sabia o que estava fazendo, pois ele próprio afirmou ser necessário derrubar o tabu que existe por tras do tema da fome.

Herança da obra de Josué

Nota-se que Josué de Castro tem uma vasta obra (Quadro Nº 1) que permite diversas leituras. A importancia destas obras se revela a todo o momento, pois até hoje o fenómeno da fome nao foi extinto da superficie da terra. Josué de Castro apresenta diversos elementos para a discussáo do fenómeno da fome hoje, seja tratando de políticas públicas de combate á fome, seja tratando dos discursos produtivistas das em-presas multinacionais, seja tratando do imaginario da populacao com relacao ao fenómeno da fome. Para a "Historia do Pensa-mento Geográfico Brasileiro" sua contribuicao foi decisiva.


Fonte: Elaboraçao própria.

Sua obra apresenta um rico debate com diversos geógrafos, em especial com os da Geografia Francesa, e por vezes é possível apontar para avancos teóricos realizados pelo autor no sentido de urna Geografia que tenha urna postura mais crítica e ativa frente á reali-dade brasileira e mundial. Aplicando método de trabalho geográfico em escala universal, langa o livro Geopolítica da Fome (1951), apresentando urna analise de aplicacáo práti-ca dos conhecimentos gerados pela geografia política, isto é, a temática da relacáo entre o espago e o poder e entre o estado e o territorio na investigagáo da fome.

Josué denunciou a fome universal como urna praga fabricada pelo homem contra outros homens, tentou criar urna teoría explicativa para a triste realidade do desenvolvimiento, da pobreza, da miseria (Souza, 2005).

Ele era apenas um brasileiro. Cientista, escritor, um homem público devotado a sua patria, a seu povo, aos povos do Brasil. Sabia das injustigas, sabia das nossas mazelas, sabia da fome, e como sabia da fome (Amado, 2005).

Um dos tragos fundamentáis de Josué Castro era a sua clarividencia. A clarividencia é uma virtude que se adquire pela in-tuicáo, mas, sobretudo pelo estudo. É tentar ver a parte do presente que se projeta no futuro (Ribeiro, 2005).

Josué foi um homem na geografía que deixou sua historia, que soube lutar por um futuro melhor para o seu país e para a hu-manidade, usando como armas apenas o seu conhecimento, a sua capacidade de trabalho e a sua acao. Sua vida foi uma grande licao para humanidade, tentou modificar a historia de seu país, em sua própria realidade, sua própria cultura. É este cidadao pernam-bucano que o Brasil e a Geografía de hoje precisa dar valor, deixando de ignorar seus conhecimentos (Santos, 2005).

"A Geografía da Fome" identificou, com precisao cirúrgica, o problema da fome no Brasil, conferindo ao conceito a complexi-dade e diversidade que Ihe é inerente e tam-bém proporcional aos problemas sociais que estao na sua génese. Vasculhou todas as suas especificidades de modo a reunir elementos para apontar as multiplicidades de acoes de políticas necessárias para o setor. Sao "as fomes individuáis e coletivas. As fo-mes totais e parciais. As fomes específicas e as fomes ocultas". Sua preocupacao voltou-se principalmente para as fomes coletivas, em especial atencao para as parciais ou ocultas que, segundo ele, por mais freqüen-tes e graves, sao as que mais atingem as po-pulacoes e com elevado poder de dizi-macao.

É a fome provocada pela falta permanente de determinados componentes nutritivos; é quando a pessoa come, todos os dias ou quase todos os dias, mas nao se alimenta. O acesso á alimentacao, em quantidade, regu-laridade, quantidade suficientes e ainda suficientemente diversificados para cobrir as necessidades alimentares da populacao. Esse é o primeiro direito constitutivo na for-macao da cidadania, da dignidade humana. O direito elementar e humano á alimentacao é uma condicao básica para que as pessoas tenham saúde, que tenham con-dicoes de almejar outros direitos, outros desejos de uma vida melhor. Cuidar para que isso aconteca nao é assistencialismo, é promover reconhecimento de direitos elementares e é um movimento que tern raizes históricas na sociedade brasileira, tendo Josué de Castro como principal referencia. Outras pessoas e entidades se mobilizaram em torno dessa bandeira, como o Herbert de Souza (Betinho), Dom Hélder Cámara, Dom José Maria Pires, Dom Marcelo Pinto Caval-heira, além de tantos outros anónimos que dedicaram e dedicam suas vidas á luta por um Brasil sem fome que em parte se traduz hoje no Fome Zero (Programa do Governo federal Brasileiro).

Seus livros tornaram-se referencias clás-sicas da producáo intelectual brasileira. Ce-lebrizaram a frase que ainda hoje é repetida quando se trata sobre fome. "Metade da populacao nao dorme porque nao tem o que comer, a outra metade nao dorme com medo dessa que nao tem o que comer".

Conclusáo

Josué dedicou o melhor de seu tempo chamando a atencáo para os problemas da fome e da miseria que ocorria no mundo, dirigiu seus estudos para a analise nao apenas da fome em si e de sua incidencia sobre as pessoas mal alimentadas, mas das causas do problema e da ameaca que representava para a humanidade, das seqüelas que deixa-va ñas populacóes mal alimentadas, com re-percussóes na esperanca de vida, na producáo e no desenvolvimento intelectual.

Castro levantava a partir de constatacóes radicáis uma serie de idéias, nao só pela se-riedade e audacia com que enfrentou o grande tabu, a fome, mas pela denuncia que fez da situacao em que vivia a maioria da populacao do país, usando metodología eminentemente geográfica, analisou as suas características físico-naturais e sociais.

Como pensador conseqüente, nao limi-tou a dar o diagnóstico da fome do mundo, passou também a orientar como poderia desenvolver a luta pela sua erradicacáo, a questáo alimentar passava a ter forte priori-dade ñas preocupacóes governamentais e já se comecava a entender que os grandes problemas nao dependiam apenas de aspectos étnicas ou climáticas, mas do sistema social gerado pela colonizacáo e sugería a necessidade de se desenvolver urna política de co-rrecao dos seus impactos negativos.

Um outro aspecto que é de fundamental importancia está em estabelecer as diferencias de abordagem para que possamos perceber como o reconhecimento da assis-téncia no campo dos direitos sociais é o ca-minho para combater o assistencialismo, muito perceptível em todas as pesquisas desenvolvidas por Castro. Por muito tempo, prevaleceu urna visao equivocada sobre a questao da alimentacao, que era vinculada á caridade. Na lacuna deixada pela ausencia histórica de políticas na área, sobressaíam os movimentos de combate á fome, de coleta de alimentos para distribuicáo em datas e eventos específicos. Nao há como negar que foram - e ainda sao - importantes manifes-tacoes de filantropía e de boa vontade. No entanto, pelas limitacoes inerentes á nature-za dessas iniciativas - por vezes segmentadas, pontuais e exclusivamente emergenciais - nao se constituem, efetivamente, em alternativa para solucionar um problema que é estrutural e tem implicacoes sociais.

O direito á alimentacao, exatamente por sua preméncia, nao pode estar sujeito á boa vontade das pessoas e instituicoes, por mel-hor que sejam as intencoes e por mais importancia que tenha essas iniciativas no sentido de mobilizar as consciéncias em torno das solucoes do problema da falta do que comer. É necessário, considerando os ensi-namentos de Josué de Castro e outros que estudaram o fenómeno, que o direito á alimentacao faga parte de políticas públicas permanentes, articulando com outras políticas que ataquem, na origem, os problemas sociais que produzem a situacáo de fome.

As políticas precisam, inclusive, considerar a historia dos movimentos sociais, des-envolvendo também a capacidade de articular o esforco coletivo de homens e mulheres de boa vontade que estáo em contato, na ponta, com o problema da fome e se mobili-zam em torno dele.

Mas, nesse caso, os movimentos passam a existir num outro patamar, contribuindo, com sua capilaridade e potencial mobiliza-dor, como parceiro de urna política elaborada estratégicamente e que pense o problema da fome de maneira global. Essas características se refletem na LOSAN, resultado de um projeto elaborado pelo governo com partici-pacáo efetiva do Conselho Nacional de Seguranza Alimentar e Nutricional (CONSEA) em sintonía com os conselhos estaduais e municipals e prontamente acolhidos pelo Congresso Nacional, que o aprovou com a agilidade necessária.

Pensó que um governo entra para a historia quando ele expressa e viabiliza senti-mentos e desejos presentes na consciéncia da populacáo. Erradicar a fome e a desnu-tricáo no Brasil, na perspectiva de direitos legitimados e normatizados em lei e articulando com outros direitos, é um sentimento forte na sociedade brasileira. Juntos estamos alcanzando essa conquista histórica: erradicando a forme e a desnutricáo no Brasil.

Finalmente podemos observar que um estudo que durou a vida toda de Josué, o Brasil considerou com a LOSAN a importancia do seu trabalho, levando em conside-racáo sua diagnose e seus ensinamentos. Contudo, ainda estamos longe de erradicar a fome, pois necessariamente pesquisas e con-hecimentos sustentáveis as ciencias geográficas e afins dispóem a servicos dos gover-nos, o que na realidade falta e o interesse de acabar com a fome, que nao é apenas biológica, mas principalmente material.

A editora Civilizacáo Brasileira lancou a 6a Edicáo do livro "Geografía da Fome" (2006). Foi também lancado, pelo MST, um caderno de Estudos de autoría de Anna Maria de Castro denominado Josué de Castro -Semeador de Idéias contendo urna biografía resumida do autor. O Conselho Universitario da Universidade Federal do Rio de Janeiro, acolhendo por aclamacáo proposta de seu Reitor, houve por bem conferir o Título de Doutor Honoris Causa- in memoriam a Josué de Castro. Ainda em dias deste ano, em comovente e até certo ponto surpreendente homenagem, a Turma de Estagiários da Escola Superior de Guerra, que se auto denomi-nou "Consciéncia Nacional", escolheu Josué de Castro como seu Patrono, fazendo inaugurar seu retrato na galería de homenagea-dos naquela Escola de Altos Estudos das Forcas Armadas Brasileiras. Também o CONSEA, Conselho Nacional de Seguranca Alimentar e Nutricional, Órgao de Assessora-mento da Presidencia da República, elegeu Josué de Castro como seu Patrono.

Castro combateu as injusticas sociais, apontando as causas e solucoes. Josué Apo-lónio de Castro, além de desenvolver pesquisas no Brasil, em especial na regiao Nordeste, considerada uma área de existencia de um bolsao de pobreza, também, viajou os quatro cantos da Terra para conhecer e estudar as razoes desse mal que afirmara ser "tao antigo como a própria humanidade": A Fome. Contudo sua ferramenta de pesquisa, seu método na peleja contra a fome, foi fa-zer da geografía um bandeira de luta contra a fome e respaldando a importancia para o estudo do homem e do meio.

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1Artículo recibido el 16 de abril de 2007 y aceptado el 10 de septiembre de 2007.

 

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