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Izquierdas

versão On-line ISSN 0718-5049

Izquierdas (Santiago)  no.46 Santiago maio 2019

http://dx.doi.org/10.4067/S0718-50492019000200047 

Articles

Migração, relato e descolonização no Brasil a partir do filme Que horas ela volta?

Migration, story and decolonization in Brazil from Que horas ela volta? (The Second Mother)

Migración, relato y descolonización en Brasil desde la película ¿A qué hora ella regresa?

Fagner Delazari* 

Daiana Nascimento dos Santos** 

*Brasil, autor, Mestre em Letras: Linguagens e Representações pela Universidade Estadual de Santa Cruz - UESC. fgnrdlzr@gmail.com

**Brasil, coautora, Doutora em Estudios Americanos - mención Pensamiento y Cultura. Professora de Literatura Comparada, vinculada ao programa de Doutorado em Literatura Hispânica do Centro de Estudios Avanzados/Universidad de Playa Ancha, UPLA Chile. Membro do Aladaa-Chile. .daiana.nascimento@upla.cl

Resumo:

O presente artigo pretende analisar o longa-metragem brasileiro Que horas ela volta? (2015), dirigido por Anna Muylaiert, sob o prisma da crítica pós-colonial, especialmente quanto às noções de colonialidade (Quijano), subalternidade (Spivak) e descolonização do imaginário (Akassi). Propomo-nos a investigar os aspectos estéticos, políticos e sociais presentes na obra de ficção, que nos permitam afirmar que a personagem Jéssica representa um esforço de ruptura em relação à colonialidade presente nas relações sociais brasileiras, principalmente no que tange à situação da mulher nordestina e trabalhadora doméstica no início do século XXI.

Palavras-Chave: Estudos pós-coloniais; migração; Descolonização; Imaginário; Cinema Brasileiro.

Abstract:

This paper intends to analyze the brazilian movie The second mother (Que horas ela volta?, directed by Anna Muylaert), from the ideas of the postcolonial criticism, specially the notions of coloniality (Quijano), subalternity (Spivak), and decolonization of the imaginary (Akassi). We propose to investigate the aesthetic, political and social aspects present in this fiction movie, that allow us to affirm that the character Jessica represents an effort of rupture in relation to the present coloniality in the Brazilian social relations, especially with regard to the situation of northeastern women and domestic workers at the beginning of the 21st century.

Keywords: Postcolonial studies; Migration; imaginary; descolonization; Brazil; cinema.

Resumen:

El presente artículo analiza la película brasileña ¿A qué hora ella regresa? (2015), dirigida por Anna Muylaiert, bajo el prisma de la crítica postcolonial, especialmente en cuanto a las nociones de colonialidad (Quijano), subalternidad (Spivak) y descolonización del imaginario (Akassi). Nos proponemos investigar los aspectos estéticos, políticos y sociales presentes en la obra de ficción, que nos permitan afirmar que el personaje Jéssica representa un esfuerzo de ruptura en relación a la colonialidad presente en las relaciones sociales brasileñas, en especial en lo que relacionado a la situación de la mujer nordestina y empleada del hogar a principios del siglo XXI.

Palabras clave: Estudios postcoloniais; descolonización; imaginario; cine; Brasil.

O colonizador é cada vez mais aterrorizado pela metralhização dos Condenados da Terra. Glauber Rocha

Introdução

O longa-metragem brasileiro Que horas ela volta? lançado em 2015, trata de uma viagem. Uma não: duas viagens. A primeira viagem é a de Val (Regina Casé), que sai de Pernambuco para trabalhar em São Paulo em busca de melhores condições de vida para sua família. A migração de Val compõe um dos maiores fluxos migratórios internos da segunda metade do século XX no Brasil4:homens e mulheres que percorriam o território brasileiro do nordeste para o sudeste, em busca de melhores condições de vida nas metrópoles industrializadas dos estados de São Paulo e do Rio de Janeiro. No caso, Val havia deixado Pernambuco e ido para a cidade de São Paulo, tornar-se empregado doméstica e babá de Fabinho, em detrimento de sua filha Jéssica, deixada em seu estado natal. A segunda viagem é a de Jéssica (Camila Márdila), a filha de Val que, jovem, refaz o trajeto percorrido pela mãe há treze anos. Porém, se Jéssica busca melhores condições de vida, ela o faz de forma diversa de sua mãe: ao invés de se submeter a um subemprego, a jovem decide concorrer a uma vaga em uma das mais importantes universidades públicas do país.

Em São Paulo, ambas se encontram num bairro nobre, na mansão dos ricos patrões de Val, Carlos e esse é o ponto de partida da narrativa, que se desenvolve explorando as tensões sociais que envolvem as relações étnico-raciais e de classe no Brasil, especialmente quanto ao que tange a questão entre patrões e empregados domésticos.

Em nosso artigo, apresentaremos uma breve resenha de Que horas ela volta?, destacando alguns aspectos que consideramos essenciais na obra. Na parte seguinte, faremos um panorama da crítica pós-colonial, elencando os conceitos que consideramos essenciais em nossa análise para, em seguida, nos atermos à interpretação do filme. Por fim, faremos as nossas considerações finais, buscando esclarecer as possíveis representações pós-coloniais do filme e seus limites. No entanto, não nos deteremos nos aspectos estéticos da obra cinematográfica, mas daremos mais atenção aos componentes socioculturais que se fazem presentes na narrativa e consideramos relevantes para nossa proposta. Seguindo a interpretação de Maria Inês Magno5, estaríamos diante de uma crônica cinematográfica, que dialoga com aspectos que tangem o cotidiano brasileiro. Como uma crônica, o filme se vale dos pequenos elementos que compõem o dia-a-dia de uma família de classe média-alta brasileira para apresentar ao espectador as questões ocultas e invisibilizada que concernem às tensões de raça e de classe derivadas da estrutura colonial e da desigualdade social presentes no cenário brasileiro.

A questão central que nos guiará diz respeito à personagem Jéssica, o que nos permite apontar uma série de perguntas para entender em que medida, seu comportamento representa uma ruptura com a colonialidade e com a subalternidade à qual sua mãe, Val vivenciava no seu cotidiano. E acrescentamos: Quais são os significados que as ações de Jéssica podem ter no cenário social brasileiro atual, ainda profundamente marcado pela herança colonial? E quais seriam os limites desta representação? Significariam esses gestos de Jéssica uma ruptura em relação a um ciclo de pobreza e subordinação e o início de um novo ciclo, emancipado e emancipador? O que a personagem Jéssica poderia trazer de contribuição para uma crítica pós-colonial? E quais seriam os limites desta representação?

As histórias de Val e de Jéssica

Que horas ela volta?, lançado no Brasil em 2015, traz em seu roteiro a chegada da jovem Jéssica à cidade de São Paulo, vinda de Pernambuco, estado da região Nordeste do país, para morar com sua mãe. Val, a mãe de Jéssica, havia emigrado do Nordeste para a capital paulista há treze anos, repetindo a sina de milhões de nordestinos, destinados majoritariamente a trabalhos domésticos, subempregos ou a ocupações no mercado informal. Val passou a trabalhar como babá e empregada doméstica para uma abastada família do bairro nobre do Morumbi, exercendo serviço em tempo integral e residindo no “quarto de empregada” dentro da casa dos patrões.

A vida na mansão do Morumbi se encontrava relativamente estável, com papeis sociais e funções bem definidos, até a chegada de Jéssica. A jovem de dezoito anos vinha desde Pernambuco para tentar ingressar na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da Universidade de São Paulo - ou simplesmente USP - um dos mais concorridos vestibulares do país. A partir daí, inicia-se uma série de conflitos sociais, emocionais e psicológicos que evidenciam as tensões nas estruturas familiares e sociais, trazendo à tona relações de poder e submissão, ações de resistência, descontentamentos e enfrentamentos, que estavam silenciados, invisibilizados, embora fossem latentes. Ao mesmo tempo, a personagem Jéssica protagoniza ações de ruptura com a ordem estabelecida, desafiando os papeis sociais impostos, os lugares sociais previamente demarcados e as expectativas de comportamento. A garota “se convida” a se instalar no quarto de hóspedes da mansão, ousa pleitear uma vaga na conceituada universidade paulistana, usufrui de espaços domésticos que são vedados aos serviçais, não ocupa o “seu devido lugar”6 e rompe com as expectativas associadas ao papel social de “filha da empregada”, que incluem docilidade, subserviência, reconhecimento das normas implícitas, aceitação da condição de subalternidade.

Alguns horizontes da Crítica Pós-Colonial

Nossa leitura se guiará pelos horizontes da crítica pós-colonial, composta por um amplo espectro de leituras críticas que surgiram na segunda metade do século XX, especialmente a partir dos estudos de Edward Said, Homi Bhabha, Gayatri Spivak, aos quais se juntaram muitos outros autores oriundos de nações colonizadas/periféricas, que questionam as narrativas históricas e simbólicas produzidas por intelectuais das nações europeias que protagonizaram ações coloniais/imperiais sobre países africanos, asiáticos, latino-americanos e da Oceania.

Preferimos seguir Clement Akassi7 e utilizar os termos “estudos” ou “crítica pós-colonial” ao invés de “teoria pós-colonial”, por considerarmos que aquela categoria pretenderia comportar uma miríade de discursos heterogêneos e em construção, ainda sem unidade metodológica para que sejam denominadas “teorias” propriamente ditas. Homi Bhabha enfatiza que

(...) toda uma gama de teorias críticas contemporâneas sugere que é com aqueles que sofreram o sentenciamento da história -subjugação, dominação, diáspora, deslocamento- que aprendemos nossas lições mais duradouras de vida e de pensamento. Há mesmo uma convicção crescente de que a experiência afetiva da marginalidade social -como ele emerge em formas culturais não canônicas- transforma nossas estratégias críticas. Ela nos força a encarar o conceito de cultura exteriormente aos objets d’art ou para além da canonização da ‘ideia’ de estética, a lidar com a cultura como produção irregular e incompleta de sentido e valor, frequentemente composta de demandas e práticas incomensuráveis, produzidas no ato da sobrevivência social.8

Apesar de não constituir um campo unívoco de ideias, a crítica colonial possui um objetivo em comum: desconstruir as narrativas e os discursos de matriz eurocêntrica sobre as relações entre as sociedades coloniais e sociedades colonizadas, questionando-se os fundamentos epistemológicos eurocêntricos que estavam a definir os cânones e as representações hegemônicas. E esta desconstrução deve ser realizada desde dentro, isto é, tendo como sujeitos protagonistas da narrativa histórica justamente aqueles grupos sociais que foram dominados e marginalizados pela marcha da civilização.

A complexidade dos processos de independência das colônias explicitou que a libertação não se limitava à questão política, mas se estendia por muitos outros domínios. Mesmo que a colonização oficial houvesse findado, persistiam os vínculos da colonialidade nos planos do simbólico, do imaginário, das representações sociais, da subjetividade9. Segundo Aníbal Quijano10, o conceito de colonialidade se refere às características coloniais que persistem nas sociedades colonizadas mesmo após os processos formais de independência. A colonialidade inclui a formação da subjetividade, das visões de mundo, das estruturas das instituições sociais, da cultura e das dinâmicas político-econômicas vigentes. A globalização e a própria noção de modernidade seriam mantenedores da colonialidade, uma vez que fazem com que as relações assimétricas de poder se perpetuem entre sociedades coloniais (centro) e sociedades colonizadas (periféricas). Conforme Restrepo e Rojas (2010), colonialidade também pode ser definida como

(...) um fenômeno histórico muito complexo que se estende até nosso presente e se refere a um padrão de poder que opera através da naturalização de hierarquias territoriais, raciais, culturais e epistêmicas, possibilitando a reprodução de relações de dominação11.

É possível concluir daí que não só os territórios, mas, sobretudo, as mentes se encontram colonizadas. O modelo eurocêntrico implementado no longo processo colonial realizou um efetivo processo de colonização do imaginário12, que subordinou valores, crenças e manifestações culturais locais a “uma específica racionalidade ou perspectiva de conhecimento mundialmente hegemônica, colonizando e sobrepondo-se a todas as demais”13.

A noção de colonialidade é relevante: ela permite expor os mecanismos simbólicos, econômicos e filosóficos que perpetuam as estruturas da dominação fabricadas ao longo do processo colonial, construindo um sistema-mundo moderno-colonial14. No cenário globalizado que se constitui na segunda metade do século XX, as antigas colônias foram mantidas em condição de subdesenvolvimento e relegadas a uma posição periférica na hierarquia global. Os colonizadores mantêm-se no centro do poder, como outrora. Como enfatiza Quijano, “a globalização em curso é, em primeiro lugar, a culminação de um processo que começou com a constituição da América e do capitalismo colonial/moderno e eurocentrado como um novo padrão de poder mundial” 15.

Assim como a África, Ásia e Oceania, a América Latina também está inserida na lógica global, neste sistema-mundo moderno/colonial, sofrendo os efeitos contemporâneos da colonialidade. Evidentemente, esta colonialidade não é um processo unívoco e homogêneo, apresentando variações conforme as características específicas das relações de dominação e entre os sujeitos em cada lugar em que ocorre. Por isso, o Brasil também é palco das contradições que envolvem a presença de modelos hegemônicos de cunho tanto político-econômico quanto simbólico, que visam manter as relações de poder assimétricas que foram construídas ao longo de uma história marcada pela dominação e pela exclusão social.

Conforme Aníbal Quijano, a noção de colonialidade do poder revela um exercício de dominação típico da modernidade, que se baseia em quatro aspectos básicos: a noção hierárquica de raça, a exploração do trabalho, o modelo de Estado de matriz ocidental-burguês e o controle do conhecimento16. Santiago Castro-Gómez, por sua vez, afirma que

o conceito de “colonialidade do poder” amplia e corrige o conceito foucaultiano de “poder disciplinar”, ao mostrar que os dispositivos pan-óticos (panópticos) erigidos pelo Estado moderno inscrevem-se numa estrutura mais ampla, de caráter mundial, configurada pela relação colonial entre centros e periferias devido à expansão europeia.17

Estes aspectos perpetuam as assimetrias de poder político-econômico e simbólico entre Estados centrais e periféricos no atual modelo globalizado, ao mesmo tempo em que consolidam a dominação em níveis que formam o substrato cultural das sociedades, a partir da produção de um imaginário estético-científico cuja finalidade é perpetuar as relações de poder. Sociedades colonizadas, como a brasileira, formaram suas estruturas sociais a partir de uma estrutural socioeconômica de base escravista. Segundo Stuart Hall,

os sistemas de classe e de raça se sobrepunham um ao outro. Eram sistemas de equivalência. As categorias raciais e étnicas continuam a ser hoje as formas pelas quais as estruturas de dominação e de exploração são “vividas”. Neste sentido, esses discursos têm a função de reproduzir as relações sociais de produção.18

Joaquim Nabuco havia sentenciado ainda no século XIX, durante o regime imperial anterior à abolição da escravatura, que “a escravidão permaneceria por muito tempo como a característica nacional do Brasil”19. De fato, ela permanece moldando a estrutura social moderna brasileira: o trabalho doméstico, exercido majoritariamente por mulheres negras, pobres, de baixa escolaridade, é uma evidente herança colonial perceptível no presente. As antigas amas e mucamas que serviam aos senhores nas casas-grandes coloniais - conforme Gilberto Freyre descreveu em sua monumental obra Casa Grande e Senzala, de 1932 -foram assimiladas pelo sistema capitalista concorrencial e passaram a sobreviver nas mansões e apartamentos das classes-médias dos grandes centros urbanos como lavadeiras, cozinheiras, faxineiras e babás.

Os autores associados à crítica pós-colonial acentuam a necessidade de desconstruir as narrativas adotadas como oficiais, enxergando nelas princípios, metodologias e epistemes comprometidos com a ideologia colonial20. A partir desta desconstrução, devem-se reconstruir as narrativas a partir “de dentro”21, reconhecendo a importância de outras epistemes22 e enfatizando as experiências e as visões de mundo daqueles grupos que historicamente se encontraram marginalizados, silenciados e subalternizados pela dominação simbólica. O famoso ensaio de Gayatri Spivak, Pode o subalterno falar? (2010),é emblemático nesta empreitada de desconstrução/reconstrução de conceitos que compõem o cânone da filosofia ocidental, revelados em seu potencial dominador e regulador a partir de sua pretensa universalidade. A obra de Spivak, dotada de grande poder de mobilização, instaura uma agenda política que reivindica protagonismo àqueles que foram relegados à subalternidade e contra os quais se cometeu inúmeras violências, inclusive violências epistêmicas.

Clement Akassi, ao perceber a necessidade de proceder a um processo de descolonização do imaginário23, reconhece com grande argúcia que parte significativa da colonialidade contemporânea se encontra no domínio do simbólico e afeta diretamente a formação da subjetividade, tal como nos informa Akassi. Enquanto instituições sociais como a Escola e o Estado permanecerem estabelecimentos reprodutoras de desigualdades e preconceitos, várias gerações tenderão a perpetuar a ordem colonial, excludente e assimétrica, especialmente contra grupos tornados minorias políticas: negros, mulheres, grupos étnicos marginalizados, LGBT, grupos indígenas, entre outros. Neste sentido, a noção de subalternidade desenvolvida por Spivak poderia ser aplicada também a estes grupos minoritários, uma vez que ocupam a posição de “Outro”, em relação de oposição e subjugação ao “Eu”24. Como diz Akassi, os autores pós-coloniais

buscam acima de tudo a forma de desconstruir os discursos de reprodução da violência colonial e possibilitar a descolonização do imaginário e a renegociação dos discursos de representação da Nação, da democracia, da Mulher; buscam, no fim das contas, um novo contrato de participação cidadã e sociocultural, não um monopólio familiar, patriarcal, nem multinacional.25

Desta forma, a crítica pós-colonial se propõe a ser não só uma agenda descritiva, que denuncia os mecanismos ideológicos de dominação colonial, mas também uma agenda proativa, de forte cunho político, que estimula a desconstrução dos discursos dominantes e impele à luta social para a superação da situação colonial. A arte, sobretudo a literatura e o cinema, têm contribuído significativamente para esta ampliação de horizontes, reconhecendo a importância de outros marcos teórico, outras visões, perspectivas, experiências, diferentes daquelas que compõem o cânone oficial ocidental. Na sequência, discutiremos como o cinema, através do filme Que horas ela volta?, pode contribuir para este processo.

Que horas ela volta: migração, subalternidade e descolonização

Sergei Eisenstein (1898-1948), o maior expoente do cinema revolucionário soviético, afirmava que a

arte é sempre conflito (...). De acordo com sua missão social é tarefa da arte tornar manifestas as contradições do Ser. Formar visões justas despertando contradições na mente do espectador, e forjar conceitos intelectuais acurados a partir do choque dinâmico de paixões opostas.26

Nesse bojo, o longa-metragem de Ana Muylaert nos parece se aproximar desse princípio estético por nos oferecer uma reflexão sobre as relações entre as “casas grandes” e as “senzalas” contemporâneas. A reflexão que a diretora sugere se impõe diante de um imaginário de dominação constituído e perpetuado, por isso, a recepção do filme foi marcada pela sensação de incômodo. Val é representante de um tipo de migração interna mais expressiva no Brasil no século XX: a migração Nordeste-Sudeste. Para o geógrafo Carlos Eduardo Vainer,

o processo das migrações nordestinas se encontram ligadas à política racista e imigrantista desenvolvidas desde a colonização. No início do século XX, a substituição do trabalho do negro escravo vai ser feita pelo trabalhador branco e livre da Europa. Os imigrantes europeus eram direcionados para São Paulo e Rio de Janeiro, com promessas de encontrar abundância de terra e um clima promissor.27

As políticas migratórias ao longo do século XX, no Brasil, são marcadas por uma noção desenvolvimentista associada ao modelo de “progresso civilizatório”, que Suzana Moreno Maestro chama de paquete cultural occidental: capitalismo, industrialização, tecnologia avançada, democracia representativa, individualismo28. A ideologia de matriz liberal-burguesa passa a se misturar às forças conservadoras que ordenavam a estrutura social colonial há quatro séculos, ditando novos caminhos para o suposto “progresso”. Este modelo de “progresso” continua a obedecer à mesma lógica sistêmica da colonização, cujo alcance é amplificado pelo processo de globalização a partir da segunda metade do século XX.

Em contrapartida à modernização do Sudeste, o interior do Nordeste vê-se forçado a um processo de mecanização das lavouras e intensificação da pecuária que tem como resultado a dissolução de grande parte das colônias de trabalhadores nas fazendas, aumentando o desemprego. Esse fenômeno se acentua nas décadas de 1970 e 1980, quando ocorre o auge da emigração de nordestinos para o Sudeste (diga-se: principalmente São Paulo e Rio de Janeiro), para desempenhar funções braçais e de baixo custo em obras de infraestrutura (metrô, represas, estradas, pontes, construção civil) além de serviços temporários no setor agrícola do interior paulista, uma vez que possuíam pouca ou nenhuma escolaridade e praticamente nenhuma qualificação profissional. Estas ocupações estavam destinadas especialmente aos homens. Já às mulheres imigrantes nordestinas, obedecendo a uma divisão sexual do trabalho, destinavam-se majoritariamente à indústria têxtil e ao trabalho doméstico, exercido frequentemente de modo informal.

O eixo Sul-Sudeste, com evidente destaque para São Paulo, vai sendo constituído como o “centro” de poder político, econômico e cultural do país, destituindo antigos centros de poder (como Salvador e Recife, ambas no Nordeste) e mantendo na periferia os sertões considerados “atrasados”. A dicotomia urbano-rural se intensifica e se consolida. Paradoxalmente, parte considerável dos construtores do Sudeste “civilizado” e “moderno” são grupos considerados “subalternos”: negros, mestiços, imigrantes - homens e mulheres.

Nas décadas de 1940 até 1990 essa dicotomia se acentua, tendo como efeito um largo fluxo migratório, que produz excedente populacional disponível para as atividades industriais e de urbanização. A expectativa é que o imigrante seja absorvido pela industrialização e essa lhe proporcione novas oportunidades para a melhoria de seu padrão de vida29. São Paulo passa a ser o grande sonho de boa parte dos nordestinos, enxergando na metrópole industrializada a oportunidade de escapar do desemprego, da seca e da pobreza do agreste e da caatinga.

A personagem Val, interpretada por Regina Casé, é um exemplo do fenômeno acima. Jéssica também é uma imigrante, mas seu deslocamento territorial possui outros tons. Val e Jéssica são imigrantes, mas representam duas fases distintas do processo de migração interna Nordeste-Sudeste, o que se refere também às mudanças econômicas e socioculturais impulsionadas pelos catorze anos do Partido dos Trabalhadores no poder. E por isso é relevante para a nossa análise.

Val é o protótipo do imigrante colonizado, já profundamente assimilado à lógica dominante, resignado à posição de subalternidade e marginalização social, alocado nas partes menos bem-aventuradas da infraestrutura econômica. Sua função na ordem social é a de ser herdeira da ama de leite, a escrava doméstica que cuidava dos filhos do patrão-branco. Tratada como “quase da família”, a babá-empregada doméstica encontra-se integralmente a serviço da casa grande, zelando pela manutenção da propriedade privada e pelo cuidado com o filho do patrão, a quem dedica o amor materno que não pôde dispensar à própria filha, uma vez deixada em Pernambuco com os avós em nome da sobrevivência em São Paulo.

Sua tripla condição de mulher imigrante, nordestina e subalterna é relembrada a todo o tempo no filme. Há um acento exagerado quanto aos seus trejeitos de fala (sotaque, vocabulário), sua excessiva simplicidade de raciocínio, sua lealdade submissa aos patrões. E também nas cenas de humor, em que se atribui de forma estereotipada elementos de comicidade que estão associadas a estereótipo exótico dos nordestinos, segundo a visão dos moradores do sudeste, em clara manifestação de preconceito de classe e de origem geográfica.

A “situação colonial”30 apresentada no filme é naturalizada de tal forma que todos os personagens sabem, “como se fosse de nascença”, seus lugares nas estruturas de micropoder31 vigentes. “A pessoa já nasce sabendo”, diz Val a sua filha, em certo ponto da trama em que Jéssica questionava a origem do comportamento submisso de sua mãe. A ordem do mundo é seguida numa rígida hierarquia que se manifesta nos gestos, na linguagem, no comportamento e nos territórios dispostos para cada ator social no espaço da casa. Como diz Foucault,

o que faz com que o poder se mantenha e seja aceito é simplesmente que ele não pesa só como uma força que diz não, mas que de fato ele permeia, produz coisas, induz ao prazer, forma saber, produz discurso. Deve-se considerá-lo como uma rede produtiva que atravessa todo o corpo social muito mais do que uma instância negativa que tem por função reprimir.32

Não há dúvidas de que a relação entre patrões e empregados domésticos, em boa parte da burguesia e das elites aristocráticas brasileiras da atualidade, ainda obedece às estruturas remanescentes e reatualizadas de uma sociedade colonizada e escravocrata33. As evidências são várias e observáveis empiricamente34: as respectivas origens étnico-raciais de patrões e de empregados; as relações assimétricas de poder, que vão muito além de qualquer questão profissional; a confusa mistura entre vida privada (afetiva) e vida profissional, que distorce e perverte as questões relativas a direitos trabalhistas; a imposição de vestimentas que demarquem visualmente a função social da empregada doméstica e sua respectiva subalternidade; a restrição de acessos que evidenciem o “lugar da serviçal” na ordem doméstica; a persistência do “quarto de empregada” e do elevador de serviço na estrutura arquitetônica35

A antropóloga Jurema Brites, citando Donna Goldstein, descreve a complexidade da relação entre patroa e empregada/babá com a expressão “ambiguidade afetiva”, demonstrando como é “na troca afetiva entre aquelas que podem pagar pela ajuda doméstica e as mulheres pobres que oferecem seus serviços que as relações de classe são praticadas e reproduzidas”36. Como acentua Pablo Villaça,

não que “dona” Bárbara (Teles) seja má pessoa, pois não é: dentro dos limites do que considera socialmente aceitável, é carinhosa e gentil com a empregada que serve a família há mais de uma década e que praticamente se tornou “uma segunda mãe” para seu filho Fabinho (Joelsas), que confidencia frustrações e sonhos para a mulher que passa mais tempo ao seu lado do que aquela que o gerou. Mais uma das milhões de pessoas que no passado migraram do Nordeste para São Paulo em busca de uma vida com melhores possibilidades, Val parece perfeitamente confortável com seu papel na família, embora obviamente sinta saudades da filha que teve que deixar para trás e para a qual envia parte de seu salário todos os meses - o que não impediu que o relacionamento se fraturasse, já que não se veem há dez anos.37

Como postulava Eisenstein, a função social da arte é a de explicitar conflitos e produzir incômodos. E Ana Muylaert cumpre essa função com a personagem Jéssica. Toda a ordem organizada e naturalizada de Val na família de “dona” Bárbara/José Carlos/Fabinho é tensionada e rompida em função da ‘insubordinação’ da jovem em aceitar as normas “que já devia ter nascido sabendo”. O comportamento de Jéssica explicita a situação colonial que era aceita como normal, natural, tanto pelo dominado quanto pelo dominante. Ela se recusa a assimilar a subalternidade que já havia sido incorporada como regra por sua mãe (a personagem colonizada, por excelência) e, obviamente, pelos personagens que representam a “Casa grande”. Por isso Jéssica instaura o conflito: seu comportamento pode ser considerado atrevido, desafiador, arrogante por parte de quem esperava ver docilidade, subordinação, resignação de quem deveria saber qual é o seu lugar na estrutura social.

Jéssica também é uma migrante, mas numa outra conjuntura e de outra forma. Se a imigração nordestina para o Sul-Sudeste foi intensa até a década de 1990, os anos 2000 experimentaram uma retração no fenômeno e testemunharam o fenômeno da migração de retorno, no qual parte dos imigrantes volta para suas regiões de origem. Mesmo oriunda de classe social menos privilegiada, Jéssica chega a São Paulo de avião - o que seria impensável num contexto de maior desigualdade econômica vivenciado até a virada para o século XXI. E ela não chega para trabalhar, submetendo-se a subempregos em troca da subsistência, porém almeja o que até pouco tempo era completamente interditado a alguém de sua origem social/regional: um lugar em uma das mais prestigiadas universidades públicas do Brasil. E, diferentemente do que se esperava, Jéssica desafia a lógica da dominação com um comportamento refratário à colonialidade imposta como “natural”. Reconhece a assimetria de poder, mas se recusa a compactuar com ela e não se resigna a reproduzi-la, como sua mãe o fazia. Mais do que isso, Jéssica adota uma postura proativa, considerada “excessivamente segura de si” por Fabinho, toma iniciativas de ação que supostamente destoam de sua condição de subalternidade por herança familiar. Por exemplo, convida-se para ficar hospedada no quarto de hóspedes da família; senta-se à mesa de café dos patrões e aceita ser servida por Bárbara que, a contragosto e em tom de desaforo, acusa-a de forma irônica de “não saber o seu lugar”; joga-se na piscina com Fabinho, rompendo um dos tabus de separação da “casa grande e da senzala”.

No decorrer do filme as relações de Jéssica com outros personagens serão marcadas por tensões. Com Val, a relação é de mágoa e ressentimento pelo fato de sua mãe não ter retornado para o Nordeste, além da recusa em aceitar a vida subjugada levada por ela no interior da mansão do Morumbi. Com Bárbara, a patroa branca, a relação é inicialmente de condescendência por sua permanência temporária como “hóspede”, mas rapidamente se transforma em conflito pelo comportamento insubmisso da filha da empregada, chegando à hostilização e solicitação para que a garota saísse da casa. Com José Carlos, o marido de Bárbara e herdeiro da riqueza por herança familiar, Jéssica torna-se objeto de desejo e vítima de assédio, o que nos remite às relações de poder do período escravocrata. Com Fabinho a relação é mais superficial no início, misto de curiosidade e atração velada, mas após o vestibular torna-se competitiva, uma vez que nem o jovem nem sua família consideram aceitável uma “derrota” no vestibular para a “filha da empregada”.

Com grande atuação da atriz Camila Márdila, a personagem Jéssica passa a representar um novo segmento juvenil nordestino potencializado por lutas sociais e políticas-públicas que pretendem empoderar - ou, ao menos, permitir a possibilidade de protagonismo - grupos sociais que historicamente foram/são marginalizados na sociedade brasileira: nordestinos em geral, mulheres, negros, indígenas, etc.

Considerações finais: Jéssica e a representação da descolonização

Que horas ela volta? tem sido elogiado pela crítica desde seu lançamento no segundo semestre de 2015 no Festival de Sundance, nos EUA. Foi indicado a diversos prêmios no Brasil e na Europa, tendo sido, inclusive, o candidato oficial do Ministério da Cultura brasileiro na concorrência pelo Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2016. Apesar de não ter conseguido a desejada estatueta, foi digno de outros prêmios, como uma menção honrosa no Festival de Cannes - aonde foi aplaudido de pé pelo público - e o primeiro lugar na 13ª edição do prêmio Faz a Diferença, realizado pelo O Globo. Durante a entrega desta última premiação, a diretora do filme fez um discurso politicamente engajado:

Quero dedicar este prêmio às Jéssicas que estão hoje nas universidades e a algumas pessoas que eu acredito que têm muito a ver com isso. Entendo essas pessoas como pais e mães da Jéssica. Não no filme, mas na vida real: o ex-presidente Lula e a presidente Dilma Rousseff.38

Vale observar que o discurso de Muylaert serve como um complemento e também como uma nota esclarecedora em relação a um elemento que pode ser objeto de crítica no filme: a individualização da personalidade de Jéssica.

“É, o país está mudando mesmo...”, diz “dona” Bárbara, patroa de Val, quando descobre que a filha da empregada iria concorrer a uma vaga em Arquitetura na USP. Esta bre1ve alusão ao contexto-histórico brasileiro deixa entrever, como uma fresta de luz, os impactos de uma série de medidas e políticas públicas de inclusão social, inserção educacional, transferência de renda, acesso a crédito, incentivos às regiões Norte e Nordeste no cenário nacional de forma mais proativa, que foram fundamentais para possibilitar o desenvolvimento de um cenário mais favorável ao surgimento de novas Jéssicas.

Porém, como a alusão é breve e não é endossada por outros elementos narrativos, pode levar um observador desatento a atribuir o sucesso de Jéssica somente ao seu mérito individual, correndo o risco de reforçar os discursos ideológicos meritocráticos que mascaram as desigualdades de oportunidade e as exclusões de classe, gênero e de raça. Ainda que o componente individual seja relevante, afinal há que haver superação mediante esforço diante de sucessivas negações, a individualização do mérito acaba por manter a estrutura de exclusão que caracteriza a negação de acesso a direitos e status social no país. A personagem Jéssica, a nosso ver, não deve ser vista como um ente isolado, fora da curva, mas sim como a representação de uma categoria social que emerge das lutas sociais e das mudanças (ainda que pequenas) na estrutura econômica vivenciadas na história recente do Brasil, na qual a diegese se encontra inserida.

Outro ponto que consideramos merecer destaque consiste na exploração da comicidade na personagem Val, certamente em função de um veio humorístico da atriz Regina Casé, mas que incorre em estereótipos associados a trejeitos de linguagem e vícios de fala - historicamente objetos de preconceito contra os nordestinos - além de um comportamento burlesco diante de fatos corriqueiros. Esses estereótipos são constantemente reforçados pela mídia brasileira, especialmente por programas humorísticos de apelo popular, como Zorra Total e A praça é nossa (este exibido pela emissora SBT), bem como por várias novelas da Rede Globo de Televisão. Apesar disso, a atuação de Regina Casé é simples e eficaz, produzindo sentimento de empatia com o público, que tende a enxergar na sua atuação valores morais que são considerados virtuosos pela cultura brasileira, como humildade, fidelidade, sinceridade e dignidade. Ao contrário da “dona” Bárbara, cuja construção soa excessivamente pedante e artificial o que produz o risco de uma interpretação maniqueísta das complexas relações sociais imbricadas na situação.

Para retomar a pergunta que fizemos na introdução e com a qual finalizaremos nosso artigo, nos questionaremos em que medida Jéssica representa uma ruptura com a colonialidade e com a subalternidade à qual Val estava submetida. Como a personagem pode contribuir para o debate sobre a descolonização do imaginário?

Para a articulista Léa Reis, a personagem Jéssica produz um evidente incômodo por dar visibilidade a esta assimetria cristalizada em nossa sociedade:

da figura da babá, resquício da escravatura, à empregada doméstica modelo nacional, um outro entulho largado no caminho pela escravidão no país, foi um pequeno passo para expandir o argumento. Sem o trabalho das outras milhares de Vals existentes neste país, sejam elas babás, diaristas ou moradoras em um quarto infecto, na casa dos patrões, a família burguesa brasileira emperra e não funciona. A dependência dos patrões é absoluta - até para o mínimo gesto de levantar da cadeira e ir à geladeira para se servir de um copo de água. É isto que Anna mostra serenamente, com simplicidade. E a dependência estampada no espelho que é a telona deixa a plateia burguesa nervosa. 39

Jéssica é personagem com grande potencial simbólico porque representa uma possível mudança de perspectiva do subalterno em relação à sua situação colonial. Um subalterno que reconhece a existência de uma condição de subserviência, mas que não a aceita e resiste a ela. Um subalterno que emerge das “senzalas modernas” e reivindica igualdade de posições. Que exige ter voz para narrar a si mesmo e ser senhor da sua própria história. Que critica as dicotomias clássicas de poder e deixa de se enxergar como “segundo dos pares” e, por extensão, se recusa a ver no “primeiro dos pares” um senhor. Que desafia a colonialidade, buscando construir novos modos de postular as relações simbólicas e afetivas entre si e os demais. Que produz incômodo na estrutura social, por desvelar violências simbólicas naturalizadas e, por isso, invisibilizadas. Um subalterno que luta para que não seja mais visto como subalterno, porém sujeito de direitos num estado democrático de fato.

Ainda que menos por suas reflexões e mais por uma ação incisiva de resistência e de superação da condição de subalternidade, consideramos que a personagem Jéssica representa um passo significativo em direção à descolonização do imaginário colonial. O reconhecimento das relações de dominação e a recusa em se submeter à sua reprodução, manifestos pela personagem, são indícios de amadurecimento de uma consciência que se empenha em se descolonizar, que luta contra as formas simbólicas de manutenção da opressão de um grupo sobre outro e busca um novo modo de se colocar no mundo. Pablo Villaça compartilha deste ponto de vista, ao observar que

se Val é um símbolo de um passado recente, sua filha Jéssica é o retrato de um Brasil que mudou muito e rápido e no qual “a filha da empregada” passou a sonhar com algo mais do que simplesmente ser indicada pelos patrões da mãe para trabalhar na casa de alguma família amiga. Inteligente, ambiciosa e consciente de seus direitos e possibilidades, Jéssica se choca ao descobrir que a mãe passou todos aqueles anos dormindo em um quarto mínimo cuja única janela abre não para o exterior, mas para a lavanderia. Ao contrário de Val, Jéssica não cresceu num mundo de hierarquias e categorias sociais-econômicas rígidas e imutáveis; sim, alcançar seus objetivos exige um trabalho infinitamente maior e envolve probabilidades bem menores de sucesso, mas não é algo que se encontra mais fora da realidade.40

Um dos elementos mais simbólicos do filme deveu-se a um fato curioso quanto à sua recepção. Segundo relatos da própria diretora Anna Muylaert, em vários auditórios onde pôde debater sobre o filme, ela teria presenciado41 mulheres se levantando espontaneamente na plateia e dizendo: “eu também sou uma Jéssica”. Este gesto espontâneo de identificação é, por si só, altamente significativo: revela a capacidade de síntese e de produção de empatia do personagem, cuja representação reflete um conjunto real de sujeitos sociais que se identificam com a luta da jovem pernambucana, cujas vozes passam a poder ser ouvidas em uma sociedade historicamente marcada pelo silenciamento e pela naturalização das desigualdades.

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4Kléber Fernandes Oliveira e Paulo Jannuzzi, “Motivos para migração no Brasil e retorno ao Nordeste: padrões etários, por sexo e origem/destino”. São Paulo em Perspectiva. v.19 n.4 (2005). São Paulo out./dez., 134-143; Wilson Fusco. “Regiões metropolitanas do Nordeste: origens, destinos e retornos de migrantes”. REMHU: Revista Interdisciplinar da Mobilidade Humana. vol.20, no.39 Brasília, jul./dez (2012). 101-116.

5Maria Inês Carlos Magno, “Que horas ela volta? Uma crônica cinematográfica”. Comunicação & Educação, Ano XXI, número 1, jan/jun 2016, p.163-169.

6Cf. Larkin Nascimento, E. (1981). Pan-Africanismo na América do Sul: emergência de uma rebelião negra. Petrópolis, Brasil: Ed. Vozes.

7Clement Akassi, “El sujeto cultural (pos)colonial y de la poscolonia: ¿Hacia una crítica literaria para los estudios hispanoafricanos?”. Sociocriticism Vol. XXV, 1 y 2 (2010), p.332.

8Homi K. Bhabha, O local da Cultura, Belo Horizonte: Editora UFMG, 1998, p.240.

9Catherine Walsh, “¿Son posibles unas ciencias sociales/culturales otras? Reflexiones en torno a las epistemologías decoloniales”. Nómadas. No. 26, (2007), 103-112. Walsh ampliou o debate sobre a colonialidade iniciado por Aníbal Quijano, acrescentando nuances e categorias para dar conta da complexidade e das especificidades locais do fenômeno. Além das três categorias de Quijano, Walsh também inseriu a categoria “natureza”.

10Anibal Quijano, “Colonialidade do poder, eurocentrismo e América Latina”. In Lander, Edgardo (Org.). A colonialidade do saber: eurocentrismo e ciências sociais. Perspectivas latinoamericanas. Buenos Aires: Colección Sur Sur, 2005, p.115.

11E. Restrepo e A. Rojas, Inflexión decolonial: fuentes, conceptos y cuestionamientos. Popayán, Colombia: Universidad del Cauca, 2010, p. 33. Tradução dos autores.

12Akassi, op. cit., p.333.

13Quijano, op. cit., p.116.

14Immanuel Wallerstein e Aníbal Quijano, “Americanity as a concept or the Americas in the modern world-system”, in.: International Social Science Journal, Paris, UNESCO, nº 134, novembro, 1992, p.449.

15Quijano, op. cit., p.108.

16Ibidem.

17Santiago Castro-Gomes, “Ciências sociais, violência epistêmica e o problema da ‘invenção do outro’”. In Lander, Edgardo (Org.). A colonialidade do saber: eurocentrismo e ciências sociais. Perspectivas latinoamericanas. Buenos Aires: Colección Sur Sur, 2005, p.83.

18Stuart Hall, Da diáspora.Identidades e mediações culturais. BELO HORIZONTE: Editora UFMG, 2009, p.179-180.

19Joaquim Nabuco citado em “As empregadas domésticas e a escravidão”, Pragmatismo Político, https://www.pragmatismopolitico.com.br/2014/11/empregadas-domesticas-e-escravidao.html. Acesso em 12/03/2018.

20Daiana Nascimento dos Santos, El oceáno de fronteras invisibles: relecturas históricas sobre (el fin?) de la esclavitud em la novela contemporânea. Madrid: Verbum Editorial, 2015, p.48.

21Walker Scheila, Conocimiento desde adentro. Popayán: Editorial Universidad del Cauca, 2012, p. 23

22Nascimento dos Santos, op. cit., p. 47-48.

23Akassi, op. cit., p. 343.

24Gayatri Spivak, Pode o subalterno falar? Belo Horizonte, Editora UFMG, 2010, p. 47-48.

25Akassi, op. cit., p. 348-349.

26Sergei Eisenstein, A forma do filme, Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 2002, p.48.

27Carlos B.Vainer, “Do corpo marcado ao território demarcado: uma leitura da transição para o trabalho livre como ponto de partida para uma história da mobilidade do trabalho no Brasil”. Cadernos de migração, São Paulo, n. 7, 2000, p.19.

28Suzana Moreno-Maestro, “Economía y cultura. Interpretaciones etnocéntricas de realidades sociales africanas”, em Fundación Habitáfrica: REpensando ÁFRICA Perspectivas desde un enfoque multidisciplinar. Fundación Habitáfrica, Andalucía (España), 2012, p.69.

29Vainer, op. cit., p.24.

30George Balandier, “Situação colonial: uma abordagem teórica”, em Sanches, M. R. Malhas que os impérios tecem, Lisboa, Edições 70, 2011p.247.Nesse texto de 1950, George Balandier adota a expressão situação colonial para abordar os múltiplos fatores - históricos, sociais, econômicos, políticos, culturais, psíquicos - sob os quais se organizam as relações de dominação e dependência entre sociedade colonial e sociedade colonizada, visando cristalizar e perpetuar a colonialidade.

31Michel Foucault, A microfísica do poder, Rio de Janeiro, Graal, 1979. A noção de microfísica evoca as muitas estruturas de poder que se ocultam na vida cotidiana e que, apesar de invisíveis, se revelam altamente eficazes na submissão do indivíduo.

32Foucault, op. cit, p. 08.

33Bergman de Paula Pereira, “De escravas a empregadas domésticas - A dimensão social e o "lugar" das mulheres negras no pós- abolição”. Anais do Encontro da ANPUH, 2011, Disponível em http://www.snh2011.anpuh.org/resources/anais/14/1308183602_ARQUIVO_ArtigoANPUH-Bergman.pdf. Acesso em 09/06/18.

34Evidentemente, outras formas de organização do trabalho doméstico também se construíram ao longo do tempo em sociedades que passaram pelo processo colonial. As babysitters, nos EUA, e as aupairs, em países de cultura francesa, exemplificam essa multiplicidade de organização, em que o modelo capitalista incorporou sistemas de prestação de serviços dinâmicos, ditados pela relação de oferta e procura dentro de um mercado, ainda que informal. Porém, no Brasil, o trabalho doméstico e a atividade de babá não podem descurar das origens históricas da escravidão, como salienta Pereira “Os significados sociais e raciais da prestação dos serviços domésticos é engendrada pela complexidade que abrange as relações estabelecidas entre patrões/senhores(as) e suas criadas/empregadas. O trabalho doméstico, exercido predominantemente pelas mulheres, é uma atividade histórica e ligada às habilidades consideradas femininas , no contexto da escravidão, o papel de organização e cuidado da casa grande, ficou a cargo das mulheres negras, enquanto para as mulheres brancas a principal função dentro do lar era o de estabelecer a ordem e o bom funcionamento do lar. Quando Gilberto Freyre, se refere às “casas grandes” e às “senzalas”, está enunciando os elementos fundamentais que compuseram a estrutura agrária do país. Desta maneira nos fornece alguns dos dados responsáveis pela formação do quadro social em que se desenvolveu o escravismo brasileiro” (op. cit., 2011, p. 6).

35Fernando Luiz Lara, “A exclusão no espaço doméstico”. Revista Fórum, 02 de maio de 2013. Disponível em http://www.revistaforum.com.br/2013/05/02/a-exclusao-no-espaco-domestico/. Acesso em 20/02/17.

36Jurema Brites, “Afeto e desigualdade: gênero, geração e classe entre empregadas domésticas e seus empregadores”. Cadernos Pagu, n.29, jul-dez, SP, 2007, p.93.

37Pablo Villaça. “Que horas ela volta?”. Disponível em http://cinemaemcena.cartacapital.com.br/Critica/Filme/8187/que-horas-ela-volta. Acesso em 12/06/18.

38Macedo, 2016, p. 01. Macedo, I. “Em premiação, Anna Muylaert dedica prêmio a Lula e Dilma”. (2016, 03 de março). Disponível em http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2016/03/1753724-em-premiacao-anna-muylaert-dedica-premio-a-lula-e-dilma.shtml. Acesso em 15/07/2016.

39Léa Maria Aarão Reis, Que horas ela volta? Com medo de Jéssica. Disponível em https://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Cultura-e-Arte/Que-horas-ela-volta-Com-medo-de Jessica/39/34591.2015

40Villaça, op. cit., p. 1.

41Macedo, op. cit. P. 1.

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Recebido: 06 de Julho de 2018; Aceito: 08 de Agosto de 2018

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