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Polis (Santiago)

versión On-line ISSN 0718-6568

Polis vol.19 no.55 Santiago ene. 2020

http://dx.doi.org/10.32735/s0718-6568/2020-n55-1447 

LENTE DE APROXIMACIÓN

Ativação e descarte de disposições de trabalhadores do Polo Naval de Rio Grande: corpos entre a fantasia e o fantasma

Activación y descarte de disposiciones de trabajadores del Polo Naval de Río Grande: cuerpos entre la fantasía y el fantasma

Activation and disposal of workers' dispositions at the Rio Grande Naval Pole: bodies between the fantasy and the ghost

Pedro Robertt1 

Marcus Vinicius Spolle2 

1Universidad Federal de Pelotas, Pelotas, Brasil. Email: probertt21@gmail.com

2Universidad Federal de Pelotas, Pelotas, Brasil. Email: sociomarcus@gmail.com

Resumo:

O artigo analisa as disposições ativadas em trabalhadores de um grande empreendimento industrial no sul do Rio Grande do Sul, o Polo Naval de Rio Grande, que funcionou em grande escala desde 2005/6 até 2016. A partir de uma abordagem etnográfica, foram entrevistados ex-trabalhadores do Polo Naval, tecendo inicialmente hipóteses sobre a ativação e descarte de disposições. Em um primeiro momento, recorremos ao conceito de disposições trabalhado nas obras de Bourdieu (como parte do conceito de habitus) e, principalmente, de Lahire. Trazemos, também, em um momento posterior, o olhar, da sociologia do corpo e das emoções, com o objetivo de captar melhor os processos subjetivos envolvidos em um processo de atração e de expulsão de trabalhadores. Para isso, precisaremos nos deter nas perspectivas de Bourdieu, através de Medeiros (2017) e de Wacquant (2014), e de Scribano (2012). Como reflexão principal, sustenta-se que os trabalhadores brasileiros e latino-americanos convivem com o fantasma do desemprego e da precariedade (corpos que sofrem) e só fugazmente parecem ter conseguido -em algum momento- desfrutar de alguma fantasia social (corpos que se ilusionam), embora esta nunca chegasse a representar uma panaceia social.

Palavras-chave: Trabalhadores; Rio Grande do Sul; disposições; corpos; emoções

Resumen:

El artículo analiza las disposiciones activadas en los trabajadores de un gran emprendimiento industrial en el sur de Rio Grande do Sul, el Polo Naval de Río Grande, que funcionó a gran escala de 2005/6 a 2016. Desde un enfoque etnográfico, fueron entrevistados ex -trabajadores del Polo Naval, elaborando inicialmente hipótesis sobre la activación y descarte de disposiciones. Al principio, recurrimos al concepto de disposiciones trabajado en las obras de Bourdieu (como parte del concepto de habitus) y, principalmente de Lahire. También recurrimos, en un momento posterior, a la mirada de la sociología del cuerpo y de las emociones, con el objetivo de captar mejor los procesos subjetivos involucrados en un proceso de atracción y expulsión de trabajadores. Para ello, nos centramos en las perspectivas de Bourdieu, a través de Medeiros (2017), Wacquant (2014), y Scribano (2012). Además de una parte introductoria, el artículo aborda el llamado "proyecto de veinte años", de la activación de disposiciones económicas y cognitivas; de las señales negativas y del proceso acelerado de declive; del desaparecimiento de las disposiciones económicas y cognitivas, y realiza una re-lectura a partir de las contribuciones de la sociología del cuerpo y las emociones. Como reflexión principal, se argumenta que los trabajadores brasileños y latinoamericanos viven con el fantasma del desempleo y la precariedad (cuerpos que sufren) y que sólo de forma fugaz, en algún momento, han logrado disfrutar de alguna fantasía social (cuerpos ilusorios).

Palabras clave: Trabajadores; Rio Grande do Sul; disposiciones; cuerpos; emociones

Abstract:

The article analyzes the dispositions activated in the workers of a large industrial venture in the south of Rio Grande do Sul, the Rio Grande Naval Pole, which operated on a large scale from 2005/6 to 2016. Using an ethnographic approach, former workers of the Naval Pole were interviewed, initially developing hypotheses about the activation and discarding of dispositions. Initially, we resorted to the concept of dispositions based on the work of Bourdieu (as part of the concept of habitus) and, mainly, Lahire. We also bring, at a later stage, the view of the sociology of the body and emotions, with the aim of better capturing the subjective processes involved in a process of attraction and expulsion of workers. To this end, we focus on Bourdieu's perspectives, through Medeiros (2017) and Wacquant (2014), and Scribano (2012). In addition to an introductory part, the article addresses the so-called "twenty-year project", the activation of economic and cognitive dispositions; the negative signals and the accelerated process of decline; the extinction of economic and cognitive dispositions, and makes a re-reading from the contributions of the sociology of the body and emotions. As a main reflection, it is argued that Brazilian and Latin American workers live with the ghost of unemployment and precariousness (suffering bodies) and that only briefly, at some point, have they managed to enjoy some social fantasy (illusory bodies).

Key words: workers; Rio Grande do Sul; dispositions; bodies; emotions

Introdução

Apresentamos neste artigo, uma pesquisa que estamos levando adiante, desde 2017, com ex-trabalhadores do Polo Naval1de Rio Grande2. Na época, com o encerramento do megaprojeto, o número de trabalhadores que faziam parte dele tinha diminuído consideravelmente, comparado ao momento de auge, em que chegaram a se contabilizar em torno de vinte e quatro mil. Só ficavam trabalhando no estaleiro uns centos de trabalhadores que realizavam tarefas de manutenção. Começamos então uma aventura sociológica em busca de encontrar trabalhadores, que tivessem sido parte do Polo Naval de Rio Grande, com o objetivo de compreender esse mundo social que tinha sido construído em pouco mais de uma década e que aparentemente tinha colapsado da noite para o dia, aos olhos daqueles que não vivenciavam o seu cotidiano. Vínhamos estudando esse grande projeto industrial desde 2014.

Com efeito, tratava-se do maior empreendimento implementado na região sul do estado nas últimas décadas. Alguns colegas, cientistas sociais, nos questionavam se com a queda do Polo Naval nosso próprio objeto de estudo não desapareceria. Começou a emergir, então, uma pergunta de pesquisa bem ampla: se o empreendimento econômico acabava, que passaria com os trabalhadores? Estes com certeza não desapareceriam junto com a queda do megaprojeto. Essa pergunta inicial nos levou para novos questionamentos. Onde eles estavam agora? O que eles faziam hoje? Em que medida chegaram a acreditar que esse projeto teria uma duração considerável nas suas vidas? Que disposições adquiriram ao ser parte da indústria naval? Conseguiam reconverter tais disposições nas atividades laborais que levavam adiante na vida pós-Polo Naval? Ou passariam a ser, agora, parte do contingente de trabalhadores sem emprego ou com trabalhos precários que perambulavam pelas cidades brasileiras? Optamos por uma abordagem etnográfica como forma de reconstrução desse universo social como uma espécie de totalidade social, no sentido dado à ideia de “interconhecimento” por Stephen Beaud e Florence Weber (2014). Isto é, no nosso caso o que define o estudo como sendo uma etnografia não é a permanência do espaço territorial (hoje praticamente desmanchado) que cobria nosso objeto de estudo, mas o universo social no qual estavam imersos e entrelaçados esses trabalhadores.

O processo de investigação foi baseado, fundamentalmente, em entrevistas etnográficas, com ex-trabalhdores do Polo Naval. Na verdade, só os dois primeiros entrevistados faziam parte, em 2017, do Polo Naval ainda, nas áreas de manutenção. Eram na época sobreviventes de um grande projeto industrial, empregados ainda para manter em funcionamento as instalações de um “gigante”, que talvez (se cogitava na época) estivesse adormecendo e voltasse a “acordar” um dia. Certamente, na época se difundiam na imprensa e circulavam no cotidiano dos habitantes de Rio Grande e de Pelotas (como cidade próxima que abasteceu muitos trabalhadores) rumores de retorno do Polo Naval ou especulações em torno de alguma “negociação” que o reativaria, ao menos em um funcionamento em menor escala. Nas últimas entrevistas que realizamos, em 2018, ainda permanecia essa “expectativa” de reativação. Como se os olhos dos trabalhadores não conseguissem dar crédito, ainda, ao desmonte de um empreendimento que fez parte importante de suas vidas. Além das entrevistas etnográficas (isto é, tratando de reconstruir o “interconhecimento” dos trabalhadores, com um roteiro mínimo e procurando captar o ponto de vista dos entrevistados) nos auxiliamos, no conjunto da pesquisa, com programas radiais postados na internet com debates sobre o Polo Naval, materiais jornalísticos e dados estatísticos, tanto secundários como outros produzidos por nós mesmos3.

Contudo, neste artigo a fonte utilizada são as entrevistas etnográficas. Dentre as entrevistas, realizamos no final uma delas com dois trabalhadores e um grupo focal com três deles. Todos tinham participado antes das entrevistas individuais. Essas duas instâncias foram uma espécie de teste, sobre os achados que tínhamos encontrado no decorrer da etnografia. Uma característica importante da abordagem etnográfica, presente em nosso trabalho, foi resgatar o ponto de vista dos trabalhadores. Evitamos, propositadamente, colocar a ênfase nas referências ao processo objetivo de construção de uma indústria naval, tentando captar a percepção dos trabalhadores que nos permitisse reconstruir o processo social. Este texto apresenta alguns achados referentes às disposições ativadas e descartadas com a construção e encerramento desse grande empreendimento industrial. Recorremos ao conceito de disposições trabalhado nas obras de Bourdieu (como parte do conceito de habitus) e, principalmente, de Lahire (2004, 2005). Ele funciona mais como uma ferramenta conceitual para mostrar que certas tendências e propensões dos indivíduos dependem de suas trajetórias pessoais e dos contextos pelos quais transitam.

O conceito de disposições é trabalhado amplamente por Lahire diferenciando-se da proposta de Bourdieu, apesar de se alinhar a uma sociologia disposicionalista. O habitus para o primeiro é o conceito relevante sempre que se abandone seu caráter retórico e se transforme em um conceito operacional que mostre a diversidade de propensões e tendências que os indivíduos têm para agir, sentir e pensar. Além disso, não funciona exatamente como um sistema, ao modo proposto por Bourdieu, mas sim como um “patrimônio” ou “estoque”, isto é, um conjunto de disposições que podem ser coerentes ou contraditórias entre si, dependendo dos contextos de interação e as trajetórias individuais. Remetemos às obras do autor para conhecer mais em profundidade sua proposta conceitual sobre as disposições (Lahire, 2004, 2005).

Para este artigo, trazemos também o olhar, em um momento posterior, desde a sociologia do corpo e das emoções, que nos permitisse captar melhor os processos subjetivos envolvidos em um processo de atração e de expulsão de trabalhadores. Para isso, precisaremos nos deter nas perspectivas de Bourdieu, através de Medeiros (2017) e de Wacquant (2014), e de Scribano (2012).

A primeira hipótese deste trabalho, que foi sendo construída com a etnografia, é que os trabalhadores ativaram no Polo Naval de Rio Grande disposições cognitivas e econômicas (não sendo as únicas). Uma segunda hipótese aponta, por sua vez, que tais disposições foram apagadas com o encerramento desse projeto industrial, configurando mais uma situação de corpos à deriva, jogados a sua própria sorte. Uma terceira hipótese, tendo como referência uma sociologia do corpo e das emoções é que o projeto Polo Naval colocou em jogo fantasias e fantasmas que percorrem a história da classe trabalhadora brasileira.

Depois desta introdução, o trabalho é apresentado da seguinte maneira: 1) o projeto de vinte anos; 2) a ativação das disposições econômicas e cognitivas; 3) os sinais negativos e o processo acelerado de declive (corpos em trânsito); 4) o apagamento das disposições econômicas e cognitivas (corpos descartados); 5) breve interlúdio: aportes da sociologia do corpo e das emoções; 6) corpos e emoções no Polo Naval; e 7) uma seção de reflexões finais.

O projeto de vinte anos

A partir de 2005 instalava-se um Polo Naval na cidade de Rio Grande, no sul do país. Rio Grande tinha sido até esse momento uma cidade portuária, que vivia basicamente da pesca e do comércio4. Como se tratava de uma cidade sem nenhuma tradição na indústria naval, o empreendimento procurava captar força de trabalho mediante duas vias: incorporando trabalhadores experientes na indústria naval de diferentes partes do Brasil (e em alguns casos de fora do país); e capacitando trabalhadores locais, tanto de Rio Grande como de outras cidades adjacentes. De tal modo que, desde 2005 em diante, houve uma migração significativa de trabalhadores especializados, em direção à cidade de Rio Grande, para cobrir a demanda inicial de força de trabalho qualificada. Esse processo gerou uma situação inédita para a cidade, observando-se, lembrando a obra clássica de Norbert Elias, uma espécie de relação conflituosa entre outsiders e estabelecidos, chegando a existir uma nomenclatura para os brasileiros não rio-grandenses (poderia se afirmar, genericamente, acima de São Paulo) como “baianos”, os quais se oporiam aos “gaúchos”, processo retratado no trabalho de dissertação de Marchioro (2016).

O desenvolvimento da indústria naval na chamada metade sul, do Rio Grande do Sul, trouxe consigo a criação massiva de empregos diretos e indiretos e, ao mesmo tempo, uma forte dinamização da economia local e regional. Setores como os do comércio, o imobiliário, o de hotelaria e o de transportes, começavam a se desenvolver em forma surpreendente. Diversos depoimentos, registrados na pesquisa, dão conta que a lógica econômica da cidade mudou nessa época rápida e radicalmente. As vezes fruto de nossas perguntas e outras como resultado da própria impressão que tinha deixado o Polo Naval na cidade, os trabalhadores nos relatavam como esta tinha mudado substantivamente desde que o empreendimento tinha sido instalado.

Paradoxalmente, chegaram-se a perceber efeitos em certa medida contraditórios, resultados da instalação do Polo Naval, no que tange à cidade de Rio Grande. À maior dinamização da cidade, como já foi exposto, se agregavam dificuldades de disponibilização de uma quantidade suficiente de força laboral para atender os outros setores econômicos. De fato, muitos trabalhadores abandonavam atividades em outros setores, com o único objetivo de obter uma vaga no novo empreendimento. Diversos relatos expressam que setores, como os do comércio, chegaram a apresentar sérias dificuldades para recrutar trabalhadores.

Nesse sentido, chegou a se instalar a crença da permanência por longo tempo do novo projeto industrial. Em diversos depoimentos - sem que fosse uma pergunta buscada por nossa pesquisa - foi relatado um tempo “quase mágico”, que dizia que o projeto duraria uns vinte anos. Registramos a seguir alguns deles:

Esse de Rio Grande tinha vinte anos de projeção para a área de trabalho. Foi cortado o contrato com a Petrobras no meio do trajeto. Havia sim uma perspectiva de crescimento em função desse período de 20 anos. Entrevistado A5 A gente aqui, quando a gente veio pro sul, a gente tinha uma expectativa de ficar aqui no mínimo uns dezenove anos, no mínimo; porque a gente tinha, cada plataforma leva uns dois três anos, a equipe na época tinha a 75 e a 77 [números de plataformas]. Então você já tava três anos aqui então, cada plataforma mesmo ela sendo fabricada quase o mesmo tempo não eram iguais, eram parecidas quase irmãs, mas com suas particularidades. Entrevistado B.

A construção de um projeto industrial de grande envergadura gerava nos trabalhadores uma sensação de estabilidade laboral, raramente observada no mercado de trabalho brasileiro, com exceção do setor público. Esses cálculos estavam embasados na quantidade de tempo que levaria a construção de cada plataforma. No segundo depoimento, aliás, nota-se uma referência ao número das plataformas a serem construídas, justamente porque essa era a forma em que os trabalhadores estavam inseridos no Polo Naval. O cálculo do número de plataformas a serem construídas, considerando o tempo de trabalho que cada uma delas demoraria em ser concluída, daria como resultado o tempo total de permanência do empreendimento. Esse trabalhador provinha de outro estado da federação e veio a participar do empreendimento deixando para atrás uma oferta para trabalhar na China, como nos relatou na entrevista.

Alguns trabalhadores, inclusive, incentivados e animados pelo projeto em andamento - do qual passavam a se sentir parte - imaginavam que um dia conseguiriam se aposentar como funcionários da industrial naval brasileira.

A minha ideia como muitos, era aposentar ali porque era um trabalho bom, um trabalho que dava um retorno financeiro muito bom e além de tudo saber que você tava fazendo parte da história. Era um orgulho você sair na rua fardado dizendo que “eu trabalho no Polo Naval.” “Eu faço a história, eu faço se tem o pré-sal aí cada gotinha de petróleo eu ajudei a colocar…”, 99,9% das pessoas tinham esse mesmo sentimento. Entrevistado C.

Começamos a compreender nesse momento a ideia de compromisso dos trabalhadores com o Polo Naval. A ideia de colaboração ou compromisso dos trabalhadores faz parte dos debates sociológicos contemporâneos de adesão dos trabalhadores a uma nova ética do capitalismo. Tínhamos registrado em novembro de 2015, em um questionário aplicado na época a trabalhadores que estudavam em uma faculdade particular em Rio Grande e Pelotas (resultado que pode, certamente, estar sujeito à interferência da variável educacional), que um percentual importante deles marcava, em uma questão formulada por nós, a opção “colaborador”, antes que a de “trabalhador” ou a de “funcionário”.

Com base em alguns depoimentos e com ajuda conceitual de Howard Becker, conseguimos compreender que colaboração não significava adesão irreflexiva ao mundo empresarial. O que não quer dizer, no entanto, que na formação do projeto industrial os quadros gerenciais não incorporassem e difundissem a ideia de colaboração, como uma espécie de nova ideologia do capitalismo em que trabalhadores e capitalistas se encontram no mesmo pé de igualdade. De fato, alguns depoimentos destacam que o termo “colaboração” era permanentemente difundido nas próprias instalações do Polo Naval. Entretanto, essa explicação parecia insuficiente para dar conta do número significativo de trabalhadores que se definiam como colaboradores.

Para Becker, existe um processo “de compromisso pelo qual a pessoa ‘normal’ torna-se progressivamente envolvida em instituições e comportamentos convencionais” (2008, p. 37). Esclarece, o autor, que de acordo com ações passadas ou rotinas institucionais o “indivíduo descobre que deve aderir a certas linhas de comportamento” (2008, p. 38). Esse compromisso, de ser parte de uma organização, parece ter sido desenhado efetivamente no Polo naval, para além de observar-se também uma pretensão gerencial de transmitir subjetivamente uma ideologia da colaboração em que ficassem difusas as posições hierárquicas dentro do empreendimento. Esse compromisso, aliás, parece ser colocado em xeque nos depoimentos de alguns trabalhadores, quando questionam que não todos estavam “envolvidos” no projeto Polo Naval. Contudo, essa avaliação precisaria de uma análise mais precisa. Para tanto deveria se problematizar que fatores poderiam fazer que um trabalhador não se sentisse parte do empreendimento.

Só de forma especulativa (com base em parte do material que estamos analisando), o baixo compromisso ou dito de outro modo as “disposições emocionais fracas” observadas em alguns trabalhadores, com o empreendimento, poderiam estar vinculadas à forma de chegada no Polo Naval (por curriculum ou por “contatos pessoais”); ao tempo de trabalho no empreendimento; a projetos pessoais de trajetória laboral (relacionados à idade do trabalhador); à existência de projetos individuais extra-laborais (por exemplo, formação escolar); e ao possível inchaço no número de trabalhadores6, entre outros. Todavia, é de se sublinhar que se alguns trabalhadores (talvez a maioria de nossos entrevistados) se sentiam incomodados como o as disposições fracas de compromisso com o empreendimento de outros colegas, isso indica, em contrapartida, que um número considerável deles sentia o Polo Naval como o seu lugar7. Justamente sobre a questão das disposições, tema central da análise deste artigo, nos deteremos na seção seguinte, distinguindo entre disposições econômicas e cognitivas.

A ativação das disposições econômicas e cognitivas

Ao observar a cidade de Rio Grande antes da implementação do Polo Naval, nos encontramos com uma força laboral de baixa qualificação e com baixas remunerações, que atuava principalmente, como já adiantamos, na pesca e na área do comércio. A indústria naval não só reconfigurou o mercado de trabalho local, também significou uma mudança qualitativa em termos de remunerações dos trabalhadores. Para construir um Polo Naval, que atraísse trabalhadores locais e externos, o fator econômico tinha que ser diferenciado em relação às ofertas que os mesmos podiam receber na cidade e fora dela. Os relatos dos trabalhadores, da região, são unânimes em destacar que os rendimentos salariais eram nitidamente superiores aos que podiam obter no mercado local. As disposições econômicas desses trabalhadores foram mobilizadas certamente com a instauração do novo projeto industrial. Seguem alguns depoimentos (entre muitos) que retratam essa nova realidade econômica que se configurava na cidade e na região.

Aí no primeiro dia que foi a entrevista o salário também me atraiu, por exemplo na loja [o que] eu ganhava não chegava a R$800 na época que era o salário mínimo; e eles me ofereceram R$1640 e mais o vale alimentação que tinha. Entrevistada D. Eu sempre gostei de experiências novas de desafios. E lógico também, né? Não vou ser hipócrita de dizer que o salário que a gente ouvia todo mundo falar. Entrevistada E.

As disposições econômicas que eram ativadas referiam principalmente a bens de consumo de difícil acesso para as classes trabalhadoras brasileiras, tais como incremento do consumo em vestuário e alimentação, aquisição de meio de transporte e de imóveis próprios, educação de melhor qualidade para os filhos, entre outras. A disposição para o crédito também se ativava com rendimentos monetários superiores aos dos trabalhadores locais do comércio, pesca e outros setores. Outros bens de difícil acesso eram garantidos através dos direitos trabalhistas, quer dizer, que a través das remunerações indiretas muitos desses trabalhadores passavam a ter acesso a férias e a saúde.

O Polo Naval de Rio Grande não apenas resultava atrativo para os trabalhadores em termos monetários. Cabe destacar que a indústria naval, na região sul do país, significou um momento de forte qualificação desses trabalhadores. Diversos depoimentos mostram que, desde o início, ativou disposições cognitivas nos trabalhadores que pretendiam ingressar nele. Se a construção de um empreendimento desse porte gerava o “despertar” de disposições econômicas em boa medida difíceis de serem atingidas pela maioria da classe trabalhadora local, também constatamos a ativação de disposições cognitivas, associadas à possibilidade de incorporação e aplicação de novos conhecimentos.

Cabe destacar que todo um sistema de capacitação local se instalou na cidade de Rio Grande e regionalmente, inclusive dentro do Polo Naval, que apontava a qualificar essa força laboral. Justamente, foram as carências de qualificação que implicaram a necessidade inicial de incorporar trabalhadores provenientes de outras partes do Brasil e até de fora do país. Deve-se chamar atenção, aliás, em como as mulheres encontraram uma oportunidade de qualificação no Polo Naval, diferente à oferecida historicamente pela economia local. O projeto industrial fazia com que trabalhadores, particularmente locais, migrassem de atividade laboral, motivados pelas expectativas econômicas e, também, pela oportunidade de aprender novos ofícios. Muitas mulheres se dispunham a aprender ofícios, que até aquele momento eram exclusividade dos homens. De fato, os cursos de capacitação e o empreendimento naval recepcionavam também mulheres (ainda que em forma quantitativamente minoritária), que passavam a se integrar na força laboral do incipiente projeto industrial. Para este artigo, trazemos a experiência de uma dessas mulheres:

Um dia passando no INPS [Instituto Nacional de Previdência Social] que faz consultas lá e tinha uma fila e eu passei e perguntei o porquê daquela fila, né? E o pessoal disse que era para uns cursos que estão dando gratuitamente e eu entrei naquela fila pra ver que tipo de curso era. Eu estava desempregada na época. Aí quando eu cheguei a moça me falou assim: “tem dois cursos”; um eu não me lembro qual era o curso. “Só que tu vai ter que esperar e tem um outro que é montagem de andaime e tu já pode ingressar” e eu não sabia nem o quê que era e eu quis fazer o curso, eu estava desempregada mesmo. Aí eu fiz o curso de montagem de andaime, foi duas semanas eu acho que de curso, ai eu fiz o curso e em seguida já larguei o currículo e me chamaram. Era do governo. Ai eu entrei na Ecovix. Entrevistada D. Sim, teve o curso de altura e curso de espaço confinado que eles deram porque a gente trabalhava em espaço confinado. Aí também logo que eu entrei eu senti muita diferença porque tinha poucas mulheres trabalhando nessa área. Aí eu senti bastante também, mas a preparação que eles dão são esses dois cursos. Entrevistada D. Eu continuo buscando, no momento eu estou de auxiliar de higienização, mas eu continuo buscando como montadora porque é a minha área e eu adoro. É a qualificação que eu tenho. Entrevistada D.

O depoimento de D mostra que ela não tinha nenhum conhecimento prévio da indústria naval. O novo empreendimento que se instalava, na época, na cidade de Rio Grande trouxe para ela a capacitação em uma área totalmente desconhecida. Seguindo sua trajetória dentro do Polo, ela expressa inicialmente como se sentia como mulher, em um ambiente de trabalho fortemente masculinizado. Já, no último trecho mostra a incorporação de uma disposição (“eu adoro”) atrelada à nova qualificação adquirida. Ela passou a se considerar uma montadora de andaime. As disposições cognitivas associadas a uma nova profissão foram oportunizadas então pelo Polo Naval. São essas disposições que vão entrar, posteriormente, em crise com a queda do megaprojeto. Mas, antes de analisar essa crise, vejamos como os sinais que colocavam dúvidas sobre a sua continuidade começaram a aparecer para os trabalhadores.

Os sinais negativos e o processo acelerado de declive

Esse empreendimento produtivo começou a apresentar sinais negativos, aproximadamente, a partir de 2014. Nessa época, registrou-se em forma gradativa a demissão mês a mês de levas de trabalhadores. No início, as demissões eram vinculadas ao encerramento de uma encomenda de plataforma e o início de outra, dando indícios que o “sonho” da indústria naval no sul do país poderia não dar certo. Para os trabalhadores, passava a ser uma angustia permanente saber se estariam na próxima lista de demissões, que desde os setores de administração pessoal se gerava mensalmente.

De certa forma levava os colegas até o sofrimento. Era todos os dias indo a trabalhar sem saber bem o que ia acontecer, o fundo de demissões. Desde 2014 a dezembro de 2016... eles foram diminuindo esse efetivo de 20 mil funcionários até chegar a 3 mil e pouco novamente, mandando em lotes: 500, 100 funcionários. Mandavam 50, parava as demissões. Aí voltava, mandavam 300. Isso rolou dois anos, só dispensando funcionários. Entrevistado A. Todo mundo que estava ali sabia que tava chegando o fim. Todo dia era um climão, "tem uma lista com mil e duzentos nomes para demissão". Aí eu pensava assim: “eu fiz uma poupança e eu pego a rescisão, daqui a pouco faço um estágio e consigo terminar a graduação”. Eu não fiquei tão preocupada nesse sentido, como a maioria do pessoal tinha contraído dívida; comprou carro, comprou casa. Essas pessoas aí eram outra situação; ou por exemplo os colegas que tinham filhos. “Eu pra mim é tranquilo, não sou casada não tenho filhos”. Eu pensava assim: “não sei quando vou ser dispensada, mas vou juntar um dinheirinho, vou pegar a rescisão e depois consigo um estágio”. Eu tinha essa perspectiva. Mas, eu sei que a maioria dos colegas não tinham, ainda mais os que tinham filhos, dependentes, crianças, e todo dia era um climão. Eu não fui tão afetada nesse sentido, com o medo da dispensa, mas sentia isso nos outros colegas, um clima horrivel, não era saúdavel. Entrevistado F. Quando estourou a política, era um rumor assim, toda hora, toda hora chegava um rumor “os coreanos vão comprar aqui e vão mandar todo mundo embora”, “sei lá, falhou a empresa vão mandar todo mundo embora”. Toda hora a gente ia trabalhar achando que ia ser mandado embora. Aí eu vendi meu carro, vendi minhas coisas que eu achei que iam me gerar mais custos que a necessidade, fui me desfazendo das coisas, as pessoas foram fazendo isso, foram se desfazendo. Entrevistado G.

O desemprego não caiu da noite para o dia. Assim como se gerou uma grande ilusão, a do “projeto dos vinte anos”; também foi se instalando a desilusão, a qual se renovava mês a mês, com cada listagem de demitidos, em que o trabalhador ficava agora na expectativa e angustia de ser ou não parte da mesma. “Levava os colegas até o sofrimento”; “era um climão8”; “não era saudável”; “era um rumor assim” são algumas das expressões, que resgatamos aqui, entre muitas, que ilustram o momento do declive do grande empreendimento. Com o barco afundando, um achado da pesquisa é que alguns trabalhadores procuravam reverter a situação negativa, a partir de suas relações com as chefias mais próximas. Assim em vários depoimentos, os trabalhadores declararam que, em algumas ocasiões, conversar com alguma chefia podia render a sua permanência no Polo Naval (mesmo estando em uma listagem inicial de demitidos), adiando para outro momento, impossível de prever, uma decisão que indefetivelmente lhes chegaria.

Outro achado de pesquisa é que trabalhadores em condições de vida mais favoráveis (por exemplo, jovens sem obrigações familiares) podiam se oferecer para serem demitidos antes que outros, quando notavam que algum colega, que desempenhava a mesma função, precisava mais da fonte de trabalho que eles. Precisaria haver uma relação de proximidade com o trabalhador “agraciado”, mas de algum modo representava um modo de solidariedade com aqueles que se encontravam em uma situação de maior vulnerabilidade. O último depoimento registra que assim como os trabalhadores ativaram inicialmente disposições econômicas, também reavaliaram no momento crítico a manutenção dos bens que tinham adquirido. Se os trabalhadores se preparam para o emprego, também com as armas que tinham começaram a se preparar para o desemprego9. Abria-se uma nova fase em que os trabalhadores passavam a ser descartados e suas disposições apagadas, como poderemos ver melhor na próxima seção.

O apagamento das disposições econômicas e cognitivas

Com o declive da indústria naval, milhares de trabalhadores e trabalhadoras acabaram sendo despejados, ficando em situações de desemprego e de emprego precário. De fato, as qualificações específicas, adquiridas para trabalhar no Polo Naval, não conseguem hoje ser reconvertidas para o exercício de novas profissões. O trabalho etnográfico tem mostrado que a expressiva maioria dos trabalhadores que vieram de fora de Rio Grande e das cidades próximas migrou novamente, procurando trabalho em outros lugares do Brasil. Por sua vez, os trabalhadores da região se dividem atualmente entre situações de desemprego, desalento, emprego precário e (de forma minoritária) de inserção em alguma atividade formal. A sua situação econômica regrediu significativamente desde o fechamento das atividades do Polo Naval; não se constatando nenhum caso individual, na pesquisa, de melhoria financeira. Com isso, suas disposições econômicas foram abaladas ou, melhor dito, frustradas. Além disso, hoje, os trabalhadores que conseguem fugir do desemprego, desempenham atividades em que, na melhor das situações, só fracamente transferem as disposições cognitivas adquiridas no Polo Naval, para outras profissões, sendo na maioria dos casos, simplesmente, apagadas.

Tem muita gente parada. Esse pessoal da manutenção pode fazer até serviço de serralheiro e montar estrutura, e fabricar em casa. Com uma máquina de solda e uma lixadeira o cara consegue trabalhar. Mas, tá muito difícil. Podia até pintar alguma coisa, poucos fora do meu grupo acho que eu sei: um virou vigilante, um pegou no [empresa de] fertilizante com manutenção. Agora conheço pessoas que são soldadores que tão trabalhando com música, a alguns que conseguiram trabalhar no de serralheria. Assim 90% virou autônomo. Entrevistado H. A maioria tá desempregada ou estão trabalhando, muitos profissionais que estavam acostumado a ganhar quinze dezesseis mil hoje estão trabalhando com Uber. Tão assim ganhando o que não estavam habituados a ganhar antes. Outros estão trabalhando como pintor e tudo mais, porque não é uma área de graduação tradicional, não vai pra uma faculdade fazer uma inspeção de ultrassom, … e tudo mais. (...) tu entra num curso e vai fazer umas provas da Petrobras e vai trabalhar só com isso, tá limitado a área naval e a área que diz assim, só tem que ser qualificado. Entrevistado H.

Mas a maioria dos meus colegas que exerciam a mesma função do que eu tão como eu falei trabalhando de Uber, trabalhando de pedreiro, pintando casa, na sogra, tudo assim espalhado por aí. Entrevistado G Assim, muita gente hoje tá até passando necessidade. Eu via, como te falei por exemplo soldador que tinha carro lá e esses dias fui comer uma pizza no “Sabores do Sul” e o cara tava lá de garçom. Problema em ser garçom? Problema nenhum, é um trabalho digno como qualquer outro, mas o que eu tó falando que a realidade dele mudou, decaiu de padrão. Entrevistado G.

Os depoimentos são convergentes. A maioria dos ex-trabalhadores que ficaram na região desempenham hoje trabalhos como autônomos, com rendimentos menores (alguns morando com familiares, como fica registrado na afirmação “na sogra”) e reutilizando escassa ou nulamente as disposições de qualificação. A indústria naval, como é registrado no primeiro depoimento, supõe um conhecimento especializado. É praticamente impossível que um trabalhador consiga aproveitar plenamente seus conhecimentos para outra área de atividade. Aqueles que desempenhavam tarefas de soldagem só fracamente conseguem reutilizar suas qualificações no Polo Naval para executar, por exemplo, atividades de serralheria. Isso, no melhor dos casos, pois a maioria desempenha atividades laborais alheias aos conhecimentos especializados obtidos. Assim, o abandono da indústria Naval, pelo Estado brasileiro, significou uma queda vertiginosa dos rendimentos salariais de seus trabalhadores, acarretando uma frustração em suas disposições econômicas; mas também o “enterramento” de disposições cognitivas individuais e coletivas - como nos relatou um trabalhador no grupo focal -, criadas em um contexto histórico de promoção da indústria naval.

Mas a questão é assim: hoje eu enterro meu talento. Tudo aquilo que tu adquiriu tu enterras, pra que num dia numa hora surja de repente alguma coisa. Depoimento de trabalhador em Grupo Focal.

O encerramento das atividades do Polo Naval não significou simplesmente o fechamento de uma oportunidade de emprego. Tem que levar em consideração, aliás, as características históricas do mercado de trabalho brasileiro, junto com a conjuntura laboral fortemente negativa, que se apresenta para os trabalhadores, nos últimos anos, com altíssimas taxas de desemprego. Em suma, junto com o encerramento do grande projeto, foram jogadas à deriva as disposições cognitivas e econômicas que os trabalhadores tinham ativado. Analisaremos, agora, sob uma ótica renovada esse processo a partir a sociologia do corpo e das emoções.

Breve interlúdio: aportes desde a sociologia dos corpos e das emoções

Até o momento analisamos os trabalhadores, seguindo a Lahire, como patrimônio de disposições que podem ser ativadas, reformuladas, apagadas e descartadas. Contudo, precisamos de um outro olhar que complemente e interpenetre essa análise. Os trabalhadores que são descartados portam disposições contextuais e biográficas, mas também são portadores de sensibilidades, em termos de percepções, sensações, emoções e/ou impressões. Nesse sentido, são também corpos que sofrem, detêm-se, refletem, criam expectativas, agem e voltam agir. A análise que trazemos agora não é apenas complementar, interpenetra-se com a anterior, trazendo novas luzes para dar conta do significado do trabalho na vida dos trabalhadores brasileiros (o que pode ser estendido a seus pares das sociedades latino-americanas). Não pretendemos sermos exaustivos, com esta nova contribuição, mas mostrar um mosaico mais enriquecido das tensões que são colocadas em jogo. Não é tão importante, aqui, trazer novos dados empíricos (ainda que novas referências venham a ser trazidas), mas reler nossos dados e nossas teorias a partir de um outro marco referencial que os reestruture e nos permita ver desde um outro ângulo.

Assim, as afirmações que são feitas aqui funcionam mais como novos olhares do que como assertivas definitivas, inspiradas em algumas reflexões - de baixa sistematicidade ainda - da sociologia dos corpos e das emoções. Como reflexões são preliminares, mas como tentativas interpretativas podem abrir novos horizontes explicativos.

Como uma ponte com a seção anterior, iniciamos traçando uma linha de análise que costure a análise disposicional ou do habitus com os estudos sobre os corpos. Medeiros (2017) faz uma incursão pela obra de Bourdieu, tentando mostrar que é possível reconhecer contribuições relevantes, desse autor, para o estudo dos corpos desde um ponto de vista sociológico. Diz a autora que na abordagem de Bourdieu “fica claro que a maneira de estar no mundo se deve a um processo de pertencimento social. O indivíduo é um coletivo encarnado, um social incorporado. A relação do corpo com o mundo é ligada a uma representação legítima do corpo (...) a noção de habitus articula o individual e o coletivo e engloba o corpo, porque, enquanto disposição, passa a orientar as práticas corporais que traduzem uma maneira de ser no mundo” (Medeiros, 2017, p. 133, grifos nossos).

Dois aspectos podem também ser sublinhados, trazidos por esta autora: de um lado, a existência de um capital corporal, isto é, propriedades corporais podem permitir a obtenção de determinados benefícios sociais. A autora, coloca o exemplo do esporte. Por sua vez, nós podemos pensar aqui nos investimentos de qualificação dos trabalhadores como a incorporação de habilidades específicas para o desempenho de certas atividades. Voltaremos mais tarde sobre esse ponto, no que diz respeito aos trabalhadores do Polo Naval de Rio Grande. De outro lado, seguindo a Bourdieu, “a somatização progressiva das relações fundamentais que são constitutivas da ordem social inscreve-se na hexis corporal, ou seja nas posturas, disposições e relações do corpo interiorizadas pelo indivíduo” (p. 134). Em outras palavras, a ordem social está inscrita nos corpos.

Por sua vez, Wacquant (2014), observa que o habitus é um conceito multiescalar, podendo ser utilizado em diversos níveis da atividade social. Desse modo, podemos falar de um habitus individual, genérico, de classe ou étnico. Nos interessa particularmente, aqui, a ideia de habitus de classe, em que “todos os agentes estão situados em uma distribuição hierárquica das formas de capital com base a derivações da estrutura econômica” (Wacquant, 2014, p. 42)10. No artigo, Wacquant está mais preocupado com discutir a noção de habitus do que desenvolver uma sociologia dos corpos. Entretanto, estabelece a conexão que já vimos com Medeiros entre habitus e corpo. Para ele, a noção do habitus, usando a linguagem de Garfinkel permite “construir o corpo como uma ‘realização prática permanente’”(p. 42) . O debate que instaura com outros autores, aponta a mostrar o caráter generativo do conceito de habitus, fortemente discutido nas ciências sociais, desde o momento em que Bourdieu o tornou tão amplamente difundido. Mas, o que vale para o habitus também vale, no nosso entendimento, com o corpo. O habitus (a diferença do habito) “incorpora disposições reflexivas”, pelo qual, “na medida em que as disposições são aplicadas aos próprios pensamentos, sentimentos, ações e entorno do agente, o habitus pode guiar uma forma de auto-trabalho” (p. 43).

Scribano vem desenvolvendo uma obra extensa e prolífica sobre a sociologia do corpo e das emoções. Recuperamos alguns conceitos trabalhados pelo autor, em Scribano (2012) para repensar como se estruturam e reestruturam os corpos e as emoções em torno ao trabalho, na sociedade brasileira. Cabe salientar, que o autor considera, no texto citado, entre outros aportes teóricos, que os conceitos de habitus, hexis corporal e espaço social constituem um antecedente para elaborar uma sociologia dos corpos e das emoções.

Sua proposta se insere uma construção teórica complexa, da qual gostaríamos resgatar, primeiramente, para este artigo, que não se pode dividir de forma aporética e definitiva a sociologia dos corpos e da sociologia das emoções; o que não redunda em negar, porém, as divisões disciplinares. Algumas anotações que trazemos (de forma não sistemática e sintética) de suas contribuições são as seguintes: a) “Todo ser social é um corpo que (...) se constitui no centro da expropriação como ‘locus’ insubstancial das subjetividades possíveis” (Scribano, 2012, p. 101) ; b) nas conexões entre sensações e corpos pode se distinguir entre “o corpo imagem” que refere a como “vejo e como sou visto”, “o corpo pele” que refere a como me “sinto naturalmente” no mundo e ao “corpo movimento” como inscrição corporal das possibilidades de agir (p. 101); c) a necessidade de “analisar: quais são as distâncias que essa (...) sociedade impõe sobre os seus próprios corpos, de que maneira os marca, e de que modo ficam disponíveis suas energias sociais” (p. 102); d) “a política dos corpos, isto é, as que uma sociedade aceita para dar resposta à disponibilidade social dos indivíduos é um capitulo, e não o menos importante, da estruturação do poder” (p. 102); e) sociologicamente é relevante diferenciar entre “fantasias” e “fantasmas”, “umas são o inverso dos outras, ambas fazem referência à denegação sistemática dos conflitos sócias. Enquanto as primeiras ocluem o conflito, as últimas “repetem a perda do conflito, lembram o peso da derrota, desvalorizam a possibilidade de agir diante da perda e o fracasso” (p. 103)11.

Depois destas apreciações conceituas advindas de uma sociologia do corpo e das emoções, trataremos de repensar a experiência do Polo Naval desde uma perspectiva analítica que coloque em jogo uma outra sensibilidade sociológica.

Corpos e emoções no Polo Naval de Rio Grande. Algumas anotações.

Desde uma sociologia do corpo e das emoções observamos que uma sociedade se constitui como um ser social que cria subjetividades sociais. Toda sociedade, registramos na seção anterior, classifica corpos e disponibiliza de determinada maneira suas energias sociais. A sociedade brasileira constitui-se, historicamente, como uma sociedade baseada no trabalho precário. Trabalhos de baixa qualidade, instabilidade, dificuldades de inserção, condições laborais limitantes fazem parte da construção histórica de seu mundo do trabalho. O habitus do trabalhador brasileiro (por extensão, também, do latino-americano) é construído na precariedade, o que significa que seu estar no mundo se constrói de forma instável e fragmentada (Souza, 2012, 2018), em uma sociedade com uma persistência estrutural da desigualdade (Cardoso, 2010). A noção de habitus de classe, trazida por Wacquant, nos permite pensar a condição estrutural precária do trabalho na sociedade brasileira. De tal modo, que as possibilidades disposicionais se encontram confrontadas com uma estrutura econômica que ora o acolhe temporariamente ora o lança ao vazio novamente. A política dos corpos como estruturação do poder foi construída como uma forma de extrair energias sociais, a partir de uma força de trabalho que foi entendida, historicamente, como uma força bruta e sem necessidade de qualificação.

O projeto de vinte anos do Polo Naval representou uma grande fantasia social. Foi a instalação de um compromisso social, em que todas as partes envolvidas pareciam concordar na possibilidade de alteração do habitus da classe trabalhadora. Acreditava-se em um trabalhador qualificado e saiu uma vírgula comprometido com um emprego estável. Muitos deixavam, inclusive, outros empregos, como os trabalhadores do comércio, para se somar às hostes do Polo Naval. A ideia de colaboração significou mais o compartilhar essa fantasia social, como o revela sua ampla difusão pelas instalações do Polo.

O conjunto de disposições que compõem esse habitus operário é o que se viu alterado. De um lado, podia se observar o investimento em um capital corporal. Os trabalhadores passaram a desenvolver, como amplamente notamos, disposições cognitivas e econômicas. In-corporavam qualificações que nunca tinham nem imaginado como “corpo imagem” nem como “corpo pele” nem como “corpo movimento”. Como “corpo imagem” agora passavam a se ver e a serem vistos como trabalhadores competentes em uma área, até então, totalmente desconhecida para eles. Não eram reservados às mesmas atividades vinculadas à pesca e ao comércio que eles e seus antepassados tinham desempenhado. Agora mulheres e homens aprendiam novos ofícios. Como “corpo pele” não apenas se percebiam ou eram percebidos como trabalhadores da indústria naval, também se sentiam parte dela. O depoimento da trabalhadora “D” entrevistada nos mostra as duas primeiras dimensões do corpo, como corpo imagem se percebe como “montadora”, como corpo pele diz que até hoje “adora” esse trabalho. Como corpo movimento acordavam cada manhã para participar desse grande empreendimento. Questionado um trabalhador sobre a dedicação dos trabalhadores no Polo Naval, nos respondia que cedo de manhã quem estavam levantados indo a trabalhar eram justamente eles.

Como afirmamos, anteriormente, o Polo Naval não caiu da noite para a manhã. Os trabalhadores vivenciaram, dia após dia, como a grande ilusão de um emprego de vinte anos se desmanchava. Vários depoimentos registrados nos mostram o “sofrimento” que se instalava nos corpos dos trabalhadores quando todo o mês era anunciada uma lista daqueles que ficariam de fora. Reproduzimos aqui alguns desses depoimentos: “levava os colegas ao sofrimento”; “era um climão”, “não era saudável”. Os mesmos mostram como esses corpos que tinham se construídos como imagem, pele e movimento dentro do Polo Naval estavam próximos ao descarte.

Vários relatos da pesquisa narram o dia em que foram demitidos de uma só vez milhares de trabalhadores. Cenas dramáticas de pranto e de consolo foram narradas por vários trabalhadores. Ocorriam, inclusive, cenas de desculpas de alguns deles que por ocuparem cargos de chefia, muito próximos aos trabalhadores do chão de fábrica, se sentiam responsáveis por estes. Outros se negavam a aceitar subjetivamente a demissão. Voltavam para suas casas e informavam para suas famílias que alguma coisa estava errada e que com certeza no dia seguinte seriam informados que tudo não passava de um equívoco. Como se o corpo não aceitasse a nova e velha imagem à qual era agora destinado. É o momento em que resultam abaladas as disposições desses trabalhadores. É o momento do desencanto da fantasia, do sofrimento, das depressões, o qual é vivenciado com mais intensidade por aqueles que têm compromissos familiares inadiáveis como, por exemplo, sustentar os filhos.

Contudo, se de um lado, se observava “sofrimento” também esse corpo movimento se mobilizava para tecer estratégias solidárias de curto prazo, como aceitar ser demitido antes que outros colegas de trabalho que “precisavam mais”, por exemplo, porque tinham famílias que sustentar. Também em alguns casos se preparavam para uma realidade que se avizinhava e que trazia, novamente, a realidade do desemprego e do trabalho precário. Assim, começavam a vender o que tinham adquirido ou a se requalificar, em outras áreas nas quais tinham agora previsões que podiam se reinserir no mercado de trabalho. O habitus como vimos na seção anterior, não é só determinação também é auto-trabalho. Um trabalho sobre si que se defrontava com o fim da fantasia do projeto de vinte anos e avistava o retorno do fantasma do trabalho precário.

Reflexões finais

As disposições são adquiridas pelos indivíduos, dependendo de suas trajetórias pessoais e dos contextos pelos quais transitam, podendo constituir um sistema (habitus em Bourdieu) ou um estoque/patrimônio (Lahire). Este foi o nosso ponto de partida para analisar as disposições econômicas e cognitivas ativadas nos trabalhadores do Polo Naval, fundamentalmente, os de Rio Grande e cidades próximas. Muitos dos que provinham de mais longe já tinham, de algum modo, essas disposições, sendo o Polo Naval na região sul uma ocasião para reativá-las.

No diálogo com a obra de Bernard Lahire, não nos propusemos analisar a gênese de disposições individuais, como tem sido em boa parte a característica do trabalho do autor francês. Com efeito, procuramos compreender a gênese de disposições coletivas em um contexto específico. Estudamos como uma organização econômica gerou disposições econômicas e cognitivas em trabalhadores brasileiros. Mesmo realizando entrevistas individuais não tínhamos por objetivo a reconstrução das disposições dos trabalhadores individualmente, observando, por exemplo, sua gênese, ativação e atualização. Acreditamos ter demonstrado que o Polo Naval incentivou coletivamente determinadas disposições. Em princípio poderia parecer que desenvolver disposições econômicas seria o centro de “interesse” desses trabalhadores. Certamente, algumas possibilidades de consumo como casa e veículo próprios ou bens educacionais e de saúde não são, até hoje, facilmente acessíveis aos trabalhadores brasileiros. Eles percebiam, portanto, no Polo naval uma forma de ter acesso a bens materiais e culturais negados historicamente, de alguma maneira, para a maioria dos indivíduos de sua classe. Contudo, chamou atenção como a qualificação passou a se configurar, também, como uma disposição cognitiva de relevância. Particularmente, várias mulheres avaliaram positivamente (não sem certo orgulho) acessar a qualificações, até esse momento, reservadas aos homens; fazendo, inclusive, que hoje elas tenham criado uma identidade como trabalhadoras que dominam um determinado ofício.

O resultado ao que chegamos é o de criação, crise e apagamento ou descarte de disposições econômicas e cognitivas, no Polo Naval de Rio Grande. Para entender esse processo de gênese/ativação/apagamento das disposições analisamos o processo mais amplo, desde o ponto de vista dos trabalhadores, de criação desse megaprojeto. O empreendimento dos “vinte anos” permitiu incorporar a subjetividade de um conjunto significativo de indivíduos. O Polo Naval foi, em boa medida, parte de sua vida de trabalhadores, onde podiam almejar até se aposentar. Esse foi o momento da “ilusão coletiva”, com ativação das disposições cognitivas e econômicas. Trabalhadoras e trabalhadores se sentiam parte de um grande projeto, ativando disposições econômicas que possivelmente não tinham auferido nunca antes de forma individual, bem como disposições de conhecimento que talvez duvidassem, antes, que poderiam desenvolver. Em contraste, o processo de demissões, ocorrido no período 2014-2016, é o do desmanche da ilusão (da fantasia social) ou o da angustia coletiva. Os trabalhadores vivenciaram, em conta-gotas e de forma contínua, um processo de demissões que anunciava, dia a dia, que o projeto duraria muito menos do que eles tinham imaginado. Sabiam que o mundo que lhes esperava, após o trabalho no Polo Naval, seria o da inserção na instabilidade e na precariedade laboral. Os depoimentos parecem unânimes: o resultado de todo esse processo acabou sendo o da frustração de disposições econômicas e o do apagamento/enterramento de disposições cognitivistas. Não é estranho, então, que as disposições emocionais dos trabalhadores também fossem abaladas, muitas vezes por um período de tempo que lhes permitisse se reerguer e se preparar novamente para um mercado de trabalho, que desta vez teria menos a lhes oferecer. O encerramento do Polo Naval não seria outra coisa que devolver a esses trabalhadores a instabilidade e a precariedade estrutural do trabalho, com a qual eles têm convivido historicamente.

Dedicamos outra parte do trabalho a fazer uma releitura de nossos dados a partir das contribuições de uma sociologia do corpo e das emoções. Apesar do marco referencial das disposições nos permitir resgatar modos de sentir, pensar e agir, nos parecia que sobre esta nova ótica poderíamos iluminar melhor nosso objeto de pesquisa. Os trabalhadores portam sensibilidades que incluem percepções, sensações, emoções e/ou impressões. Nossas anotações (como preferimos chama-las, por sua ainda baixa sistematicidade) nos mostraram inicialmente como o habitus do trabalhador brasileiro se constitui na precariedade, isto é, na permanente instabilidade. A extração das energias sociais, portanto, se produz no capitalismo do sul do planeta, atraindo e lançando os corpos dos trabalhadores à deriva. O Polo Naval representou então uma grande fantasia social, a de construir um lugar no mundo com trabalhadores com estabilidade laboral, bem remunerados em relação a seus pares de outros setores e desenvolvendo a seu favor disposições cognitivas e emocionais. Na linguagem de Scribano, tratar-se-ia de propor novos corpos imagem, pele e movimento. A incorporação de mulheres no Polo Naval é, justamente, um momento significativo dessa reconfiguração dos corpos. O declínio e encerramento do grande empreendimento significa, por sua vez, a passagem da fantasia social para o fantasma da precariedade e do desemprego. Por isso, esse é o momento do sofrimento social, tanto no percurso de instabilidade e desmoronamento progressivo do Polo Naval quanto no seu definitivo encerramento. Seria um olhar parcial e insensível não retratar esse momento de sofrimento dos corpos desses trabalhadores, mas também seria incompleta nossa análise se não reconhecesse que a instabilidade e a insegurança fazem parte, historicamente de suas condições de vida econômica e social, e que esses trabalhadores acabam fazendo um “auto-trabalho” sobre suas disposições para dar continuidade a suas vidas (definição mais justa do que seria o “jeitinho” do brasileiro”). Fica como reflexão final da experiência do Polo Naval, que os trabalhadores brasileiros e latino-americanos convivem com o fantasma do desemprego e da precariedade e só fugazmente parecem ter conseguido -em algum momento- desfrutar de alguma fantasia social, que os afastasse temporariamente das condições mínimas de reprodução social, embora a fantasia nunca chegasse a representar uma panaceia social.

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1Trata-se do projeto de pesquisa: “Etnografia do Polo Naval: os trabalhadores após o trabalho”. No projeto de pesquisa têm participado, além dos autores, diversos pesquisadores: a professora bolsista de pós-doutorado Ana Paula D’Avila, os estudantes de curso de graduação em Ciências Sociais Natália de Azevedo Pereira, Henrique Jeske, Alexandre Santos, André Vidazinha, e a mestre em Sociologia (PPGS) Cláudia Anello. Todos eles são vinculados ao Instituto de Filosofia, Política e Sociologia da Universidade Federal de Pelotas. Uma versão anterior da primeira parte deste artigo (excluindo a discussão sobre corpo e emoções) foi apresentada no 19º congresso da Sociedade Brasileira de Sociologia, que ocorreu entre os dias 9 a 12 de julho, na cidade de Florianópolis. O título do trabalho foi: “Trabalhadores do Polo Naval de Rio Grande: ativação e apagamento de disposições econômicas e cognitivas”.

2Tratou-se de um grande projeto industrial fomentado pelos governos do Partido dos Trabalhadores. Consistia na criação de plataformas para extração de petróleo em alta mar, tendo a Petrobrás como contratante de empresas terceirizadas que levavam adiante o empreendimento. Começou a funcionar em 2005-2006 e foi encerrado, sob uma mudança da política do Estado brasileiro depois do impeachment da Dilma Roussef em 2016. O novo governo do Michel Temer iniciou uma política desindustrializante e nada preocupada com a inserção laboral dos trabalhadores brasileiros.

3Em novembro de 2015 aplicamos um questionário a trabalhadores que estudavam em uma faculdade particular, nas sedes de Rio Grande e Pelotas. A maioria eram estudantes do Curso de Engenharia Mecânica.

4Dentro de um projeto neodesenvolvimentista, os governos de Luiz Inácio Lula da Silva, primeiro, e de Dilma Roussef, posteriormente, apostaram na revitalização da indústria naval, com construção de plataformas petrolíferas e de navios sonda.

5A nomeação dos entrevistados é feita por letra, por onde de aparição na comunicação, para garantir seu anonimato.

6Sendo uma questão a não ser desenvolvida neste artigo, os depoimentos indicam que houve, nos primeiros anos do empreendimento, uma sobrepopulação de trabalhadores. Assim, alguns deles podiam se encontrar contratados sem ter destinada uma atividade a ser cumprida no seu dia a dia laboral.

7Voltaremos a esta questão mais adiante ao falar das “fantasias” e dos “fantasmas”.

8Expressão coloquial que refere a uma situação tensa.

9O ponto de inflexão ocorreu, de fato, com o impeachment da presidente Dilma Roussef, em 2016. Com a mudança na direção do governo federal, um novo momento para a indústria naval começou a emergir. A ideia inicial de revitalização de uma indústria naval nacional passou a ser substituída pela de maior abertura econômica e de eficiência produtiva. A Petrobrás passou a ser considerada exclusivamente como uma “empresa”, que devia dar lucros antes que uma organização econômica do Estado brasileiro, que contribuísse com o desenvolvimento da sociedade e se preocupasse com a estabilidade laboral dos trabalhadores ao seu redor. A política do governo mudou radicalmente, passando as plataformas a serem construídas no exterior (na China, particularmente) e tendo como consequência direta a demissão de milhares de trabalhadores. A visão inflexível do mundo do trabalho e dos trabalhadores era expressa pelo presidente da Petrobrás na época, afirmando que a “(...) a Petrobrás é uma empresa. Ela não pode ser responsável de uma política pública. A política pública é responsabilidade dos governos, do poder público”. Petronotícias. “Parente diz que retomada da p-71 não está nos planos e que não tem uso para a plataforma”. Disponível em: <https://petronoticias.com.br/archives/96903>. Consulta em: 20/04/2017.

10As traduções de Wacquant e de Scribano foram feitas livremente pelos autores.

11Neste artigo, colocamos ênfase na criação de fantasias sociais e na queda nos fantasmas sociais, exemplificando com o caso dos trabalhadores do Polo Naval. Não se deve perder de vista, contudo, que ambas fazem parte de uma abordagem conceitual mais ampla, desenvolvida por Adrián Scribano, de mecanismos e dispositivos sociais e que remetem à negação do conflito. Para um melhor aprofundamento nesta questão remetemos às seguintes obras: (Scribano, 2004; 2005; 2012).

Recebido: 30 de Novembro de 2010; Aceito: 13 de Janeiro de 2020

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