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Polis (Santiago)

versión On-line ISSN 0718-6568

Polis vol.19 no.57 Santiago set. 2020

http://dx.doi.org/10.32735/s0718-6568/2020-n57-1570 

RESULTADOS DE INVESTIGACIÓN

A influência da posição dos agentes na elaboração de políticas públicas de turismo em campos turísticos: uma perspectiva comparada na América Latina

La influencia de la posición de los agentes en la elaboración de políticas públicas de turismo en campos turísticos: una perspectiva comparada en América Latina

The influence of the position of the agents in the elaboration of tourism public policies in tourism fields: a comparative perspective in Latin America

Marcela Costa Bifano de Oliveira1 

Thiago Duarte Pimentel2 

1Universidad de Guadalajara-CUC, Puerto Vallarta, México. Email: marbifano@gmail.com

2Universidade Federal de Juiz de Fora, Juiz de Fora, Brasil. Email: thiago.pimentel@ich.ufjf.br

Resumo:

O propósito deste artigo foi analisar a dinâmica de interação entre os agentes dos campos turísticos de Juiz de Fora (Brasil), Quito (Equador) e Mazatlán (México) em torno a elaboração de uma política turística, a qual é tomada como objeto de disputa central em cada campo. A teoria dos campos sociais de Pierre Bourdieu foi utilizada para compreender a dinâmica de interação entre os agentes, identificando aqueles com maior volume de capital. Utilizamos técnicas historiográficas, qualitativas e quantitativas para reconstruir cada um dos campos turísticos e analisar os elementos que conduzem as disposições e tomada de posição dos agentes. A partir da comparação entre os campos turísticos em três casos latino americanos, evidenciamos que o processo de elaboração das políticas turísticas tende a ser predominantemente influenciado pelos agentes com maior volume de capital, embora o processo de interação e sua resultante ocorra de forma diferenciada, variando o tipo de agente, de capital específico em função do contexto e da estrutura política de cada campo. Porém, em todos eles, a política pública resultante tende a assumir um ponto de vista formal supostamente neutro, dialógico e consensual, mascarando assim como universais interesses particulares de cada agente.

Palavras-chave: Ação coletiva; políticas públicas; campo turístico; sociologia do turismo; Pierre Bourdieu; América Latina

Resumen:

El propósito de este artículo fue analizar la dinámica de interacción entre los agentes de los campos turísticos de Juiz de Fora (Brasil), Quito (Ecuador) y Mazatlán (México) en torno a la elaboración de una política turística, la cual es tomada como objeto de disputa central en cada campo. La teoría de los campos sociales de Pierre Bourdieu fue utilizada para entender la dinámica de la interacción entre los agentes, identificando aquellos con mayor volumen de capital. Utilizamos técnicas historiográficas, cualitativas y cuantitativas para reconstruir cada uno de los campos turísticos y analizar los elementos que conducen a las disposiciones y toma de posición de los agentes. De la comparación entre los campos turísticos latinoamericanos se desprende que, en los tres casos, el proceso de elaboración de las políticas turísticas tiende a estar influido predominantemente por los agentes con mayor volumen de capital, aunque el proceso de interacción y su resultante se produce de forma diferenciada, donde el tipo de agente y el de capital específico varían según el contexto y la estructura política de cada campo. Todavía, en todos ellos, la política pública resultante tiende a asumir el punto de vista formal supuestamente neutro, dialógico y consensuado, enmascarando, así como universales los intereses particulares de cada agente.

Palabras clave: Acción colectiva; políticas públicas; campo turístico; sociología del turismo; Pierre Bourdieu; América Latina

Abstract:

The purpose of this article was to analyze the dynamics of interaction between the agents of the tourist fields of Juiz de Fora (Brazil), Quito (Ecuador) and Mazatlán (Mexico) around the elaboration of a tourist policy, which is taken as the central object of dispute in each field. Pierre Bourdieu’s theory of social fields was used to understand the dynamics of interaction between agents, identifying those with the greatest volume of capital. We used historiographic, qualitative and quantitative techniques to reconstruct each of the tourism fields and analyze the elements that lead to the dispositions and position of the agents. A comparison between the Latin American tourism fields shows that, in all three cases, the process of developing tourism policies tends to be influenced predominantly by the agents with the greatest volume of capital, although the process of interaction and its resultant is differentiated, where the type of agent and the type of specific capital vary according to the context and political structure of each field. Still, in all of them, the resulting public policy tends to assume the supposedly neutral, dialogical and consensual formal point of view, thus masking as universal the particular interests of each agent.

Keywords: Collective action; public policies; tourism field; tourism sociology; Pierre Bourdieu; Latin America

Introdução

O objetivo deste artigo foi analisar a dinâmica de interação entre os agentes dos campos turísticos de Juiz de Fora (Brasil), Quito (Equador) e Mazatlán (México) com base no processo de elaboração da política turística, tomando esta como objeto de disputa central em cada campo.

Para cumprir com tal objetivo, utilizamos a teoria sociológica dos campos sociais de Pierre Bourdieu (Bourdieu, 2001), que é considerada neste trabalho como um modelo referencial heurístico (Harré, 1988), potencialmente útil para o enquadramento dos agentes sociais que se encontram, de alguma forma, necessariamente envolvidos uns com os outros em um espaço social específico, com suas regras, recursos e objetos de disputa próprios, aos quais dedicam sua atenção, energia, tempo e esforços. Embora emblematicamente talhada pelo cinzel de Bourdieu, a noção de campo, originária da filosofia francesa da primeira metade do século XX1 (Bachelard, 2010), é importante porque permite incorporar a dimensão política (que vai além da racionalidade instrumental ou dos valores como mecanismos funcionais de integração, tal como se vê na análise dos sistemas), segundo a lógica de competição entre os agentes por recursos escassos. Nesse sentido a lógica geral da teoria dos campos sociais tem sido empregada na análise do que Pimentel propôs chamar de campo turístico (Pimentel e Pimentel, 2013; Pimentel, 2014; 2015a; 2015b; 2016; 2017; 2018).

Com esse aporte teórico, e seguindo as premissas bourdieusianas, argumentamos que os agentes com mais capital (econômico, cultural e social) têm uma maior capacidade e propensão para influenciar o campo e, de certo modo, impor uma determinada direção, de forma razoavelmente restritiva (através de condicionamentos estruturais ou conjunturais) às ações dos demais agentes, sejam eles individuais ou coletivos. De forma mais específica, argumentamos que a interação coletiva entre os agentes de um determinado campo, em particular, agentes coletivos (ou institucionais), é capaz de evidenciar, em boa medida, o grau de desenvolvimento do campo (social) turístico.

Tal análise permite expor elementos descontínuos, conflituais e políticos, inerentes ao campo social e que é tendencialmente ignorado pelas tradicionais análises baseadas em uma perspectiva linear, naturalista e evolucionista, que coloca a explicação sobre o que se passa em um destino turístico como se fosse um reflexo (variável dependente) de elementos externos (demanda turística), como descrito no trabalho de Butler (1980).

Metodologicamente utilizamos o conceito de campo como ferramenta heurística para produzir um mapeamento dos agentes em três campos turísticos: na cidade de Juiz de Fora (Brasil), Quito (Equador) e Mazatlán (México), além do método misto para verificar a posição, disposição e tomada de posição dos agentes em relação as políticas de turismo, aqui considerada como objeto de disputa no campo. Nossa ênfase jaz sobre a identificação dos agentes centrais de cada caso, segundo seus volumes de capital e, por tanto, suas capacidades (ou probabilidades) de influência e intervenção na realidade, como um mecanismo para interferir nas decisões relativas às políticas turísticas.

Empiricamente reconstituímos o campo a partir do mapeamento dos agentes que mais estão envolvidos com o turismo em cada um dos casos analisados, e, em seguida, focalizamos como elemento estruturante do campo a(s) política(s) de turismo. O entendimento da política de turismo como um objeto de disputa faz sentido, segundo Oliveira e Pimentel (2016; 2018; 2020), devido ao fato de que o turismo ainda se encontra em processo de consolidação, não se apresentando como uma esfera ou campo social autônomo da realidade social (Pimentel et al. 2014), tendo, portanto, de se submeter às decisões e ações institucionais do Estado vinculantes das ações de cada agente como imperativos universais a todos presentes no campo.

Constatamos uma estrutura assimétrica de distribuição de capital, onde os agentes com maior volume de capital tentam manter as estruturas e o modelo imperante em função de seus interesses particulares. Por fim, realizamos uma comparação entre os campos turísticos analisados, com o intuito de identificar possíveis homologias em seu modus operandi, assim como elementos estruturais comuns e também diferenças nas estratégias e táticas dos agentes em cada contexto latino americano.

Ressaltamos que a proposta teórica apresentada nesta pesquisa é, de certo modo, inovadora já que propõe aproximações, de maneira sistemática e estruturada, entre a teoria sociológica de Bourdieu como um todo e sua aplicação ao turismo, ao contrário de trabalhos precedentes nesta área do conhecimento que tenderam a recorrer à teoria de Bourdieu (Anaya, 2005; Kay & Laberge, 2002; Kane, 2010; Ahmad, 2013) de forma seletiva, limitando-se ao recorte analítico de alguns aspectos, sendo o mais frequente o da «distinção social» (Bruner, 1991; Richard, 1996; Peleggi, 1996; Pavón, 1999; Aledo, Martinez & Terán, 2007; Belhassen & Caton, 2009). De todo modo, o uso da teoria bourdieusiana em estudos turísticos é, portanto, uma área virtualmente inexplorada, tendo apenas recentemente gerado uma avenida de trabalhos, ainda, de certo modo, concentrados em um mesmo grupo de pesquisa (Pimentel & Pimentel, 2013; Pimentel, 2014, 2015a, 2015b; Mata & Pimentel, 2016; Oliveira & Pimentel, 2016; Pimentel, 2017; 2018; Oliveira & Pimentel, 2018; 2020).

Além dessa introdução, este trabalho está dividido em quatro partes. Na primeira seção (referencial teórico), realizamos uma discussão sobre a teoria dos campos sociais de Pierre Bourdieu. Na segunda seção apresentamos o método utilizado neste trabalho, e em seguida, a análise com as categorias da teoria de Bourdieu, identificando a posição, disposição e tomada de posição dos agentes presentes no campo turístico de Juiz de Fora (Brasil), Quito (Equador) e Mazatlán (México). Por fim, fazemos as discussões juntamente com as considerações finais.

A teoria dos campos sociais de Pierre Bourdieu

Pierre Bourdieu é um autor incontornável na teoria social, em geral, e na teoria sociológica, em particular. Mais do que isso, dada a amplitude e transversalidade com que construiu seu corpus teórico em várias áreas do conhecimento: sociologia, economia, educação, religião, arte, política, etc., ele é uma referência central nas ciências humanas, a ponto de se poder dizer que, se existe a constituição de um paradigma, no sentido kuhniano do termo (Kuhn, 1962), nas ciências sociais - ou pelo menos na sociologia - contemporaneamente, definitivamente ele é bourdieusiano (Caillé, Vandenberghe, 2016).

A obra de Pierre Bourdieu pode ser compreendida como uma teoria das estruturas sociais. O autor aceita a existência de estruturas objetivas, independentes da consciência e da vontade dos agentes. Por outro lado, diferencia-se ao sustentar que as estruturas são produtos de uma gênesis social dos esquemas de percepção, de pensamento e de ação (Thiry-Cherques, 2006).

Segundo Wacquant (2002), Bourdieu em sua prática de investigação combinou a teoria de vários autores de renome como Marx, Durkheim, Bachelard, Weber, Husserl, Merleau-Ponty, entre outros, resultando em um campo teórico original, desvendando a dialética das estruturas sociais e mentais no processo de dominação. Segundo Socha (2011), ele acreditava que o intelectual deveria servir aos interesses de uma verdadeira práxis de transformação social, demonstrando a reprodução de toda a dominação simbólica. Bourdieu tem a ideia de que são os agentes sociais que constroem a realidade social, mas sustenta que o princípio dessa constituição é estrutural. Para ele a dominação se exerce sempre pela violência, seja ela bruta ou simbólica, seja pela coação física ou imaterial (Thiry-Cherques, 2006).

Bourdieu (1990; 2004) caracteriza seu trabalho como construtivista estruturalista. Considera o estruturalismo no sentido de Lévi-Strauss, onde existem no mundo social estruturas objetivas (linguagem, mito, etc.) que orientam ou constrangem as práticas e representações dos agentes, independente da consciência ou vontade dos mesmos. Por construtivismo entende que, existe uma gênesis social dos esquemas de percepção (pensamentos e ação), que por um lado são construídos pelo habitus, e por outro, pelas estruturas sociais, grupos e classes sociais, que formam o campo.

Segundo Pimentel (2014), é importante reconhecer que a análise das estruturas objetivas como um sistema de relações que se localizam no espaço-tempo, é o eixo central no estruturalismo genético de Bourdieu. A estrutura do campo designa uma externalidade (que não é o campo) e uma interioridade (que são as instituições e os agentes), dessa maneira o campo é analisado como a incorporação das estruturas preexistentes. Os campos sociais são produtos da história das posições e disposições que os reproduz. Bourdieu desenvolve a teoria que incorpora os conceitos de campo, capital e habitus para identificar as relações entre os agentes individuais ou coletivos que através de estratégias lutam para conseguir seus interesses e manter a dominação do campo.

Segundo Bourdieu (1993) o campo é um espaço de relações objetivas individuais, coletivas ou de instituições que competem pela dominação dos bens específicos. Cada campo tem um interesse que é comum a todos os agentes, este interesse está ligado à existência e constituição do próprio campo, ligado às diversas formas de capital, que irão determinar e reproduzir as posições sociais (Thiry-Cherques, 2006). As relações objetivas são as relações entre as posições ocupadas na distribuição dos recursos - capital econômico, capital cultural, capital social - reconhecidas como legítimas. Assim os agentes estão distribuídos no espaço social, primeiramente, de acordo com seu volume de capital, segundo de acordo com o peso relativo das diferentes espécies de capital (Bourdieu, 1990).

As posições são impostas aos agentes ou instituições em relação a sua situação atual e potencial na estrutura da distribuição de poder (ou capital), cuja disposição (habitus) comanda o acesso aos benefícios que estão em jogo no campo. A dinâmica de um campo reside na configuração particular de sua estrutura, nas distâncias entre as diferenças de forças específicas que se disputam nele. Os tipos de capital conferem uma capacidade no campo, e sua distribuição constitui a estrutura mesma do campo, que é dada pela posição (Bourdieu, 1993).

Por capital, Bourdieu considera o capital econômico (dinheiro, bens, riqueza material), o capital cultural (conhecimentos, habilidades, informações), o capital social (acessos sociais, redes de contatos) e o capital simbólico (prestígio, honra, é uma síntese dos demais capitais). Estas formas de capital significam formas de poder. Para o autor, capital é trabalho acumulado em forma de matéria, interiorizado ou incorporado, e se requer tempo para sua aquisição (Bourdieu, 2001a).

O campo envolve uma doxa (senso comum) e nomos (leis gerais que o governam). Em todo campo existe um conflito entre os que dominam, que são os agentes que monopolizam o capital do campo por meio da violência simbólica (autoridade), e os que são dominados. Assim as instituições de um determinado campo tendem a «impor» a cultura dominante, de maneira que o habitus e as desigualdades sociais sejam reproduzidas (Thiry-Cherques, 2006). Em cada campo se encontra uma luta entre os novos agentes ingressantes no campo, ainda desprovidos de capital e, por isso mesmo, adeptos de estratégias mais ousadas que buscam transformação e redistribuição de recursos no campo, enquanto os agentes dominantes, por sua vez, tentam defender o monopólio dos capitais já acumulados e, por isso mesmo, usam predominantemente estratégias de conservação, visando excluir ou reduzir a concorrência (Bourdieu, 1983).

O espaço social (ou campo social) é construído pela distribuição dos agentes em função do volume de capital que possuem em um dado momento, o que representa a sua posição no campo. Cada classe de posições corresponde a uma classe de habitus, ou seja, os agentes com posições similares ou próximas tendem a ter o mesmo habitus. O habitus é a maneira de ser e agir de um agente, que está vinculado com as suas práticas e os seus bens. A posição no campo está relacionada com a tomada de posição, que depende da intermediação das disposições (Bourdieu, 1996). Na definição adotada por Bourdieu, habitus é um sistema de disposições (modo de pensar, de fazer, de sentir) que nos levam a atuar de determinada maneira e circunstância. As disposições são flexíveis, são adquiridas pela interiorização das estruturas sociais. São portadoras da história individual e coletiva, estão internalizadas de maneira que ignoramos sua existência. «São as rotinas corporais e mentais inconscientes, que nos permitem agir sem pensar» (Thiry-Cherques, 2006, p. 33).

Fonte: elaboração própria a partir da teoria de Bourdieu

Figura 1 Elementos da estrutura do campo e condições necessárias para sua reconfiguração. 

Diferentes agentes podem se mobilizar em torno de uma ação comum, sendo que a possibilidade de que um grupo mobilizado em defesa dos seus interesses seja mais bem-sucedida do que uma conduta individual, esteja relacionada com o volume de capital que se pode mobilizar em grupo, e depende, de certo modo, da proximidade (física e social) dos agentes no espaço, de maneira que estejam mais inclinados a se reconhecerem mutualmente e no mesmo projeto. As estratégias dos agentes para a tomada de posição, no entanto, dependem da posição que eles ocupam no campo, da disponibilidade de recursos (capitais) herdado de lutas anteriores e do espaço de possibilidades em uma dada situação, e que, através das disposições e da tomada de posição irá afetar o modo como os agentes se inclinam a conservar ou transformar a estrutura de distribuição (perpetuando ou mudando as regras do jogo) (Bourdieu, 1996).

Metodologia

Este estudo parte de uma perspectiva teórico-crítica, ancorada epistemologicamente no racionalismo aplicado de Bachelard (2010), que transcende a dicotomia entre empirismo e racionalismo, e é desenvolvido por Pierre Bourdieu (1983; 1996; 2001a; 2001b, entre outros), manifestando-se metodologicamente através de uma forma própria2 de estrutural-construtivismo. Na teoria bourdieusiana, o que se busca estudar são os «campos sociais», assim, metodologicamente utilizou-se o conceito de «campo» como ferramenta heurística para conduzir o estudo.

Empiricamente tomou-se como objeto de análise a dinâmica interativa dos agentes em torno à elaboração de políticas públicas de turismo (como objeto de disputa no campo, no qual os agentes tentam influenciar), no município de Juiz de Fora (Brasil), Quito (Equador) e Mazatlán (México). Supõe-se que este processo envolveria grande parte dos agentes do campo, seja em sua formulação ou implementação, já que se trata de mecanismos que uma vez criados exercem normatividade e coercibilidade sobre todos que estão no campo (Bourdieu, 2001b; 2004).

O método misto orientou a lógica desta pesquisa, que foi realizada em dois grandes momentos, um de coleta de dados, compreendendo 4 fases, e outro de análise, constituído basicamente de uma grande etapa, conforme descrito no quadro 1.

Quadro 1 FASE 1: Recompilação dos dados secundários e primários. 

Fonte: elaboração própria.

Para tanto, o primeiro passo foi fazer uma revisão histórica do contexto turístico de cada país para rastrear a gênesis da formação do campo, sua historicidade, os agentes chave, seus interesses e objetos de disputa. Como parte dessa historicidade se buscou, como recomenda Bourdieu, o rastreio por proximidade ao campo burocrático, onde foi feita uma reconstrução histórica das principais políticas de turismo em Juiz de Fora (Brasil), Quito (Equador), e Mazatlán (México) nos diferentes níveis: federal, estadual e municipal. Em seguida foi eleita, de maneira precisa, uma política pública turística de nível municipal vigente que fosse relevante, no sentido de que esta pudesse afetar a múltiplos agentes, ela serviu de referência para a análise de todos os agentes em relação ao mesmo objeto (a política).

Na seguinte etapa foi feito um mapeamento dos agentes no campo turístico (quadro 2): os individuais, assim como as organizações, entidades e instituições formais que compõem o campo turístico de cada município estudado (Juiz de Fora, Quito e Mazatlán). Os agentes foram classificados e agrupados por setor: em públicos, privados e sociedade civil organizada, com vistas, de certa forma, a obter uma aproximação de seu habitus. Por fim, foram feitas entrevistas semiestruturadas, observação, notas no diário de campo e questionários para os dados quantitativos referentes ao cálculo do volume de capital. Metodologicamente, a posição3 dos agentes foi identificada a partir de dados primários (entrevistas e questionários) e dados secundários (sites eletrônicos), para tanto criamos uma escala4 de 1 a 8 para cada capital, e sua posterior somatória para a quantificação do volume de capital de cada agente e por cada setor (público, privado e sociedade civil organizada).

Foram elaboradas 17 perguntas referentes ao objetivo da pesquisa, que se enquadraram dentro das quatro categorias de análises (posição, disposição e tomada de posição), apresentadas no Quadro 1. As entrevistas seguiram um guia com as perguntas preestabelecidas, e outas foram feitas de acordo com o desenvolvimento da conversa. O entrevistador apenas intervia na fala dos entrevistados caso estes desviassem do assunto ou caso fosse necessário um maior aprofundamento do tema abordado. Todas as entrevistas foram gravadas com o consentimento dos entrevistados, e posteriormente transcritas manualmente pelos autores.

Com base no objeto empírico de disputa (política pública de turismo), realizou-se todas as etapas mencionadas, movendo-se para a fase 2 (análise dos dados), a qual se deu em outra etapa própria segundo o conjunto de categorias analisadas. Dessa maneira, primeiramente verificou-se a posição, disposição e tomada de posição dos agentes em relação às políticas de turismo. Tais categorias permitiram analisar como e em que medida a ação dos agentes está relacionada com a sua posição, ou melhor, pelo poder que têm no campo e sua capacidade de influenciar nas decisões de acordo com seu interesse, pela tomada de posição que são as ações efetivas nesse campo, e pela sua disposição em fazer algo, que irá orientar tanto a posição como a tomada de posição dos agentes.

Quadro 2 Agentes mapeados dos 3 Campos Turísticos: Juiz de Fora (Brasil), Mazatlán (México) e Quito (Equador) 

Fonte: Elaboración propria.

Os campos turísticos em análise

Juiz de Fora (Brasil)

A partir da metodologia utilizada, identificamos que em Juiz de Fora (Brasil), a partir da distribuição de capital dos atores no campo, o conjunto de agentes do setor privado (volume de capital: 106,5) ocupa a posição central no campo, seguido pelo setor público (volume de capital: 60,76), enquanto a sociedade civil organizada apresenta menor volume de capital (36,73), porém está representada por poucas organizações.

Fonte: elaboração própria a partir dos dados coletados

Figura 2 Posição dos atores de Juiz de Fora. 

É importante ressaltar que por existir um Conselho Municipal de Turismo em Juiz de Fora (COMTUR), e que em função da atividade turística envolver diferentes atores e setores para sua organização, os membros que fazem parte do COMTUR são de diversas áreas e níveis que muitas vezes não estão relacionados diretamente com a atividade na cidade. É o caso, por exemplo do SEBRAE, organização privada de nível estadual e federal, cuja representação em nível local não se interessa nem participa ativamente no campo, ou seja, não utiliza o seu volume de capital para interferir no campo em questão. Por essa razão optamos analisar a posição daqueles atores diretamente relacionados à atividade turística no município e, por tanto, que possuem um grande interesse nela. Dessa forma, dos 21 atores que são membros do COMTUR, apenas 10 estão diretamente relacionados à atividade no munícipio, como se evidencia no Quadro 3, os quais foram submetidos a análise, pois o conflito do campo gira em torno deles.

Quadro 3 Atores diretamente relacionados com a atividade turística 

Fonte: elaboração própria a partir dos dados analisados.

No entanto, o entendimento global do campo passa pelo habitus, que, no caso em tela, talvez seja mais bem aprendido pelos esquemas mentais, ações e predisposições mais amplos envolvidos pelas próprias clivagens de segmentos (ou «classe»). Nesse sentido, a análise agrupou os atores por setores - público, privado e sociedade civil - para verificar se haveria alguma diferença na composição dos princípios orientadores do campo e na constituição de uma doxa.

Como se nota, os agentes individualmente com maior volume de capital são, respectivamente, o departamento de turismo da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF/DepTur), com um volume de capital de 12,69, uma autarquia pública federal mas que se insere na cena local - no âmbito do conselho municipal de turismo como representante da sociedade civil organizada; o departamento de turismo da Prefeitura Municipal de Juiz de Fora (SDEER/DepTur), representando o setor público local; e a Associação de Bares e Restaurantes (ABRASEL), empatados no seu volume de capital de 10,02. Se analisados conjuntamente, esses três agentes, dos diferentes setores - público, privado e da sociedade civil organizada - foram eles que mais participaram, mais elaboraram, aprovaram e executaram ações (e projetos) e mais fizeram valer seus interesses e sua visão de mundo no espaço público social do turismo - COMTUR na cidade de Juiz de Fora (Pimentel et al., 2019). Dentro das pautas discutidas dentro do COMTUR, o principal objeto de disputa tem sido o Plano Municipal de Turismo, política em processo de elaboração.

O ponto de convergência é que todo mundo quer que seja revisto o Plano Municipal de Turismo, todo mundo sabe das necessidades da cidade, todo mundo está apoiando que o COMTUR seja deliberativo, todo mundo está disposto a trabalhar para criar projetos turísticos entendeu, todo mundo que está lá acredita no potencial da entidade, mas acho que se comprometem pouco ainda, como entidade entendeu. E eu acho assim que o COMTUR tem que partir para a prática para a ação (JFRC&VB).

A política vigente até o momento, e na qual se baseia o Plano Municipal de Turismo em processo de elaboração é o «Plano Setorial Estratégico de Turismo de Juiz de Fora» realizado em 2003, apresentado no Quadro 4.

Quadro 4 A política pública de turismo analisada em Juiz de Fora e suas características. 

Fonte: elaboração própria com base no Plano Setorial Estratégico de Turismo de Juiz de Fora (2003).

As disposições dos agentes no campo são diferentes, existe uma fragmentação entre eles pois possuem visões diferentes sobre o turismo na cidade, o que dificulta a construção de um habitus em comum. Por outro lado, é possível verificar que uma ideia se sobressai em relação às outras, na prática existe uma tendência, ainda que seja de senso comum, que é reproduzir a lógica do mercado. Há um eixo central que permeia todos os agentes: considerar que o foco da atividade é o turismo de negócios e eventos, reproduzindo o discurso empresarial. Essa visão apresenta uma vantagem de homogeneização de percepções e criação de uma referência comum, já que está consolidada no senso comum (doxa), facilitando o discurso de que a atividade turística traz melhorias econômicas. Isso se evidencia quando perguntamos o papel do turismo na cidade.

«Fonte de receita dentro do segmento de negócios e eventos» (CTCN). «É uma ferramenta para o desenvolvimento, mais tem que ser muito mais explorada, não somente como turismo de negócio, mas como turismo de ócio também» (SINART). «Então existe um foco que é o turismo de negócios e eventos, que é o papel que o turismo de Juiz de Fora está adotando hoje» (CATUR). «[...]entendendo que o que nós temos a oferecer é muito agregador a essa vocação que a cidade está começando a entender que tem, que é com relação ao turismo de eventos» (ACRBA).

Adicionalmente, quando se verifica a participação dos agentes em propostas e debates, ou seja, sua tomada de posição no processo de elaboração das políticas públicas, a maioria diz que participa. Em função da existência do COMTUR, esses atores estão presentes nas discussões sobre as políticas de turismo. Por outro lado, o conselho é somente consultivo e não deliberativo, o que limita a decisão por parte dos agentes, que podem apenas fazer sugestões.

«Sim, propostas, debates, e fazemos sugestões, mas quem decide é o secretário. (SDEER/DepTur - destaque adicionado). «Sim, o conselho hoje tem um carácter consultivo, não tem um carácter deliberativo. (ABRASEL - destaque adicionado).

Além disso, existe uma inércia dos atores em relação às ações concretas, esperam que o setor público resolva os problemas e desafios relativos à atividade. Por outro lado, os residentes locais, provavelmente devido à sua visão naturalizada, acreditam que há pouco potencial turístico na cidade, enfraquecendo o estabelecimento e fortalecimento de uma coesão entre os atores.

«A população não acredita no turismo, nem pelos órgãos públicos, não tem uma Secretaria. Ainda tem poucas iniciativas» (JFRC&VB). «[...] mas assim eu acho que hoje o turismo, ele representa para aqueles que estão ali sabe, parece que a gente está num outro planeta, eu digo assim, nós que somos lá do turismo estamos diretamente relacionados, a gente senta, são poucas pessoas, mas as pessoas que estão ali elas estão discutindo, então assim, tem uma esperança né, elas estão acreditando que aquele tempo vai dar em alguma coisa. Mas quando você sai daquilo ali, ninguém sabe, ninguém percebe. Eu acho assim que o turismo hoje ele não é nada [...]» (SDEER/DepTur). [...] um ponto de divergência, esse bem maior que é o turismo na cidade, ele sempre é posto em segundo plano, porque eu sempre percebo que o que vigora na realidade é a maneira da minha empresa, eu estou falando pelos empresários, vamos falar das pessoas do setor privado que participam dessas reuniões, que sempre eu percebo um interesse maior no desenvolvimento do seu próprio negócio. É um contrassenso, eu quero o turismo, mas efetivamente eu quero que este turismo se instale, mas eu não quero que ele me traga investimentos, eu quero que a minha empresa seja sempre beneficiada, então esse é realmente um gargalo, no desenvolvimento, no estabelecimento do turismo na cidade» (UFJF/DepTur).

Dessa forma, evidencia-se uma maior influência dos três agentes centrais, com maior volume de capital - UFJF/DepTur, SDEER/DepTur e ABRASEL - determinando as pautas e discussões - tomada de posição - dentro do conselho, influenciando de certa maneira quais são as ações que serão executadas. Isso se evidencia pela quantidade de vezes em que eles se pronunciam no conselho, em que sugerem alguma proposta de ação, e nos resultados concretos que o conselho executa, que em sua maioria, são propostas originárias de um desses três agentes (Pimentel et al., 2019). Mas, no período em tela analisado, foi a Universidade de Juiz de Fora o agente que predomina na elaboração de propostas e também em resultados concretos, como corroborado pelas atas, entre os anos de 2011 a 2015 (Pimentel, Carvalho & Oliveira, 2016).

Mazatlán (México)

Em Mazatlán, o principal objeto de disputa identificado foi a política pública de turismo: «Corredor Turístico Competitivo y Sustentável do Sur de Sinaloa», que estava em seu processo de execução.

Quadro 5 Características da política analisada em Mazatlán. 

Fonte: elaboração própria a partir de CODESIN (2016).

Os agentes que individualmente mais se destacam no campo, em relação ao seu volume de capital, são: Instituto de Cultura, Turismo e Arte (15,36); Administração Portuária (14,01); e CONSELVA (13,70), que são agentes ligados aos segmentos do setor privado, público e da sociedade civil organizada, respectivamente. Considerando o agrupamento por setores, os agentes do setor público, em seu conjunto, apresentam melhor posição no campo (60,11), seguido pelo setor privado (53,77), e por último a sociedade civil organizada (46,76).

Fonte: elaboração própria a partir dos dados coletados

Figura 3 Posição dos atores de Mazatlán. 

Em relação ao objeto de disputa, a política turística «Corredor Turístico Competitivo y Sustentável do Sur de Sinaloa», os agentes centrais não são aqueles com um maior volume de capital no campo, cumpre mencionar que em relação a temas específicos, pode haver maior atuação de agentes diferentes. Nesse sentido os agentes CODESIN, CONSELVA e SECTUR, são os atores dominantes frente a essa política, propondo ações para fazer o Sul de Sinaloa competitivo e sustentável. Os demais atores são coadjuvantes nesse cenário.

A partir dos dados das entrevistas, podemos inferir que alguns agentes do setor público e privado são os que tem maior capacidade de interferência nas decisões políticas, suas posições e disposições mantém as regras do jogo em fazer do turismo um detonador econômico. A sociedade civil organizada tenta participar, porém, nas como verificado nas entrevistas, a participação nas políticas é restrita a um círculo fechado onde, geralmente, as suas propostas não são tomadas em conta, pois o que importa são os interesses particulares dos tomadores de decisões.

«Também teve uma mudança na lei, a qual se permite ao estrangeiro, ao investidor se apropriar de uma boa parte do litoral da praia, que não deveria ser, existem coisas que se realizam por baixo dos panos, que se constroem e destroem grande parte do nosso litoral» (UAS). […]estamos tratando de que os planos de governo levem a cabo uma distribuição justa da riqueza […] a maior parte do investimento público vai para certo grupo de poder econômico e tem feito que Mazatlán perca competitividade, são os mesmos grupos dos anos 70, os mesmos grupos de hotéis […] (Asociación de Guías de Turistas de Sinaloa).

Além disso, os agentes quando questionados sobre como participam em propostas, debates, tomada de posição nas políticas públicas, responderam:

«As vezes participamos, mas não temos voz, a decisão é tomada por um comité, que não são mais que dez pessoas» (Asociación de Guías Turísticos de Sinaloa - destaque adicionado). «Não em todas, em algumas que somos convidados, mas não tomamos decisões, somente fazemos propostas» (Asociación Mexicana de Agencias de Viajes - destaque adicionado). «Não diretamente, fazemos propostas. Existe um comité onde estão os donos de hotéis, e aí tomam decisões de outro nível» (Centro de Convenciones - destaque adicionado).

As disposições dos atores no campo são diferentes em alguns pontos, cada setor tem suas prioridades, mas é possível verificar que todos os setores estão em busca de uma melhoria na qualidade do produto turístico para atrair mais turistas, querendo promover o destino para ter uma maior derrama econômica. Assim, todos têm como premissa subjacente a busca do crescimento econômico para ter conquistas sociais e ambientais. Quando perguntados qual era o papel que desempenhava o turismo em Mazatlán, por unanimidade responderam:

«[…] o turismo é benéfico pois ativa a economia» (Conselho ecológico). «Turismo em Mazatlán é a fonte principal, geradora de empregos e de produto bruto» […] (Consejo de Organizaciones de la Sociedad Civil de Sinaloa). «O turismo vem sendo agora a atividade mais importante economicamente falando em nosso município» (Aquário de Mazatlán). «é muito importante, é detonador econômico, ou seja, importantíssimo, […] e a derrama econômica que deixa é muito constante […]» (Secretaría de Desarrollo Económico de Mazatlán). «Se tem posicionado como provedor principal de trabalho e sustentador da economia» (Asociaciones de Moteles y Empresas Turísticas).

Ressaltamos então que, em Mazatlán, os agentes envolvidos na política em disputa, não são os que apresentam um maior volume de capital no campo, apesar de estarem entre aqueles com maior volume de capital. Porém o que chama atenção, é a capacidade de terem uma posição de destaque na orientação e determinação de uma política turística de nível regional. Isso acontece porque esses agentes CODESIN, CONSELVA e SECTUR fizeram uma coalizão em busca de um objetivo comum: fazer de Mazatlán e o Sul de Sinaloa um destino sustentável.

Aqui cabe uma observação, é o setor público, em seu conjunto, que apresenta melhor posição no campo (60,11), porém a partir de algumas limitações na coleta dos dados de volume de capital - pois alguns agentes do setor privado não quiseram disponibilizar seus dados relativos ao capital econômico, ou seja, o seu orçamento anual - podemos dizer que possivelmente o setor privado apresenta maior volume de capital do o que foi retratado na pesquisa. Além disso, é esse setor que impõe e determina as diretrizes do turismo na cidade, amparado pelo setor público, como visto em algumas falas dos demais agentes entrevistados. Outro elemento digno de nota, e que se relaciona com esta formal sobrerepresentação do setor público em relação aos demais, diz respeito ao fato de que os agentes do setor privado usualmente se reúnem e manifestam seus interesses em fóruns privados, os quais se conectam de forma ambígua e não oficial com o setor público e suas políticas, tendo gerado a alcunha, pelos próprios entrevistados, de «agenda oculta» dos empresários.

Quito (Equador)

Na cidade de Quito (Equador), existe um Governo Autônomo Descentralizado (GAD), de nível cantonal, chamado Município de Quito Alcaldía, dentro da sua estrutura organizacional está a instituição responsável pelo turismo, Empresa Metropolitana de Turismo Público (Quito Turismo). Essa empresa assumiu o compromisso de implementar a Política de Turismo proposta pelo município, para tanto elaborou em 2014 um documento chamado «Turismo de Quito», sendo este o principal objeto de disputa identificado no subcampo das políticas públicas de turismo.

Quadro 6 Política pública de turismo analisada em Quito e suas características. 

Fonte: elaboração própria a partir do documento da política (Quito Turismo, 2014).

Os agentes que individualmente mais se destacam em relação ao seu volume de capital no campo turístico são: Ministério do Turismo (MINTUR) (16,68) e Quito Turismo (16,68), Maquipucana (12,35) e Universidad Tecnológica Equinoccial (UTE) (11,68), que respectivamente representam os setores público, privado e da sociedade civil organizada. Considerando os agentes agrupados em termos de setor, podemos dizer que o setor público (52,73) é o que tem uma melhor posição no campo, seguido pelo setor privado (28,04), e por último a sociedade civil organizada (27,05). A partir das entrevistas, se evidencia que são justamente as empresas públicas - MINTUR e Quito Turismo - quem determinam as políticas de turismo, os demais atores não participam das decisões.

Fonte: elaboração própria

Figura 4 Posição dos atores em Quito. 

A disposição dos atores em relação ao turismo se identifica em alguns pontos, como o de trazer melhor desenvolvimento econômico para a cidade e para as comunidades, além do tema da sustentabilidade e de uma melhor qualidade de vida para todos os envolvidos. Observa-se que o setor público tem um grande interesse em desenvolver o município economicamente proporcionando qualidade de serviços para os visitantes. O setor privado, é o que mais visa o benefício econômico em relação com os outros benefícios do turismo. Já a sociedade civil organizada é o agente que mais se enfoca na qualidade de vida das comunidades, de conservação da natureza e de seus costumes. Desse modo, a política analisada legitima a disposição do setor público, enquanto deixa isolada questões demandadas pela sociedade civil organizada. Isso está evidenciado nas falas dos atores entrevistados, seu discurso está associado ao setor que pertence:

«O turismo deve proporcionar e acentuar mais a questão da sustentabilidade, promovendo uma cultura de consumidores racionais, com uma consciência ambiental responsável, além de ter um consumidor consciente. Que o turismo permita promover a identidade do território, assim seria possível que fosse a primeira atividade econômica do país» (Gobierno de Pichincha). «Turismo como principal atividade econômica da cidade, já que esta atividade é uma das mais nobres pois dinamiza todos os setores da economia. Ademais deveria ter o papel de gerar desenvolvimento local nas suas zonas urbanas e rurais» (Quito Turismo). «Dinâmica econômica muito forte, melhorar a qualidade de vida e satisfação para os visitantes, melhorar os empreendimentos» (Asociación de Municipalidades). «Enfocar em normas, políticas, gerar Inovação e Desenvolvimento [...] comercializar para gerar benefícios para a indústria» (Convention Bureau). «Criar rede de turismo alternativo que possibilite a demonstração da vida camponesa e seus saberes - cultivo, festividades, colheitas» (Movimiento de Economía Social y Solidaria de Ecuador). «Melhorar a qualidade de vida das pessoas, enfocando na conservação» (Federación Plurinacional de Turismo Comunitario del Ecuador).

Em relação a tomada de posição, podemos inferir que os diferentes agentes presentes no campo tomam decisões relativas às suas organizações e responsabilidades, mas não existe um espaço para interferir nas políticas relativas ao turismo, mesmo existindo, por parte do Estado, uma suposta ênfase para promover a democratização e a participação cidadã nas decisões públicas. Por exemplo, quando perguntados sobre a participação em propostas, debates, tomada de decisões nas políticas públicas, responderam:

«Participamos em todos os níveis, municipais, provinciais e nacionais com grande poder para tomar decisões políticas» (MINTUR).

«Não participamos da elaboração de propostas. Mas vamos para a mesa do debate público, ou seja, só participamos de debates. O governo é quem decide, as propostas são discutidas, portanto a decisão é sempre das posições políticas. O estado é contra o indivíduo» (Fenacaptur - destaque adicionado). «Não, não tem havido esta proposta não, já está decidido.» (Movimiento de Economía Social y Solidaria de Ecuador - destaque adicionado).

Nessas falas, se evidencia que o setor público - MINTUR é o responsável por decidir quais são as políticas que vão entrar na agenda, a maioria dos entrevistados do setor privado e da sociedade civil responderam que até participam de algumas discussões públicas, porém as pautas já estão decididas e que suas sugestões não se efetuam nas políticas, não existe uma participação que leve a um consenso para gerar o melhor para todos os envolvidos.

Discussão, reflexões finais e recomendações: uma síntese comparativa dos campos turísticos em análise

A partir da análise dos campos turísticos de Juiz de Fora (Brasil), Quito (Equador) e Mazatlán (México), verificamos que a dinâmica interativa entre os atores em torno às políticas públicas de turismo, em geral, é similar nos três casos analisados, embora haja especificidades. Quando comparados, com o intuito de identificar suas possíveis diferenças e similitudes no contexto latino americano, percebemos que suas diferenças estão diretamente relacionas majoritariamente com os seus contextos históricos, com suas inerentes particularidades na constituição de cada campo, principalmente ao que se refere à estrutura política que organiza a vida social. Essas particularidades destacam tipos de agentes e capitais específicos em cada contexto. Mas, mesmo com essas diferenças, verificamos que a dinâmica interativa nos três campos é similar em relação a posição dos agentes e suas capacidades de legitimar os seus interesses frente a política em disputa.

Como menciona Bourdieu, o campo é analisado como a incorporação das estruturas preexistentes e são produtos da história das posições e disposições que o reproduz. Dessa forma, verificamos que os agentes predominantes nos campos em análise, ou seja, aqueles com maior capacidade de interferência, estão diretamente relacionados com o tipo de matriz política em cada Estado Nacional. Os agentes com maior volume de capital (acumulação do capital cultural, social e econômico) estão legitimados pela estrutura política preexistente, de maneira que em cada campo o poder se concentra em um setor diferente, por sua vez, em cada campo relacionado com a tendência dominante no contexto nacional.

Quadro 7 Síntese Juiz de Fora (Brasil), Quito (Equador) e Mazatlán (México). 

Fonte: elaboração própria a partir da análise.

Em relação à doxa do campo, também se evidenciou que nos três casos a atividade turística é concebida e assumida como elemento importante, quase indispensável, para o desenvolvimento econômico e suas consequentes bonanças. Em cada campo, esses benefícios são vistos de maneiras distintas, em Mazatlán a questão do emprego e da receita econômica é muito enfatizada, em Quito já se aborda mais a questão do meio ambiente e dos benefícios para as comunidades, e em Juiz de Fora o foco central é como o turismo - no caso o de negócios e eventos - pode contribuir para o desenvolvimento da cidade. Mas todos veem o turismo como uma ponte, como meio para conseguir uma melhor receita econômica, podendo ser até a principal atividade econômica da cidade.

Dessa forma, parece que a existência do fluxo turístico em cada campo impõe uma necessidade de resposta por parte dos agentes, levando-os a entrarem em uma necessária situação de interação, mas por outro lado, exalta elementos internos de cada campo que influenciam de diferentes maneiras a dinâmica interativa e de poder dos agentes. Nesse sentido, tomando a política de turismo como um objeto de disputa central, ou como o interesse comum em cada campo, verificamos que o volume de capital é elemento fundamental para a possibilidade dos agentes conseguirem determinar, e impor a direção e a maneira que o turismo será implementado, os outros agentes, com menor volume de capital, apresentam um papel secundário apesar de suas tentativas de inserção no debate.

Assim, em Quito (Equador) é o poder público quem toma as decisões relativas às políticas de turismo, isso ocorre em função do modelo de economia planificada estabelecida desde o nível nacional, onde as decisões são tomadas de maneira centralizada pelo Estado (Senplades, 2013), ele é o ator que tem maior concentração de todos os tipos de capital, e não insere, nem permite a entrada dos demais atores na elaboração das políticas. Em Mazatlán (México) é o setor privado que tende a ser o principal influenciador nas orientações relativas ao turismo, já que a implementação do modelo neoliberal favorece o interesse dos setores predominantes para a economia, como é o caso do turismo (Rojas, 2014). Já em Juiz de Fora (Brasil), é a sociedade civil organizada que conduz as decisões, isso se deve à reativação dos conselhos turísticos em 2003, os quais permitiram um espaço de discussão democrático relativo às diretrizes e ações para a atividade turística (Emmendoerfer, Silva, Lima, 2014).

Neste sentido, se a interpretação alcançada nesta pesquisa a partir das evidências coletadas está adequadamente embasada, acreditamos que se possa afirmar que são os agentes com maior volume de capital - ou com um volume de capital relativamente alto, como no caso da política específica analisada no México ou da coalizão de principais agentes no Brasil - que tomam as decisões relativas à política turística, sendo na prática, pelo menos nos casos estudados, a existência e participação dos demais agentes, algo meramente coadjuvante e pró forma, cujo principal efeito (simbólico) seja o de validar a resultante final de ação do campo como algo legitimado pela doxa vigente. Assim, de fato, observa-se que as políticas de turismo de cada município, atendem a alguns interesses específicos, não aportando as necessidades reais que carece a atividade turística e seus respectivos agentes no campo.

Com esses resultados podemos inferir que a teoria dos campos sociais de Bourdieu contribui para identificar e diferenciar os agentes de acordo com a sua capacidade de interferência no campo, o autor ainda ressalta que aqueles agentes com posições similares ou próximas, tem uma maior possibilidade de formação de um grupo que se mobilize em defesa dos seus interesses, podendo levar a reprodução das estruturas ou uma transformação do campo, tendendo, em geral, a reprodução devido ao uso de estratégias de conservação pelos agentes. Porém, apesar desse indicativo, Bourdieu em seu esquema analítico não considera os agentes coletivos de maneira particular, mas sim de maneira geral (individuais ou coletivos), não considerando que os agentes coletivos quando unidos, podem ter um maior peso que as ações dos agentes individuais na conformação do campo.

É o que vimos no caso do campo turístico de Mazatlán, os agentes que determinam as diretrizes da política turística não são os que detém o maior volume de capital, apesar de ainda assim, apresentarem um volume de capital alto em seu campo. Argumentamos então, que isso é possível em função da articulação, da conjunção entre esses agentes, formando uma coalizão com uma maior capacidade de participação e interferência nas decisões públicas de acordo com seus interesses. Esses são alguns indicativos para novos estudos que permitam aprofundar nas dinâmicas interativas dos campos sociais.

Talvez atualmente, depois da difusão dos escritos de Bourdieu ao longo de mais de meio século, seja um ponto pacífico assumir que os agentes dominantes tendem a estruturar um campo social. Todavia, tal pretensa obviedade, se analisada mais de perto, tende a ser restrita aos meios acadêmicos e, nestes, ainda mais circunscrita àqueles que trabalham com perspectivas críticas, que desafiam a hegemonia de uma perspectiva neutra, evolucionista e naturalista na ciência. Mas, para além dos muros da academia (e mesmo nesta, tal visão é minoritária) entender a sociedade como um espaço de disputa parece ser, de longe, uma visão incomum. No senso comum (Moscovici, 1969; 1978), onde operam os agentes do cotidiano - cidadãos, políticos, técnicos, gestores púbicos e privados, etc. - a lógica naturalista, evolucionista e empirista é reinante. A ideia de neutralidade e igualdade se faz presente como premissa e doxa não só no habitus dos agentes que operam no espaço público, mas como algo inerente (como se fosse ontologicamente atado) à própria política pública, inclusive pelos analistas do mainstream da public policy (cf. Secchi, 2020).

Nesse sentido, a originalidade da análise proposta - e sua pretensa contribuição - é dupla. Por um lado, a introdução do referencial teórico bourdieusiano na análise de políticas públicas parece ser algo inovador5, não só pela perspectiva adotada aqui que difere do anteriormente realizado, mas pelo próprio deslocamento do eixo de análise de uma perspectiva idealista, intersubjetiva e discursiva de inspiração habermasiana da esfera pública, que se converteu em senso comum na segunda metade do século XX, para uma realista, estrutural-construtivista e crítica. Além disso, se a «sociologia é um esporte de combate», sua tarefa principal reside precisamente em desmascarar e tornar visível os mecanismos de dominação - aqui, nos casos em tela, o uso da esfera pública institucional - para legitimar, sob a pretensa possibilidade ideal de participação, diálogo e manifestação de todos os atores interessados de uma dada sociedade. Atrás do aparente verniz de igualdade de possibilidades de participação dos agentes que atuam no espaço há uma enorme desigualdade na forma, na ação e nos resultados daquilo que é, uma vez decidido (havendo debate ou não, sendo o debate universal ou centralizado em poucos agentes) institucionalizado no espaço público. E o problema que decorre é justamente o da universalidade da decisão - qualquer que seja ela - que se aplicará a todos os agentes do campo, diretamente envolvidos, ou da sociedade, como um todo.

Em particular, no que tange ao campo turístico, a contribuição que se pensa ter alcançado é a de evidenciar como a análise sociopolítica (Pimentel, 2018) da dinâmica interna de um campo turístico traz elementos necessários para uma interpretação mais profunda da realidade, que ultrapasse a descrição da evolução de um destino turístico a partir de seu ciclo de vida (Butler, 1981), ou seja, como uma consequência indireta de forças externas ao destino (como turistas, empresas e stakeholders) que descobrem e exploram uma área com potencial turístico. Tal visão parece ser, no melhor dos casos, limitada. A não consideração de forças internas ao próprio espaço social - como agentes interessados no desenvolvimento turístico, o tipo de agente e o tipo de turismo que se estabelece como visão almejada, a interação desses agentes e suas resultantes, por exemplo - tende a nos levar a uma miopia acerca deste campo e, consequentemente, acerca das (limitadas) possibilidades de intervenção nele. Assim, como sugestão para futuros estudos, uma perspectiva mais profunda precisa ser capaz de unir e dialogar com esses dois lados da teoria e da prática.

Agradecimentos

Esta pesquisa, fruto de uma parceria interinstitucional em nível internacional, contou com o apoio das seguintes fontes de financiamento: Consejo Nacional de Ciencia y Tecnología/CONACYT (México), Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico/CNPq (Brasil), Universidade Federal de Juiz de Fora/UFJF e Universidad Autónoma de Sinaloa/UAS. Versões anteriores e parciais desta pesquisa apareceram em Oliveira e Pimentel (2016; 2018; 2020).

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1 A principal dívida de Bourdieu se dá, sem dúvida, em relação ao pensamento de Gaston Bachelard e Ernst Cassirer. Segundo Vandenberghe (2010), o núcleo duro metacientífico e não falseável do programa progressivo de pesquisa de Bourdieu é formado por uma sofisticada síntese entre o racionalismo de Bachelard e o relacionismo de Cassirer, em que “[...] juntas tais perspectivas formam a metateoria do conhecimento sociológico que fundamenta e gera a teoria sociológica dos campos de produção, circulação e consumo de bens culturais” (Vandenberghe, 2010, p.44). A influência de Bachelard na obra de Bourdieu está presente nos seus principais conceitos nos quais ele se mantém seguidor da epistemologia bachelardiana (Vandenberghe, 2010).

2Esso significa que a investigação empreendida segundo o métier bourdieusiano segue uma forma própria de produção, não aceitando as dicotomias maniqueístas (quantitativo vs. qualitativo; survey vs. estudo de caso, questionário vs. entrevista, só para citar algumas). Ao invés disso, supõe o papel ativo do pesquisador na construção artificial (já que este não é automaticamente dado - taken for granted - pela natureza) do objeto de pesquisa. Nesse sentido, o pesquisador recorre a vários métodos e técnicas de pesquisa, selecionados e delineados segundo critérios racionais de sua pertinência e necessidade, os quais vão sendo elaborados, assim como faz um bricoleur no sentido de construir uma paisagem teórico-empírica específica da realidade (Jenkins, 2006).

3É importante ressaltar que o cálculo objetivo da posição dos atores, foi apenas um passo inicial para encontrar os atores centrais no campo. Para complementar esse primeiro momento, também foram analisados dados qualitativos como o histórico de cada campo, a utilização de entrevistas semiestruturadas, análise de atas e observação. Dessa forma, os resultados mostraram que o volume de capital é importante para identificar os atores com maior poder, mas que apenas o volume de capital não é determinante na interferência do campo, já que existem atores com grande volume de capital que não o utiliza para influenciar no campo.

4Para o capital econômico, a escala de 1 a 8 foi elaborada a partir da receita anual de cada organização entrevistada, a escala foi definida a partir da soma entre a menor receita e a maior receita, dividido por 8 (quantidade máxima da escala), o que nos resultou no enquadramento das receitas de cada organização dentro das 8 escalas. Para o capital cultural, analisamos o nível escolar de cada representante das organizações, para a escala de 1 a 8 foram selecionados oito níveis escolares: Ensino Fundamental, Ensino Médio, Técnico Superior, Superior, Especialização/MBA, Mestrado, Doutorado e Pós-doutorado. Para o capital social, analisamos a quantidade de vínculos ou relações mantidas pelo ator com outras organizações, que podem ser relações com: (1) governo (2) acadêmicos; (3) empresários; e (4) sociedade civil organizada nos níveis: i. amizade, ii. trabalho, iii. conhecido. Dessa maneira são 12 a quantidade máxima de relações que uma organização pode manter, especificamos quem são os atores (4) e seus respectivos (iii) níveis. Assim temos, 8 (número máximo da escala), dividido por 12 (número de relações), resultando em uma escala de 0,67 para cada relação que o agente mantém.

5A esse respeito, é ilustrativa a colocação de Mata, Pimentel e Emmerdoerfer (2019, p. 21) “A título de ilustração deste cenário, Marques e Machado (2014) utilizam o número de citações em cada área do conhecimento como indicador para discriminar o grau de dependência dos estudos sobre políticas públicas em relação à matriz epistêmica do positivismo, em sua versão estrutural funcionalista, em contraposição às “vertentes críticas”. Tomando como base os anais do Encontro Anual da Associação Brasileira de Ciência Política/ABCP - no universo de 831 trabalhos publicados no período de 2000 a 2012 - eles observam que enquanto nas ciências sociais, em geral, e na sociologia, em particular, Bourdieu é a influência teórica hegemônica com 13,4% do total de citações, especificamente na área de ciência política, no Brasil, esse quadro se inverte, e Bourdieu sequer aparece na lista dos 12 mais citados (i.e. com frequência maior ou igual a 8,4%, o que equivaleria a 28 citações) em todo o período analisado. Segundo os autores, tal cenário apenas reforça a tese de predomínio do viés funcionalista (de episteme positivista) de tais estudos.”.

Recebido: 24 de Agosto de 2018; Aceito: 29 de Maio de 2020

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