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Nueva revista del Pacífico

versión impresa ISSN 0716-6346versión On-line ISSN 0719-5176

Nueva rev. Pac.  no.65 Valparaíso  2016

http://dx.doi.org/10.4067/S0719-51762016000200006 

"DESMALLARMANDO": A IRREVERÊNCIA POÉTICA DE ANGÉLICA FREITAS

"DISMALLARMANING": ANGÉLICA FREITAS' POETIC IRREVERENCE



Diana Junkes Bueno Martha*

*UFSCAR1 dijunkes@gmail.com

"eu quero é queimar Mallarmé com carvão brasileiro"
2


Resumo:
O objetivo deste artigo é apresentar algumas reflexões sobre o dialogo com a tradição que Angélica Freitas sistematicamente estabelece em sua obra, em especial, em Rilke Shake (2006/2007). Para tanto, propoe-se uma analise do poema "estatuto do desmallarmento", na qual procura-se evidenciar o riso e o chiste como mecanismos de leitura é devoração crítica da tradição . Como contraponto, apresenta-se o poema de Augusto de Campos, Tvgrama 1 - Tombeau de Mallarmé, misto de riso e melancolia, como também Provisão poética para dias dificeis de Marcos Siscar.

Palavras-chave: Mallarmé, Angélica Freitas, Augusto de Campos, Riso.


Abstract:
The aim of this paper is to present some considerations on the dialogue with canon that Brazilian contemporary poet Angélica Freitas develops in her work Rilke Shake (2006/07). In order to do so, we propose a reading of the poem "estatuto do desMallarménto in which we pinpoint the laugher and the wit as reading procedures chosen to devour critically the tradition. As counterpoint we present Augusto de Campos poem Tvgrama 1 - Tombeau de Mallarmé, mixture of laugher and melancholy and Provisão poética para dias dificeis by Marcos Siscar.

Keywords: Mallarmé, Angélica Freitas, Augusto de Campos, Laugher.


 

1. A tradição entre risos

As diferenças entre poetas e poéticas e a aparente ausencia de projetos consistentes parecem apontar para um quadro desalentador, em que a poesia não tem mais o lugar de destaque que um dia mereceu nas letras brasileiras. Longe de querer enfrentar essa questao, até porque sua relevancia talvez seja esgarcada, gostaria de pontuar alguns aspectos que me parecem fundamentais para a compreensão da lirica contemporânea brasileira. De um modo geral, pode-se afirmar que a poesia brasileira produzida dos anos 1980 até hoje apresenta, como linhas de forca, algumas herdadas do modernismo, as seguintes frentes: a (i) leitura da tradição , (ii) relações entre poesia e cultura, (iii) violencia e resistencia e novas configurações da cidade, (iv) metalinguagem e lirismo. Tais frentes não são necessariamente excludentes e não é incomum que em um mesmo poeta, ou ainda, em um mesmo poema, varias delas se manifestem. Em muitos casos, essas frentes acabam por se tornar prisões da forma e do rigor é o que se tem, a partir dessa situação , é uma poesia que se afasta grandemente dos leitores. Como bem aponta Paulo Franchetti:

O lirismo contemporâneo brasileiro, no quadro herdado da tradição cabralina, é um lirismo culpado é regrado por tabus. Em poucos poetas e poucos poemas o eu se oferece, fragil, como algo que se julga no direito de existir e buscar a palavra. De poucos poetas nos perguntamos: quem é a pessoa que escreveu isto, que ve o mundo assim? Por que ele prefere falar desta maneira? e em quantos poetas encontramos algo frente a que pensamos: isso precisava ser dito - e precisava ser dito assim, em poesia? (Franchetti, 2012, [sp]).

Franchetti é arguto ao flagrar um dos maiores riscos a que a poesia brasileira contemporânea esta sujeita. De outro lado, porem, buscando um cenario menos pessimista, talvez pudessemos sustentar que muitos poetas estruturam seu discurso com liberdade inventiva e formal e alta carga poética, é o caso do mesmo Paulo Franchetti, cujos livros mais recentes Memória futura (2010) e Deste lugar (2012) atestam um eximio trabalho poetico. Considerando as linhas de forca acima mencionadas, é possivel notar que uma se sobressai grandemente: a leitura da tradição . Esta permanece seja no apreco formal (Paulo Henriques Britto), nas experiências construtivas herdeiras do concretismo (Arnaldo Antunes), no tratamento da cidade como topos adverso (Fabio Weintraub) ou como o lugar em que o sujeito poético busca-se a si mesmo (Paulo Ferraz), e, ainda, na tensão formal do poema em prosa em que ingressam o discurso da tradição , elementos cotidianos, lirismo e metalinguagem (Marcos Siscar). Também Franchetti não é insensivel a esse aspecto, mas o observa com certo ceticismo:

Do meu ponto de vista como leitor é crítico, esta é a taréfa premente da contemporaneidade brasileira: enfrentar o consenso, que se torna mais forte na medida mesma em que a tradição deixa de ser a alteridade que nos pressiona desde o passado e não funciona mais como substrato comum de referencias e expectativas entre o leitor é o autor. Consenso esse que faz hoje da tradição algo inocuo, que apenas fornece material para glosa é piada, ou algo sagrado (e perdido), so recuperavel pela celebração ritual - e que promove a negatividade facilitadora, que recusa no final das contas o confronto com as contradições do presente é a pujanca de outras formas de produzir emoção e ideias (como a musica, o cinema, o romance, entre outras), refugiando-se numa afirmação da distancia que não consegue disfarcar a impotencia. (Franchetti, 2012, [sp]).

De fato, impossivel não concordar com Paulo Franchetti ao pensar que na medida em que a tradição deixa de ser alteridade, porque superadas as razões da incessante leitura da mesma empreendida na modernidade, seu lugar parece deslocar-se. Ler o passado não é mais urgente, afirmar uma voz nova, original, também não, entretanto, como atestam os poetas citados logo acima, essa leitura, em termos de reapropriação e dialogo continua a ser empreendida e de um modo bastante interessante, senão em todos, em alguns dos mais importantes poetas da geração 00. Ainda que pese o traco inocuo dessa tradição por forca do seu deslocamento ou da recolocação de sua relevancia como imagem de alteridade, a homenagem ritual nem sempre coincide com a recusa do presente, pelo contrario, muitas vezes é a renovação do dialogo que impoe não so a ressignificação do canone, mas a afirmação de vozes poéticas que ao convocarem-no para o espaco do poema possibilitam ampla reflexão sobre uma poesia do agora (Campos, 1997). Também o movimento da glosa e da piada nem sempre pairam como non-sense e esvaziados de valor poetico. A meu ver, Angélica Freitas é uma voz que mostra que a leitura da tradição ainda tem por onde ser dessacralizada, não para negar essa tradição , mas para, ao fim e ao cabo, aprender a conviver com ela, tornando-a, nos termos de Margel (2000), indene, e isso, ainda que seja paradoxal, não deixa de ter sua dose de gratidão (Derrida, 2005; Siscar, 2000).

A poeta gaúcha Angélica Freitas3 já há algum tempo desperta o interesse da crítica. Seus tres ultimos trabalhos tem sido alvo de debate e discussão entre críticos literarios. O primeiro deles, Rilke Shake, publicado em 2006, pela Editora 7 letras, e em 2007, pela Cosac & Naify; Guadalupe, uma HQ ilustrada por Odyr, publicada em 2012 pela Quadrinhos na Cia, mergulha no universo feminino da protagonista que da nome ao livro e mantem tracos caracteristicos de Freitas: o humor e a ironia; por fim, Um utero é do tamanho de um punho, de 2013, que recupera tematicas existentes em Rilke Shake, como o dialogo com a tradição , o mergulho no universo cotidiano da cultura de massa e da cultura pop, sempre em dicção que desafia o discurso erudito e canonico, alem, claro, de poemas voltados para o universo feminino, não necessariamente feminista é calcado em discussões de genero. A autora possui uma fortuna crítica bastante diversificada, que conta com dissertações e artigos acadêmicos4, publicações em blogs e sites voltados para poesia, alem de suas proprias postagens em especial para Revista Modo de Usar & Co., da qual é uma das editoras5.

Parece-me que é, justamente, a persistencia de tracos de um projeto poetico ou de uma forma especifica de lidar com o poetico que vem impulsionando a leitura da poeta pela crítica academica ou não. Ao fazer opção pelo riso e/ou ironia como porta-vozes de uma poesia extremamente competente, Freitas mostra que, de fato, a leveza, é uma das propostas para a literatura no proximo milenio (Escute; Toneto, 2013), como propos Calvino e e por meio dessa leveza, que não deve ser confundida com falta de seriedade, que a poética freitiana impoe-se como uma das vozes mais interessantes da poesia brasileira contemporânea, seja porque retoma o poema piada e poema-blague de nosso modernismo; seja porque nela se reconhece um gesto antropofagico de leitura da tradição , em que se deglutem varias tendencias ao mesmo tempo; seja porque ambos os movimentos, ao associarem-se a procedimentos ironicos, denunciam o mundo contemporâneo, os imperativos de genero a que as mulheres ainda estão sujeitas é a herança da necessaria é inevitavel absorção do canone pelo poeta contemporâneo.

Em Rilke Shake (Freitas, 2006) o que se assiste é um processo de autoparodização da poesia elevada que se desdobra em ridicularização é rebaixamento dos grandes poetas do canone, atendendo a um movimento de desconstrução e subversão dessa herança pela via do derrisorio (Bakhtin, 1985), como o proprio titulo e varios dos poemas do livro indicam (Bittencout, 2014). Evidentemente, esse processo não é novo, Duchamp talvez tenha sido um dos primeiros a chocar o mundo das artes com sua famosa Monalisa:



O ready-made de Duchamp, de 1919, aparta a obra de Da Vinci de sua realidade para fundar outra, em que pelo rebaixamento ("L.H.O.O.Q" - Ela tem fogo no cu), tem-se a sensação de desconstrução (Martha, 2015); ao mesmo tempo, não deixa de ser uma forma de afirmação desse mesmo canone ja que a obra de Da Vinci sempre ecoara como um ruido de fundo, tornando-se não apenas pela subversão , evidentemente, mas também por causa dela, cada vez mais clássica (Calvino, 2005).

É possível pensar que nesse processo de parodia e riso, além da ironia, ha boa dose se não de melancolia, de uma tristeza clown, que engendra o riso, mas revela, ao fazer isso, o desconcerto do mundo do artista que parodiza. Esse processo pode ser associado ao chiste freudiano, que se configura, em linhas gerais, pela emergencia de um sintoma, ou da verdade do sujeito. O chiste e algo que escapa no discurso e, ao fazer isso, da a ver, ou ainda, denuncia, pela alta carga de condensação que o caracteriza, o sujeito falante; ao mesmo tempo, por provocar o riso, desencadeia um alivio de tensões e viabiliza, em muitos casos, um movimento de sublimação. Não é o objetivo aqui pensar as categorias do comico, do riso, do humor, por isso, sem insistir em diferenças, tomarei o estabelecido por Freud: o chiste refere-se a gracejos, piadas, trocadilhos e provoca o riso por meio de palavras e ideias. O comico refere-se a eventos ou objetos ludicos, gozados, alegres e envolve a percepção de algum tipo de contraste. É o humor refere-se a pessoa que da pouca importancia a seus infortunios e esta apta a ver seu lado engraçado (FREUD, 1996). Parece-me que todas essas instancias ingressam em varios dos poemas de Freitas.

Se quisessemos estabelecer uma linha historica do tratamento do humor na poesia brasileira, como bem aponta Wilberth Salgueiro (2002), teriamos que retomar ao poeta barroco Gregorio de Matos e a partir dele não seriam poucos os poetas que associaram humor e poesia em seus trabalhos. No caso de Freitas, a retomada do poema-piada e da blague oswaldianos é bastante evidente, mas notam-se as presencas de Drummond é evidentemente dos poetas marginais e poetas da geração de 80/90, dentre os quais pode-se perceber a relação de Angélica com, entre outros, Leila Miccolis. Em todos esses casos, a associação do humor a poesia promove uma ruptura com os padrões estabelecidos, firmando, pelo ludismo transgressor, uma oposição ao senso comum.

Para Bergson (1983), o risivel liga o riso ao atrito entre a maleabilidade e a organicidade que deveria existir na figura humana e a rigidez mecánica de comportamentos e gestos incompativeis com a expectativa de flexibilidade da vida. O riso em Angélica é derrisorio e afronta, justamente, a seriedade com que varios temas, entre os quais, a tradição , é tratada pelo poeta contemporâneo. Ao tornar risiveis os poetas do canone em sua obra, Freitas não apenas desafia o imperativo "e preciso ler e reinventar a tradição ", rebaixando, os poetas citados, como rebaixa também, por extensão , as leituras que são feitas desses poetas por poetas modernos e contemporâneos, ao mesmo tempo reforça e mantem vivos tais poetas, ja que a outra face do rebaixamento e, como no caso da Mona Lisa de Duchamp, a inevitavel homenagem. Desse modo, em alguma medida, os poemas de Freitas atuam, também, como ready-mades.

Por isso, engana-se quem pensa que a poeta é despreocupada e pouco compromissada com a poesia. A compreensão dos elementos comicos na obra de Freitas pressupoe um leitor erudito, que perceba, na esteira do que propoe Propp (1976), que o riso é elevado, sofisticado, e que seja ainda leitor da tradição, afinal, como se sabe, o nexo entre o objeto comico e a pessoa que ri não é obrigatorio nem natural. Para haver riso, é preciso haver o reconhecimento dessas duas instancias. Ao convocar a tradição e aspectos especificos desta mesma tradição, Freitas desafia a dicotomia seriedade x comicidade, mostrando que por meio do comico uma profunda reflexão sobre o papel do poeta contemporâneo em relação a tradição pode ser empreendida. Para ampliar a perspectiva aqui proposta para a obra da poeta Angélica Freitas, proponho uma breve comparação entre poemas de diferentes poetas e um poema freitiano em que Mallarmé figura como ponto central.

2. Os ris(c)os de Mallarmé

Em um ensaio sobre Haroldo de Campos, Marcos Siscar aponta a importancia de Mallarmé na construção da poesia haroldiana (Siscar, 2006), e fazendo uma ousada comparação, situa o poeta frances como "barqueiro de Haroldo", remetendo-se ai a um Mallarmé-Caronte. De fato, para atravessar o Letes em busca do encontro com a tradição e com vistas a reinventa-la, eu diria que não apenas Haroldo de Campos, mas varios poetas modernos e contemporâneos situam Mallarmé como grande mestre, desde Valery. Se Um lance de dados era, para seu autor, em 1897, "nada ou quase uma arte", uma partitura (Mallarmé, 2002), uma aventura, para aqueles que vieram depois dele, o poema assume não apenas o papel de divisor de aguas, mas torna-se um norte para onde passara a apontar a agulha da bussola da criação . Em outras palavras, Mallarmé torna-se um classico, ou seja, nos termos de Italo Calvino (2005), o classico é aquele texto que permanece sempre como ruido de fundo, ou, para nos valermos da comparação de Siscar, o guia da travessia.

Para ficarmos em alguns exemplos contemporâneos, cabe convocar aqui um conhecido poema de Augusto de Campos, "Tombeau para Mallarmé", da serie "tvgrama", de 1988, publicado em Despoesia de 1994, é o melancólico "Provisão poética para dias dificeis", de Marcos Siscar, publicado em O roubo do silencio, de 2006.

O poema de Augusto representa de modo muito interessante toda a reflexão sobre a espacialidade gráfica, ao mesmo tempo que, em tom gris, afirma a inexistencia de leitores de Mallarmé:



(Campos, 1994, p.109)

Evidentemente, ha uma dose de humor que provoca o riso ao lermos "tv" ao final do poema; também ha ironia ao retomar o discurso biblico: "Vigiai e orai para que não entreis em tentação ; na verdade, o espirito esta pronto, mas a carne é fraca" (MATEUS, 26: 41). No poema, a carne não é fraca, mas é triste, mergulhadas que estão as pessoas no universo da TV que ao fim e ao cabo é o que existe, ou onde a vida, por fim, se resume: "tudo existe para acabar em tv". Não se trata de uma crítica moralista ou de ethos politicamente correto contra a TV, o que poderia fazer pensar que a carne é fraca e se rende a tv, mas da constatação de que ninguem le Mallarmé - talvez por isso o entristecimento da carne, para alem do entristecimento da alma. Ao fim, TV e Mallarmé rimam como que para corroborar a troca da perspectiva mallarmeana pela televisiva. O som da tv percorre todo o poema, cujos espacos que deveriam estar supostamente em branco são preenchidos pelo t da tv, ou seja, o silencio, o branco da pagina, o desafio do poema, os intervalos da leitura não existem porque as lacunas são preenchidas pelo invasivo é incomodo ttttttttttt6. Desse modo, tensionando humor e melancolia, o poema concretista de Augusto não so afirma a herança mallarmeana, em termos formais, como aponta para o fato de que a forca dessa herança parece estar ameacada de dissipação.

Em "Provisão poética para dias difíceis", o tom é mais melancolico ainda, todavia o eu-poetico parece ter conseguido definir os termos da devoração da tradição que lhe interessam, ou seja, os elementos dos quais vale a pena se apropriar em cada poética dos diferentes poetas mencionados no poema. Não se trata mais de uma constatação ironica sobre a leitura de Mallarmé, mas do fato de que para alem do peso da tradição, busca-se simplicidade, recurso tantas vezes dificil de ser atingido, em projetos poeticos complexos, mergulhados na leitura do canone. Ha também uma mudanca de tom muito interessante: o eu-poetico do poema não busca apenas as poéticas, os poetas, mas busca aquilo que de suas poéticas reune, justamente, o carater do simples: a maca, os deslimites da tipografia, as asas, o mar, a leveza de cada um dos poetas citados como se não houvesse mais lance de dados porque os dados ja foram lancados, não há mais acaso, mas apenas o bau de guardados com os elementos de provisão (poética) para dias dificeis. Vejamos o poema:


(Siscar, 2006, p. 66)

 

Já em movimento aparentemente menos profundo é mais inocuo, para usarmos aqui o termo de Paulo Franchetti citado acima, Angélica Freitas retoma a herança mallarmeana por meio do riso, da ironia e da aparente desconstrução de Mallarmé, seguindo uma trajetoria, no poema em questão , semelhante aquela proposta por Duchamp para "reler" a Mona Lisa. O discurso do poema torna Mallarmé derrisorio, rebaixa a importancia de sua obra, ao revelar uma opção pelo chiste e pelo riso:

estatuto do desmallarmento minha senhora, tem um mallarmé em casa? voce sabe quantas pessoas morrem por ano em acidentes com o mallarmé?

estamos organizando uma consulta popular para banir de vez o mallarmé dos nossos lares as seleções do reader's digest fornecerão

conteineres onde embarcaremos os exemplares no porto de santos, de volta para franca, seja patriota, entregue seu mallarmé, ole. (Freitas, 2006, p.53)

No título, a ironia é o humor fazem-se presentes, afinal, "estatuto do desmallarmento" remete a estatuto do desarmamento, não apenas em termos paronomasticos, mas porque desarmamento acaba por guardar certa relação anagramatica com "desmallarmento". Desse modo, Mallarmé é uma arma. A polissemia de arma aqui é interessantissima: arma da poesia moderna contra o discurso linear, arma do poeta que se inspira em Mallarmé, arma de Mallarmé que, ao invocar releituras dos poetas contemporâneos, acaba por impor a eles um modo mallarmaico de ser e estar na poesia é arma, por fim, porque causa acidentes - entra aqui a forca do acaso que nem um lance de dados é capaz de abolir (Mallarmé, 2002). Desse modo anuncia-se o que segue pelo resto do texto, a comecar, justamente, pela questão do acaso indomavel e dos riscos impostos por ele.

A primeira estrofe, não por acaso, comeca com um alexandrino, o verso classico, por excelencia, da poesia francesa. O segundo verso dessa estrofe, se ignorado o hiato em pessoas mantem o mesmo numero de silabas. A estrofe encerra com um decassilabo. Ou seja, não parece casual que a autora va falar de Mallarmé, do grande syntaxier, o ruptor dos versos, aquele que coloca o poema em crise de versos, usando o alexandrino. De fato, em seu famoso Crise de vers, centrando sua analise na novidade do verso livre, contraponto ao tradicional alexandrino frances, Mallarmé evoca a maestria do verso como forca da poesia, mesmo quando em crise, ou seja, mesmo quando desafiador das formas mais tradicionais para adequar-se a novas exigencias da forma a fim de dar conta de novos conteudos; o verso é a base de praticamente todas as produções poéticas. Assim, na aparente falta de seriedade de Freitas, muitas vezes associada a ela devido ao humor, ha, parece-me, uma reflexão interessante sobre o peso da tradição . O restante do poema segue em versos de catorze silabas, em sua maioria, fazendo ecoar o metro do alexandrino arcaico, apesar de não haver regularidade nos acentos, com o qual o alexandrino de doze silabas rompe.

As considerações de Tomachevski (1989) sobre o verso são interessantes porque associam a discussão a questão do metro. Para ele, o metro representa a norma a qual a lingua poética obedece. É o metro o fator distintivo, pois o ritmo também ocorre na prosa e na fala cotidiana. Assim, a organização do metro no interior do verso gera uma especificidade ao texto poetico. Para Tomachevski (1989), os versos são periodos discursivos equipotenciais que nos dao, por sua sucessão , a impressão de uma repetição organizada de series semelhantes. O metro tem a função de facilitar a comparação e contribui para a organização ritmica do poema. Alem disso, o metro acompanha sempre a leitura e a percepção dos versos, seja como escansão silenciosa, seja como representações motrizes, dentre as quais pode-se destacar a rima como fator organizador que ajuda o ouvido a perceber a decomposição metrica da linguagem poética.

Por fim, Tomachevski (1989) nota que no caso do verso livre, ja por sua propria definição , uma violação dos metros tradicionais, cumpre observar outros aspectos que lhe garantam a regularidade em cada poema no qual ele se apresenta. Ou seja, como e o ritmo, como são as rimas, como são as imagens. No verso livre, para alem do metro, o desafio do poeta é buscar outras normas que garantam a harmonia e inter-relação dos versos, no poema. Portanto, é de notar que não são ingenuas as opções de Freitas, seu poema em verso livre, tendendo a um "desafio" da metrica, mostra que, como em Mallarmé, os versos talvez estejam em crise, ainda que esta não seja, nem de longe, aquela deflagrada pelo celebre Um lance de dados, mas uma outra, que para se "vingar" de Mallarmé, flerta com o metro clássico.

Retomando o percurso das estrofes, nota-se de saida o tom coloquial, radicalmente coloquial: "minha senhora/ voce". Ainda: ha um tom de conscientização no discurso do eu-poetico que alerta a senhora sobre os perigos causados por Mallarmé, pois, como uma arma, ele mata muitas pessoas anualmente em virtude de acidentes. A ironia associada ao humor, ao rebaixamento do grande poeta prossegue na segunda estrofe. A consulta popular (ou seja, para o povo, para o senso comum) indica que é preciso desarmar o Brasil de Mallarmé; como é afirmado na ultima estrofe, é preciso ser patriota e devolver o Mallarmé para a França. Apelando para um discurso que beira, ironicamente, o conservadorismo ("banir mallarmé de nossos lares"), ou eu-poetico apela para a senhora, para a "zeladora da paz familiar", para que contribua enviando os exemplares de navio para seu pais de origem, como se fosse o senso comum que lesse Mallarmé, mas este, ja o sabemos, tem a carne triste e vive a ver TV.

O procedimento desconstrutor ainda é notado na menção ao Reader's Digest -mais banalização impossivel -, que se encarregara de levar Mallarmé para a França. ¿por que? Porque é preciso que tudo exista para acabar em TV, ou seja, o perigo de Mallarmé esta, justamente, em sua grandeza, na mudanca que promove. Se aceitarmos esta, entre tantas outras possibilidades de leitura que o poema sugere, o tom de Freitas beira também a melancolia, rebaixa Mallarmé de um lado, mas isso é só um estratagema para demonstrar o respeito do eu-poetico por ele, ou a gratidão, nos termos derridianos mencionados no inicio deste artigo. O ultimo verso, "seja patriota, entregue seu mallarmé, ole", ao conclamar certo ufanismo barato, em meio ao riso provocado pelo ole das touradas (não se sabe se quem da o ole e, afinal, o Mallarmé) reitera, ao fim e ao cabo, o desejo dos dados ja lancados do poema siscariano: o que se quer E ser simples, mas se a tradição ainda é uma questão , como fazer isso?

Considerações Finais

A resposta a esta questão , a meu ver, no caso de Freitas, vem pela via do riso, do humor, da ironia, da irreverencia. Tais aspectos dao ao seu projeto uma carga de leveza e e multiplicidade, ambos entendidos aqui da perspectiva defendida por Calvino em suas Seis propostas para o proximo milenio. Dessa forma, valendo-se da lição oswaldiana, abocanhando o tom deliberadamente irreverente dos marginais, Freitas promove algo alem: um rilke shake em que não apenas Rilke, Blake, Pound, Mariane Moore, mas também Gertrude Stein, Lou Salome, Mallarmé, Drummond e tantos outros são deglutidos pelo humor que disfarça (ou não disfarca para os leitores atentos) a erudição da poeta, a instigante proposta desse livro, em que latentemente pulsa uma das mais fortes linhas de fonja da poesia brasileira contemporânea: a leitura da tradição reinventada de modo vigoroso e inteligente, dando voz e vez a um projeto que permanece em Um utero e do tamanho de um punho associando ai uma instigante reflexão sobre o feminino. Nesse livro, Freitas também faz um shake dos discursos feministas em oposição a misoginia e centra a leveza e a multiplicidade que lhe são características, associadas a ironia, ao esforço de desconstruir também discursos facilmente rotulaveis, buscando, pela luta que o punho representa, novas formas de enfrentamento dessa questão. O dialogo com a tradição permanece, em moldes semelhantes, porem mais diluido, dando lugar a outras frentes que não se opoem 116 Diana Junkes Bueno Martha. "Desmallarmando": a irreverencia poética de Angélica Freitas aquelas de Rilke Shake, como muitos poderiam defender, mas que o continuam na medida em que se sofistica a voz da poeta, seu estilo, suas opções formais e a organicidade da obra irreverente, sim, como umas das melhores tradições de nossa poesia e, como essa tradição, de alta qualidade.

Notas

1 Doutora em Estudos Literarios pela UNESP/Araraquara. Foi Visiting Scholar da University of Illinois e da Yale University. Atualmente, é professora adjunta do Departamento de Letras e coordenadora do Programa de Pos-Graduação em Estudos Literarios da Universidade Federal de São Carlos. Lider do Grupo de Estudos de Poesia e Cultura/GEPOC/ CNPq (dijunkes@gmail.com). Lattes: http://lattes.cnpq.br/1857520068239671.
2 Esta frase foi recolhida de uma discussão sobre poesia feita por um grupo de estudantes em fevereiro de 2015, a proposito da herança mallarmeana é do modo pelo qual Freitas mobiliza-a em sua poética, antropofagicamente. O autor é Lucas Camara, a quem agradeço a generosidade de autorizar a citação .

3 Ideias preliminares sobre a poética de Freitas foram desenvolvidas por mim em "Entre carrapichos e shakes: duas formas de dialogar com a tradição", publicado em Bonafim, Alexandre; Yokosawa, Solange. Poesia Brasileira Contemporânea & Tradição . São Paulo: Nankin, 2015, p. 109-128.
4 Uma rapida busca na Plataforma Lattes (www.cnpq.br) , que da acesso aos curriculos dos pesquisadores brasileiros, por assunto, na base de mestres e doutores, realizada em 9/4/2015, revela mais de 50 entradas para Angélica Freitas, como assunto, o que pode conter, evidentemente, algum vies. Refinando a busca tem-se 7 entradas para Rilke Shake e 7 entradas para Um utero é do tamanho de um punho.
5 (http://revistamododeusar.blogspot.com.br).
6 Vários dos poemas de Augusto de Campos são feitos para sonorização . A leitura do poema aqui mencionado pode ser assistida em: https://www.youtube.com/watch?v=omecBkn9UB0

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Recibido: 2/11/2016 
Aceptado: 30/11/2016

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