37 56LA INTEGRACIÓN DE APRENDIZAJES EN LA ENSEÑANZA DE LA PLANIFICACIÓN URBANA ARTICULADA A CONTEXTOS REALES. EVALUACIÓN DEL PROCESO PEDAGÓGICO EN LA FORMACIÓN DEL ARQUITECTO A TRAVÉS DE UN CASO DE ESTUDIO 
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Arquitecturas del sur

 ISSN 0716-2677 ISSN 0719-6466

Arquit. sur vol.37 no.56 Concepción dic. 2019

http://dx.doi.org/10.22320/07196466.2019.37.056.08 

Artículos

POR UMA BUSCA DE COMPROMISSO SOCIOAMBIENTAL: REFLEXÕES SOBRE UMA METODOLOGIA PEDAGÓGICA EM ARQUITETURA E URBANISMO

UNA BÚSQUEDA HACIA EL COMPROMISO SOCIOAMBIENTAL: REFLEXIONES EN TORNO DE UNA METODOLOGÍA PEDAGÓGICA EN ARQUITECTURA Y EN URBANISMO

TOWARDS A SEARCH FOR SOCIO-ENVIRONMENTAL COMMITMENT: REFLECTIONS ON A PEDAGOGICAL METHODOLOGY IN ARCHITECTURE AND URBANISM

*Docente de la Facultad de Arquitectura y Urbanismo, Pontificia Universidad Católica de Campinas, Campinas, Brasil, veraluz100@gmail.com

RESUMO:

Este texto apresenta a discussão sobre uma hipótese de metodologia pedagógica em arquitetura e urbanismo que é fruto da experiência acadêmica de muitos anos, cuja estrutura está em constante busca de apuro e aprofundamento, em construção coletiva. Prevaleceu a exposição de princípios e finalidades éticas, sociais e ambientais, traduzidas pelo entendimento da indissociabilidade entre teoria e prática, da prática como produção de conhecimento, da necessária articulação entre saberes eruditos e populares, do caráter simultaneamente técnico e humanista do campo da arquitetura e urbanismo como ciência social aplicada, da ponderação entre artifício e ambiente que deve presidir nossas ações perante a incerteza da condição humana no planeta, em estado de crise social e colapso ambiental eminente. Pretende-se que a universidade seja uma das protagonistas no processo de abrir, discutir e apontar caminhos, rompendo muros que a separem da vida real, para uma ação mais efetiva, em busca de uma utopia realizável. Intenta-se que as questões aqui levantadas possam contribuir como alternativas na construção de novos paradigmas desde o campo do aprendizado, como resistência e superação às condições impostas pela desfavorável correlação de forças geopolíticas e econômicas, em relação aos países dependentes periféricos, onde a América Latina representa importante papel.

Palavras-chaves: Arquitetura; urbanismo; metodologia; humanismo; meio ambiente

RESUMEN:

Este texto presenta la discusión sobre una hipótesis de metodología pedagógica en arquitectura y urbanismo que es el resultado de la experiencia académica de muchos años, cuya estructura se halla en constante construcción colectiva. Prevalece aquí la exposición de principios y propósitos éticos, sociales y ambientales, traducida por la comprensión de indivisible entre teoría y práctica, de la práctica como producción de conocimiento, de la necesaria articulación entre los saberes erudito y popular, del carácter simultáneamente técnico y humanista del campo de la arquitectura y del urbanismo como ciencias sociales aplicadas, del equilibrio entre artificio y medio ambiente que debe presidir nuestras acciones ante la incertidumbre de la condición humana en el planeta, en estado de crisis social y colapso ambiental inminente. Se pretende que la universidad sea una de las protagonistas en el proceso de abrir, debatir y señalar caminos, rompiendo muros que la separaran de la vida real, para una acción más efectiva, en busca de una utopía alcanzable. Se tiene la intención de que las cuestiones aquí planteadas puedan contribuir, como alternativas, en la construcción de nuevos paradigmas desde el campo del aprendizaje, como resistencia y superación de las condiciones impuestas por la correlación desfavorable de las fuerzas geopolíticas y económicas, en relación con los países periféricos dependientes, donde América Latina juega un papel importante.

Palabras clave: Arquitectura; urbanismo; metodología; humanismo; medio ambiente

ABSTRACT:

This text discusses a hypothesis on a pedagogical methodology in architecture and urbanism that is the result of many years of academic experience, whose structure is constantly under collective construction. The presentation of ethical, social and environmental principles and purposes prevails, translated by the understanding of the inseparability of theory and practice; of practice as the production of knowledge; of the necessary interaction between erudite and popular knowledge; of the simultaneously technical and humanist nature of the field of architecture and urbanism as applied social sciences; and of the balance between artifice and environment that must preside over our actions in light of the uncertainty of the human condition on the planet, in a state of social crisis and imminent environmental collapse. Universities aim to be one of the protagonists in the process of opening, debating and forging paths, breaking down walls that separate them from real life, to produce more eflective action, in search of an achievable utopia. It is intended that the issues raised here may contribute as alternatives in the construction of new paradigms from the field of learning, as resistance to and a way of overcoming the conditions imposed by the unfavorable correlation of geopolitical and economic forces, in relation to peripheral dependent countries, where Latin America plays an important role.

Keywords: Architecture; urbanism; methodology; teaching; environment

Eis-me aqui, diz o construtor, eu sou o ato. Vós sois a matéria, sois a força, sois o desejo; mas estais separados Mas, ao fim, todos terão ganho com meu procedimento. Enganar- me-ei algumas vezes e, então, veremos algumas ruínas; mas pode-se sempre, e com grande proveito, considerar uma obra falha como um degrau de aproximação ao mais belo. (Valéry, 1999, pp. 173-174)

INTRODUÇÃO: ALGUNS PRINCÍPIOS E FINS1 2

Se considerarmos arquitetura e urbanismo como ciência, arte e técnica para conformar espaços edificados e abertos de coexistência, seu arcabouço - lugares constituídos de matéria e espaço, plenos de ações intensificadas - é forma revelada de nossas relações, pactos e conflitos, território de luta classes em sua marcha, que simultaneamente ostenta o estado de desequilíbrio ambiental questões sistematicamente discutidas pela literatura (Bonduki, 2017; Maricato, 2015; Rolnik, 2017; Villaça, 1998). No universo latino- americano cabe ainda a constante reflexão sobre a tensão entre autonomia e dependência perante a hegemonia imposta pelos países centrais (Oliveira, 2018). O campo de Arquitetura e Urbanismo, no Brasil, é articulado academicamente às Ciências Sociais Aplicadas. No nosso entender esse compromisso estabelece entendimentos indissociáveis entre:

Teoria e prática, uma vez que o estatuto de ciência social configura condição de abstração indutiva e dedutiva em relação aos fenômenos da vida humana - percursos de dupla mão entre a realidade como fonte de saberes em direção à teorização e, de modo complementar, entre pressupostos conceituais submetidos ao apuro mediante atrito com o mundo concreto, para sua validação;

Práxis como produção de conhecimento, princípio decorrente do anterior, equivalendo o valor de prática e campo teórico - significa que a concepção de projetos urbanos, arquitetônicos, de objetos ou paisagem devam ser compreendidos como tal, o que subjaz ao termo Aplicada;

Caráter simultaneamente técnico e humanista que preside a arquitetura e o urbanismo, como ciência humana - técnica, social e antropológica - onde está implícita a condição de arte, aqui entendida em sua matriz de origem, da téchne que se lança sobre a physis, uma vez que a aplicação prática, saber e domínio da realização, se impõe inexoravelmente como ação sobre a matéria, imprimindo nela significado. (Luz, 2014).

Artifício e ambiente. Ao se extrair e dispor da matéria, atuar sobre ela, realizar descartes, em arbítrios de eleição, entendemos que, da mais violenta ou estúpida ação de configuração de arquiteturas no mundo ao sábio e equilibrado manejo, paradoxalmente presidirá a mimese, inexorável; pois mesmo violentada, a matéria resistirá pelo comportamento de leis físicas. Sabe-se ou não as ler. A matéria manterá seu contínuo fluxo de transformação, por nós manipulada ou não. Resta o limite exponencial da entropia, à qual estamos condenados. Para os domínios da natureza física, fazemos estranhos artifícios que, quando sábios, são artefatos - feitos com arte. A biosfera, matéria também que é, não tem a mesma resiliência. Os seres vivos, nos quais nos incluímos, estão sofridamente a contemplar nossos engenhos que têm sido mais destroços, na perspectiva de todo e qualquer bioma. Aqui se esgarça ao limite o compromisso da arquitetura e urbanismo como ciência, humana, aplicada, técnica e arte. Não há edifício ou cidade onde se tenha estabelecido equilíbrio pleno perante a disponibilidade de recursos, a disposição de resíduos, as fontes de energia, biomas: nos impactos da manipulação de toneladas de matéria a cada empreendimento e esforço humano para conceber, constituir no mundo real, utilizar, prevalecem índices de desequilíbrio ambiental e desigualdade social (Davis, 2006; Marques, 2016). As cidades edificadas e os campos cultivados, pressionando as áreas de vida silvestre, em simples aritmética de adição e subtração, são a crua concretude de relações homem-homem e homem-natureza de espoliação, apropriação e seviciamento que se prova, com rigor, nos cálculos da Pegada Humana (Wackernagel & Rees, 1996). Parte-se do pressuposto de que estamos imersos em uma crise ambiental como processo civilizatório e da necessária busca de novos paradigmas nas relações homem-homem e homem-natureza.

Conhecimento erudito e popular. Dado que arquitetura e urbanismo são feitos para o outro, para sua apropriação e desfrute, ficam imbricados os imperativos de erudição e especialidade mediante as demandas e saberes populares, coletivos, tradicionais ou não (Santos, 2018). Arquitetura e urbanismo existem desde o primeiro ser humano, ao abrigar-se.

Não precisaríamos nem admitir serem cavernas o primeiro abrigo (Rickwert, 1974). Basta o chão que acolhe o deitar e repousar. Arquitetura se fundou no ato de viver no mundo. Mundo posto como suporte. O ato de escolher, eleger, apurar, corromper viria depois (Luz, 2014; Viollet-le-Duc, 1986). Não pretendemos minimizar a responsabilidade social e civil do saber técnico, porém propor alianças. Simultaneamente, se o vernacular contém sabedoria, considera-se arquitetura e urbanismo em amplo arcabouço cultural, onde todo repertório - no penoso esforço de constituição ao longo de milênios -, seja significativo como referência para o conhecimento; não se inventa tudo do nada. Somos produto, em nosso posicionamento e escolhas, do caldo milenar e contaminados pelo zeitgeist, o espírito de nosso tempo; melhor seremos se, porventura, pudermos transcender a um destino em dar respostas automatizadas estabelecidas aprioristicamente como posição de classe (Freire, 2013).

Incerteza da condição humana. Convém, para qualquer ação humana, evitar positivismos, vigilantes à dúvida freudiana sobre nosso destino, dada nossa natureza dividida entre eros e tânatos - pulsões de vida de morte -, conflito perante o qual nem mesmo ele teve resposta acabada ou dedução a respeito da humanidade com possibilidade de futuro. Cabe ainda o alerta simbólico de Rousseau (1999) para quem fomos condenados à desigualdade e injustiça ao inaugurar a ciência e a arte, nos primórdios. Tal trágica teleologia por vezes parece se confirmar.

Talvez a superação de nossa visão antropocêntrica possa ser a única possibilidade de remissão. (Marques, 2016).

Mediante estes princípios, impõe-se a pergunta: como aprender arquitetura e urbanismo?

Na perspectiva acadêmica duas hipóteses se apresentam, no nosso entendimento, como matrizes fundamentais. Primeiramente a necessária indistinção entre pesquisa, ensino e extensão e, em segundo lugar, por decorrência, o imperativo em conduzir sistemas de aprendizado e capacitação intimamente associados a situações ‘de verdade’, perante a atuação en dehors dos muros universitários, lado- a-lado com pessoas encarnadas, demandas reais, locais concretos.

Ora, dissolvem-se no ar, para a constituição de métodos pedagógicos, a relação mestre-discípulo de mão única, bem como a relação unívoca profissional-leigo.

Inicio um diálogo com o leitor e leitora, onde pergunto e respondo, para fazer pensar.

Afinal, quem aprende e quem ensina? Respondo: Todos (mestre, discípulo, comunidade envolvida). E o leitor ou leitora que me acompanha em palavras escritas, mesmo se por discordância.

Conclamo mais advérbios, de modo, tempo, lugar...

Quando se aprende, quando se ensina? Respondo: É simultâneo, o tempo todo.

Onde se aprende, onde se ensina? Respondo: Em todo e qualquer lugar, uma vez que arquitetura e urbanismo são, por excelência, de modo intrínseco, tão somente qualificadores de lugares.

Como se aprende, como se ensina? Respondo: Atentos. Analisando referências, praticando, refletindo, dialogando, elencando e elegendo, pactuando, observando resultados pregressos, revendo posturas.

Porém, a pergunta fundamental é de causa:

Para que/quem se aprende/faz arquitetura e urbanismo? Respondo: fundamentalmente, para o outro: considerando a alteridade dos outros seres humanos, com a consciência da diversidade de seres vivos ou inanimados dos reinos nos quais interferimos, animal, vegetal, mineral; considerando a potência em consubstanciar lugares em que se imprime condições de vida e significado, em direção, portanto, à maior plenitude que possam alcançar, como reinauguração de um locus - tivéramos ainda a persistência do genius locci a nos guiar -, que hoje poderia se traduzir em harmonia com o pré-existente, que tem direitos prévios, porque antecedente. Nós, em equivalência aos demais seres vivos, temos direito a condições plenas de existência. Na misteriosa dynamis das leis naturais, todos temos direitos, abstrata figura, extensível ao ambiente que, como esclareceu Serrano Moreno (citado em Rocha & Gordilho, 2018) o Direito Ambiental é o daqueles que não tem voz.

Neste paradigma biocêntrico seríamos guardiões da natureza, não soberanos, guardiões da humanidade, não opressores e oprimidos. Creio que esta seja a utopia realizável da arquitetura e do urbanismo.

METODOLOGIA

A metodologia pedagógica, que aqui apresentamos, paulatinamente se constituiu pela construção, em processos colaborativos, em equipe de professores3, e que informa a Disciplina de Graduação em Arquitetura e Urbanismo de Desenho do Objeto, semestral, onde se projetam elementos de mobiliário urbano; o Trabalho Final de Graduação - onde se realiza em grupo, a partir levantamento e identificação, diagnósticos, prognósticos, diretrizes, projeto urbano multi-escalar, do regional ao recorte de desenho urbano pormenorizado e projetos de arquitetura individuais compromissados com o projeto urbano, tributários à dimensão coletiva da cidade, no período de um ano letivo. Os pressupostos fundamentais que governam essa metodologia são:

A propósito de onde atuar:

Eleição de territórios metropolitanos às bordas do tecido urbano, fronteiriços à franja rural e ambiental, para refletir sobre estas relações funcionais e socioespaciais (Figura 1);

Fonte: google maps e elaboração da autora a partir de acervo coletivo das equipes de trabalho.

Figura 1: Territórios sujeitos a projetos acadêmicos na metodologia apresentada, distritos periféricos da Região Metropolitana de São Paulo. 

Regiões de fragilidade socioespacial e/ou ambiental com carência ou ausência de provisão de infraestrutura, serviços, equipamentos e espaços públicos de qualidade e, em geral, sem garantia de propriedade fundiária, como situações de urgência, prioritárias para a atuação socialmente necessária (Figura 2);

Fonte: fotos da autora.

Figura 2: À esquerda, condição de precariedade urbana encontrada em Vila Bela, São Paulo. 

A respeito de com quem/para quem atuar (Figura 3):

Fonte: fotos da autora.

Figura 3: Líder comunitário da Vila Olímpia, Campinas, recebe os alunos em levantamento do sítio. Fonte: fotos da autora. 

Compromisso com a realidade local mediante ensaios de participação comunitária, representada por lideranças locais, as quais acompanham as atividades de investigação in loco e são convidadas para as apresentações de resultados, na Universidade, com direito a fala e comentários, buscando matizar os estatutos de ensino, pesquisa e extensão (nos limites institucionais);

Oferecimento do arcabouço constituído em estudos e projetos, para a comunidade, como conhecimento utilizável como instrumento de luta por direitos;

Participação em eventos locais das comunidades, como Seminários e comemorações;

Colaboração em atos de assessoria técnica voluntária dos professores, enquanto profissionais autônomos, quando solicitados;

Com relação ao compromisso do arcabouço construtivo (Figuras 4 e 5):

Fonte: elaboração própria da autora sobre acervo coletivo das equipes de trabalho.

Figura 4: Algumas etapas do processo de projeto e soluções estudadas: à esquerda, estudo para cobertura retrátil em tecido e estrutura de madeira; no centro, modelo de estudo para estrutura em bambu; à direita, perspectiva explodida de cobertura com células fotovoltaicas, telhas de plástico reciclado sobre estrutura de bambu. 

Fonte: elaboração própria da autora a partir de acervo coletivo das equipes de trabalho.

Figura 5: Estudo de cobertura escamoteável. 

Reflexão sobre sistemas técnico-construtivos e estruturais incentivando a experimentação de soluções alternativas de baixo impacto comparadas a sistemas industriais de alta performance;

Busca de soluções ambientalmente responsáveis, de caráter sustentável;

Consciência do manejo de recursos perante a escala expressiva requerida pela arquitetura e o urbanismo de disponibilização de matéria, água, energia e impacto em biomas;

Investigação de possibilidades geradoras de autonomia, capacitação, trabalho e renda, em moldes cooperativos de economia solidária;

Perante o aspecto temático, de programas, apropriação, uso e desfrute (Figura 6 e 7):

Fonte: elaboração própria da autora a partir de acervo coletivo das equipes de trabalho.

Figura 6: Diagrama de entendimento da estratificação social do Jardim Ângela e região sul de São Paulo. 

Fonte: elaboração própria da autora sobre acervo coletivo das equipes de trabalho.

Figura 7: Estudos programáticos para os diferentes sistemas urbanos com o compromisso ambiental. 

Investigar hipóteses oriundas de demandas percebidas ou manifestas e potencialidades do contexto, evitando conduções apriorísticas pré-concebidas;

Suspender a noção de propriedade privada como matriz inquestionável da configuração dos espaços urbanos, reduzindo a premissa estanque da dicotomia público-privado para matizes de privacidade-coletivo, em direção a estratégias includentes em sistemas contínuos de paisagem;

Considerar hipóteses nas relações urbano-rural-ambiental testando ambivalências e articulações insuspeitadas.

A metodologia percorre a investigação/identificação multisetorial da geomorfologia - topografia e hidrografia, vegetação; de sistemas de transportes - rodoviários, estrutura viária, de mobilidade individual, por ônibus, ferroviários, metroviários, hidroviários e lacustres, aeroviários, cicloviários, de pedestres, alternativas de transporte leve; de infraestrutura - energia, água, saneamento de efluentes, resíduos sólidos, drenagem, comunicações, gás; de tecido e vazios urbanos - características morfológicas, sociais e ambientais; de uso e ocupação real do solo - habitação, comércio, de produção, serviços; de equipamentos públicos e privados - de educação, saúde, esportes, cultura, lazer; de sistemas de espaços públicos livres e mobiliário urbano; da população - características socioeconômicas, origens, costumes, organização comunitária, lideranças, laços de autonomia e pertencimento, índice de vulnerabilidade social, questões de regularização fundiária, posse, propriedade, exclusão; históricos; da contextualização regional e local; dos marcos referenciais - por escala, uso, apropriação cultural e de legislação - urbana: Plano Diretor, Lei de Uso e Ocupação do Solo e ambiental nos níveis federal, estadual e municipal, em processos analíticos sobre potencialidades e fragilidades que geram sínteses, prognósticos e diretrizes que pautam os projetos urbanos.

A metodologia dos projetos de arquitetura percorre fases de elaboração relacionando aspectos de forma- contexto; forma-uso/ ergonomia; forma-constructo/estrutura; sínteses sucessivas de forma- contexto-uso/ergonomia-constructo/estrutura e detalhamento de componentes construtivos e articulações. Compete explicitar o entendimento do que se denomina forma, transcendente à pura geometria, pois é entendida como síntese máxima e única intrínseca à arquitetura, posto que a arquitetura atua tão somente com formas encarnadas e espaços qualificados e significativos. A função, a razão de ser, tudo está na forma construída das coisas no mundo.

RESULTADOS

Primeira conclusão irrefutável: o resultado do processo metodológico aqui descrito está contido na própria produção dos projetos, pelos estudantes. Aparentemente a teleologia do projeto como resultante última se imporia.

Do ponto de vista imediato, um desdobramento evidente seriam pesquisas em desenvolvimento, pela autora (Luz, 2018). Paradoxalmente o resultado dar-se-ia no trabalho da professora.

Ora, quer-se dizer então que há resultados para aluno e professor? Sim, isto constitui uma segunda conclusão admissível.

Entretanto é fato que as lideranças comunitárias podem alcançar resultados posteriores, em sua atuação política reivindicatória por direitos.

Outrossim, cumpre mais uma pergunta: se o tema de qualquer metodologia ou processo é aprender, como enunciar os resultados?

Os resultados são constantes e contínuos, nos próprios processos realizados, que envolvem pessoas - professores, estudantes, comunidades, mas não se constrangem aos tempos e modos do período acadêmico. Para tanto, decidiu-se, inclusive, que as imagens, fotografias ou desenhos que resultam do processo de trabalho constituem acervo coletivo, disponibilizado para publicações por todos os envolvidos. Se aprendemos que o território coletivo é condicionado e eventualmente constrangido pela noção de propriedade fundiária, decorre em nosso entender que o espaço público deve, por esta mesma razão, ser o mais includente possível. Praticamos, em correspondência em nosso microcosmos acadêmico, uma postura de propriedade intelectual coletiva dos produtos, para sua ampla divulgação, guardados evidentemente os direitos autorais individuais onde couber.

O principal resultado é interior, a mobilização interna pela experiência de cada um dos agentes que, no processo de aprendizado estabelecido na intensidade constante de trocas de conhecimento, ensaios projetuais, vivência e afetividade, opera a magia de transformação de cada pessoa em outra, renovada ou reafirmada, imprimindo e expandindo uma visão de mundo, uma cosmologia que, estas sim, é estruturante e poderá ser a chama que forjará resultados no devir. Estes são o que mais importam.

DISCUSSÃO

Pretendeu-se nesta exposição apresentar uma hipótese metodológica para disciplinas que envolvem projeto, por uma abordagem conceitual, de princípios e finalidades que são superiores aos resultados concretos imediatos, posto que os presidem. Projetos, embora sejam o fim último da ação em arquitetura e urbanismo, não podem prescindir de uma ética que os oriente, sendo resultados corporificados e especializados de nossas opções ideológicas e compromissos sociais e ambientais que informam nossa visão de mundo - o que implica em política. Mais do que tratar da variação dos resultados práticos, que constituem uma gama extensa de experiências acadêmicas realizadas ao longo de mais de trinta anos - essas paulatina e recorrentemente objeto de apresentações em congressos, seminários e artigos acadêmicos -, optou-se nesta oportunidade por estabelecer uma possibilidade de discussão do que seja constante, menos o método de projeto como processo contínuo e espiral de fases de aprofundamento sucessivo, que inicia já na identificação primeira de levantamentos, identificações e pesquisas - descritos sucintamente neste texto - e mais sobre fundamentos.

Acreditamos que, nas situações análogas em que se encontram os países dependentes, à periferia do capitalismo global e comprimidos por decisões geopolíticas e econômicas desfavoráveis na correlação de forças, é compromisso necessário a busca por visões alternativas e de resistência, sendo o papel da América Latina onde se inclui o Brasil, fundamental. Nesse contexto o tema ‘aprender’ tem muito a ensinar, a começar pelo papel da universidade que tem, por escopo intrínseco a função de abrir, discutir e apontar caminhos, caminhos estes que, no nosso ponto de vista, se iniciam pelo rompimento dos muros que a separam da vida real em direção a uma ação mais efetiva. Se o estado civilizatório presente aponta para a crise social e um colapso ambiental já enunciado e vislumbrável e se a utopia contém a ideia de algo imaginário e ideal, de um lugar inexistente, compete ao campo universitário em arquitetura e urbanismo configurar esse lugar, como utopia realizável.

CONCLUSÕES

Finalizamos, com um tributo à metodologia expressa por Oscar Schlemmer:

O conhecimento do homem como ser cósmico é indispensável para a “nova vida”, que deverá se revelar como um sentimento moderno frente ao mundo e à vida. As condições de existência desse homem, suas relações com o meio natural e artificial, seu mecanismo e organismo, sua forma de manifestação material, espiritual e intelectual, em poucas palavras: o homem como ser corporal e espiritual é, em mesma medida, necessário e significativo como área de ensino. Tal área subdivide-se em três partes - a formal, a biológica e a filosófica - correspondentes à representação gráfica, à estrutura científico-natural e ao ideário transcendental, respectivamente. No curso, essas três partes caminham paralela e alternadamente, para se unirem, enfim, na totalidade do conceito de homem. (como citado em Wick, 1981, p. 395; Freud, 2002)

Com isso queremos dizer que acreditamos na continuidade do projeto moderno, essencialmente como “causa e não estilo” (Koop, 1990). Estando para nós admitida a modernidade em curso, podemos enunciar que nos colocamos posicionados na tradição moderna - mesmo sendo este termo contraditório, ou seja, como pode haver tradição moderna?

Retenhamos, convictos, seu conteúdo profundamente humanista e libertário, onde entende-se o homem como ser cuja missão irredutível de racionalidade e consciência ativa não pressupõe a supressão da intuição e da espiritualidade.

Mantenhamos o imperativo de apuro formal e construtivo, nos domínios da expressão técnica, estética e cuja ética lança mirada para uma utopia realizável.

Somemos àquele impulso de vanguarda permanente o entendimento de que os recursos planetários são finitos e, no momento presente, escassos perante a voracidade humana, tema inatingível historicamente aos pioneiros modernos, em estado de encantamento perante a potência da indústria.

Continuemos a indagar sobre os atributos da matéria, dos mistérios revelados das leis da física, mas conscientes e criteriosos sabendo-a, matéria, sempre a mesma, não criada, não perdida, mas transformável - o que aprendêramos com Lavoisier.

Acrescentemos, principalmente, que humanismo - fé no homem - não significa antropocentrismo. Articulemos ao rigor ideológico da modernidade a convicção biocêntrica, colocando este homem de volta à sua condição de ser vivo submetido às leis da natureza, soberana, apenas um dentre os viventes, situando-nos na magnífica cadeia biológica.

Talvez, assim, vislumbremos futuro para o homem. Ainda há tempo para aprender.

REFERÊNCIAS

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1 El texto completo en español, puede leerse en: http://revistas.ubiobio.cl/index.php/AS/issue/ view/304

2This complete article can be read in english at: http://revistas.ubiobio.cl/index.php/AS/issue/ view/304

3Citamos a contribuição fundamental de Antonio Fabiano Junior e Cláudia Maria Lima Ribeiro e a importante colaboração de Wilson Barbosa e Débora Frazzato.

Recebido: 10 de Agosto de 2019; Aceito: 29 de Outubro de 2019

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